CHUVA DE MARÇO

 

Castanhal, março de 1980. Noite de muita chuva. Jambú bebia sua cerveja em silêncio na Boate Minha Deusa que ficava ali, às margens da rodovia federal, entre Avenida Altamira e Rua Duque de Caxias. Ela disse pro balconista que só queria beber. Disse ainda que naquela noite não se deitaria com nenhum cliente. Muitos homens iam praquela boate pra procurar ela. Havia outras mulheres na casa noturna, mas ela era a mais preferida de todos. Mulher parda de longos cabelos verdes, tinha fama de fazer os homens se tremerem na cama.

Naquela mesma noite, chegou na boate quatro soldados da Polícia Militar. A chegada desses homens de uniformes assustou os clientes que logo buscaram se distanciar desses policiais. O Sargento dessa pequena guarnição estava embriagado. Ele tinha ouvido falar de Jambú e queria provar dela. Mas ela não queria ninguém não. Nem por dinheiro queria não. Queria apenas beber. Só isso. Bebia por um amor não correspondido.

O Sargento não se conformou e a puxou pelo braço violentamente pra cima dele e deu um tapa no rosto dela. Jambú reagiu imediatamente aquela agressão. Com outro braço livre, ela tirou um canivete do seu bolso da calça jeans e aplicou com toda força que tinha pra cravar o canivete na coxa direita do policial. Este soltou grito de dor e caiu de costas sobre as mesas cheias de garrafas de cervejas. Ficou lá, jogado no chão. Os outros policiais foram logo acudir o Sargento. Nesse momento, Jambú saiu correndo. Nem olhou pra trás. Deixou a Boate Minha Deusa. Fugiu.

Ela saiu correndo pela rodovia de baixo da daquele forte temporal. Correu na direção do Rio Castanhal. Este rio, naquela noite de forte chuva, como outras vezes; havia transbordado e invadiu todas as casas que ficavam às suas margens. Provocando gritos e desesperos daquelas pessoas atingidas pelas águas agitadas. O Rio Castanhal cruza as principais ruas da cidade

Os moradores atingidos pela enchente pegaram suas canoas e foram resgatar seus familiares e vizinhos. Remaram a partir da Presidente Kennedy e cruzaram com as canoas as ruas Comandante Assis, Coronel Leal, Paes de Carvalho, Avenida Barão do Rio Branco, 28 de Janeiro e BR-316. Foram resgatadas mulheres, idosos, crianças. Verdadeiro sufoco.

Nessa noite de tempestade os vigilantes noturnos dos postos de gasolina, das oficinas automotores e das distribuidoras viram Jambú correndo pela rodovia e mergulhando nas águas do Rio Castanhal. Momento depois do mergulho, a chuva cessou e as águas do rio se acalmaram. Facilitando o resgate de todos os moradores que sofriam com a enchente. Contam também que desde essa noite de temporal e da fuga de Jambú, surgiu no rio uma cobra grande que tinha dois chifres.

A temível cobra se alojou nos fundos do açude do Camping Ibirapuera e passou a devorar, uma vez e outra, banhistas desse clube campestre. Disseram ainda que essa cobra era Jambú. Outros diziam que não era ela não. Que na verdade, Jambú tinha retornado para sua terra natal, em Jambú-Açú. Por isso que nunca mais a viram na cidade de Castanhal.

 

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