JANELA
Pitokinha
era uma pequena cadela vira lata da Mamãe Branca. Ela latia desse jeito:
“Kaukaukaukau”. Nasceu com problemas no esôfago. “Kaukaukaukaukau”. Mamãe Branca pensou que Pitokinha não sobreviveria. “Kaukaukaukau”.
Isso porque a cadelinha não conseguia respirar. “Kaukaukau”. Mamãe Branca teve
uma ideia. Ela soprou forte no focinho da Pitokinha. “Kaukaukaukau”. Assim,
Pitokinha sobreviveu. “Kaukaukaukau”.
Pitokinha
se tornou uma cadela valente. Não temia outros cães e nem os gatos da Mamãe
Branca. Quando os valentões brigavam no quintal, Pitokinha pulava no meio da
confusão e dava ordem de parar com toda aquela bagunça. “Kaukaukau”. Ai daquele
que desobedecia, ela logo mordia as patas ou o rabo do cachorro teimoso. Ela
não dormia. Passava a noite inteira vigilante. Pitokinha corria atrás dos gatos
que não chegavam no horário combinado. “Kaukaukaukau”. Durante o dia, ficava de
prontidão diante da porta do quarto da mamãe. Ninguém poderia falar com Mamãe
Branca sem pedir permissão para Pitokinha. Ela monitorava todos os quartos da
casa. Queria ver se estava tudo em ordem. Era última que comia. Primeiro ficava
espiando os demais cães almoçarem. Nesse momento a atenção era redobrada. Ela
ficava atenta a qualquer sinal de luta entre os parceiros de quatro patas.
Depois do almoço, gostava de ficar no fundo do quintal conversando com os
pardais, periquitos, passarinho triste , bem te vis e outros pássaros que a
visitavam.
Pitokinha
viveu mais de 15 anos. Ela deixou de latir nos últimos meses de vida. Mas continuava
de prontidão na porta do quarto da Mamãe Branca, andava pelos quartos, toda tarde
ia ao fundo quintal para ouvir as conversas dos pássaros, continuava vigilante
durante a noite e ainda chamava atenção dos gatos que chegavam altas horas da
noite em casa. Ela ficou muito pensativa na semana que faleceu. Passava o dia
olhando para ás árvores do quintal e sentido a passagem do vento. Tinha
emagrecido e diminuído de tamanho. Todos da casa da Mamãe Branca sabiam que a
cadelinha estava no fim da vida. A Neta da Mamãe Branca preparou uma casinha especial
de cachorro para Pitokinha dormir. A cachorrinha dormiu algumas
noites na casinha nova. Mesmo debilitada, queria está passeando pelo quintal.
Um
dia, cedo da manhã, Mamãe Branca preparava o café. Da janela da cozinha, viu
Pitokinha se dirigindo lentamente para o fundo do quintal. Na hora do almoço,
todas da casa sentiram falta dela. Até os cães e os gatos perceberam a ausência
da Pitokinha. Mamãe Branca lembrou que cedo da manhã, a cachorrinha tinha indo
para o quintal. Imaginou que qualquer momento ela voltaria. Chegou a hora do
café da tarde. Nada da Pitokinha. Estava anoitecendo. Nada da Pitokinha. Então,
todos passaram a procurá-la no quintal. Mas ninguém a achou. Mamãe Branca ficou
preocupada.
Mamãe
Branca se retirou para dormir. No dia seguinte, antes do sol nascer, alguém
bateu na janela do quarto da mamãe. Ela abriu. Era Pitokinha. “Onde você tava? Todo
mundo de casa tava te procurando”. Pitokinha, sentada na janela, balançou seu
rabinho e soltou um leve sorriso. “Oi, Mamãe Branca. Peço desculpa. Estava me
preparando para minha grande viagem. Eu já cumpri minha missão aqui no quintal.
Agora partirei”. Mamãe Branca logo entendeu tudo. Mesmo assim perguntou:
“Pitokinha, que preparação é essa? Que viaje é essa? O que é essa grande
partida?”. Pitokinha não respondeu nenhuma dessas perguntas. Ela sabia que
Mamãe Branca tinha compreendido. “Adeus, Mamãe Branca. Nunca me esquecerei de
você. Te amo”. Pitokinha saltou da janela para o lado de fora e saiu voando,
voando para as nuvens que se formavam lá no horizonte. Mamãe Branca ficou junto da
janela chorando...
Ficou muito bom 😍😍
ResponderExcluirObrigado!!
ExcluirQue bonito! Como diz a karina, triste e bonito.
ResponderExcluirBonito e triste
ResponderExcluirObrigado pelo comentário.
ExcluirMuito bom, quem dera eles fossem eternos!!!
ResponderExcluirLindo.... Emocionante...😢
ResponderExcluirUnknown, que bom que você gostou!
ExcluirO sopro de vida na narina da cachorrinha lembra o mito bíblico da criação, como tá no Gênesis. O sopro explica muito das peripécias da Pitokinha.
ResponderExcluirMamãe Branca gostava de lançar leves sopros nos focinhos dos gatos e cães que lá de casa. Na verdade, até hoje ela faz isso. Desconfio que ela se comunica também com os passarinhos. Já flagrei Mamãe Branca conversando com pardal que sempre aparece na cozinha da casa dela.
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