DESENHO

 

Éric morava ali, na Rua Ipiranga. “Mamãe! Coquinho sumiu! Procurei, procurei e não achei ele”. Coquinho era um jabutizinho. “Meu filhinho, já procurou no quintal, lá no meio das plantas?”. Eric era o filho mais novo da Dona Lu. “Já sim, mãe”. Dona Lu lavava roupa, muita roupa e naquela manhã de domingo ela já estava impaciente. “Ô, Eric. Então não sei não. Será que Coquinho ganhou a rua? Será que ele acabou fugindo?”. Eric ficou triste e começou chorar baixinho. “Quero achar o Coquinho. Eu gosto dele, mãe”. Dona Lu não parava de tirar roupas que estavam de molho na bacia de alumínio e as colocava numa bacia de plástico. “Ô, meu filho. Depois a gente procura ele”.

Os olhos de Éric não paravam de lagrimar. Ele foi para seu quarto e pegou seu material escolar. Arrancou uma página em branca do seu caderno e pegou um lápis. Em seguida, sentou junto da mesinha que tinha no quarto dele. “Vou desenhar Coquinho e sair pra procurar ele”. Desenhou Coquinho de lápis na página e, em seguida, o pintou.

Eric pegou seu desenho saiu mostrando para os vizinhos e perguntando se tinham visto Coquinho por aí. “Bom dia, Seu Cacá. Senhor viu Coquinho?”. Seu Cacá, sentado em frente de sua casa, nem se levantou do banco. “Que Coquinho, menino?!”. Eric se aproximou do seu vizinho e o mostrou o desenho. “Seu Cacá, Coquinho é meu jabutizinho e ele é igual esse desenho”. Seu Cacá pegou no papel e olhou para o desenho. O vizinho ficou olhando por alguns segundo. Depois caiu na risada: “Que diabéisso!? Hahahahahahahaha”. Seu Cacá riu alto e que até se engasgou com a saliva. Eric pegou de volta o papel com desenho e se retirou da frente da casa do Seu Cacá.

Eric ficou andando pela Rua Ipiranga e parava em cada caixa velha que encontrava pela rua. Revirava as caixas e não encontrava Coquinho. Na rua da sua casa tinha um pequeno terreno abandonado. Ele entrou nesse terreno e procurou o jabutizinho. Nada do Coquinho. Voltou para rua. Nesse momento, Eric viu a vizinha Dona Dedé que vinha da Feira da Ceasa. “Oi, Dona Dedé. Bom dia. Tudo bem com a senhora?”. Dona Dedé parou diante do menino. “Que foi, moleque?”. Eric mostrou o desenho para sua vizinha. “Esse é o Coquinho. Ele sumiu. To procurando ele”. Dona Dedé colocou seu óculo e se aproximou seu rosto para enxergar melhor o desenho. “Hahahahahahaha. Me poupe, menino”. Dona Dedé seguiu para sua casa e ria alto e sem parar. “Hahahahahahahahaha!! A gente vê cada uma”. Eric se entristeceu mais.

Ele viu outro vizinho se aproximando. Esse vinha lá da Avenida Altamira. “Olá, Seu Buiú. Bom dia. Olha aqui, olha esse desenho. É o Coquinho to procurando ele, é um jabutizinho”. Seu Buiú estava com a cara fechada. Talvez estivesse mal humorado. Mas quando ele viu o desenho, largou uma grande risada: “Hahahahahahaahah. Tá doido, moleque!”. Eric não se cansou. Andou por outras ruas e travessas e ia mostrando o seu desenho para pessoas conhecidas e desconhecidas. Todas, digo todas, essas pessoas riram dessa criança que tinha desenhado seu jabutizinho de estimação.

Eric retornou para sua casa. Ele estava chorando quando encontrou com sua mãe na sala. “Oh, meu filho. O que foi? Por quê esse choro?”. Eric falou chorando: “Ninguém viu Coquinho, mãe. Eu fiz até o desenho dele e mostrei pros vizinhos e pro outro pessoal daqui da rua. Mas ninguém viu Coquinho não”. Dona Lu pegou o desenho que estava nas mãos de Eric. Viu que o desenho era apenas um grande círculo quase oval, cercado por quatro outros pequenos círculos. O círculo maior estava pintado de marrom, quanto aos círculos menores estavam pintados de amarelo. Dona Lu passou a ficar triste. Não sabia que dizer para o filho. Mas ela sabia que não diria ao filho que o desenho não se parecia com jabuti. Muito menos com Coquinho. Ela respirou fundo e disse: “Meu filho, vai tomar banho. Já tá na hora do almoço. Depois se deite, descanse. Amanhã é dia de aula”. 

Depois do almoço, Eric se trancou no seu quarto. Anoiteceu, Dona Lu fui até o quarto de Eric. “Meu filho. Não fica assim não. Amanhã vou procurar Coquinho. Tá bom?!”. Eric estava deitado na cama e ainda segurava seu desenho. Ele falou pouco. Dona Lu se retirou. Não demorou muito e garotinho logo pegou no sono. No dia seguinte, tomou seu banho, colocou seu uniforme escolar, tomou seu café. Feito o desjejum, pegou sua mochila escolar e merendeira. “Bença Mãe!! Tô indo pra escola!”. Dona Lu já estava lavando roupas. Mas não deixou de responder seu filho. “Deus te abençoe, meu filho! Cuidado na rua, cuidado com os carros. Se não tiver aula, vem te bora logo”.

Eric estava saindo da frente da sua casa quando sentiu um grande tremor de terra.  Toda a vizinhança, todo bairro Nova Olinda, sentiram aquele tremor. Será que era terremoto? Terremoto em Castanhal? Todos os moradores da Rua Ipiranga saíram de suas casas para verem o que estava acontecendo. Mas perceberam que a terra tremia, parava um pouco e voltava a tremer. Eric estava parando no meio da rua e logo descobriu o que estava fazendo balançar tudo. Ele viu que ali na esquina, na Rua Ipiranga com Rua Coronel Leal, viu um jabuti gigante dobrando aquela esquina. Cada passo do jabuti gigante, a terra tremia. O enorme animal parou de defronte de Eric. 

Eric abriu um grande sorriso. “Coquinho!! É você!! Você voltou!!”. Eric abraçou a imensa cabeça do Coquinho. “Sou eu sim, Eric. Eu voltei para te levar até a escola. Vem. Suba no meio casco”. Coquinho abaixou sua cabeça e logo Eric subiu por ela. Em seguida, o garotinho escalou o imenso casco do jabuti gigante até alcança o topo. Lá em cima, Eric falou: “Pode ir, Coquinho. Já to sentado e seguro”. Coquinho girou e voltou pelo mesmo caminho. Mas não dobrou na mesma esquina que veio. Ele seguiu direto, até o fim da Rua Ipiranga, onde se liga com a principal avenida da cidade.

 Apesar do tamanho exagerado do animal, Coquinho caminhava com leveza. Mas cada passo do jabuti, tudo tremia, tudo sacudia, tudo balançava. Todos os vizinhos e pessoas que riram do desenho do Eric se esconderam. Outros saudaram os dois que passavam na rua. Lá em cima, no topo da casca do jabuti, Eric estava feliz, contente por Coquinho ter retornado. Eric olhou para direção do centro de Castanhal e viu a Caixa D’Água da COSANPA, a Feira da CEASA, A Torre da Telepará. Quando Coquinho entrou na via principal de Castanhal, todos os veículos tiveram que parar e dar passagem para os dois que seguiam para escola Senhora Pereira. Eric sentiu o vento suave que passava por ele naquela manhã. Olhou para cima viu o azul do céu e o sol brilhava sem parar. O sol estava em êxtase como estivesse sorrindo para o infinito.

 

Comentários

  1. Parabéns Osi pela criatividade. Ver e sentir a alegria e inocência das crianças, faz bem ao coração. !

    ResponderExcluir
  2. Parabens...que lindo! Vou mostrar para joao que inspirou o conti❤

    ResponderExcluir
  3. Esse conto me lembrou até às animações do estúdio Ghibli. Umas animações e tanto, a propósito!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A GRANDE JANELA ABERTA

O CANTO DO GALO

XEPÃO