VISITA
Katiane ria sem parar. “É verdade, Katiane. Meu pai já foi caçador e sempre se deparava com essas coisas no meio do mato. Meu pai contou ainda que uma outra vez que ele saiu pra caçar, ele dormiu no alto de uma jaqueira. Ficou ali, pensando na vida. Quando era quase seis e meia da manhã, ele ouviu alguns passos lá em baixo”. Katiane parou de rir. “Ele ouviu as pisadas sobre as folhas secas. Então, meu pai olhou pra baixo, pra ver quem passaria junto do pé da jaqueira”. Katiane voltou abrir um sorriso lentamente. Mas essa jovem garota loura adorava ouvir aquelas causos de almas penadas. “Quando os passos se aproximavam cada vez mais, Papai Touro passou ouvir choro de um recém nascido”. Nesse momento Katiane parou de sorrir. “Meu pai imaginou que era alguém da comunidade próxima que ia passar lá em abaixo. Mas não era não. Passou uma mulher de cabelos longos, muito pálida, segurando um bebê no colo. O recém-nascido chorava de olhos abertos e viu meu pai lá no alto da jaqueira. Papai falou que o bebê era muito roxo e tinha as narinas tapadas de algodão. A mulher tava de cabeça baixa e passou lentamente, com a criança no colo, de baixo da jaqueira. O bebê parou de chorar quando percebeu meu pai. Mas a mulher seguiu o caminho e sumiu pra dentro do mato”. Katiane logo falou: “Credo”, se benzeu, “Essas histórias me dão medo. Mas não acredito muito nisso não. Será que teu pai sonhou?”.
Eu dei uma golada na cerveja que estava na caneca e disse: “Gente, nunca vi essas coisas não. Mas não duvido não. Acho que existe sim”. Era costume eu e outros amigos nos reunirmos no pequeno apartamento onde morava Katiane. Ela morava sozinha. Katiane sempre nos convidava para visitá-la. Às vezes nós atravessávamos madrugada contanto sobre lendas e outras assombrações.
Passei a narrar outro causo: “Ali, perto do Igarapé Castanhal, perto das ruas Paes de Carvalho, Coronel Leal, existiu muito olho d’água e as águas dessas nascentes desciam tudo pro Igarapé Castanhal. Ainda tinha muito mato por ali, verdadeiro matagal de várzea mesmo. Ali, pelos anos 80, acho que até alguns anos de 1990, todas essas ruas cortadas pelo igarapé eram escuras demais pela noite. Pra essas bandas diziam que sempre aparecia um cavalo cinza, esse cavalo aparecia meia noite. Depois de andar em todas aquelas ruas escuras, o cavalo se lançava no grande galope feito doido e saltava, relinchava e antes de tocar o chão se transformava num pássaro estranho e sai voando pras bandas do Cariri”.
Katiane ficou em silêncio. Acho que ela ficou imaginando o cavalo assombrado se transformando no pássaro. Mas logo caiu novamente na risada: “Cavalo de alma penada hahahahahaha”. Os demais amigos e amigas não riram. Alguns até se benzeram. “Credo, Osi!!”, disse Keuria. “Cavalo do Satanás!!”, emendou Brunão. Eu continuei: “Vocês sabem que ali, pra bandas do cemitério, quase na frente do Cristo Redentor, a Visagem da Garupa andava metendo medo nas pessoas”. “Ei, já me contaram essa presepada. Um vizinho meu lá do Milagre já me contou isso”, interrompeu Neilton. “Meu irmão do meio...”, segui contando depois da interrupção, “Esse meu irmão é de parte de pai, a gente chama ele de Cajuba. Ele vinha do Morrinho de bicicleta e era quase meia noite... tem outra coisa, ele morava lá pras bandas do São Raimundo, pra colônias. Mesmo altas horas da noite, ele decidiu pegar um atalho, atravessou a BR-316, passou na frente do cemitério São José, dobrou à direita e passou na frente do Cristo Redentor. Quando ele tava passando na frente do cemitério e fazendo a curva pra direita, já ia pegar a Transcastanhal, ele sentiu que alguém pulou na garupa da bicicleta dele. Ele olhou logo pra trás, mas não viu ninguém. Mas ele percebeu que era como se tivesse alguém sentado na garupa. Começou ter dificuldade de pedalar, porque começou a pesar. Mas continuou pedalando. Sentia que tinha alguém na garupa. Mas não teve mais coragem de olhar pra trás. Ele também não largou a bicicleta e saiu correndo porque não teria como comprar outra bicicleta. Quando ele já estava se aproximando da avenida Barão do Rio Branco, onde tinha mais iluminação, Cajuba sentiu que a visagem saltou da garupa e Cajuba olhou pra cima pra ver a visagem. Viu que o vulto se transformou num pássaro que saiu voando e sumiu entre aqueles pinheiros que tem ali na Transcastanhal com Coronel Leal”.
Katiane não disse nada. Ela bebeu um pouco de cerveja. Sorriu e me perguntou: “Osi, tu acredita nessas coisas?”. Respondi: “olha, Katy...não sei. Acho melhor não duvidar não. Meus vizinhos e Papai Touro vive contando essas coisas. A maioria deles já viram vultos, visagens, bola de fogo rasgando pelo céus de Castanhal, cachorro mal assombrado, cavalo mal assombrado. Eles dizem que temos que desconfiar de todo pássaro que gosta de voar pela noite. Não é ter só medo da rasga mortalha não. Lembro que uma vez morava uma velhinha na rua de casa. Ela morava sozinha. Nesse tempo aí, a nossa rua era só um caminho, antes ali, tinha vários terrenos com matagal, acho que era nos anos de 1987, ou 88, ou 89. Não to bem lembrado. Mas lembro que o pessoal da rua de casa andava dizendo que a velhinha se transformava num pássaro. Todo fim da tarde, a velhinha saia de casa segurando um terço. Dizia pras vizinhas que ia pra capela rezar. Mas ninguém via ela voltando da capela. Quando dava 11 da noite, o que se via era um pássaro estranho pousando no telhado da casa dela. Em seguida, esse pássaro saltava pro quintal da casa da velhinha. Mas aí não dava pra ver nada, porque o quintal da casa dela é cheio de mato e árvores. Algum momento depois, velhinha abria discretamente a janela da casa dela, pra ver se tinha gente na rua, pra ver se alguém viu ela chegando em forma de pássaro. Toda a noite, o pessoal da rua de casa se escondia atrás de seus cercados pra ver o pássaro pousando. Essa velhinha já morreu. Teve algumas vizinhas que acompanharam a velhinha no leito da morte. Quando a velhinha faleceu... parece que faleceu de madrugada...as vizinhas cobriram com lençois o corpo dela. Quando essas vizinhas estavam saindo da casa da velhinha, elas ouviram um grunhido que saiu do quarto da defunta. Elas voltaram rápido pra lá e se deparam com o pássaro estranho no leito da velhinha. Esse pássaro logo se lançou num voo saindo pela janela. Em seguida, casa começou a pegar fogo sozinho. Até hoje as pessoas lá da rua de casa tem medo dessas lembranças”.
Katiane ouvia atentamente. Mas ela disse: “Cruz credo”, se benzeu e riu: “Hahahahahhah... bom pessoal, vou me deitar. Venham amanhã pra gente conversar mais, tá bom??!!”. Nós nos despedimos dela e cada um seguiu para seu bairro. Katiane trancou a porta e a janela da sala do seu apartamento. Na Frente dessa sala tinha um pequeno jardim que ela cuidava. Em seguida, apagou as luzes da cozinha e da área onde se lava as roupas e entrou no seu quarto e se trancou. Deitou na cama e logo dormiu.
No dia seguinte, bem cedo, talvez seis da amanhã, à margem de um estreito caminho d’água, onde outrora era Rio Janjão; um pequeno pardal ciscava o chão para ver se encontrava alguma minhoca. Pardalzinho trocava de lugar sempre que percebia que não acharia nada para comer no local que ciscava. Ele se cansou. Olhou ao redor, não viu nenhuma espécie de inseto. Pensou um pouco mais. Então, decidiu voar em direção ao centro de Castanhal. Voo suave sobre vários bairros até alcançar as árvores do antigo camping Ibirapuera. Pousou sobre os galhos de uma alta castanheira. O passarinho ficou ali, parado, olhando para o centro da cidade, para o açúde do Ibirapuera que se assoreava. Naquele momento presenciou as árvores do Taboquinha Bosque sendo arrancadas uma por uma. Isso causou dor no pardalzinho. Lançou-se novamente sobre o céu e saiu voando pro rumo do Novo Estrela. Queria ficar longe daquela tristeza que ele estava presenciando. Lá do alto, quando sobrevoava Nova Estrela, viu lá embaixo um prédio de apartamento. Sempre voava por ali, mas nunca tinha percebido esse edifício. Resolveu conhecer mais de perto. Pousou sobre a beira de uma pequena abertura de um dos apartamentos. Acho que era o terceiro andar. A janelinha dessa abertura estava semiaberta. Deu uma bicada na janelinha e ela se abriu mais. O passarinho decidiu fazer uma visita nesse apartamento e entrou. Logo percebeu que estava na cozinha. Ficou andando por esse compartimento com seus passinhos rápidos. Depois de conhecer a cozinha foi para a sala do apartamento. Viu uma televisão e um velho sofá. Na sua direita se deparou com quarto com a porta trancada. Pardalzinho ficou encarando por bom tempo aquela porta. Tentou atravessa essa porta pela fresta de baixo. Mas não conseguiu. Apesar de pequenino, era barrigudo. Então, passou a bicar a porta do quarto e ficou bicando, bicando, bicando.
Dentro desse quarto dormia Katiane. Ela
logo se levantou quando ouviu aquelas bicadas. Por morar sozinha, Katiane tinha
adquirido sono leve. “Que porra é essa? Que barulho é esse?”, pensou Katiane na
cama. “Será que alguém entrou no meu apartamento?”. Ela continuou ouvindo a
leve bicada que cutucava a porta do quarto. Pela fresta ela viu uma sombra. Desceu
da cama e se aproximou da fresta da parte de baixo da porta. Ela viu os pezinhos do
pardal que corria e pulava de um lado pro outro sem parar de bicar a porta. Ela olhou novamente. Sim, isso mesmo, era um passarinho, um pardal. Katiane ficou com a face avermelhada, a batida do seu coração acelerou e deu um
pulou de volta para cama. Resolveu se embrulhar toda, se encolheu na cama e
começou a rezar: “Jesus, Jesus, me ajuda, me ajuda. Pai Nosso que está no céu.
Santificando seja o vosso nome...”. Quanto ela rezava, o pardalzinho ficou lá,
bicando a porta do quarto...
Sensacional👏.
ResponderExcluirOi, Unknown. Obrigado!!
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