MEL DE ABELHA OU MELZINHA

“Ulha, mamãe!! Ulha que eu e Lobinho achamo, achamo essa cadelinha aqui, mamãe, achamo ali, naqueles terrenos cheio de mato, próximo dali, da pista aonde pousa os aviões que vem pro Ibirapuera. Essa cachorrinha é do tamanho de uma formiguinha, mamãe, ulha o tamanho dela, e ela vivia lá, com as formigas de lá, do terreno”. Mamãe Branca lavava louça no jirau de casa. Parou de lavar e se virou pra gente: “Deixa eu ver essa cadelinha”, disse ela, “Nossa! Ela é mesma do tamanho de uma formiguinha”. A cadelinha tava na ponta do meu dedo indicador: “Oi, Mamãe Branca. Eu sou Mel de Abelha, mais conhecida como Melzinha. Eu moro com as formiguinhas elas estavam me criando até o momento que teu filho me achou e me trouxe pra cá. Cuida de mim, Mamãe Branca, se me cuidar, eu prometo te amar com as minhas fofuras”.

Mamãe Branca ficou emocionada. “Claro que pode morar aqui. Vem, vou te dar um pouquinho de farinha com açúcar”. Melzinha balançou seu pequenino rabinho com alegria. “Mamãe Branca, posso te pedir uma coisa?”, “pode sim minha flor. O que é que você quer?”, “Eu posso trazer as formiguinhas pra cá, pro seu quintal, pra morar aqui comigo?”, “Pode sim, meu docinho”.

Não demorou muito pras formiguinhas fazerem a mudança de morada, já tavam tudo lá no fundo do quintal de casa morando e toda as manhãs eu levava Melzinha até lá pra conversar com suas amiguinhas.

A gente ficava muito espantado pelo tamanho dela. Ninguém do bairro tinha visto uma cadelinha do tamanho de uma formiguinha. Mas Mel de Abelha era cheia de amor e fofura. Mamãe Branca sempre colocava Melzinha no seu ombro e as duas passavam o dia conversando.

Outra coisa que chamou a nossa a atenção era que Melzinha comia bastante. Comia e crescia. “Ulha, mãe. Melzinha acordou do tamanho do sapato do papai”. E a cadelinha sempre comendo farinha com açúcar. Crescia e crescia. Até que um dia já estava do tamanho normal, de um cão vira lata. “Que lindeza!!!”, disse mamãe, “Já ganhou seu tamanho certo, minha preciosa, né?!!”. Mel de Abelha abriu um sorriso doce e falou: “É seu amor, mamãe, seu amor que me fez crescer. E também eu tenho muita fofura. Por isso que cresci rápido”.

Mas eu e Lobinho pegamos um susto. Um certa tarde de verão, vimos  a cadelinha crescer até ficar do tamanho de um cavalo. “Mamãe, mamãe. Mel de Abelha tá do mesmo tamanho do cavalo do Seu Ceará!! Vem vê mãe! Ela tá grandona”. Mamãe Branca correu lá pro quintal viu Mel de Abelha deita lá no meio das plantas. “Que lindeza demais, é muita lindeza nessa cadelinha. Ô, Touro. Arma uma rede de dormir pra essa fofura. Não importa o tamanho da nossa lindeza. Vai continuar dormindo com a gente lá dentro de casa”. Melzinha se levantou e sacudiu todas as folhas que tavam em cima dela: “Muito obrigada, Mamãe Branca, eu gosto de dormir na rede. Eu vou sempre te amar e te dar fofura”.

No dia seguinte, foi mamãe que pegou um grande susto. Melzinha tava maior que a nossa casa. “Ô, lindeza”, falou mamãe no tom de preocupação, “Tem que parar de crescer. Caso contrário não vai ter lugar pra você na nossa casa, tá crescendo demais”. Mas Mel de Abelha cresceu mais e mais. E não parou de crescer. Então, alcançou a altura da Torre da Telepará, se tornou gigante. Aí, se revelou suas verdadeiras intenções:

“HAHAHAHAHA. Eu sou Melzinha Gigante e vou destruir toda essa cidade HAHAHAHAHAHA. Venham minhas formiguinhas, venham! Subam nas minha costas e vamos pro centro comercial desta maldita cidade HAHAHAHAHAHAHA. A gente vai destruir tudo que tá em pé HAHAHAHAHAHAHAHA!!”.

 Melzinha Gigante se dirigiu pro centro com a convicção de destruir tudo que encontrasse. Um verdadeiro desespero tomou conta da população da cidade de Castanhal que fugia apressadamente da área comercial. “HAHAHAHAHAHAHA, escutem formiguinhas. Vamos destruir primeiro essa Caixa D’Água da COSANPA, daqui da Feira da CEASA; e depois vamos derrubar aquela Torre da Telepará HAHAHAHAHAHAHA...”, Mel de Abelha parou de rir repentinamente e disse pra suas formigas: “Já sei, formiguinhas. Vamos fazer uma coisa melhor, vamos destruir o universo HAHAHAHAHAHAHA. Assim, todos os seres humanos conhecerão o nível do meu verdadeiro poder HAHAHAHAHAHAHA. Se segurem nas minhas costas, minhas formiguinhas, se segurem, porque vamos sair voando pro espaço sideral HAHAHAHAHAHAHA”. Mel de Abelha saiu voando, atravessou as nuvens e alcançou vácuo e passou a voar bem perto da lua. “HAHAHAHAHAHAHA, daqui vou destruir tudo que existe HAHAHAHAHAHA!”.

Da Terra, lá no meu bairro, a gente só ouvia raios e trovões que vinham do espaço. “Ô, Touro. Vai tentar resolver isso. Essa peste de Melzinha vai acabar com o nosso mundo, com tudo que tá aí”. Papai Touro armou a rede de dormir e se deitou: “Deixa ela destruir tudo isso, mulher, deixa ela acabar com tudo mesmo, não ligo não pra essas coisas”. Mamãe ficou irritada, se virou e viu eu e Lobinho no canto da porta da cozinha. Olha, seus pestes! A culpa de tudo isso aí é de vocês. Se o universo se acabar é culpa de vocês, viu?!!!! Foi vocês que trouxe essa tal de Melzinha pra cá, pra casa e vocês vão resolver isso agora mesmo! Podem ir atrás da Bruxa Sonífera, agora!! E conta tudo pra ela, pra vê se ela faz alguma coisa contra Melzinha”.

Eu e Lobinho saímos muito triste de casa e fomos atrás da Bruxa Sonífera. A gente sabia que a culpa não era nossa, até porque a gente não sabia que Mel de Abelha se tornaria gigante. Como eu e meu cão ia adivinhar que aquela cadelinha do tamanho de uma formiga ia querer destruir toda essa existência? Não demorou muito e a gente viu Sonífera que tava lá perto de uma grande mangueira que existia ali, perto do camping Ibirapuera.

A bruxa tava sentada em cima de um cogumelo enorme e bebia sua caneca de cerveja. Quando ela nos viu se aproximando foi logo rindo e disse: “Já sei, já sei! Mamãe Branca mandou vocês dois aqui pra me pedir pra mim fazer alguma coisa contra aquela cadela gigante que tá lá perto da lua voando HAHAHAHAHA. Mas aff...essas coisas só sobra pra mim, aqui nesse bairro, vocês vivem aprontando”, segurando sua caneca, falou mais, “Eu vou lá em cima, eu vou resolver isso”. Ela ficou de pé em cima do cogumelo, deu uma golada na cerveja e saiu voando feito super-herói. Quando ela alcançou as nuvens, deu um estalo nos dedos da mão direita e começou a tocar a música Call Me, da banda Blondie:

 

Call me (Call me) on the line

Call me, call me any, anytime

Call me (Call me) I’ll arrive

You can call me any day or night

Call me...

 

Bruxa Sonífera já voava em forma de estrela cadente quando falou pra si mesma: “Não dar pra lutar sem uma boa trilha sonora”. Ela olhou pra câmera de televisão, deu uma piscadela com seu olho esquerdo e voou com toda velocidade para o espaço. Lá em cima, diante daquele mar infinito de estrelas, quanto tocava a música Call Me; a bruxa começou travar uma luta mortal contra gigantesca Melzinha e suas formiguinhas...

 

                                                                                                                                                     Fim 

Comentários

  1. Adorei esse conto! Eu já estava encantada pela fofura da Melzinha KKKkk que pena que cresceu e se transformou. Grande história!

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