ÍNDIOS

“Vocês parecem índios, sabiam disso!? Hahahaha!”, falava às risadas o Menino da Capital pra nós, pros Moleques da Rua de Casa, “Andam tudo descalços, sem camisa e tudo sujos Hahahahaha!!”. Ele passava férias escolar na casa da tia dele, a Dona Bel, que morava lá na Rua Coronel Leal. Cansado de ficar o dia todo na casa da sua tia, resolveu conhecer o bairro. Andou e andou até chegar onde a gente estava, ali, na encruzilhada da Rua Presidente Kennedy com a Avenida Altamira, próximo do Camping Ibirapuera. Não se apresentou pra nós, simplesmente se aproximou e nos chamou de índios.                                                                     

“Essa cidade só tem mato, ruas só poeiras e de noite tudo é muito escuro nessas ruas daqui. Não sei como é que vocês, bando de índios, moram nessa cidade feia. Muito feia mesmo! Ainda chamam isso de cidade modelo HAHAHAHAHA!!!”. Era mais uma tarde de futebol. A gente ia jogar pelada no campo que tinha ali, naquele terreno baldio, que era o campo de futebol do time do bairro Nova Olinda até ao final da década de 1980. O Menino da Capital acabou jogando bola com a gente. Mas sempre nos chamava de índio. “Bando de ruim!! Ruim de futebol!! Vocês índios nem sabem jogar pelada não Hahahahahahah!!!”.

A maioria das pessoas que moravam na Rua de Casa eram pretas e pardas. E os brancos? Pouquíssimos. Entre a gente da molecada, tinha Adrianinho que poderia ser considerado branco no nosso meio. A Mamãe Branca era uma das poucas mulheres brancas da rua. Eu, menino pardo de olhos puxados e de cabelos lisos, quando saía com mamãe alguém perguntava: “Quem é esse indiozinho? Seu Filho?!!! Nem parece que é seu filho!”. Mas como a maioria dos garotos tinham olhos puxados, o Menino da Capital nos chamou de índios. Mesmo tendo moleques pretos.

*** 

O Menino da Capital, desde que descobriu a nossa tarde de futebol, aparecia lá com a gente, pra jogar pelada. “Vamos seus índios! Vamos jogar bola”. Branco, não muito magro e nem muito forte, sempre de camiseta regata e bermuda e com cabelos bem penteado, ele sempre reclamava e gritava nas partidas de futebol. “Bando de índios!!! Tudo ruim de futebol”, nem sabia se ele ia pra jogar, reclamar ou nos chamar de índio, “Seus índios! Lá na minha capital, na minha cidade, todos de lá jogam bem. Aqui é todo mundo é índio e é por isso que não sabem jogar pelada HAHAHAHAHAHAHAHAHA!! Bando de índios!!!!”. 

No dia seguinte, não foi diferente. Ele apareceu lá, naquela hora da tarde pra jogar pelada e logo gritava: “Vamos lá, índios!! Vamos jogar!”. Mas naquele tarde, Romeu não chegava com a bola de futebol. Passou mais de uma hora e nada do Romeu. Ele estava demorando. Ficamos por lá, andando pelo terreno onde ficava o campo e fomos pra baixo da grande mangueira que existia lá, do outro lado do terreno, na parte mais matagal. “Merda!”, gritou o Menino da Capital, “Esse amigo de vocês não parece logo com essa bola. Merda! Ele é o que mais parece com índio Hahahahaha”. 

A gente se sentou na raiz da mangueira. Mas o Menino da Capital não se sentou, não se sentou porque encontrou centenas de paquinhas saindo de um pequeno buraco. Ele começou esmagar esses bichinhos com seus pés. Às vezes pegava alguns com suas mãos e arrancava as patinhas das pacas. “Ei, doido. Não faz isso não”, dizia Enádio, “Faz mal matar paquinha, não pode matar paquinha não”. O Menino da Capital riu alto: “HAHAHAHAHAHAHA! Não acontece nada não, seu índio abestado”, e continuou a esmagar as paquinhas e rindo alto: “HAHAHAHAHAHAHA!!! Morram seus bichos feios!!! HAHAHAHAHAHA!! Morram! Morram! É eu que vou conquistar tudo aqui, viu!? Insetos nojentos! Eu que vou governar! HAHAHAHAHAHAHA!”.   

 Nesse momento que ele esmagava e ria daquele massacre que promovia contra as paquinhas, a terra começou a tremer, a tremer até abrir um enorme buraco. “O que tá acontecendo, seus bando de índios?!!!! Por que a terra se tremeu e abriu esse buracão?!”. Dentro da fenda saiu uma paquinha gigante. Ela era maior do que a jaqueira lá de casa. “Eu sou A Grande Rainha Paquinha Mãe, a mãe de todas as paquinhas do universo!”.  O Menino da Capital ficou de boca aberta e começou a se tremer todo diante da assombrosa paca. Repentinamente, A Grande Rainha Paquinha Mãe o agarrou com uma das suas patas articuladas dianteira e o colocou na boca, mastigou e o engoliu. Depois ela rosnou, se virou e retornou para o buraco e desapareceu...

                         

                     

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