MENINO MALCRIADO

 

Romeu passou a tarde conversando com seus tios lá no quintal da casa dele. “Cadê, o Romeu? Ele não vai não, pro campo jogar bola?”. Perguntou Junior. “Acho que ele não vem não, porque ele ainda tá lá no quintal ouvindo as conversas dos tios dele”. “Ô, então, bora logo! Os moleques da Avenida Altamira já passaram pra lá, pro campinho”, disse Adailson, já muito impaciente. Mas quando a gente tava indo pro campinho, Romeu veio logo atrás da gente e gritou: “Ei, galera, me espera aí! Também vou jogar bola!”.

“Égua, Romeu! Tu demorou muito pra vir! Tu sabe que toda tarde dá muita gente lá no campinho e aí demora muito pra chegar a nossa vez pra entrar em campo”. Romeu andou alguns metros de cabeça baixa e depois falou: “É porque os meus tios contaram uma coisa muita assustadora que aconteceu lá na Vila Iracema. Então, fiquei ouvindo o que eles tavam contando pra mamãe”. Clebinho perguntou imediatamente: “O que era que eles tavam contando? Coisa de assombração?”. Romeu, muito sério, respondeu: “Foi coisa pior que isso, pior que assombração”. Aí a gente parou, ali, naquele caminho que levava pro campinho e pra pista de pouso de aviões no antigo Camping Ibirapuera. Já passava das cinco da tarde e passava muito vento por aqueles lados que existiam diversos terrenos baldios. O sol tava por ali, já chegando lá por cima do conjunto habitacional Jardim Tóquio. A gente tava próximo do campinho e dava pra ouvir os gritos dos moleques da Avenida Altamira que já tavam jogando futebol.

“Conta aí pra nós, conta dessa coisa que aconteceu lá pras bandas de Iracema”, pediu Adailson. Romeu disse que sim, que contaria. Aí, sentamos de baixo de um pé de jamelão que existia perto daquele caminho que a gente costumava andar. Era muito comum vê Bruxa Sonífera apanhando jamelão com seu chapéu de bruxa, mas nessa tarde ela não tava lá não. Quando a gente sentou na grande raiz dessa árvore frutífera, Romeu passou contar a estória que ouviu dos seus tios:

“Meus tios moram numa comunidade perto da Vila Iracema. Já fui lá várias vezes passar férias. Lá tem um igarapé muito bom pra tomar banho. Esse igarapé tem água muito fria e essa água do igarapé vai lá pra dentro dos matos fechados e lá na frente ela aparece de novo e se encontra com Rio Apeú. Meus tios faz farinha de mandioca lá nesse terreno e leva essa farinha pra ser vendida lá na Vila Iracema. Uma vez, lá na feira da vila, eles ouviram um velho de cabelos brancos contando uma estória de um Menino Malcriado que fazia coisas muito feia. Esse menino não obedecia a ninguém, nem os pais dele, nem a professora, nem os vizinhos. Na casa dele não gostava de fazer nada, não ajudava em nada. A mãe dele sempre pedia pra ele ir comprar alguma coisa no mercadinho e ele fazia de conta que não ouvia, só ficava assistindo televisão. Na escola gostava de falar palavrão na sala de aula e não fazia nenhum dever de casa. Ele vivia jogando pedra pra cima dos telhados das casas dos vizinhos.

Mas a maior maldade que ele fazia era de não respeitar Vovózinha dele. Ela era uma senhora muito velhinha, ela tinha mais de cem anos e tinha dificuldade pra andar. Só andava se alguém ajudasse ela. Ela ficava manhã toda sentada na cozinha, e a tarde toda ficava sentada na sala onde tinha duas janelas que davam pra rua. E lá sentada, ficava tomando café. Esse Menino Malcriado não chamava ela de Vovó ou Vovózinha, só chamava ela de Velha. Ele falava assim: ‘Ei, Velha. Ainda tá viva?!’, depois ria dela, ‘Hahahahaha. É muito velha essa vó. Hahahahaha. Só fica aí, bebendo café. Hahahahaha’. Ele era sempre assim, não respeitava a Vovózinha dele. Mas o mais feio que ele fazia com ela era fazer careta feia pra ela. A Vovózinha não enxergava mais direito, então ele se aproximava dela, ficava bem junto do rosto dela e fazia careta feia, fazia muita careta. Nesse momento ela sempre dizia: ‘Menino, o que tá fazendo? Vem cá, quero te dar um beijo de Avó”, mas o Menino Malcriado se afastava do rosto dela e saia correndo aos gritos: ‘Não quero beijo de avó não, sua Velha! Hahahahaha’.

Todos dos dias esse menino parava na frente de sua Vovózinha e fazia muita careta feia pra ela. Até em dias santos e nas sextas-feiras santas ele fazia essa careta pra ela. E ela também sempre dizia: ‘Menino, o quê tá fazendo? Vem cá, quero te dar um beijo de avó ’. O Menino Malcriado gostava também de caçar e matar calanguinhos no quintal da casa dele. Todos os dias ele ia pro quintal pra matar esses bichinhos. Quando ele não fazia essa maldade, tava fazendo careta feia pra Vovózinha e ela sempre dizia: ‘Menino, o que tá fazendo? Vem cá, quero te dar um beijo de avó’. Mas o menino sempre saia correndo e rindo e chamava ela de velha.

Um certo dia, ele foi expulso da escola porque não respeitou a professora. Aí retornou mais cedo pra sua casa. A mãe dele não tava em casa, só tava a Vovózinha dele. Então, como não existia mais calanguinhos no quintal, porque ele tinha matado todos, e sem nada pra fazer, resolveu fazer, como sempre fazia, careta feia pra sua avó. Ele se aproximou silencioso da sua Vovózinha, colocou seu rosto bem junto do rosto daquela senhorazinha e começou fazer careta feia. A Vovózinha tava assim, parada, tipo imóvel. Mas de repente ela pegou e segurou com muita firmeza os dois braços do menino e ela disse: ‘Menino, o quê tá fazendo? Agora vou te dar um beijo de avó’, em seguida, ela começou abrir sua boca, abrir sua boca, abrir sua boca até ficar bem aberta. O menino não conseguia se libertar das mãos da Vovózinha, ela segurava os braços do menino com uma força incrível. O Menino Malcriado ficou desesperado diante daquela boca enorme que se abria cada vez mais. Ele começou a gritar e gritava muito. Mas era um grito surdo, silencioso, porque ninguém ouvia seus gritos, seu desespero. 

A Vovózinha começou engolir ele aos poucos. Começou engolir ele pela cabeça dele. O corpo do menino começava se sacudir, tentava reagir, mas era inútil e ele ia sendo engolido lentamente. Até que o garoto tava todo dentro da boca dela e foi engolido completamente. O corpo desse Menino Malcriado passou com facilidade pela garganta da Vovózinha. No final, ela arrotou, tomou seu cafezinho e disse: ‘Esse era o beijo da avó’. 

Foi por isso, pessoal, que demorei vir com vocês pro campinho, eu tava ouvindo toda essa estória que meus tios contavam. Parece que tudo isso aconteceu na semana passada. O povo todo da Vila Iracema ainda tão procurando o menino, acham que ele fugiu. A mãe dele falou que ele fugiu. Meus tios disseram que nem todo mundo da vila sabe que foi a Vozózinha que engoliu o menino. Parece que a mãe do menino sabe o que aconteceu com seu filho, mas ela não diz pra ninguém o que sabe”. 

O sol da tarde já se escondia lá por trás do residencial Jardim Tóquio e a gente voltou pra nossa rua antes que escurecesse de vez. A gente viu também os moleques da Avenida Altamira vindo do campinho e indo embora pra suas casas. Quando cheguei em casa eu contei a estória desse Menino Malcriado pro meu cão Lobinho. Ele se tremeu todo de medo. Mas naquela noite, a gente dormiu junto na rede pra um proteger o outro.

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