A GRANDE JANELA ABERTA
Era um sobrado triste de madeira que ficava às
margens da estrada Transcastanhal. Ficava ali, perto do Rio Janjão. Eu era bem
pequeno. Não me recordo da idade que tinha. Tava acompanhado da minha mãe. Ela
tinha ido visitar essa casa. Os moradores dessa residência já esperavam pela
gente e assim que nos viram, logo nos convidaram pra entrar. Eram um casal de
idosos que carregavam sorrisos discretos entretecidos. “Teve essa chuvinha aí,
mas logo passou, tá uma tarde boazinha, né?!”, falou o velho com seus cabelos
ralos e brancos quando nos conduzia até a entrada da casa. Ele era um homem
pardo, baixo e truncado. Realmente me lembro que tinha caído um pouco de chuva
mais cedo. Naquela hora, que já passava das quatro da tarde, as poucas nuvens
pesadas lá de cima se dispersavam e o azul do céu se expandia novamente.
Quando a gente entrou na sala do sobrado, a
gente se deparou com uma cama de solteiro que tava quase no meio desse espaço e
tinha uma menina com mais de dezessete anos deitada nela. A idosa notou o
espanto do olhar da mamãe diante dessa recepção. Então, a velha, que era branca
de cabelos amarelos e enrolados e pouca mais alta que seu companheiro, se
apressou logo pra falar que sua neta pediu que ficasse ali mesmo deitada na
sala pra ouvir movimentos da estrada, das vozes das pessoas que iam e viam do
centro comercial da cidade, que passavam sempre por ali, pela frente do
sobrado. Alguns conhecidos paravam e falavam rapidamente com o casal de idosos.
As vezes perguntavam por ela, pela enferma, mas poucos entravam no sobrado pra
ver ela. A senhora disse pra mamãe também que o quarto da sua neta ficava nos
fundos, lá nos altos e tinha lá uma pequena janela. “Aqui na sala é mais
ventilado porque tem essas duas grandes janelas. Dar também pra ela reparar
mais no mundo lá fora”. Mesmo assim, a moça recebia mais visita do vento do que
das pessoas.
A garota deitada na cama era parda, de cabelos
curtos e encaracolados, tava com aparência pálida e não demonstrava emoção.
Tava toda coberta dos pés aos ombros. Ela olhava pra grande janela aberta do
lado direito de quem entrava na sala. Ficava assim, o dia inteiro em silêncio.
Poucas vezes encontraram ela rezando bem baixinho. Mas o avô pensava que não
era reza não, falou pra sua companheira que achava que ela apenas conversava
consigo mesmo, porque eles apareciam na sala e ela logo ficava em silêncio.
Quando ela ouvia vozes lá fora, fazia grandes movimentos nos olhos, que era um
tipo de esforço pra adivinhar de quem pertence aquela voz que chegava nos seus
ouvidos.
A moça da cama nos viu, nos encarou e, em
seguida, logo abriu um sorriso tímido porque tinha reconhecida mamãe. Logo
chamou minha mãe pra se aproximar dela. Os velhos do sobrado ofereceram um
tamborete pra mamãe se sentar e depois o casal foi pra cozinha e de lá falaram
alto dizendo que iam preparar um café pra nós. Eu me sentei num sofá da sala
que ficava bem próximo do pé da cama da menina. Percebi que a garota deitada e
mamãe se conheciam muito bem porque trocaram carinhos e passaram a conversar.
A sala era pequena e possuía duas grandes
janelas que permitiam, quando abertas, muita claridade pro interior do recinto.
Atrás da cabeceira da cama tinha uma estante com uma bíblia aberta acompanhada
da imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Ao lado da estante tinha acesso ao
corredor que levava pro interior da casa. O outro lado da parede de madeira da sala
não tinha janela. Mas tinham dois quadros, um de São José, segurando o Menino
Jesus; e outro, de São Jorge, que lutava contra o Dragão. Acima da estante
existia outro quadro, de vários animais entrando na Arca de Noé.
Mamãe, sentada no tamborete junto da
cabeceira, sorria e conversava com a jovem deita na cama. Não dava pra ouvir a
conversa delas, conversavam baixinho. As vezes ouvia da conversa algumas as
palavras como dor, insônia, tonteira. Da cozinha do sobrado vinha o cheiro do
café da tarde. Não demorou muito, a idosa da casa trazia duas xícaras de café
bem quente pra mamãe e pra mim. Eu bebia o café que tava bastante doce e eu olhava,
através da grande janela da sala, o azul do céu que continuava se abrindo
depois daquela leve chuva de início da tarde. Também podia ver, da janela,
muitas árvores que existiam além da cerca da casa triste. Essas árvores eram
altas e se estendiam até às margens do Rio Janjão.
Foi nesse momento que eu olhava a janela que
consegui ouvir mais claramente um pouco da conversa entre as duas. A moça dizia
que tava morrendo aos poucos, que já aceitava aquela situação e que era assim
mesmo. Lembro que nesse momento, ela parou de sorrir. Virou o rosto novamente
pra janela e disse que tudo nesse mundo passava, “tudo vai passar como aquela
nuvem que tava passando lá em cima, lá no alto desse céu”. Ela disse ainda que
o cão dela não suportou essa situação. Ele ficava o dia todo de baixo daquela
cama. Suspirava tristemente por ela. Viu ela crescer. Sempre queria subir na
cama pra deitar com ela, mas seus avós não permitiam. Até que um dia, o cão
sentiu tanta dor de tristeza que surgiram asas nele e atravessou a janela
voando pra bem longe, porque não aguentaria ver sua amada protetora morrendo.
Depois de ouvir isso, mamãe ficou em silêncio. Ainda fez uma menção pra falar,
mas acabou não falando nada não. Percebi também que o semblante da mamãe se
entristeceu.
***
Décadas se passaram e retornei praquele mesmo
lugar onde existia o sobrado triste. Mas o lugar não era o mesmo de antes. A
casa não existia mais, não existiam mais pessoas por ali. Nem as árvores e nem
o Rio Janjão existiam mais. Tudo tinha passado, tudo tinha sumido. Menos a
minha lembrança daquela jovem deitada na cama no meio da sala olhando pra aquela
grande janela.
Era pra ter investido mais no "Cão com asas..." ....
ResponderExcluirFiquei curiosa para saber a doença da menina...
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