A DIRETORA

 

Lá do canto da esquina a gente já via a nossa Diretora Petra na frente do portão de entrada da Escola Pública Senhora Pereira. Todos os dias ela estava lá, pra verificar se a gente chegava na hora certa. Esbelta, cabelos ondulados, parda e sempre com aparência série. “Esse negócio de tá chegando atrasado na escola vai acabar, viu seus bandos de pestes?! Quem chegar aqui na escola depois do horário não entra mais não, pode ser o filho de qualquer um, até do prefeito, mas não entra mais não. Se eu pegar um de vocês pulando muro da escola vai se ver comigo. Vai pegar suspensão. Nem quero saber se os pais de vocês vão achar ruim”.

Toda minha trajetória colegial estudei na escola Senhora Pereira. Do pré escolar até o último ano do segundo grau. Localizada lá no bairro onde morei e bem próximo de casa. Ali pelos anos de 1980 e até o início dos anos de 1990, Senhora Pereira sofria com falta de carteiras nas salas de aulas e de professores. Era muito comum nesse tempo de a gente ficar sentado no chão da classe pra acompanhar a explicação dos poucos mestres que tínhamos. Apesar dessas dificuldades, tivemos ótimos professores. A Diretora Petra foi uma das gestoras que buscava manter as atividades da escola funcionando, apesar das limitações cotidianas no ensino.

Essa diretora era um terror pra gente. Ela sempre andava pelos corredores dos blocos da escola pra verificar se a gente bagunçava ou se estava matando aula. “Ei, vocês aí, o que tão fazendo aí na quadra da escola? Se tiverem matando aula já vou mandar chamar a mãe de vocês, seus danados! E tu aí, que tá andando em cima do muro aí, vou te suspender e só vai entrar na escola só se trazer tua mãe. Ah, quer dizer que é tu que anda deixando a torneira do banheiro dos homens aberto, né?! Professor! Se esse inseto aí ficar conversando novamente na hora da sua explicação, pode me chamar, que levo logo ele pra falar comigo lá na minha sala e mando logo chamar mãe dele aqui, pra ver o tipo de filho que ela tem hahahahaha. O bora logo, pode limpar e juntar essa merenda que tu jogou aí perto da sala, junta logo e passa um pano, porque aqui na escola não é tua casa não e tu pensa que pode tá estragando merenda escolar desse jeito, seu sem vergonha! Ah, seu molecão, que dizer que tu é da Gangue da Anarquia daqui do bairro, né?! Olha aqui, seu valentão, tu pensa que tenho medo dessa tua turma de rua?  Eu não tenho medo de turma de rua nenhuma não, pode chamar tua gangue que coloco vocês pra correr daqui da escola, ouviu? Seu cabra! Hahahahaha!! Já disse pra vocês mil vezes que vocês não podem jogar futebol no horário de aula, porque vai atrapalhar a aula dos professores. Vamos logo parar com isso aí, agora!!!!”.

O Moleque Capacete era um dos alunos que sempre estava na mira da Diretora. Branco, magrelo e de olhos esverdeados e cursava a sétima série do primeiro grau. Ele era o mais endiabrado da escola Senhora Pereira naquele tempo que eu estava na quinta série do primeiro grau. Todos os professores reclamavam das diabruras do Capacete. Até as serventes tinham queixas desse estudante que não parava quieto em nenhum momento, seja na sala de aula seja na hora do intervalo. Ele estava sempre correndo pelos corredores, jogava águas nos colegas, vivia falando com os seus parceiros de classe nos momentos que os mestres estavam explicando e não parava de fazer bolinha de papel para jogar sobre os professores e contra os seus amiguinhos de sala.

Um dia foi flagrado pulando o muro da escola. A Diretora Petra o suspendeu e ele levou uma surra danada da sua mãe. Quando cumpriu a suspensão, retornou para escola prometendo se vingar da Diretora. Então, Capacete organizou uma reunião com os estudantes mais danados da Senhora Pereira. A reunião secreta foi realizada nos fundos da biblioteca. “Olha, o único jeito de se vingar é fazer Diretora faltar um dia de trabalho”, falou Capacete, “É lançar uma simpatia sobre ela...magia mesmo”, mas foi logo interrompido pelo Romeu, “Ei, Capacete, já tentei todas os simpatias. Parece que as simpatias só funciona sobre os professores, mas com ela não funciona não. É melhor desistir. Ela é muito poderosa”. Capacete insistiu: “Tu já tentou as principais simpatias, Romeu?”. “Já sim, Capacete. Olha, já dobrei várias vezes punho da minha camisa da escola, mas ela não falta, ela sempre vem pra escola. Essa magia atinge os professores, mas nela não. Além de dobrar o punho da camisa, eu pego todos os capins que tem no caminho de casa até a escola, dou nó em todos eles e jogo de volta pro mato, mas não tem efeito, Diretora não falta mesmo”.

Jarbinha tristemente completou Romeu: “É sim, Capacete. Ontem mesmo eu e Corugito do primeiro ano do segundo grau, trouxemos uma acorda e com ela demos nós bem firme no poste de iluminação que fica no canto da escola...foi mesmo que nada, não demorou muito a gente viu a Diretora chegando no seu carro”. Adrianinho completou: “Gente, nenhuma psica dar certo sobre ela...nunca vi isso, gente...”. Irritado, Capacete disse: “Mas eu conheço uma magia que é infalível. É os indicadores ganchos!”, aí ergueu seu indicador da mão direita e fez uma forma de gancho. Adrianinho emendou: “Ah, eu conheço essa simpatia. A gente entorta o dedo indicador em forma de gancho e depois encaixa no dedo indicador de outra pessoa que também faz o gancho e aí a gente puxa na direção contrária. Mas só atinge os cachorros vira latas que gosta de fazer cocô na rua, Capacete. Aí se o cocô do cachorro tiver saindo ele volta novamente pra dentro do cu do doguinho...”. Adrianinho se calou porque todos ouviram um passo se aproximando. “Ah, quer dizer que vocês são feiticeiros, né! Seus bandos de filhotes de lobisomens!! Obora logo pra minha sala, todos vocês!!! Vou suspender vocês por planejar magia e por tá matando aula. Quero ver agora se os poderes sobrenaturais de vocês conseguem livrar da surra que vão pegar da mãe de vocês HAHAHAHAHA”.

Capacete falou baixinho pro Adrianinho quanto eram conduzidos pra sala da Diretora: “Essa Diretora vai me pagar, Adrianinho, tu vai ver só...”

Abertura dos jogos internos da Escola Senhora Pereira. Esse atividade esportiva era um dos mais aguardados no nosso calendário escolar. Naquele ano de 1992, o professor de Educação Física organizou aquele evento no Ginásio Municipal da nossa cidade. Era uma um início de noite de quarta-feira. Músicas, apresentações artísticas, desfiles das equipes que iriam competir. Toda molecada da escola estava bastante entusiasmada com aquele evento. Menos Capacete porque tinha pego outra surra de sua mãe por causa da suspensão por incentivo a prática de magia. 

O professor de Educação Física pegou o microfone e falou: “Pessoal, eu peço silêncio e atenção de vocês pra gente ouvir a nossa querida Diretora. Por favor, venha aqui Diretora Petra, venha nos dar uma palavrinha pra esse grande evento esportivo da Escola Estadual Senhora Pereira, pra gente dar início oficialmente aos jogos”. A plateia ficou em silêncio. Ela se levantou da mesa dos convidados e caminhou até ao professor que segurava o microfone. Nesse momento, Capacete viu que era a oportunidade de se vingar. Ele, ali pela arquibancada do ginásio, no meio de centenas de estudantes e de pais, lançou uma vaia solitária contra Diretora. Outros alunos se sentiram encorajados e resolveram vaiar também. Então, todo ginásio vaiou a Diretora Petra, era uma vaia ensurdecedora. Toda cidade de Castanhal ouviu esse uivos.

Ela não perdeu a postura. Pegou o microfone e falou: “Escuta aqui, seus magotes do Satanás!! Vocês tão pensando que sou o pai de vocês que fica por aí, enchendo a cara de cachaça, hein?! Aqui vocês me vaiam, me vaiam porque tão tudo junto aqui, aí nessas arquibancadas e não consigo identificar a cara de vocês. Mas quero ver, suas bestas feras dos infernos, quero saber se tem alguns de vocês se tem coragem de ir amanhã lá na minha sala vaiar na minha cara, bando de seiscentos diabos!! Aqui tá todo mundo junto, aí na arquibancada! Vai amanhã, lá escola, vai lá na minha sala vaiar na minha cara, vai!!! HAHAHAHAHA”. Com essa risada da Diretora a plateia voltou à ficar em silêncio. Mas um silêncio preocupante. 

Ela largou o microfone e continuava rindo, “HAHAHAHAHAHA!!!”, olhou para cima e lançou dos olhos raios trovejantes que derrubaram uma parte do teto do ginásio que caiu no meio da quadra esportiva. Lá do céu caiu um relâmpago sobre ela. Foi um desespero só que aconteceu lá. Os estudantes e seus pais saíram correndo do ginásio desesperadamente. Ainda deram tempo de ver que aparência da Diretora Petra tinha mudado, depois dos raios, tinha aparecido um chapéu asiático de palha de bambu sobre a cabeça dela, trajava roupa de monge de cor azul escuro e saiam relâmpagos dos seus olhos. Ela soltou outra risada, uma risada mais poderosa: “HAHAHAHAAHAHAHHAHAHAHAHA”, em seguida, ficou em posição de ataque e fez gestos com as suas mãos: “Águia! Serpente! Jaguar!”, e lançou mais raios trovejantes para o lado direito e depois para o lado esquerdo. Olhou para cima novamente e saiu voando passado pela abertura do teto e desapareceu no o céu noturno. Ainda se ouvia e se via trovões reluzentes no interior das nuvens. 

O único que não correu da arquibancada desesperadamente foi Moleque Capacete. Ele estava lá, sentado e angustiado. Angustiado com tudo que viu e disse pra si mesmo: “Droga, essa Diretora é imbatível e o único poder que tenho é a dos indicadores em forma de gancho que só age sobre os cachorros vira latas que ficam cagando pelas ruas e calçadas da cidade...

 

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