APARIÇÕES OU AQUELA CHUVA DE FLORES


1

        A professora Raimundinha ministrava aula de matemática quando todo mundo ouviu aquele grito que veio lá do banheiro das meninas. 

“Oh, meu Deus!! O que foi que aconteceu?!!”, disse a professora. Eu lembro que levei um grande susto. Naqueles anos de 1980, a Escola Pública Senhora Pereira, onde estudei do pré escolar até o terceiro ano do 2º grau, localizada no mesmo bairro que eu morava, Bairro Nova Olinda; era uma das escolas públicas mais mal assombrada de Castanhal. Só perde pra Escola Pública Do Leitão. Este é o colégio mais antigo da nossa cidade e fica ao lado da Igreja Matriz São José Operário onde tem vários padres enterrados. Eu acho que quem já estudou no Do Leitão já presenciou visagens de padres saindo do banheiro dessa escola.

          “Fiquem aqui na sala de aula, ninguém sai daqui, ouviram!!?”, disse a professora Raimundinha. Mas mesmo assim gente foi pra porta da sala pra ver o que tinha acontecido. Aí a gente viu as serventes saindo do banheiro das meninas e carregavam às pressas a nossa colega Bibi nos braços. “Ulha!”, falou uma menina da classe, “É a Bibi!! É ela que tão levando desmaiada!”. Eu conhecia Bibi só de longe, porque ela era de outra turma. “O que tinha acontecido?”, pensei. O grito e aquele desmaio me causaram muito medo. Mesmo não sabendo o que tinha ocorrido, mas o medo ficou em mim.

   Raimundinha retornou pra sala: “Todo mundo entrando pra sala. Não foi nada não! Bibi sentiu tonteira e acabou machucando o cotovelo na pia do banheiro. Vamos logo seus pestes! Entrem já pra sala de aula e vão logo se sentando”. No outro dia se comentava na escola que Bibi tinha visto uma Sombra Misteriosa lá no banheiro das meninas. Isso aconteceu por volta de meio dia. Por essa década de 1980 até o início de 1990, funcionava o turno intermediário que era um horário que se iniciava às onze da manhã e ia até as três da tarde.  Esse turno era conhecido como o turno da fome.

Nunca vi Bibi contar pessoalmente o que viu no banheiro. Mas as colegas dela diziam pela escola toda que Bibi ouviu passos atrás dela, quando se virou viu uma Sombra Misteriosa querendo pegar ela, foi então que ela gritou e desmaiou. Eu acho que Bibi só contava o que viu pra suas colegas mais próximas.  O boato da sombra e do desmaio só faziam alimentar o meu temor de andar sozinho pelos corredores do colégio, medo de me deparar com a Sombra Misteriosa.

 

2 

No dia seguinte, a molecada da minha classe foi pro matagal que existia dentro da Escola Senhora Pereira e perto da velha quadra esportiva que não tinha cobertura. A gente foi pra lá mesmo naquele sol de uma da tarde que era o momento do intervalo. Quando não tinha merenda escolar, a gente corria pra lá, pro matagal pra fazer travessuras. “Ei, seus moleques das pestes! Saiam daí, bando de miseráveis!!”, era o Porteiro da nossa escola nos chamando. “A Diretora já avisou que não é pra ninguém entrar nesse mato aí!! Bando de Demônios!!! É perigoso!!”. A gente saiu aos gritos e rindo. 

O Porteiro se irritou: “Ora essa!!! Me respeitem!!! Vocês sabem que tem uma Sombra Misteriosa por aí, na escola querendo pegar alunos, não é??!!! Ficam aí rindo mas não sabem do perigo!!! Cuidado viu??!!”. Aí a gente logo se calou. Quanto a mim, voltou aquele meu medo, aquele mesmo medo que tinha sentido quando soube dos comentários da Sombra Misteriosa que quase pegou a Bibi.


3

O Porteiro era um senhor muito magro, branco e cheio de pintinhas vermelhas pelos braços. Trajando calça e sapato social de cores preta, camisa de botão cinza e sempre carregava um caderninho para anotar os nomes dos alunos danados pra entregar pra diretora. Ele tinha a cara chupada, usava no pulso esquerdo um grande relógio prata de ponteiros. Dois dias depois de ter nos repreendido, se sentou perto da gente, lá embaixo da Castanhola que existia entre os dois principais pavilhões da escola. Essa árvore era um dos principais pontos da escola onde a gente gostava de se reunir pra falar de filmes, desenhos animados e outras coisas. Mas por aqueles dias a gente só falava da Sombra Misteriosa. Acho que o Porteiro ouviu o que a gente falava sobre o que tinha acontecido com Bibi, se aproximou da nossa roda de conversa, sentou na grande raiz da Castanhola e aí passou a narrar algumas histórias que ele tinha presenciado na Escola Senhora Pereira: 

“Escuta aí meninos”, mas tinha algumas meninas com a gente, “Já vi muita coisa por aqui, nessa escola. Vi mesmo, sabem!? Eu já trabalho aqui como porteiro dessa escola já faz muito tempo. Sabiam disso? Não sabiam, né? Quando comecei a trabalhar aqui nessa escola, essa avenida aí, que passa aí na frente, Avenida Barão do Rio Branco, não era nem pavimentada. Era só piçarra. Aí era muita lama no inverno e poeira demais no verão. Até o dia de domingo eu venho pra cá, pra reparar a escola de vocês. Eu fico vigiando tudo isso aqui no dia de sábado, domingo até feriados.

Uma vez, eu tava sentado bem ali, perto da sala da diretora. Era um feriado. Não lembro qual era o feriado. Nesse dia, já ia dar meio dia quando comecei a ouvir um choro e um gemido que vinha de longe. Assim, sabe, de alguém agoniado. Esse lamento vinha do final do pavilhão A. Pensava que fosse algum animal, um cachorro. Eu fui até o pavilhão e percebi que o choro vinha lá da última sala, que fica perto daquele coqueiro ali, tão vendo? É aquela sala ali perto do coqueiro. 

Eu fui andando devagarinho pelo corredor até chegar lá, na sala. O choro continuava e ficava mais alto. Peguei a chave desse compartimento e abri bem devagarinho. Aí o choro parou, o gemido parou. Abri a porta e não vi ninguém. Entrei na sala. Olhei pro lado e pra outro lado. Entrei mais um pouco. Aí a porta se fechou sozinha atrás de mim. Quando me virei, eu vi dois jovenzinhos, um menino e uma menina, eles eram brancos demais. Eles eram gêmeos e tavam de mãos dadas. Na verdade, eram duas crianças. Acho que eles tinham cinco anos de idade. O rosto deles tava muito pálido e com olheira bastante roxa. Dizem que esses dois gêmeos foram os primeiros a se matricular aqui na Escola Senhora Pereira e só andavam juntos. Qualquer lugar que fossem, eles só andavam juntos: na igreja, nas viagens de família, sempre ficavam doentes juntos. Choros e alegria sentiam tudo isso juntos. Aí acabaram também morrendo juntos.

Foi um acidente que teve aí na frente da Escola. Tavam ainda terminando a construção dessa a avenida aí na frente. Nessa obra tinha muito caminhão, trator e operários trabalhando na construção dessa via. Uma das caçambas cheia de pedras, depois de despejar todas essas pedras, foi fazer uma manobra que acabou atingidos os gêmeos que viam pra cá, pra escola. Aí não sobreviveram. E desde então, a visagens dos gêmeos passaram aparecer aqui na Escola Senhora Pereira. A sala que eles aparecem é a sala onde eles estudavam. 

 No momento que abri a porta dessa sala não vi eles dois porque tavam escondidos atrás da porta. Eles falaram pra mim: ‘Por favor, Seu Porteiro, tire esses algodões do nosso nariz, por favor, tire esses algodões’. Aí começaram a chorar e vieram pra minha direção e gritaram bem forte: “TIRE ESSES ALGODÕES DO NOSSO NARIZ!!!!!!!!”.

Eu me ajoelhei e comecei a rezar. Eu sentia que eles se aproximavam de mim e continuavam pedindo pra eu tirar o algodão do nariz deles. Nesse momento falaram mais calmo perto do meu ouvido: ‘Por favor, tire esses algodões do nosso nariz, olha pra nós, por favor, olha pra nós, tira esses algodões, tira esses algodões!! Por favor!!’. Comecei a sentir aquele cheiro de hospital, de álcool e mertiolate.  Aí rezei mais ainda. Depois teve um silêncio e aquele cheiro de hospital tinha passado. Quando abri os olhos, os gêmeos não tavam mais lá. Aí não perdi tempo. Abri a porta da sala e sai correndo. Nem olhei pra trás. Eu só vim pra cá no outro dia pra trabalhar”.

O Porteiro tomava um cafezinho tranquilamente e ficou pensativo. Eu e os demais colegas ficamos estáticos com aquela história dos Gêmeos do Algodão no Nariz. “Olha”, voltou a falar o Porteiro, “Ontem mesmo vi de longe essa Sombra Misteriosa andando nessa matagal da escola. Eu vi ele passando assim, lentamente se olhar pra mim. Logo me benzi quando esse vulto passou. E era meio dia também. Aqui na Escola Senhora Pereira, visagens aparecem mais nesse horário de meio dia ou uma tarde”. Eu percebi que até o Capacete, que era o menino mais endiabrado e corajoso da escola se tremeu de medo.

O Porteiro deu último gole de café. “Aqui na escola aparece a alma da Menina das Flores. E sabem de uma coisa. Ela aparece também por ali, perto do matagal da escola. Toda vez que ela vai aparecer tem uma chuva de flores. Mesmo não tendo nenhuma planta florida por perto, mesmo não tendo nenhuma nuvem no céu, acontece essa chuva de flores. A chuva de flores é um aviso, um sinal que a visagem da Menina das Flores vai aparecer. 

Essa visagem vive chorando...”, ele parou um pouco de narrar e suspirou. E chamou: “Ô, Dona Gracinha, por favor, me traga mais um cafezinho aí”. Dona Gracinha era uma mulher negra e servente da escola e que morava lá na Rua Comandante Assis, próximo do Rio Castanhal. “Ô, Seu Jurandir. Tá contando caso de assombrações pra esses moleques?”. O Porteiro pegou na xícara de café e respondeu: “Tô sim, Dona Gracinha”. Ela riu e falou: “Conta aquela história da Menina das Flores pra eles”. Jurandir emendou: “Já tô falando sobre ela. Obrigado por trazer o café pra mim”. Ela riu novamente e voltou pro pequeno hall da escola. O Porteiro que segurava com a mão direita a xícara de café quente, contou pra gente quem era a Menina das Flores.


4 

 “Ela morava aqui perto dessa escola. A casa que ela morava fazia fundo ali, perto da Caixa D’Água da escola, perto do matagal. Mas a escola ainda não existia não. Menina das Flores morava ali, isso era no tempo do trem. Vocês sabem, seus danados, que essa avenida aí era aonde passava o trem. Depois que o trem foi desativado, fizeram essa avenida aí. Aqui, tudo isso aqui, nesse tempo do trem, era só mato. Não tinha essa escola não, não tinha esse monte de casarões, casas e ruas quem tem no arredor da escola. A casa da Menina das Flores era uma das poucas casinhas que existiam por essas bandas. Aqui perto onde ela morava, era quase uma pequena vila.

A Menina das Flores morava com sua Tia. Era a casa de apenas duas mulheres. Ela e Tia. A Menina das Flores era conhecida assim porque ela gostava de flores e cuidava de muitas plantas que floriam. Todo homem que via essa garota se apaixonava. Dizem que ela tinha dezenove anos. Era branca, olhos azuis e longos cabelos loiros como ouro. Dizem também que sempre usava vestidos folgados que dava pra ver seus seios.

Ela nunca teve namorado e dificilmente saía de casa. Só saía nos dias de domingos pra ir pra participar da missa lá na Igreja Matriz São José Operário. Era quando os todos homens e todas as mulheres de Castanhal se deparavam com a aquela beleza. Ela tinha o costume de seguir pra igreja a pé, andando, sem pressa, assim, bem pertinho da estrada de ferro, assim, bem nas margens da ferrovia; não olhava pros lados, sempre de cabeça baixa que tava coberta com véu branco muito velho.

O único homem da cidade que tinha o prazer de tocar nela o era o padre da matriz. A Menina das Flores, sempre depois da missa, ia até a sacristia pra pedir benção ao pároco. Este, além de sentir os lábios quentes da garota nas suas mãos, poderia pegar na cintura dela e conduzia ela até um banquinho da sacristia onde as vezes conversavam ou onde ela fazia suas confissões. A Tia da menina sempre estava ao lado dela. Essa Tia olhava desconfiada pros homens que não tiravam os olhos da sobrinha. Até do padre ela desconfiava. Único momento que a Tia deixava sua sobrinha sozinha, era o momento que a jovem se confessava com padre.

A casa delas sempre recebia visitas de homens de vários lugares que traziam presentes e plantas com flores ou só flores pra Menina das Flores. Até homens da capital vinham de trem pra Castanhal pra tentar conquistar a garota. Eles prometiam o mundo pra ela. Esses homens traziam diversos presentes como lindos vestidos, sapatos caros e joias. Mas ela nunca usava esses presentes não. Falavam que apenas deixava essas coisas guardadas. Ela gostava mesmo era de flores. Ela plantava no quintal as flores que recebiam de presentes ou colocavam nos vasos que ela mesma improvisava. Algumas plantas com flores ela colocava nas janelas da casa. 

Contam também que um dos netos herdeiros do Coronel Belizário ficou loucamente apaixonado por ela. A rejeição que ele teve da jovem fez ele enlouquecer. A loucura foi tão grande que passou a andar totalmente nu pela antiga Estação de Trem. Uma vez, sem mais e nem menos, se jogou na frente do trem em movimento que vinha de Bragança. As testemunhas dizem que antes de se jogar ele gritou: “Menina das Flores!! Menina das Flores!!! Eu te amo!!”. 

A minha falecida irmã”, o Porteiro continuava narrando, “me contava que a Tia da Menina das Flores tinha inveja da própria sobrinha. Mas não tinha inveja da beleza da Menina das Flores ou dos presentes que a garota ganhava. A Tia, como a sobrinha, não ligava praqueles presentes caros não. A Tia era linda como a sobrinha. Era também mulher branca, de longos cabelos ruivos, de um ruivo bem avermelhado; e de olhos bem verdes e tinha trintas anos. A inveja que sentia da sobrinha era porque os homens só se apaixonavam pela jovem. Quanto ela, a Tia, não recebia nenhum olhar dos homens que iam até o portão da casa pra levar presentes e flores pra menina. A Tia fazia questão de receber os pretendentes na porta da pequena casa pra ver se algum deles se apaixonaria por ela, pela Tia. Mas os olhos daqueles homens só enxergavam os encantos da Menina das Flores. Isso irritava a tutora da jovem loira.

Teve um dia, contou minha irmã, que os cabelos da Tia se incendiaram de tanta raiva e ciúmes que ela sentiu da sobrinha. Dois homens feitos, de cinquenta anos, um pardo e outro branco, pediram, ao mesmo tempo a mão da Menina das Flores em casamento. Nem a garota e nem a Tia aceitaram aquele pedido. Esse acontecimento fez os cabelos da Tia entrar em chamas. Antes dos cabelos vermelhos se incendiarem, eles ficavam fosforescentes avermelhados. Isso era sinal que a Tia tava irritada. Então, os vizinhos perceberam que todas as vezes que os cabelos da Tia ficavam com aquela iminência de se incendiar, era porque a tia protetora da menina tava com muita inveja e principalmente com muita raiva. Aí nenhuma vizinha se atrevia de criar desculpas pra visitar a Tia da menina, mesmo se era só pra lançar olhares  de cobiça sobre  os presentes que ficavam espalhados pela casa, pois corriam o risco de provar a raiva de fogo vermelho da tutora da jovem. 

Todos os dias a Tia da garota se olhava no espelho do seu pequeno quarto e falava pro seu próprio reflexo no espelho: ‘Eu sou bonita também!! Eu sou linda!! Eu tenho cabelos de fogo como da minha avó! Eu sou linda!! Eu sou tão linda e encantadora quanto a Menina das Flores. Por que eles não me olham??!! Por que os homens não se apaixonam por mim??!!! Me responda espelho!!! POR QUÊ????!!!’, gritava a mulher dos longos cabelos vermelhos diante do seu próprio espelho. Depois do grito, ela se jogava sobre a cama velha e chorava. 

A Menina das Flores sempre ouvia os lamentos da Tia e sentia muita dor por esse sofrimento da Tia, muita dor por aquela bonita mulher que a considerava como sua mãe, mas também sentia desejos proibidos por ela.  A garota saia devagarinho da casa e ia triste pro fundo do quintal. Mesmo triste, a jovem espalhava vida. Por onde ela pisava, nascia plantinhas com flores e todas árvores floresciam. Lá no fundo do quintal, ela também chorava, mas chorava escondida dentro de uma grande flor de margarida. Lá, escondida, chorava baixinho pelo amor proibido que sentia pela Tia.

Um certo dia, a Menina das Flores amanheceu sem vida na sua rede de dormir. Ela dormia na sala da casa. A notícia correu por todas as cidades por onde passava o trem. Ninguém acreditava na morte daquela linda jovem de beleza inexplicável. O padre da matriz ficou abalado. Ele tomava o café e olhava através da janela da sacristia aquele flor que tinha desabrochado lá fora. Ficou abalado porque nunca mais sentiria nas suas mãos o calor dos lábios daquela jovem que se foi. Ele penso na Tia da menina. Aquela Tia de cabelos vermelhos que era tão linda quanto a garota que faleceu. Quem sabe a Tia possa beijar suas mãos quando fosse pedir sua benção.

Esses pensamentos do eclesiástico foram interrompidos quando ele percebeu que começou a chover flores. Isso mesmo, meninos. Tão ouvindo isso?! Naquele dia do falecimento da menina, teve chuva de flores por toda cidade de Castanhal. Nesse momento, os passageiros do trem que vinha de Belém não entendiam porque tava caindo flores naquela cidade. 

No velório, a Tia chorava sobre o caixão: ‘Minha sobrinha!! Por que se foi tão jovem, minha sobrinha!!”. Homens ricos e pobres, brancos e negros, vindos de várias regiões compareceram no velório da Menina das Flores e trouxeram flores de diversas cores para depositar no caixão da menina. ‘Não! Não!’, gritava a Tia junto do caixão, ‘Sem flores!! Sem flores!!’. Ela não deixou ninguém depositar flores no caixão da Menina das Flores. Horas depois, fecharam o caixão e a tutora sempre atenta, não queria que ninguém colocasse nenhuma flor dentro do caixão. ‘Sem flores!’, ela dizia para os presentes, ‘Sem Flores!’. O cortejo fúnebre saiu de baixo de chuva de flores, de flores vermelhas. Mas o caixão tava todo fechado. 

Semanas se passaram. A Tia tava na missa. Depois da cerimônia, ela queria se confessar com padre. Mas acabou desistindo da confissão. Pediu apenas benção do sacerdote e beijou as mãos dele. O pároco deu um discreto e malicioso sorriso. A Tia veio chorando pelas margens da ferrovia. Tava escurecendo. Os cabelos vermelhos da mulher se mexia como se tivessem vida. Não tava passando nenhum tipo de vento. Mas os cabelos se sacudiam, se agitavam e se movimentavam sem parar. ‘Não! Não fui eu! Me deixa em paz! Não fui eu!’, dizia a mulher dos cabelos vermelhos pra si mesma. Ela chegou na sua casa e se trancou no quarto. Desde então não saiu mais da casa, nem pra falar com os vizinhos.

Até que certa noite, os cabelos avermelhados se incendiaram sozinhos. Era um fogo vermelho. Mas desta vez, essa chamas avermelhadas consumiram a própria dona dos cabelos. Consumiu também a cama, as imagens de santos, o quarto, a sala, a rede onde dormia a Menina das Flores, todos os presentes e, por fim, toda a casa. Os vizinhos temeram aquele incêndio misterioso. Mas o que mais deu medo nos moradores foi aquela chamas, era chamas diferentes, chamas vermelhas, bem vermelhas. Os passageiros do trem das oito da noite que partia pra capital, ainda tiveram tempo de testemunhar, dos vagões, aquelas chamas altas que viram quando a locomotiva passou pelas proximidades daquela gigante fogueira de labaredas rubras que se formou.

Olha seus pestinhas, nada de se apaixonar pela Menina das Flores ou de tarem pensando imoralidade na cabeça de vocês”, disse repentinamente o Porteiro, “Tanto a Menina das Flores quanto a Tia viraram almas penadas e a maior parte do quintal da antiga casa delas faz parte do terreno dessa escola. Então, as visagens das duas aparecem aqui, na Escola Senhora Pereira. Ali mesmo, perto do matagal que vocês gostam de tá fazendo travessuras.

Eu mesmo já vi as visagens da Menina das Flores e da Tia. É muito sofrimento viu?! Sofrimento demais delas. Quando eu vi essas visagens era meio dia de domingo. Era uma tarde muito quente e silenciosa. Tava tão silencioso que dava pra ouvir o vento passando pelas folhas secas do matagal. Eu tinha andado em todos os pavilhões da escola e só faltava o 9pavilhão D que fica lá perto dessa mata aí. Quando cheguei na última sala desse bloco começou cair flores do céu. Pensava que caia daquelas castanholas de lá, mas as castanholas não tinha nenhuma flor. E começou a chover flores, muitas flores. Eram flores vermelhas. Aí não demorou muito eu comecei a ouvir choros de uma garota. O choro vinha de trás da última sala lá desse pavilhão que fica perto desse mato que vocês, bando de pestinhas, gostam de tá correndo. 

Eu dei a volta em torno da sala e vi a Menina das Flores de costas pra mim e tava joelhada junto do seu próprio caixão. Ela chorava e dizia assim: ‘Flores! Eu quero flores pra mim! Eu quero flores pro meu caixão! Flores!! Flores pros mortos!! Por favor!! Eu quero flores!! Flores!’. As flores não paravam de cair do céu, mas não caiam dentro do caixão da jovem, não caiam porque as flores eram levadas pra longe, bem pra longe pelo vento que passava na hora dessa aparição. De Nenhuma forma as flores caiam no caixão e nem sobre a garota. A Menina das Flores olhou pra trás e me viu. Era realmente linda, muito bela. Mesmo com rosto levemente roxo, mas continuava bela. Eu fiquei paralisado com aquela beleza. Ela virou novamente o rosto para seu caixão e continuou a chorar e aclamar: ‘Flores pra mim! Traga flores pra mim! Flores pros mortos!! Flores!! Eu quero flores!!! Flores pro meu caixão!’. 

Apesar da sua beleza, eu sentia que não poderia ficar ali. Eu consegui sair da paralisia, a me mexer novamente e aí me virei e logo me deparei frontalmente com a Tia da Menina das Flores. A Tia continuava com os seus encantadores olhos verdes e seus cabelos longos avermelhados. Ela apenas olhava pra mim. Novamente fiquei paralisado. De repente, os cabelos dela se incendiaram, se tornaram aquelas chamas vermelhas. Aí ela veio pra minha direção e passou me empurrar e gritar: ‘Sem flores!! Sem flores!! Tá me ouvindo?! SEM FLORES!!!’. Me empurrava pro mato. Quando seus cabelos acesos tocaram no capim seco e nas folhas secas, tudo começou se incendiar tudo. Eu me desesperei. Passei a sentir muito calor. As chamas vermelhas tomavam conta de todo terreno da escola e a Tia da menina me empurrou pras chamas e eu apaguei de vez. Quando acordei, já tava anoitecendo. Aí, me levantei logo e sai correndo da escola. Só voltei no outro dia pra trabalhar. Mas voltei me tremendo todo de medo”.

O Porteiro ficou novamente pensativo e nos olhou seriamente: “Então, seus moleques. Não ficam por aí na escola aprontando não, viu!? Não vão mais praquele matagal e nem ficam bagunçando pelo banheiro. Agora tem essa Sombra Misteriosa por aí, andando pela escola e assustando todo mundo”. Ele se levantou da raiz da castanhola e voltou para o portão da escola.


5 

Naquele dia voltei pra casa pensando mais na Menina das Flores e na sua Tia do que na Sombra Misteriosa e nos Gêmeos do Algodão no Nariz. Não sabia explicar o que sentia agora. Sentia medo dessas visagens? Ou sentia desejos por Menina das Flores e por sua Tia de cabelos vermelhos? Naquele noite sonhei com as duas mulheres: a Tia e a sobrinha. No sonho, eu estava num quarto que tinha um espelho retangular pendurado em uma das paredes e no meio desse cômodo se encontrava o caixão da garota. Eu me aproximei do caixão e vi a Menina das Flores. Ela parecia que dormia e estava nua no caixão. 

Aí eu beijei os lábios dela que continuavam quente. De dentro do espelho saiu a Tia. Ela estava também nua e vinham pra minha direção com seus longos cabelos vermelhos. Estes se moviam como tivessem vida. Quando a Tia estava perto de mim, seus cabelos se incendiaram. Aí eu fechei os olhos e a Tia me beijou. Era um beijo prazeroso. Abri novamente os olhos e estava diante de mim não era mais a Tia, era a Sombra Misteriosa que me empurrou pra trás e caí sobre o caixão que estava agora vazio. Em seguida, apareceram os Gêmeos do Algodão no Nariz e pediram pra mim: ‘Por favor, menino. Tire esses algodões do nosso nariz’. Foi aí que acordei.

A notícia da Sombra que percorria a escola se espalhou no bairro que eu morava. Papai Touro e Manel Preto conversavam sobre essa aparição lá na cozinha de casa. Nesse momento, eu já me preparava para ir pra escola.

“Que arrumação dessa visagem, né!!”, falou Papai Touro, “Sabe, Manel, isso é sinal do fim do mundo. Quando começa essas coisas assim, por ai, assim, desse jeito, dando susto, aparecendo do nada, sabe?! Isso é sinal do Juízo Final mesmo! Tu sabe, né?! Visagens de meio dia, bebês que nascem falando e com dentes, Bola de Fogo que passeia no céu daqui...tudo isso, Manel, é sinal que tudo isso vai se acabar. Não vai se salvar ninguém desse mundo não. Vou logo te dizendo isso, te prepara Manel”. Manel Preto só se benzia. Eu merendava e ouvia papai falando dessas coisas.

“Ô, moleque do Satanás!”, Papai Touro falou pra mim, “Tu já tá atrasado, né?! Vai logo pra escola! Seu Peste dos Seiscentos! Vai logo pra escola, vai! O mundo vai se acabar, mas tu vai estudar assim mesmo, ouviu!?”.  Eu Levantei da cadeira, peguei meu caderno em forma de brochuras e lápis. Eu não tinha caneta. Aí fui pra Escola Senhora Pereira. Já era quase onze da manhã e o sol já não poupava ninguém. Mas eu estava com pensamento bem longe que nem percebia o calor daquela hora.

E lá, mais na frente, quando me aproximava da escola, eu vi a Sombra Misteriosa e os Gêmeos do Algodão no Nariz que entravam no colégio pelo portão e ainda saudaram o Porteiro. Este ainda disse pras visagens: “Já chegaram?! Tão cedo?!! Podem entrar e bom trabalho pra vocês!”. Mas isso não me surpreendeu. O que me chamava atenção naquele momento era chuva de flores vermelhas que se espalhavam por todo céu ensolarado...

 

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