O CANTO DO GALO
O que me lembro? Eu me lembro que ouvia aquele galo cantar lá longe. Isso foi nos anos de 1980. O canto vinha lá de dentro, daquele matagal que existia na Comunidade do Rio Janjão. Lembro que eu era bem pequeno. Tava deitado na rede com minha mãe, lá na casa do Compadre Assis. Era um dia de domingo. Como me lembro que era um domingo? Eu lembro porque quase todos os domingos a gente ia pra casa do Compadre Assis. Papai Touro levava a gente pra lá. A gente passava o domingo inteiro nessa comunidade, porque sempre tinha o jogo de futebol pela tarde. A gente chegava antes do almoço. Papai Touro têm vários filhos adultos que também iam pra lá jogar bola com moradores da vila.
Compadre Assis não jogava futebol não. Mas gostava de
ver seus filhos jogar com os filhos do Papai Touro. Como chegava lá? Era assim:
depois do Rio Janjão entrava pela esquerda de quem vinha lá da cidade.
Atravessava o rio e dobrava à esquerda que dava logo acesso ao caminho cercado
de mato que levava até a vila. Esta era bastante arborizada. Lembro das grandes
extensões de sombras. Essas sombras existiam nas frentes das pequenas casas de
pau a pique que tinham por lá. A casa do Compre Assis era única casa grande. Ela
foi construída de cimento e de barro, o telhado era de madeira, que a gente
chamava de cavaco. A casa dele era coberta de muitas sombras, pois existia
grandes mangueiras ao redor da residência dele.
Lá na frente, depois das pequenas casas e das sombras das árvores, tinha uma enorme claridade. Era lá que ficava o campo de futebol da vila. Esse campo tinha um gramado seco, por causa da estiagem. Era cercado de pés de jambeiros. Existia também na Comunidade do Janjão muito cachorros que viviam correndo nas frentes das casas. Tinha um que merece destaque. Era um cachorro grande que tinha pernas longas. Ele agia como líder dos demais cachorros que viviam espalhados na localidade. Esse cachorro grande era o mais agitado, mais atento e o mais esperto. Compadre Assis chamava ele de Camelo Rápido. Sempre tava correndo e pulando sobre os moradores e nas visitas. Adorava correr atrás das sombras dos urubus que voavam sobre o campo de futebol. “É o cachorro do Satanás!!”, dizia Papai Touro.
Todos os homens jovens e adultos da comunidade e mais os filhos do Papai Touro bebiam e almoçavam antes da partida de futebol. O que bebiam: muita cerveja, lá tinha alguns mercadinhos e tabernas que comercializavam essa bebida. O que comiam? Comiam galinha caipira com farofa de miúdo, acompanhado de muita farinha de mandioca. Aqueles homens comiam, bebiam e falavam muito alto. Eles ficavam reunidos de baixo daquelas árvores. Compadre Assis só ria de toda aquela arrumação de conversa e das diversas estórias que se contavam. Nesse momento, Camelo Rápido e outros cachorros paravam de correr e ficavam observando aquela comilança.
Mamãe Branca preferia almoçar na cozinha com a Comadre
Luíza e me levava junto dela. Ela não me deixava ficar no meio daquela
bebedeira. Ela ficava irritada, porque sabia que Papai Touro já ia gastar dinheiro
que não tinha com toda aquela presepada. Depois do almoço, Comadre Luíza armava
a rede lá na sala pra gente fazer a cesta. Mamãe logo dormia com balançar da
rede. Soprava um vento que entrava pela janela da sala. Esse vento vinha das
sombras daquelas árvores lá de fora. Eu não dormia. Eu me esforçava pra ficar
de pé na rede. Me equilibrava na rede e olhava, através da janela da sala, aquele
clarão daquele mato, que ficava um pouco ali na frente. O clarão do mato tava
sendo iluminado, por aquele intenso sol de verão do início da tarde de domingo.
Mamãe Branca acordava e ficava enfezada, porque eu não parava quieto na rede.
Ela me dava puxão pra me deitar. Mas eu insistia pra ficar de pé. Queria olhar
pela janela, olha praquele mato. Era lá de dentro desse mato que vinha o canto
do galo.
Os nomes parecem os da minha família: tio pão, tio grilo, tio pelado etc.kkkk
ResponderExcluirRsrsrsr
ExcluirGostei do nome do cachorro: "camelo rápido", vulgo cachorro do Satanás rsrsrsrs
ResponderExcluirVulgo...rssrsrs
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