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Mostrando postagens de novembro, 2020

DESENHO

  Éric morava ali, na Rua Ipiranga. “Mamãe! Coquinho sumiu! Procurei, procurei e não achei ele”. Coquinho era um jabutizinho. “Meu filhinho, já procurou no quintal, lá no meio das plantas?”. Eric era o filho mais novo da Dona Lu. “Já sim, mãe”. Dona Lu lavava roupa, muita roupa e naquela manhã de domingo ela já estava impaciente. “Ô, Eric. Então não sei não. Será que Coquinho ganhou a rua? Será que ele acabou fugindo?”. Eric ficou triste e começou chorar baixinho. “Quero achar o Coquinho. Eu gosto dele, mãe”. Dona Lu não parava de tirar roupas que estavam de molho na bacia de alumínio e as colocava numa bacia de plástico. “Ô, meu filho. Depois a gente procura ele”. Os olhos de Éric não paravam de lagrimar. Ele foi para seu quarto e pegou seu material escolar. Arrancou uma página em branca do seu caderno e pegou um lápis. Em seguida, sentou junto da mesinha que tinha no quarto dele. “Vou desenhar Coquinho e sair pra procurar ele”. Desenhou Coquinho de lápis na página e, em seguida...

VISITA

  Katiane ria sem parar. “É verdade, Katiane. Meu pai já foi caçador e sempre se deparava com essas coisas no meio do mato. Meu pai contou ainda que uma outra vez que ele saiu pra caçar, ele dormiu no alto de uma jaqueira. Ficou ali, pensando na vida. Quando era quase seis e meia da manhã, ele ouviu alguns passos lá em baixo”. Katiane parou de rir. “Ele ouviu as pisadas sobre as folhas secas. Então, meu pai olhou pra baixo, pra ver quem passaria junto do pé da jaqueira”. Katiane voltou abrir um sorriso lentamente. Mas essa jovem garota loura adorava ouvir aquelas causos de almas penadas. “Quando os passos se aproximavam cada vez mais, Papai Touro passou ouvir choro de um recém nascido”. Nesse momento Katiane parou de sorrir. “Meu pai imaginou que era alguém da comunidade próxima que ia passar lá em abaixo. Mas não era não. Passou uma mulher de cabelos longos, muito pálida, segurando um bebê no colo. O recém-nascido chorava de olhos abertos e viu meu pai lá no alto da jaqueira. Papa...

DRAGÃO

O fato que narrarei aconteceu em 1989. Ou foi em 1990? Não tenho certeza. Mas esse acontecimento teve início lá no Bairro São José. Seu Paulo trabalhava na Feira da Ceasa vendendo farinha. “Se eu descobrir que tu faz parte de alguma turma de rua, tu vai ver só, vai pegar uma surra que nunca mais vai esquecer. Vou te dar uma surra de cabo de aço e te colocar pra trabalhar na feira!!!”. Cão era filho do Seu Paulo. O garoto tinha quinze anos e adorava rock in roll. Ele sempre se reunia junto com seus amigos, no cinzeiro da Praça da Matriz São José para ouvir rock no toca fita. “Pai! Já falei mil vezes que não faço parte de turmas de rua! Boca Roxa, diz pro papai que eu tô falando verdade”. Boca Roxa era seu cachorro e melhor amigo. “Seu Paulo! Ele tá falando a verdade. A gente só tem amigos que gosta de ouvir rock”. Boca Roxa se chamava assim porque sua língua era roxa. “Vocês e seus amigos parecem um bando de doido. Andam por aí, pelas ruas de Castanhal, andam tudo de camisa preta”. ...

JANELA

  P itokinha era uma pequena cadela vira lata da Mamãe Branca. Ela latia desse jeito: “Kaukaukaukau”. Nasceu com problemas no esôfago. “Kaukaukaukaukau”. Mamãe Branca pensou que Pitokinha não sobreviveria. “Kaukaukaukau”. Isso porque a cadelinha não conseguia respirar. “Kaukaukau”. Mamãe Branca teve uma ideia. Ela soprou forte no focinho da Pitokinha. “Kaukaukaukau”. Assim, Pitokinha sobreviveu. “Kaukaukaukau”. Pitokinha se tornou uma cadela valente. Não temia outros cães e nem os gatos da Mamãe Branca. Quando os valentões brigavam no quintal, Pitokinha pulava no meio da confusão e dava ordem de parar com toda aquela bagunça. “Kaukaukau”. Ai daquele que desobedecia, ela logo mordia as patas ou o rabo do cachorro teimoso. Ela não dormia. Passava a noite inteira vigilante. Pitokinha corria atrás dos gatos que não chegavam no horário combinado. “Kaukaukaukau”. Durante o dia, ficava de prontidão diante da porta do quarto da mamãe. Ninguém poderia falar com Mamãe Branca sem pedir perm...

AÇÚDE

Houve um tempo, pelos idos de 1980, que nenhum morador da rua de casa tinha televisão. Em casa, nós tínhamos um rádio para quebrar o silêncio. A maior parte dos vizinhos, sem o entretenimento do televisor, saiam todas as noites para conversar. Especialmente no período da estiagem. Traziam cadeiras de suas casas e colocavam na beira da rua (que praticamente não era rua, mas um caminho) ou na frente de suas cercas ou jardins e conversavam até meia noite. Às vezes se reuniam na frente da nossa casa. Contavam de tudo. Mamãe sempre servia café e farinha para os contadores de estórias. Lembro que esse costume de conversar a noite nos dava sensação de segurança. Como se o ato de prosear fosse uma forma de combater a escuridão que predominava naquele lado do bairro Nova Olinda, que ficava próximo dos terrenos baldios que se ligavam ao campo de pouso do Camping Ibirapuera. Não existia iluminação pública por esses lados. A nossa via tomada de mato dependia das luzes que vinham do interior das ...