MIRIAM


O fogo tomava conta do capim e do matagal do terreno onde ficava o principal campo de futebol do nosso bairro. Ficava ali, no canto da encruzilhada da Rua Kennedy com a Avenida Altamira. Do fundo do quintal de casa se via esse campo. Era tarde de verão daqueles anos de 1980. O fogo avançava sobre o mato seco. Eu e Lobinho corremos pra dentro de casa morrendo de medo daquele fogaréu.

Entramos na cozinha chorando: “Tô com medo mamãe! Muito medo! O fogo tá vindo pra cá, pra nossa casa”. Eu chorava muito. Lobinho se escondeu de baixo da cama da mamãe. “Que arrumação é essa, menino do Satanás!?”, gritou Mamãe Branca, “O fogo tá lá longe, não chegar aqui não! Para com isso!!”. Mas eu continuava assustado. “Oh, meu filho! Eu vou te proteger! Vem aqui, vem aqui pro colo da sua avó”, disse Vovó Miriam.

Miriam era mãe de criação da Mamãe Branca e a gente lá de casa a considerava como a nossa avó adotiva. Miriam era da geração do Tenente Barata, o maior apoiador do Getúlio Vargas do Estado do Pará. No tempo que esse militar era senador, Miriam trabalhou nas casas das famílias pertencentes da elite política baratista da cidade de Belém. Ela conheceu o próprio tenente e foi convidada várias vezes a se juntar à mesa para almoçar ou jantar ao lado da família que recebia Barata como convidado.

Um dia ela se apaixonou e deixou essa vida de empregada doméstica que tinha na capital paraense. Veio com seu companheiro morar na cidade de Castanhal e começaram uma nova vida. A rodovia não estava pavimentada e Castanhal passava por grandes mudanças. Alguns anos depois, seu companheiro faleceu vítima de acidente de trânsito. Lágrimas, tristeza e dor acompanharam Miriam por muito tempo. Mas ainda tinha a sua única filha. Esta fruto da sua paixão. Cuidaria, da sua filha, com todo amor.

Um dia, andando pelas ruas da cidade tomadas por poeiras vindas de inúmeras obras públicas e privadas, se deparou com uma menina muito branca de olhos verdes que carregava uma recém nascida no colo. A menina chorava e não tinha pra onde ir, não conhecia ninguém naquele centro urbano caótico. Chorava discretamente. No meio daquele trânsito desorganizado que nascia na cidade e de uma perturbadora fuligem que pairava por todos os lugares, Miriam não deixou de notar a tristeza daquela jovem garota. Miriam viu ali a sua própria tristeza. Acolheu a jovem que veio do interior, que foi expulsa de casa por ser mãe não adulta solteira. A garota se chamava Branca. Miriam logo percebeu que o destino à deu de presente três pessoas especiais. 

Miriam estava bastante idosa no final dos anos de 1980. Mas sua bondade e carinho não tinham envelhecidos. Essa Mulher parda de cabelos crespos e grisalhos e de olhos castanhos claros, me abraçou e me colocou no colo. “Fica aqui menino, meu medrosinho que adoro muito. Eu vou te proteger. Esse fogo não vai vir pra cá não, esse fogo não vai te pegar não”.  Lobinho veio pra junto dela também. “Ô, cachorrinho danado. Não posso ter tu no meu colo não, só tenho condições de segurar apenas um, viu?!”.

Quanto eu me acalmava, ela conversa com Mamãe Branca e tomavam café daquela da tarde de verão. O afago da Vovó Miriam e o cheiro do café que se espalhava pela casa me acalmaram. Isso me ajudou esquecer das chamas que consumiam o terreno baldio que servia de campo de futebol do bairro.

“Mamãe...oh, mamãe, a senhora tem que parar de fumar de vez. A sua filha me contou ontem que a senhora anda fumado escondida. Que te flagrou várias vezes fumando. Mas que arrumação é essa, mulher!? Tem que cuidar da sua saúde”, aconselhava Mamãe Branca à Vovó Miriam. Esta não se abalava que dizia mamãe. Tomava seu café e olhava para além da janela da nossa pequena cozinha. Ficou pensativa por um tempo e respondeu: “Ah, tu e Néia vivem se preocupando comigo. Vocês duas já tem coisa pra se preocupar demais, né?! Você duas tem que dar conta dos homens de vocês, dos filhos de vocês, de se virar na casa de vocês e ainda ficam se preocupando comigo. Não liga pra mim não, menina. Já trabalhei muito nessa vida, já me apaixonei várias vezes, cuidei de vocês, sempre temi à Deus...tá bom já tudo isso, né?! Por falar nisso...que vontade de fumar, sabe?! Com esse café da tarde então...”.

O fogo cessou e o nosso bairro teve chuva de cinzas. Vó Miram se despediu da gente e foi para sua casa que ficava lá na Rua Comandante Assis, perto da travessa Ipiranga. Ela foi andando tranquilamente e olhava praquele terreno consumido pelo incêndio que é muito comum naquela época do ano.

Alguns dias depois, Miriam faleceu. Eu estava na escola Senhora Pereira quando recebi a notícia da partida dela. Quando retornei pra casa, não tinha ninguém, todos já estavam no velório. Só Lobinho me esperava. Eu fui pra cozinha e vi que almoço estava preparado, percebi também que ninguém tinha tocado na comida. Almocei e segui, junto com Lobinho, ao velório da avó adotiva.

Muita gente presente. Parentes, amigos, vizinhos. Mamãe Branca e Néia no canto da pequena sala de recepção, essas irmãs de criação choravam juntas. Outras mulheres da família estavam na cozinha improvisando a merenda da tarde para oferecer aos presentes que estavam no velório. Novamente aquele cheiro do café da tarde. Esse aroma me fez lembrar daquele tarde que o campo de futebol do terreno baldio estava em chamas quanto Vovó Miriam me acalmava porque eu estava morrendo de medo do fogo.

No final da tarde, no momento que faziam orações no velório, eu vi uma senhora com pano branco sobre cabeça saindo pela cozinha. Ela deu a volta pela casa e saiu já lá na frente sem ninguém vê-la. Mas eu e Lobinho vimos e passamos a seguir. Essa senhora atravessou a Rua Comandante Assis, caminhou pra direção do Camping Ibirapuera e desceu pro rumo das margens do Rio Castanhal onde parou. Ela tirou pano branco da cabeça e então vimos que era Avó Miriam. Lobinho ficou de rabinho em pé e olhou pra mim pra ver seu falava alguma coisa.

Miriam olhou para trás e nos viu. “Seus danados! Tão me seguindo, né?!”, ela sorriu, depois olhou pro rio e falou: “Ah, menino. Lá no meu velório tava muito triste. Não gosto de tristeza não, não gosto de ver ninguém chorando não, sabe?! Queria vim pra cá, pra fumar escondida. Não vai dizer pra ninguém que tu me viu fumando, hein?! Nem tu Lobinho, tá?! Depois de fumar eu volto pra lá de novo”. Ela acendeu o cigarro que tinha tirado do fundo do bolso do vestido que usava. Ficou calada e chorou, era um choro discreto. Mas logo enxugou as lágrimas e falou: “Sabe, menino. É a minha partida. Eu vou sentir falta de todos vocês”. Voltou à ficar em silêncio e continuava fumando.  Com seus olhos serenos ela olhava as águas do Rio Castanhal que passavam lentamente...

 

Comentários

  1. Adorei o conto! Parabéns pelo talento Amigo 👏🏼👏🏼

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    1. Muito obrigado amiga!!! Fico feliz por você ter gostado do conto. Obrigado mesmo!!

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  2. Muito Lindo ! Poético ! Sensível , o jeito que você conta a história parece que estamos vivenciando cada momento narrado! Parabéns 👏🏼👏🏼

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  3. Obrigado por estar sempre acompanhando o blog Correio do Osi.

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