A CIDADE EM GREVE OU AQUELAS ÁRVORES - PARTE 3/PARTE FINAL
A greve dos professores e das professoras da rede de educação pública municipal de Castanhal, organizada no ano de 1980, teve grande repercussão no Brasil. Ou seja, essa experiência de luta do magistério da "cidade modelo" não se tornou conhecida somente no Estado do Pará. Tal movimento pressionou os donos do poder da Amazônia Paraense. Convido todos e todas leitoras do Correio do Osi para acompanhar o final dessa importante história social e política da cidade onde nasci. Boa leitura!
A CIDADE EM GREVE OU AQUELAS ÁRVORES - PARTE 3/PARTE FINAL
Era dia 02 de maio de 1980 e o Batalhão da Polícia Militar de Castanhal enviou inúmeros soldados que ficaram de prontidão não somente na frente do prédio da prefeitura, mas também outras guarnições da polícia militar ficaram observando a movimentação da multidão na praça pública. Os soldados da polícia militar se espalharam por vários pontos da Praça Matriz São José e ocuparam o meio fio da Avenida Barão do Rio Branco e as frentes de alguns estabelecimentos comerciais. Havia um carro som no meio dos manifestantes onde discursavam os representantes de várias entidades. Gritos de protestos e exibição de cartazes e faixas pelos professores e apoiadores atraíam mais e mais pessoas para a praça pública.
Novamente Almir Lima ficou nervoso. Não
parava de falar para seus assessores para ficarem atentos. Ele acreditava que
toda aquela multidão poderia ocupar o prédio da prefeitura. O chefe de gabinete
Antônio Jatene parecia mais nervoso que o prefeito. Andava para cima e para
baixo no interior do prédio. Convocava todos os funcionários presentes para
darem todo apoio possível aos soldados que estavam na recepção. Como era uma
manhã nublada e abafada, os servidores municipais não sabiam dizer se o suor
que manchava a blusa de botão do Antônio Jatene era de nervoso ou do calor. Risadas
discretas ocorriam na cozinha e nas salas da administração. Almir Lima estava
junto do advogado da prefeitura, Waldemar Vianna. Este não saia de perto do
prefeito. Sempre orientando o que Almir Lima deveria falar quando encontrasse
com a comissão dos professores grevistas.
Antônio Jatene entrou no gabinete dizendo que a comissão já estava na recepção. Subiram até a sala do prefeito nove professores, os advogados Sílvio Almeida e Telmo Marinho e o deputado estadual Ademir Andrade. Antônio Jatene, nervoso, fechou a porta do gabinete e disse para a comissão que somente seis pessoas entrariam para falar com o prefeito. As professoras e os professores disseram que aquilo era um absurdo e forçaram a entrada. Antônio Jatene chamou a polícia. Ele não chamou. Ele gritou pela polícia.
O delegado da
Delegacia Central de Castanhal estava no prédio e subiu de imediato. Mas os
advogados que acompanhavam os grevistas pediram calma aos professores e
professoras e ao chefe do gabinete. O delegado retornou junto aos soldados.
Depois de uma breve negociação, entraram seis pessoas na sala do prefeito.
Entre eles o advogado Sílvio Almeida e Ademir Andrade. Estes e os quatro
professores se depararam com uma aparência cansada do prefeito Almir Lima.
Todos os presentes no gabinete se sentaram junto à mesa do prefeito. Menos
Antônio Jatene. Ele ficou de pé próximo da porta de entrada. Depois da cobrança
dos professores pela reivindicação do magistério castanhalense, mesmo abatido,
Almir Lima se levantou e pediu mais uma vez outro tempo para pensar na
possibilidade de pagar o salário mínimo. Pediu a suspensão da greve. Em troca,
o prefeito não descontaria os dias parados e nem faria qualquer punição aos
grevistas.
Houve um breve silêncio. Uma das professoras presentes no
gabinete disse que quem poderia decidir pela suspensão da paralisação eram os
professores que estavam lá fora fazendo protesto. Nesse momento, um dos
assessores perdeu a cabeça com a comissão. Disse que aquilo era um absurdo e
que se deveria suspender a greve. O advogado dos professores, Telmo Marinho,
saiu em defesa da comissão e, por sua vez, o advogado da prefeitura, Waldemar
Vianna, reagiu insultando o defensor dos grevistas. Travou-se um bate boca no
gabinete. Ninguém se entendia. Antônio Jatene aproveitou a confusão e gritou
que nenhuma prefeitura do Estado Pará paga salário mínimo para os professores
da rede municipal.
Enquanto isso a manifestação continuava na Praça Matriz São José. Professoras e professores grevistas, representantes das entidades e pais de alunos apoiavam a paralisação e se revezavam no microfone que estava conectado ao carro som. Quando José Maria Souza, um dos pais dos estudantes presente no protesto, discursava, surgiu, repentinamente do meio da multidão, Almir Tavares Lima Júnior, filho do prefeito, conhecido em Castanhal como Almirzinho. Ele estava extremamente irritado e avançou para agredir José Maria Souza. Mas Almirzinho acertou um soco no rosto da professora Francisca Lobo de Lima. O filho do prefeito não se preocupou com a professora agredida e tentou novamente atacar José Maria Souza. A ação de Almir Lima Júnior foi tão rápida que as pessoas em torno do carro som demoraram a reagir. Então, um grupo de manifestantes passou a perseguir Almirzinho. Este saiu correndo pela Praça da Matriz para não ser pego.
O grupo deixou de persegui-lo. Momento depois
Almirzinho retornou para praça e começou a destruir o carro som e avançou
novamente sobre José Maria Souza e o pegou pela gola da camisa. Mas a multidão
logo reagiu e passou igualmente a perseguir o filho do prefeito que fugiu
desesperadamente pela Avenida Barão do Rio Branco e atravessou em frente de
veículos, motos e bicicletas em movimento. Almirzinho não foi linchado porque
foi socorrido por seu amigo Simão Bandeira que sacou uma arma e ameaçou a
multidão. Assim, eles conseguiram fugir da fúria dos manifestantes. Em nenhum
momento a polícia militar impediu e interveio na violência promovida por Almir
Lima Júnior.
A tensão na praça pública cessou quando chegou a comissão dos grevistas trazendo a proposta do prefeito Almir Lima. O grupo que foi ao gabinete da prefeitura disse para a multidão que era necessário realizar assembleia geral pela tarde para debater a sugestão do poder executivo municipal. Essa pauta da comissão foi aprovada pela maioria absoluta dos manifestantes. Às 15 (quinze) horas, na Sede do Guarani, no bairro Caiçara, houve presença reduzida das professoras e dos professores grevistas. Caia uma forte chuva em Castanhal. Razão do pouco comparecimento dos docentes da rede municipal. Mas a Assembleia Geral foi realizada. A comissão apresentou a proposta do prefeito que correspondia suspender a greve para estudar melhor a questão do pagamento do salário mínimo e do décimo terceiro salário. Em compensação, a prefeitura não puniria nenhum grevista e pagaria os dias parados.
Depois de um breve debate sobre esses temas, a assembleia decidiu de
forma unânime suspender a greve. Houve aplausos e elogios entre os grevistas.
Disseram que já se consideravam vitoriosos porque receberam apoio dos pais dos
alunos e chamaram a atenção da sociedade castanhalense. Os grevistas tinham
plena confiança que a prefeitura atenderia a principal reivindicação do
magistério municipal da “cidade modelo”.
As semanas que seguiram foram de normalização das aulas nas seis escolas municipais que tinha aderido à paralisação. Havia clima de vitória e de desconfiança nos corredores e nas salas dos professores. Os estudantes corriam pelos terrenos das escolas numa verdadeira algazarra. Não se importavam pelo chão molhado e as poças de lama nos campos de futebol.
Aquele ano de 1980
era de muita chuva. Inclusive tinha rompido a barragem do açude do hotel
fazenda Camping Ibirapuera. Lá nos anos de 1970, o proprietário do Camping
Ibirapuera levantou uma barragem no Igarapé Castanhal para possibilitar a
formação de um açude na sua propriedade. No período chuvoso de 1980, a barragem
se rompeu e o excesso de água que se acumulou no açude por causa das intensas
chuvas atingiu dezenas de casas que ficavam às margens do Igarapé Castanhal.
Então, nas escolas municipais só se conversavam sobre a as famílias
desabrigadas e sobre a greve.
Trinta dias se passaram e o prefeito Almir Lima decidiu novamente não atender as duas principais reivindicações dos grevistas: o pagamento do salário mínimo e do décimo terceiro. No dia 02 de junho, Almir Lima e seus assessores concluíram que se a prefeitura atendesse as reivindicações, isso afetaria o orçamento municipal daquele ano de 1980. A decisão da prefeitura chegou ao conhecimento do magistério castanhalense. Isso provocou grande comoção entre as professoras e professores. Um verdadeiro clima de decepção e de revolta tomaram as seis escolas municipais da zona urbana da “cidade modelo”.
No dia 08 de junho todas as escolas municipais da cidade estavam
com os portões fechados. Na Escola Padre Severiano Santos, localizada na
Avenida Altamira, no bairro Nova Olinda ou Ajuricaba, os estudantes decidiram
subir e se sentar no muro da escola, pois já sabiam que a greve tinha
recomeçado. Nesse mesmo dia, as mestras e mestres foram para Casa de Cultura
para realizar uma Assembleia Extraordinária, mas os paredistas encontraram a
repartição pública municipal totalmente fechada, o que revoltou mais ainda os
professores. Os grevistas decidiram fazer protesto ali mesmo, na frente da Casa
de Cultura. Sabiam que o prefeito Almir Lima estava colocando dificuldade para
organização da greve. Mesmo do lado de fora, ali, no meio da rua, embaixo de
sol insuportavelmente quente, decidiram retomar a paralisação.
Na manhã do dia 09 de junho, na Escola Municipal Padre
Severiano Santos, onde se reuniram as professoras e professores grevistas e os
representantes da Prefeitura de Castanhal, os assessores e o chefe de gabinete
Antônio Jatene tentaram convencer o magistério castanhalense de não retomarem a
greve. Os assessores do prefeito Almir Lima afirmaram que ele atenderia as
reivindicações no próximo ano, 1981. Mas os representantes do prefeito
encontraram os mestres muito seguros e decididos a continuar a greve. Pouco depois
ocorreu um bate boca entre alguns professores e assessores. Antônio Jatene saiu
nervoso da escola. Não saberia o que diria ao prefeito Almir Lima. Chamou os
assessores e foram embora antes que os professores resolvessem pressionar mais
ainda.
No dia 12 de junho, trinta professores castanhalenses foram para Belém. Com apoio da APEPA, foram fazer protesto na Assembleia Legislativa do Estado do Pará. A intenção era de chamar atenção dos legisladores estaduais do péssimo pagamento que os professores da rede municipal de Castanhal recebiam. A maior parte dos deputados foi pega de surpresa com ocupação das galerias por professoras e professores que vieram da “cidade modelo”. Gritos de protesto, exibições de cartazes e faixas foram promovidos pelos grevistas na galeria. Em seguida, o magistério castanhalense foi até o Palácio Lauro Sodré para pressionar o Governador Alacid Nunes.
As professoras e os professores desejavam
que o chefe do executivo estadual pressionasse o prefeito Almir Lima para
atender as suas reivindicações. Alacid Nunes sabia do movimento grevista que
eclodiu em Castanhal. Sabia também que várias entidades de esquerda, sindicatos
e associações de Belém apoiavam a paralisação do magistério municipal
castanhalense. O governador ficou refletindo que realmente o Brasil passava por
mudanças políticas que estavam alcançando todas as regiões brasileiras e o
Estado do Pará. A redemocratização ganhava cada vez mais força. A democracia
era inevitável. A chegada daqueles profissionais da “cidade modelo” correspondia
a representação da mudança que o país passava. Alacid Nunes deu ordens a seus
assessores para permitirem que os grevistas entrassem no seu gabinete.
Alacid Nunes se sentou a sua mesa com postura firme e com sorriso paternalista. Ele pensou para si mesmo que seria necessário desmotivar esse movimento grevista a qualquer custo. Mas precisaria ser estratégico, precisaria convencê-los de recuar dessa ação coletiva que ganhava cada vez mais espaço nas páginas da imprensa da capital paraense e, ainda por cima, recebia apoio de várias entidades e partidos políticos de Belém.
O governador teve o seguinte pensamento: e se toda essa mobilização social e política se espalhasse por várias regiões do interior do Estado do Pará? Enquanto meditava sobre essas possibilidades, as professoras e os professores castanhalenses se acomodavam no gabinete do governador. Alacid Nunes logo observou que não somente ele estava com postura firme. Percebeu que o magistério municipal da “cidade modelo” também entrou com firmeza e confiança no gabinete e todos aqueles mestres e mestras traziam olhares de cobrança, de pressão.
O governador Nunes ensaiou uma
boa vinda, mas logo foi interrompido por uma professora que expões porque se
encontravam ali perante ele. Ela narrou todas as dificuldades que o prefeito
Almir Lima criou para impedir uma solução para encerrar a greve. A professora
falou da necessidade de aumentar os ganhos dos mestres e mestras de Castanhal,
porque com o que se ganha atualmente, naquele ano de 1980, era impossível de se
manterem. Como Almir Lima era do mesmo partido político (PDS) do governador, os
grevistas vieram para cobrar que o Governador do Estado convencesse ou
pressionasse o prefeito de Castanhal para atender as reivindicações dos
grevistas.
Alacid Nunes se sentiu pressionado. Então logo descartou a tentativa de fazê-los suspender a paralisação, de desistir do movimento grevista. Ele se levantou de sua poltrona com um sorriso constrangido e chamou um dos seus assessores e este o trouxe um papel com algumas anotações, com alguns números rascunhados. As professoras e professores perceberam que o governador já tinha uma proposta para eles e Alacid Nunes, por sua vez, recorreu logo a essa segunda estratégia. Em seguida, o governador Nunes anunciou para os presentes que tinha uma “fórmula” para solucionar todos os problemas que os levaram até Belém. Ele se sentou novamente na poltrona. Os professores o cercaram. Nunes apresentou sua fórmula: as professoras e os professores leigos teriam um reajuste de 100% sobre o atual ganho. Quanto às professoras e os professores regentes e normalistas teriam reajuste de 70%. O governador Alacid Nunes disse que aquela “fórmula” era adequada diante da crise econômica que o Brasil passava e ideal para a Prefeitura de Castanhal até possibilitar o pagamento do salário mínimo para o magistério castanhalense.
As mestras e os mestres se olharam e
concordaram. Mas perguntaram se teriam garantia que Almir Lima acataria essa
“fórmula”. Alacid Nunes imediatamente disse que ligaria para o prefeito de
Castanhal e o mandaria vir até ao Palácio Lauro Sodré para apresentar a
“fórmula”.
Almir Lima tomava um cafezinho na cozinha do prédio da prefeitura quando ouviu os berros de Antônio Jatene que vinha do gabinete. Almir Lima logo pensou que seriam novamente os grevistas chegando até a prefeitura, mas ele lembrou que os representantes do magistério de Castanhal estavam em Belém. O chefe do gabinete chegou até a cozinha e disse para o prefeito que o governador Alacid Nunes o esperava no telefone. Almir Lima subiu até o gabinete apressadamente. Entrou na sua sala executiva e pegou o telefone.
Antônio Jatene, que veio logo atrás do prefeito, estava na porta do gabinete e
não pôde ouvir o que dizia Almir Lima. Depois de alguns minutos, o prefeito
desligou o telefone e olhou para o seu chefe de gabinete e disse que eles
deveriam ir o quanto antes para Belém para se encontrarem com o governador.
Almir Lima olhou para seu relógio de pulso. Viu que faltavam poucos minutos
para o meio-dia. O prefeito suspirou
porque não teria tempo para almoçar.
No dia 17 de junho de 1980, às 10 (dez) horas da manhã, na sede dançante e arborizada Taboquinha Bosque, no bairro Estrela, as professoras e os professores da rede municipal de Castanhal que organizaram a greve comemoravam o acordo firmado entre eles, o prefeito Almir Lima e o governador Alacid Nunes. O prefeito de Castanhal aceitou a “fórmula” e a proposta do chefe do executivo do Estado do Pará. A greve que durou dois meses, com uma suspensão de 30 dias, havia terminado. Pouco antes de declararem a suspensão da greve, o porta-voz do prefeito, Joaquim Amóras Castro, que estava no Taboquinha Bosque, leu para todos que estavam presentes o termo de compromisso assinado por Almir Lima e Alacid Nunes. Ao ouvir a leitura do documento oficial que comprometia a prefeitura para o reajuste dos ganhos do magistério da “cidade modelo”, ouvia-se um só grito de vitória. As árvores históricas que existiam na sede Taboquinha Bosque comemoravam junto com as professoras e os professores de Castanhal.
As árvores da sede dançante lançaram diversas folhas e pequeninas sementes para saudar a luta, a mobilização, a manifestação e a vitória daqueles homens e mulheres que construíram aquela cidade fundada por imigrantes nordestinos. A greve do magistério municipal de Castanhal ficou na memória. Assim como ficaram também na memória as árvores do Taboquinha Bosque.
Referência:
OSIMAR, DA SILVA BARROS. Foi algo que nunca aconteceu: por uma História Social de Castanhal. Tese de Doutorado. UFPA/2020.
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