QUINTINO LIRA OU CHOREI TODA VIAGEM DE VOLTA
A chuva caia sem parar. Agora ela vinha acompanhada de ventos frios. Antes dessa chuva cair, o mormaço veio subindo das margens do Rio Amazonas. Era umidade terrivelmente quente que subia pro céu pra preparar outra trovada de água que não demorou a cair. Agora, nessa chuva que atravessava toda essa tarde, não estou mais pensando na balsa que vai aportar na madrugada de amanhã ali mesmo, naquele pequeno e velho porto construído de madeira e de ferro enferrujado que tá ali, na beira do rio. Agora estou pensado somente nos relatos desse velho que não parava de beber café.
Quando me abriguei da chuva naquela taverna próximo da margem do rio, ele já estava aqui, me ofereceu uma xícara e um pouco de farinha de mandioca, disse que seria pela conta dele, disse também que a chuva da Amazônia não tem hora pra acabar e que restava esperar, tomar café e conversar. Foi aí que contou a história do seu irmão que se chamava Quintino Lira que era líder de uma resistência de trabalhadores camponeses que lutavam pelo direito de permanecer e de ocupar terras, daquela região de fronteira entre estados do Pará e Maranhão. Já tinha contato que Quintino era um jovem que só gostava de futebol até momento que decidiu em se engajar na lutar armada contra os fazendeiros. Mas o velho tinha feito uma pausa demorada. Quanto a mim, eu estava curioso de saber do restante daquela história. Então, ele recomeçou a narrativa.
“Mas, escute filho, ele percebeu...”, o velho contanto, “Ele então percebeu, acordou pra vida, foi isso mesmo, ele acordou pra vida. Ele percebeu que aquela guerra era inevitável, ele percebeu que a gente ia ser atingido por essa guerra. Ele começou se sentir culpado, começou se culpar desesperadamente. O nosso pai tinha avisado ele, papai tinha avisado que todos da comunidade deviam se organizar pra se defender daqueles empresários que vinham das cidades grandes pra tomar a nossa terra. Papai tinha alertado.
Agora, ali, diante do cadáver do papai, ele chorou muito. Eram lágrimas de arrependimento de não ter ouvido papai, de revolta e de ódio contra os fazendeiros. Quintino percebeu também que aquele tiro que matou papai e outros pequenos lavradores dali da nossa comunidade tinha sido disparado há mais de quinhentos anos atrás. Esse acordar pra realidade que ele teve, fez ele sofrer mais ainda, porque poderia ter desviado essa bala, teve tempo pra isso, mas ele achava que bala não ia atingir ninguém que ele amava, achava que não ia atingir ninguém próximo dele. Por isso, chorou e chorou”.
O velho
interrompeu novamente o seu relato. Anoiteceu, mas continuava chovendo. A dona
da taverna, uma Velha Tapuia, acendeu lamparinas de querosene que tinham ali no
estabelecimento. “O que foi velho?”, ela disse pro irmão do Quintino, “Esqueceu
da história do seu irmão? Ou já tá caduco? Hahahahaha. Olha que o patrício tá
aguardando o resto dessa história aí”. Ele não respondeu nada. Mas logo pediu
mais café. “Cuidado velho”, falou novamente a Velha Tapuia, “tu podes morrer de
nervosismo”. Ele sorriu e falou pra ela: “Obora logo mulher, trás logo mais
café pra mim...trás também uma lasca daquele beiju ali no canto daquele
armário. Ainda presta esse beiju aí?”. Tapuia parou na entrada da cozinha e
reclamou: “Tu sabias que tu és um velho pidão?! Eu hein!? Nunca tinha visto um
velho assim!”.
Eu vi nesse mesmo armário desgastado que ficava na entrada da cozinha da taverna, uma garrafa de vinho Dom Boscus, estava todo empoeirado. “Minha senhora”, eu falei, “Eu vou querer essa garrafa de vinho aí, por favor, abra pra mim”. Ela pegou a garrafa e limpou com mesmo guardanapo que passava naquele balcão de madeira. “Tu queres que eu pegue gelo na vizinhança? Como tu vês, aqui não tenho luz”. “Não precisa não, minha senhora”, me virei pro velho que estava ao meu lado, “O senhor quer me acompanhar nessa garrafa de vinho?”. Ele bebeu de uma vez só sua xícara de café: “Aceito sim, patrício. Esse vinho aí, é bom pra afinar o sangue”.
Eu o servi no copinho de vidro. Mesmo copinho que a Tapuia servia aguardente pros seus clientes. “Hummmm, que vinho doce, né!?”, disse o velho depois de tomar o copo de vinho. “A vida deveria ser assim: doce como esse vinho. Quintino Lira viu naquele momento que a vida não era doce, percebeu que a vida era uma luta, tinha que lutar pela justiça social, ele realmente tinha acordado.
Ainda junto do corpo do papai, ele prometeu lutar até o fim. De luta contra aqueles latifundiários que queriam mais e mais terra. Nesse momento, quem estava lá com ele, velando o corpo do papai que continuava lá na beira do igarapé, viram a água do pequeno rio se transformar em sangue. Nesse momento, meu irmão, Quintino Lira, entrou nesse igarapé e mergulhou naquelas águas vermelhas e quando se levantou daquelas águas, elas tinham deixado de ficar vermelhas. Foi um tipo de batismo de sangue.
Ele saiu correndo
pro matagal adentro, daquele jeito mesmo, todo molhado. Corria com toda
velocidade. Saltava sobre as raízes das grandes árvores, passava pelos monturos de cipós sem dificuldade, corria pelos galhos das árvores e aí aconteceu aquilo
que impressionou todos que viram ele se desembestado pelo mato, ele começou a
se transformar em diversos animais. Ora corria em forma de onça, porco do mato,
gato maracajá, cachorro do mato, até em forma de cutia; ora se transformava em diversos tipos de
répteis e de pássaros. Isso era possível, porque, contavam, que aquele sangue
do igarapé não era só de pessoas mortas pelos fazendeiros, mas também tinha
sangue dos animais da região que morreram por causa do desmatamento provocado
pelos mesmos fazendeiros que invadiam as terras dos lavradores.
Quintino Lira tava em forma de onça quando alcançou o assassino do nosso pai. O fazendeiro e os pistoleiros já tavam na estrada principal e já tavam também entrando camionete quando foram surpreendidos por aquela onça que tinha pulado sobre a cabine do veículo. Eles resolveram enfrentar a onça e se armaram, mas a onça foi tão rápida que eles não tiveram tempo de disparar um único tiro. Ela tinha dado mordidas mortais no pescoço de cada pistoleiro, inclusive do fazendeiro que sangrava sem parar, ali mesmo. Quanto sangrava, o latifundiário viu a onça se transformando em gente, que era Quintino. Aquela transformação aterrorizou o assassino que morria com os olhos arregalados. Foi aí que meu irmão se aproximou dele e falou alguma coisa. Mas ninguém sabe o quê Quintino disse pra ele, mas se sabe que Quintino viu o fazendeiro sangrar até a morte, ali, na beira daquela estrada”.
A velha Tapuia interrompeu a conversa: “Vou fritar lascas de pirarucu. Tu queres, patrício? Faço um precinho camarada com esse vinho que vocês tão bebendo”. Logo respondi: “Sim senhora. Adoro pirarucu frito”, me virei pro irmão do Quintino e perguntei, “Senhor me acompanha nesse tira gosto, meu velho?”. Ele sorriu: “Acompanho sim, mas só um bocadinho. Esse peixe é muito remoso pra mim”. Tapuia logo falou pra ele: “Que remoso que nada, seu velho doido. Esse peixe é muito é bom. Uma vez, tinha uma freira aí na vila, que veio lá das europas, disse que esse negócio de remoso não existe não. Comer é comer, e pronto. Eu vou fritar o pirarucu e fazer uma farofa desse peixe...”. O velho se animou com a farofa: “Então pronto, faz logo essa farofa aí, porque esse vinho doce abriu o meu apetite”. Todos riram na taverna. Em seguida, ele retomou a história.
“Aí Quintino retornou
pro igarapé onde tava o corpo do papai, pegou na espingarda do papai que tava
ao lado do cavalo morto e ali mesmo formou seu grupo de resistente. Aqueles
homens e mulheres que velavam o corpo do papai, pegaram suas armas e se
juntaram com meu irmão. Eu tava na capital quando soube de todo esse
acontecimento. Eu tava trabalhando como ajudante de pedreiro e tava sem
dinheiro pra voltar pra minha comunidade pra participar do enterro do papai.
Minha companheira tinha acabado de dar luz, tava sem dinheiro mesmo. Mas logo
chegou outras notícias de lá. Realmente Quintino e seu grupo entraram em guerra
contra os fazendeiros da região. Muita gente se ofereceu pra acompanhar meu
irmão, queriam se juntar a luta contra aqueles gananciosos que só pensavam em
invadir terras do pessoal pobre. Esses fazendeiros tentaram fazer inúmeras
emboscadas contra Quintino, mas todas davam errado. Usavam até metralhadora pra
matar meu irmão, mas Quintino tinham um dom que era a rapidez e podia se
transformar em qualquer animal. Isso facilitava sua fuga e de se livrar das
armadilhas.
Depois vieram homens do governo. Polícia militar, soldados do exército e até aeronáutica foi convocada para combater aqueles agricultores que lutavam por direitos de continuarem nas suas próprias terras. Nas rádios da capital não se falava mais nada, só se falava de Quintino Lira e seu grupo armado. Pelas ruas da capital falavam que ele era um vilão, um bandido que o governo deveria usar todas forças possíveis para derrotar. Outros falavam que ele não era bandido, nem criminoso, diziam que ele era o último cabano que lutava pelo fim da miséria no campo. Eu tentei me encontrar com meu irmão, mas era impossível. A região onde fica minha comunidade tava em estado de guerra. Desisti de tentar me encontrar com Quintino, retornei pra capital. Fiquei só acompanhando pelas notícias que vinham das rádios.
Até que um dia, acordei com a notícia que tinham matado Quintino Lira e que as forças do governo e dos fazendeiros tinham tomado de conta da região onde ele agia com seu grupo. Pelo que entendi na rádio, disseram que foi uma emboscada. Fizeram tanto emboscada contra ele e sempre ele escapava. Mas dessa vez, ele foi pego, ele não teve chance, tinha sido fuzilado. Também foram mortos alguns dos companheiros de Quintino que tavam com ele no momento da emboscada. Nas ruas da capital teve vários protestos contra a ação do estado. O governo disse que não pretendia matar Quintino, que o governo não é o responsável pela emboscada, disseram que foi ação dos fazendeiros. Teve uma verdadeira guerra na avenida principal da capital entre manifestantes que apoiavam a luta de Quintino e tropas de choque.
Eu não pensei duas vezes. Deixei a mulher em casa e fui pra minha comunidade pra participar do velório do meu irmão. Depois de horas de viagens de ônibus, cheguei naquela vila onde tinha passado a minha infância. O corpo tava sendo velado numa sede do sindicado de trabalhadores da comunidade. Tinha muita gente no local, até polícia militar e soldados tavam presente. Depois de muito esforço, consegui me aproximar do caixão que tava aberto. Então, vi o corpo de Quintino Lira. Tava coberto de um lençol branco, mas seu rosto tava descoberto. Olhei pro seu rosto. Parecia que ele ainda chorava pela morte do nosso pai.
Tinha um verdadeiro empurra empurra muito grande no velório. Tive que sair da proximidade do caixão. Logo, saí da sede do sindicato, fiquei lá fora, numa sombra de uma mangueira, me sentei lá. Eu tava muito triste, me sentia muito estranho ali, muita gente desconhecida, não encontrei nenhum amigo da infância, muitos deles tinham se juntado com Quintino, aí alguns morreram, e outros tiveram que fugir depois da morte do meu irmão. Era multidão de rosto desconhecido, ainda tinha o pessoal da televisão lá. Dormi ali mesmo, em baixo daquela mangueira, toda aquela noite e madrugada não parava de chegar gente. Quando sol se levantou, eu fui embora. Decidi não ficar no enterro. Peguei o primeiro ônibus e voltei pra capital. Chorei toda viagem de volta”.
O velho se calou e não falou mais nada. A gente tinha devorado toda farofa de pirarucu, não tinha mais vinho na garrafa e a Velha Tapuia tava em um dos cantos da taverna dormindo junto de uma pequena mesa. Ela tinha bebido chá de erva doce e caiu no sono. Já era de madrugada e a chuva tinha cessada. Lá foram veio o som da buzina da balsa.
Precisava ir pro velho porto pra embarcar. Tapuia logo se acordou, aí paguei pra ela o café, o vinho e o pirarucu me despedi de todos, peguei a minha mochila e fui pro porto. Mas antes de atravessar pela porta de entrada da taverna, o velho ainda disse: “Sabia, patrício, que o homem que vi no caixão não era do meu irmão? Não era mesmo. Era apenas um corpo sem vida. Quintino Lira ainda anda vivo por aí, isso tenho certeza, e a luta pela terra ainda continua...”
Parabéns! você tem um talento ímpar para contar historias, faz a gente viajar !!!
ResponderExcluirMuito obrigado! Continue acompanhando o Blog Correio do Osi 🙂🙌🏾
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