AÇÚDE
Houve um tempo, pelos idos de 1980, que nenhum morador da rua de casa tinha televisão. Em casa, nós tínhamos um rádio para quebrar o silêncio. A maior parte dos vizinhos, sem o entretenimento do televisor, saiam todas as noites para conversar. Especialmente no período da estiagem. Traziam cadeiras de suas casas e colocavam na beira da rua (que praticamente não era rua, mas um caminho) ou na frente de suas cercas ou jardins e conversavam até meia noite. Às vezes se reuniam na frente da nossa casa. Contavam de tudo. Mamãe sempre servia café e farinha para os contadores de estórias. Lembro que esse costume de conversar a noite nos dava sensação de segurança. Como se o ato de prosear fosse uma forma de combater a escuridão que predominava naquele lado do bairro Nova Olinda, que ficava próximo dos terrenos baldios que se ligavam ao campo de pouso do Camping Ibirapuera.
Não existia iluminação pública por esses lados. A nossa via tomada de mato dependia das luzes que vinham do interior das casas. A frente da casa escolhida para se juntar todo mundo para conversar, deveria abrir as janelas ou portas que permitisse a luz alcançar o grupo. Havia casa que nem energia elétrica tinha. Aí, conversa ficava no escuro mesmo. Homens, mulheres, idosos, molecada da rua e até mesmo os cães e os gatos participavam desse circulo de conversa. A maioria se sentava no chão. Alguns traziam cadeiras. Outros tinham ideia de trazer folhas de pés de castanhola, de jambeiros e até mesmo tábuas arranjadas pelo caminho para se sentarem. Na ocasião que se reuniram na frente da nossa casa, todos ficaram em baixo da nossa enorme castanhola. Eu subi nessa árvore e lá em cima, nos galhos mais baixos, fiquei ouvindo as narrativas.
O açougueiro Manel Póffe, um dos vizinhos negro da rua de casa vindo de muito tempo da cidade Inhagapi; era que mais contava causos. Sempre trazia novidades e estórias do Mercado de Carne, da feira da CEASA, da feira do troca troca, das vendas que ficavam em torno da Caixa D’Água da COSANPA e do centro comercial. Ele que mais sabia sobre o camponês Quintino Lira. Este lutava contra os grandes proprietários de terras ali pras bandas de Ourém, Capanema, Santa Luzia, Gurupí, Vizeu e outros lugares próximos do Maranhão. Manel Póffe contava que Quintino liderou camponeses sem terra contra a grilagem dos latifundiários nessa região. Lembro, por esses anos de 1980, que Quintino Lira causava grande medo em Castanhal. Os fazendeiros irritados, dizia Manel, deu ordem ao exército para apoiar seus pistoleiros. Os grandes proprietários de terras ainda convocaram a polícia militar, aeronáutica e até a marinha. “Marinha? Tá doido Manel? Já tá mentindo?”, interrompeu Seu Raimundo, o vizinho protestante. “Isso mesmo Seu Raimundo. Marinha apareceu pra lá. Pra navegar e vigiar o Rio Gurupi. Teve uma guerra danada entre o grupo do Quintino e o exército dos fazendeiros. Era muita bala, tiroteio, morria todo mundo. Morria gente da colônia, da polícia, morria soldado, morria bicho, morria todo mundo. Mas em Quintino, ninguém conseguia matar. Ninguém conseguia acertar nele”.
Manel afirmava que Quintino era um bruxo, um feiticeiro. Desviava das balas, corria pelos galhos das árvores como quati, ficava invisível, fazia a terra tremer. Seu maior dom era se transformar em qualquer animal. Gato maracajá, onça, guariba, camelão, tatu, cutia, raposa, tamanduá, jacaré, jararaca e muitos outros. Uma vez Quintino foi cercado por pistoleiros. Num passe de mágica ele se transformou num bando de andorinhas que voaram para todos os lados. Sem chance da polícia e dos pistoleiros de acertarem algum tiro nele. Até que um dia, contou Manel, Quintino estava triste porque teve um amor não correspondido e isso o enfraqueceu. Foi quando a polícia militar acertou um tiro no seu coração. A morte foi súbita. Mesmo assim, muitas pessoas não acreditaram na morte dele. Tinham a certeza que algum dia Quintino retornaria com um grande exército revolucionário. Outros tinham visto Quintino e seus homens galopando sobre as nuvens que partiam para conquistar Belém. Anos depois, uma professora de História me disse que Quintino foi o último cabano.
A minha Madrinha de Batismo passou contar a estória da Menina da Sede da Vila Nova. Ela começou: “Gente, quando tem festa no Vila Nova, alí pro rumo da Cohab, da Saudade, anda parecendo uma menina linda, morena, de olhos castanhoverde que fica passeando entre os dançantes. Seduz moças e rapazes. Até dança com eles. O que o seduzido ou seduzida não sabe que ela é uma visagem. Encanta a pessoa através de um beijo. Sem consciência de si, o enfeitiçado ou a enfeitiçada passa a obedecê-la. Já viram a menina passeando, no horário de meia noite, lá nas matas atrás do Cristo Redentor, na Transcastanhal e na pista de pouso de avião no Camping do Ibirapuera. Quem viu ela, chamou logo a policial! Falaram assim pro policial ‘É a Menina da Sede da Vila Nova! Vai lá e pergunta pra ela pra onde ela levou as pessoas que ela seduziu!’. E o policial disse: ‘Pergunto nada! Tá doido, né!’. Disse o policial se tremendo de medo. O policial ainda falou assim: ‘Nóis da polícia não sabe lidar com visagem não. Nóis só entende de palmatória’. A Menina da Sede da Vila Nova leva a moça ou rapaz enfeitiçado para o cemitério São José. Quando a vítima se desperta do feitiço já se encontra dentro do caixão, junto com o corpo da menina em estado de decomposição. Tomada de fungos, de micróbios e cheia de tapuru. Só o rosto dela tá perfeito, sem tapuru. Então a pessoa levada por ela pro fundo da cova passa a gritar, gritar, gritar feito maluco. Mas ninguém escuta os gritos da pessoa, porque o caixão tá lá no fundo, da cova, a sete palmos”. “Meu Pai do Céu, Madrinha!!!”, eu gritei lá do alto da castanhola.
“O maior terror dos vigias noturnos, dos taxistas e dos operários da Fábrica Têxtil que saem do trabalho depois da meia noite é o Chupa-Chupa”, emendou Papai Touro. Chupa-Chupa era uma bola de fogo que cruzava o céu noturno de Castanhal. Papai Touro gostava de apontar para o céu escuro quando contava estória do Chupa- Chupa que aparecia nas noites sem lua e fazia desaparecer vigias, taxistas e boêmios. Os festeiros que saem de madrugada do Bosquinho, do Taboquinha, do Bolinha e do Cabaré do João Aurora tem o azar de serem perseguidos pela Bola de Fogo. É um desespero só. “Chupa-Chupa ou Bola de Fogo não pode passar em cima de tu. Se passar... já era!! Chupa todo teu sangue. Tu fica só pele e osso.” A vizinha Zinilda disse que viram Chupa-Chupa rasgando os céus de Itaquí, Vila Pernambuco, Morrinho, Janjão, São Raimundo, Cabeceira do Apeú, Calúcia, Pitimandeua , São Francisco do Pará e até no centro comercial de Castanhal. Sempre pela altas horas da noite.
Papai Touro continuava: “Essa Bola de Fogo é uma peste. Não dispensa ninguém. Os operários da Fábrica Têxtil, do turno da noite, penam pra caramba pra fugir dessa coisa. Os trabalhadores já saem secos do trabalho e ainda tem que fugir do Chupa-Chupa. Uma vez, vi ela rasgando o fogo aqui em cima do Ibirapuera. Tá doido, eu dei de cara com essa arrumação. Eu vinha do Taboquinha. Era madrugada de sábado, umas três da manhã. Vinha descendo a Rua Presidente Kennedy quando dei de cara com a Bola de Fogo. Saí correndo agachado, puxando a bicicleta até chegar no matagal e pular no Igarapé-Castanhal. Me escondi lá no fundo do igarapé, me arriscando, porque também não podia acordar as ariranhas do igarapé. Mas não adiantou nada, porque duas ariranhas ainda se acordaram! Tive que lutar com elas, segurar minha barra circular e me esconder do Chupa-Chupa. Nessa madrugada cheguei em casa com as costas toda arranhada das unhas das ariranhas”, Mamães Branca interrompeu logo, “Que ariranha, que nada, era unhas de rapariga!! Nem ariranha tem no Igarapé Castanhal. Existe o Chupa-Chupa, mas ariranha não tem no igarapé não”. Todos riram. Papai logo emendou: “Queria nem saber se tinha cobra ou ari... Tinha medo da Bola de Fogo que via voando ali em cima do igarapé. Mergulhei bem fundo do igarapé. Também quase perdi a minha bicicleta”. Manel Póffe falou de supetão: “Um empresário que foi uma vez lá no Mercado de Carne, falou que esse Chupa-Chupa é coisa da Rússia, da União Soviética, coisa de comunista voando por aí, pra dominar o mundo. Por isso que bandeira deles é vermelha. É de tanto chupar sangue.”
Vizinho Raimundo discordou: “Não é não Manel. Dizem que é do Japão. É um japonês que sai voando feito fogo. Dá uma chupada só e já era. Tu fica só a alma. Faz isso é pra manter aquele círculo vermelho da bandeira deles”. “Outra coisa”, alertou Papai Touro, “Não pode ter nenhum buraco no telhado das casas, se tiver, tá lascado. Pelo buraco da telha a Bola de Fogo chupa teu sangue. Pode ser fininho como for o buraco, mas chupa. Já imaginou arrumação!!??”. Desde que ouvi essa história da Bola de Fogo ou Chupa-Chupa, me tremia de medo quando ia dormir. Antes de me deitar na minha rede, verificava se o velho telhado de casa não tinha buraco ou qualquer fresta. Tinha temor de ficar só osso e pele ou só a alma. Mamãe se irritava com esse meu medo. “Desce dá aí!! Tá doido Cavalo do Cão!! Agora arranjou de subir nesse telhado toda noite!! Ô, Touro, vê se não conta mais sobre essa coisa de Chupa Chupa...essas estórias que dá medo no menino”.
“Desce dá aí seu moleque do Satanás!!!”,
gritou meu Papai Touro. “Se não descer daí, vou te jogar lá na boca da cobra
grande que tem chifre. A cobra dorme lá no fundo do açude do Ibirapuera.” Aí eu
ficava mais desesperado...
Amei relembrar todas histórias 🤣🤣🤣🤣 só não sabia que o Quirino foi o último cabano!
ResponderExcluirOi, Josiane. Tudo bem? Na verdade, Quintino Lira não é último cabano. A nossa região Amazônia existe ainda inúmeros cabanos que lutam contra as injustiças sociais. Obrigo por você ter gostado do conto.
ExcluirKkkkkkkk.
ResponderExcluirMuito bom....
Unknown, muito obrigado!
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ResponderExcluirUnknowm, continue siga blog Correio do Osi. Em casda 15 ou 30 dias estarei publicando contos de minha autoria. Obrigado!
ResponderExcluirAeeee, Osi! Parabéns! Continuarei acompanhando
ResponderExcluirGosto muito dos seus contos. Eles são capazes de nos transportar para épocas passadas de uma maneira muito real e envolvente. Ler estes contos é como estar lá, vivendo o que foi escrito.
ResponderExcluirParabéns, professor!