NAVE VOADORA
Romeu tinha me chamado pra eu ir lá no quintal da casa dele. Ele queria me contar um segredo: “Menino, olha, vou te contar uma coisa. Mas tu não vai contar pra ninguém por aí, pros outros, que te vou te contar agora. Tá bom?”. Naquele quintal arborizado e que fazia fronteira com um grande terreno baldio do nosso bairro, eu confirmei que não contaria pra ninguém. “Olha, vou te contar”, continuou Romeu, “Eu tenho uma planta de uma nave voadora e a gente vai construir essa espaçonave só pra nós, beleza!?”. Fiquei por alguns segundos sem entender. “Uma planta de nave voadora?”, perguntei pra ele. “Sim, seu doido. Uma planta. Planta de uma nave que vai voar por aí. Vou te mostrar só mais tarde. Olha, não vai falar pra ninguém, viu?!”.
Voltei pra casa e fui direto pro fundo do quintal. Lá, eu me encontrei com o nosso cão danado, Lobinho. “O que foi Menino?”, me indagou o cachorrinho, “Tá tão calado e pensativo”. Eu me sentei de baixo da nossa mangueira e ele se sentou ao meu lado. “Romeu tem uma planta de uma nave voadora. Ele vai me mostrar hoje no final da tarde. Mas ele não quer que eu conte pra ninguém. Não vai contar pra ninguém, viu Lobinho?!”. O cãozinho barrigudo de pelagem vermelhada com branco ficou caladinho por alguns segundos e olhou pra mim virando a sua cabecinha de um lado pro outro: “Tá bom menino. Não vou falar pra ninguém. Mas tu me leva pra eu ver também essa planta?”. Eu respondi: “Levo sim, seu danado. Romeu gosta de você. Então acho que ele não vai achar ruim não eu te levar”.
Eu lembro que esse dia era um dia muito ensolarado. Acho que era verão, aquelas dias quentes e de muito vento de Setembro de 1986. Ao redor da cidade de Castanhal existia muitos terrenos baldios e fazendas que nesse período se incendiavam e fazia levantar muita fumaça de queimada, ali, praquelas bandas além do Camping Ibirapuera, praquelas lonjuras pra quem vai pro Rio Janjão. Depois do almoço, eu e Lobinho, subia lá pros altos da mangueira ou da jaqueira de casa pra olhar a fumaceira cinza das queimadas. Lá em cima, a gente também ficava imaginando a planta da espaço nave que Romeu ia nos mostrar. Como seria essa planta de nove voadora? Eu e Lobinho pensava muito nesse segredo de Romeu.
Era por volta das 6 da tarde. O sol avermelhado do final daquela tarde já se preparava para se deitar. O período que chove menos, que é nosso verão, o sol descansa mais cedo. Esse astro descansava ali, depois daquelas árvores que ficavam ali depois do conjunto residencial Jardim Tóquio.
“Olha aqui a planta”, logo falou Romeu lá no quintal de casa. Eu e Lobinho vimos a tal planta. A planta era um papel de caderno onde estava rascunhado algumas linhas que formavam quadrados, retângulos e triângulos retângulos. Linhas tortas e todas desproporcionais. Na parte inferior das linhas estavam quatro pequenos círculos. Era o trem de pouso. “A gente começa a construir a nossa nave voadora amanhã, tá bom? Mas não vai dizer pra ninguém. Tô vendo que trouxe Lobinho. Lobinho! Não fala pra ninguém, ouviu seu cão danado!?”. Dissemos novamente pro Romeu que não íamos falar pra ninguém.
Eu e Lobinho fomos tristes pra casa. Mamãe Branca já preparava o café da noite e Papai Touro trazia pão da taberna do Seu Pioneiro. Eu jantei em silêncio pensando na planta. Lobinho foi pra baixo da cama do meus pais e lá dormiu. No dia seguinte, eu, Lobinho e Romeu fomos a um dos terrenos baldios que tinham ali perto da nossa rua. “Me espere aqui”, disse Romeu, “vou rapidinho lá em casa trazer as coisas que a gente precisa. Já tinha recolhido todo material por aí. Eu volto logo, tá?”.
Não demorou muito ele reapareceu trazendo um carrinho de mão com um monte de objetos velhos: brinquedos quebrados, caixas de papelão, tábuas quase podre, três pneus de carrinhos de bebê que Romeu tinha, “A gente precisa de mais um pneu. Mais tarde eu vou procurar lá no lixão do Camping Ibirapuera”. Também trouxe pregos, ripas, barbantes, cartolina, restos de peças de televisores descartados e pequenas peças de automóveis que ele recolheu nos lixos das oficinas de veículos que tinham pelo bairro.
Depois de cincos dias concluímos a construção da nave espacial. Até que não ficou feia. Lobinho balançava seu rabinho porque estava ansioso para testar aquele transporte voador. “Vamos entrar na nave. Vamos testar pra ver se voa”, ordenou Romeu. Entramos na nave. Só cabia três pessoas. Lobinho ficou no banco de trás. Romeu era piloto e eu era copiloto. Romeu apertou nos velhos botões de televisão que estavam ligados num tubo de imagem toda rachada. Nesse aparelho apareceu a imagem aérea do nosso bairro, Nova Olinda; e toda nave começou a tremer.
O nosso transporte levantou do chão e o trem de pouso se recolheu. Lobinho teve que amarrar o trem de pouso porque começou a tremer muito. Romeu ficou preocupado dessa parte de cair na cabeça de alguém.
Romeu passou a marcha, acelerou e voamos sobre o nosso bairro. A gente voava mais alto que os postes de iluminação elétrica e das árvores. O que nos deu segurança foi que a nave parou de tremer e passou a voar suavemente. “Vamos subir mais. Se segura aí vocês dois! Mais alto vamos!!!!”, falou Romeu todo empolgado e feliz. Aí subimos voando mais alto. Passamos das nuvens e da janela a gente viu toda cidade de Castanhal lá de cima. Romeu fazia grande manobras. “Vamos entrar pra dentro daquelas nuvens que tão juntas ali logo!!”. Passamos tão rápido por dentro dessas nuvens que elas se espalharam.
“Olha ali, menino! Bem ali! É a Bruxa Sonífera voando como uma estrela cadente. Vamos acompanhar ela! Vamos lá agora!!”, mais uma manobra e nos aproximamos dela. “Por Deuses!!”, disse assustada Bruxa Sonífera, “Que máquina voadora mais estranha é essa?!”. Lobinho abaixou o para-brisa da janela ao lado que ele estava: “Ei bruxa!! É nós aqui na nave. Eu, Menino e Romeu! A gente é lá do bairro Nova Olinda! Lá daquela rua que tu sempre vai lá!!”.
Sonífera sempre usando suas roupas jeans e botas pretas. Ela trajava jaqueta da banda Kiss e trazia sobre a cabeça seu inseparável chapéu de bruxa. Ela era uma feiticeira que voava como um super-herói, não voava de vassoura. “Que arrumação é essa?!! Seus moleques danados! Os pais de vocês tão sabendo que vocês tão voando por aí?”. “Quando a gente voltar a gente conta pra mamãe e pro papai. A gente não disse nada antes pra eles porque a gente não sabia se ia funcionar a nossa nave voadora”, respondeu Lobinho.
Ela sorriu e falou: “Sabe de uma coisa?”, se aproximou de nós e pousou em cima da nossa espaço nave e se sentou, “Vou pegar uma carona com vocês. Eu tô vindo voando de muito longe. Tô cansada”. Lobinho gritou da janela pra ela: “Sem problema, Senhora Bruxa. A gente já tá voltado pro Nova Olinda. Pode voltar Romeu”, disse o cão ao Romeu. Nosso piloto fez mais uma manobra e pegamos mais velocidade. Ainda vimos o Dragão da Turma de Dragão voando lá longe, ele levava os membros da gangue lá do bairro Ianetama nas costas dele. Talvez iam para mais uma disputa de território na cidade. Os Soviéticos passaram diante de nós velozmente. Eles estavam na nave Super Tecnológica de Moscou. Ainda bem que não era de noite, porque a gente poderia encontrar voando por aí o Chupa Chupa ou Bola de Fogo. Essa coisa gosta de chupar sangue das pessoas.
Pouco tempo depois, Romeu reduziu mais a nossa altura e voamos sobre o Rio Janjão que ficava lá próximo da Colônia Agrícola de São Raimundo, na rodovia Transcastanhal; seguimos voando para o centro comercial passando sobre a Caixa D’Água da COSANPA, que fica lá na feira da CEASA; do topo da Torre da TelePará e da Igreja Matriz São José Operário.
A gente fazia um
voo agradável e divertido. Mas mesmo assim ainda fiquei pensando se existia
alguma planta de nave voadora. Eu percebi que Lobinho também estava pensando na
mesma coisa. A nossa curiosidade não estava satisfeita. Será que Mamãe Branca
tem alguma planta de nave espacial no jardim dela? Se tiver, eu vou acompanhar o
crescimento dessa planta até nascer a flor onde pode brotar uma nave voadora.
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