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O CANTO DO GALO

  O que me lembro? Eu me lembro que ouvia aquele galo cantar lá longe. Isso foi nos anos de 1980. O canto vinha lá de dentro, daquele matagal que existia na Comunidade do Rio Janjão. Lembro que eu era bem pequeno. Tava deitado na rede com minha mãe, lá na casa do Compadre Assis. Era um dia de domingo. Como me lembro que era um domingo? Eu lembro porque quase todos os domingos a gente ia pra casa do Compadre Assis. Papai Touro levava a gente pra lá. A gente passava o domingo inteiro nessa comunidade, porque sempre tinha o jogo de futebol pela tarde. A gente chegava antes do almoço. Papai Touro têm vários filhos adultos que também iam pra lá jogar bola com moradores da vila. Compadre Assis não jogava futebol não. Mas gostava de ver seus filhos jogar com os filhos do Papai Touro. Como chegava lá? Era assim: depois do Rio Janjão entrava pela esquerda de quem vinha lá da cidade. Atravessava o rio e dobrava à esquerda que dava logo acesso ao caminho cercado de mato que levava até a vil...

A GRANDE JANELA ABERTA

  Era um sobrado triste de madeira que ficava às margens da estrada Transcastanhal. Ficava ali, perto do Rio Janjão. Eu era bem pequeno. Não me recordo da idade que tinha. Tava acompanhado da minha mãe. Ela tinha ido visitar essa casa. Os moradores dessa residência já esperavam pela gente e assim que nos viram, logo nos convidaram pra entrar. Eram um casal de idosos que carregavam sorrisos discretos entretecidos. “Teve essa chuvinha aí, mas logo passou, tá uma tarde boazinha, né?!”, falou o velho com seus cabelos ralos e brancos quando nos conduzia até a entrada da casa. Ele era um homem pardo, baixo e truncado. Realmente me lembro que tinha caído um pouco de chuva mais cedo. Naquela hora, que já passava das quatro da tarde, as poucas nuvens pesadas lá de cima se dispersavam e o azul do céu se expandia novamente. Quando a gente entrou na sala do sobrado, a gente se deparou com uma cama de solteiro que tava quase no meio desse espaço e tinha uma menina com mais de dezessete anos d...

CHUVA DE MARÇO

  Castanhal, março de 1980. Noite de muita chuva. Jambú bebia sua cerveja em silêncio na Boate Minha Deusa que ficava ali, às margens da rodovia federal, entre Avenida Altamira e Rua Duque de Caxias. Ela disse pro balconista que só queria beber. Disse ainda que naquela noite não se deitaria com nenhum cliente. Muitos homens iam praquela boate pra procurar ela. Havia outras mulheres na casa noturna, mas ela era a mais preferida de todos. Mulher parda de longos cabelos verdes, tinha fama de fazer os homens se tremerem na cama. Naquela mesma noite, chegou na boate quatro soldados da Polícia Militar. A chegada desses homens de uniformes assustou os clientes que logo buscaram se distanciar desses policiais. O Sargento dessa pequena guarnição estava embriagado. Ele tinha ouvido falar de Jambú e queria provar dela. Mas ela não queria ninguém não. Nem por dinheiro queria não. Queria apenas beber. Só isso. Bebia por um amor não correspondido. O Sargento não se conformou e a puxou pelo b...

"OBORA, TODO MUNDO!"

  “Ô, vem cá Bagunça! Perigosa! Tu também Confusão! Vem cá! Que condenação é essa que tão fazendo aí?! Não param quietos!”. Coronel Chico Bezerra, acompanhado desses três cães, subiu a escada que dava acesso a varanda do casarão. Os três cachorros não eram grandes. Já faz mais de três anos que eles conviviam nas propriedades do Coronel. Este adotou esses caninos no mesmo dia e foram encontrados em lugares diferentes. Bagunça foi encontrado em torno da Estação de Trem de Castanhal. Ele tinha pelos de cor caramelo. Nesse dia, Bezerra tinha amarrado seu cavalo de nome Charuto próximo da estação e saiu para fazer compras no comércio castanhalense. Quando voltou encontrou esse cão conversando com Charuto. Não ouviu o quê conversavam, mas conversa deveria ser engraçada porque Charuto não parava de rir. “Oxê! Então vocês gostam de conversar”, disse Chico aos dois animais, “Então vão continuar conversando lá na minha propriedade”, e pegou Bagunça no colo e colocou na carroça que tinha roda...

MENINO MALCRIADO

  Romeu passou a tarde conversando com seus tios lá no quintal da casa dele. “Cadê, o Romeu? Ele não vai não, pro campo jogar bola?”. Perguntou Junior. “Acho que ele não vem não, porque ele ainda tá lá no quintal ouvindo as conversas dos tios dele”. “Ô, então, bora logo! Os moleques da Avenida Altamira já passaram pra lá, pro campinho”, disse Adailson, já muito impaciente. Mas quando a gente tava indo pro campinho, Romeu veio logo atrás da gente e gritou: “Ei, galera, me espera aí! Também vou jogar bola!”. “Égua, Romeu! Tu demorou muito pra vir! Tu sabe que toda tarde dá muita gente lá no campinho e aí demora muito pra chegar a nossa vez pra entrar em campo”. Romeu andou alguns metros de cabeça baixa e depois falou: “É porque os meus tios contaram uma coisa muita assustadora que aconteceu lá na Vila Iracema. Então, fiquei ouvindo o que eles tavam contando pra mamãe”. Clebinho perguntou imediatamente: “O que era que eles tavam contando? Coisa de assombração?”. Romeu, muito sério, ...

QUINTINO LIRA OU CHOREI TODA VIAGEM DE VOLTA

  A chuva caia sem parar. Agora ela vinha acompanhada de ventos frios. Antes dessa chuva cair, o mormaço veio subindo das margens do Rio Amazonas. Era umidade terrivelmente quente que subia pro céu pra preparar outra trovada de água que não demorou a cair. Agora, nessa chuva que atravessava toda essa tarde, não estou mais pensando na balsa que vai aportar na madrugada de amanhã ali mesmo, naquele pequeno e velho porto construído de madeira e de ferro enferrujado que tá ali, na beira do rio. Agora estou pensado somente nos relatos desse velho que não parava de beber café.   Quando me abriguei da chuva naquela taverna próximo da margem do rio, ele já estava aqui, me ofereceu uma xícara e um pouco de farinha de mandioca, disse que seria pela conta dele, disse também que a chuva da Amazônia não tem hora pra acabar e que restava esperar, tomar café e conversar. Foi aí que contou a história do seu irmão que se chamava Quintino Lira que era líder de uma resistência de trabalhadores...

MEL DE ABELHA OU MELZINHA

“Ulha, mamãe!! Ulha que eu e Lobinho achamo, achamo essa cadelinha aqui, mamãe, achamo ali, naqueles terrenos cheio de mato, próximo dali, da pista aonde pousa os aviões que vem pro Ibirapuera. Essa cachorrinha é do tamanho de uma formiguinha, mamãe, ulha o tamanho dela, e ela vivia lá, com as formigas de lá, do terreno”. Mamãe Branca lavava louça no jirau de casa. Parou de lavar e se virou pra gente: “Deixa eu ver essa cadelinha”, disse ela, “Nossa! Ela é mesma do tamanho de uma formiguinha”. A cadelinha tava na ponta do meu dedo indicador: “Oi, Mamãe Branca. Eu sou Mel de Abelha, mais conhecida como Melzinha. Eu moro com as formiguinhas elas estavam me criando até o momento que teu filho me achou e me trouxe pra cá. Cuida de mim, Mamãe Branca, se me cuidar, eu prometo te amar com as minhas fofuras”. Mamãe Branca ficou emocionada. “Claro que pode morar aqui. Vem, vou te dar um pouquinho de farinha com açúcar”. Melzinha balançou seu pequenino rabinho com alegria. “Mamãe Branca, poss...