KARATÊ KID FU


 

1-     Elogios       

Eu usava meu quimono de karatê e caminhava todo besta pela rua de casa. “Égua! Tu conseguiu te matricular!!?”, “Que roupa bacana, parece aquela roupa de ninja”. Mais besta eu ficava. Pra ficar mais apresentado eu colocava minhas mãos na cintura e fazia cara de pessoa adulta: ficava bem sério. “Puxa, naquele dia fui lá, mas não tinha mais vaga pra fazer karatê. Puxa, queria treinar também”, falou tristemente Romeu.

 A Molecada da Rua de Casa comentava e lamentava sobre aulas de karatê que logo tiveram as vagas esgotadas lá no Sesc, que fica lá da Barão do Rio Branco, que fica lá na cidade onde nasci, Castanhal. Eu trenei karatê no ano de 1990 e tinha conseguido me matricular nessa aula de defesa pessoal e já estava mais de oitos dias treinando. “Ei, mostra aí pra gente algum golpe que tu já aprendeu lá. Mostra ai, vai!!”. Eu atendia de imediato o pedido dos meus amigos. Assumia a postura de carateca e “Iáááá!!!”. “Égua!! Bacana!!”, eles gritavam. “Mostra outro golpe”. Usava as pernas para o ataque e mãos e braços para defesa e gritava mais forte: “IIIIÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!!!!!”.

2-     Quimono 

Meu quimono era feito de tecido brim cru. De um cru bem encardido, mais exatamente de um branco sujo. Foi que Mamãe Branca conseguiu comprar com muito custo, ela tinha um dinheirinho escondido e comprou que podia para encomendar a costura daquele corte muito estranho pra ela. A costureira, quem não lembro a pessoa e nem o nome, sorriu quando meu viu vestindo aquela roupa feita daquele pano que parecia estopa toda embolada. Mamãe percebeu aquele sorriso sarcástico da costureira e logo pagou pelo trabalho dela e me pegou pela mão, em seguida, saímos de mãos dadas. Eu ia todo feliz vestido de quimono e mamãe tristonha. Não entendia aparência dela. Mas eu estava alegre. Andava de quimono todo orgulhoso, porque treinaria karatê.

Eu estava tão feliz que dormia vestido com quimono de brim cru. Mesmo suado depois de uma tarde de treinamento, mas dormia assim mesmo com aquela roupa toda suja e úmida. “Menino doido do Cão! Tira essa roupa pra me lavar!”, dizia Mamãe Branca. Mas eu não tirava. Além de andar de quimono pela rua de casa e dormir com aquela vestimenta, ainda levava lá pra escola pra mostrar pros meus colegas de classe.

3-     Dupla Explosiva

Manel Preto, vizinho açougueiro, de cabelo black power, vinha lá da Feira da CEASA depois de um dia de trabalho e se deparou comigo na rua de casa, e eu, como sempre, usava o quimono: “Moleque!! Tu tá lutando karatê!!!!! Que loucura cara!!! Vamos treinar juntos! Vamos!!!?? Eu luto kung fu, sabia disso?! Assim, a gente faz uma dupla”. Manel logo entrou na sua casa e saiu vestido de uma calça esportiva preta e uma camiseta velha, furada e de cor amarela. Fomos ao campo de futebol do nosso bairro que ficava num terreno baldio. Lá, Eu e a Molecada da Rua de Casa víamos o vizinho dando saltos mortais e girava o corpo lançando golpes com as pernas.

“Agora é tua vez. Mostra aí, menino, mostra aí o que sabe fazer”. Eu tomava meia distância dele e fazia ataque, defesa e contra ataque e “IIIIÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!”. Manel Preto balançava sua cabeça positivamente: “Muito bom, moleque! Agora vamos correr em torno do campo”. Eu e os meus amigos de infância corríamos com o vizinho açougueiro.

No dia seguinte pela tarde eu, Manel Preto e os Moleques da Rua de Casa estávamos novamente lá no campo. Depois de exibir diversos golpes e correr em torno do terreno, Manel preto disse pra mim: “Sabe, menino. Eu e você vamo virar dois grandes lutadores e combater todos os presepeiros dessa cidade. Tu vai ver só. Imagina eu e tu combatendo esse pessoal que anda aprontando por aí!?”. O que ele disse fez eu pensar comigo mesmo: “Eu e Manel lutando contra todo os presepeiros?! Bacana! Vamos sim, Manel, vamos fazer uma dupla e lutar contra os bandidos”.

Mas já queria agir agora e me tornar um super herói o quanto antes. Então, eu vi, nesse instante, ali na encruzilhada da Rua Comandante Assis com a Avenida Altamira, a Gangue da Anarquia. Os membros desse grupo estavam distraídos. Aí eu logo me virei pro Manel e disse: “Vamos agora! Vamos lutar contra aqueles presepeiros ali, agora mesmo, vamos lá!!!”. De imediato eu e o vizinho açougueiro saltamos e pousamos no meio daquela turma de rua e passamos golpeá-los. Eles foram surpreendidos por nossos ataques de surpresa. Ainda se posicionaram para nos contra atacar. Mas sem chance pra eles. Eu e Manel Preto, cada um fazendo retaguarda um do outro, lutamos sem medo contra aqueles jovens presepeiros. Derrotamos a gangue da Anarquia. Em seguida, colocamos as mãos na nossa cintura e rimos.

Lá longe, veio um grito: “Agora é nossa vez seus idiotas!!! Vocês não tem chance com a gente!!”. Nós viramos pra mesma direção e vimos a Gangue da Van que vinha dali, dali de cima da Rua Comandante Assis, eles vinham correndo, já passavam do canal do Rio Castanhal. Eu e Manel Preto não sentimos medo deles. Saltamos e pousamos também no meio daquela gangue. Eles não tiveram chance também. A gente golpeou eles sem piedade. Derrotamos rapidamente essa turma de rua que vinha lá de longe, lá do bairro do Estrela.

Mas quanto comemorávamos mais uma vitória, tivemos outra surpresa. Lá das nuvens veio voando o Dragão Vermelho da Gangue do Dragão, presepeiros lá do bairro do Ianetama. O largado voador trazia todos os membros dessa turma de rua nas suas costas. Eles saltaram sobre nós. Lutamos, lutamos e lutamos. Ao final, só sobrou o Dragão que nos atacou com rajadas de fogo. Desviamos das chamas e golpeamos juntos o foicinho do bicho gigante. Vencemos!!!!!!!!!!!! Mais outra surpresa: de uma nuvem trovejante veio o maior presepeiro da cidade de Castanhal: Papai Touro. Ele trazia os Seiscentos Demônios com ele. Mamãe Branca sempre dizia que com papai ninguém podia, nem os soldados da polícia militar. Mamãe sempre falava que papai era o maior presepeiro da nossa cidade. 

“HAHAHAHAHAHAHA!”, Riu Papai Touro quanto pousava ali perto da Rua Ipiranga, “Vocês dois são incapazes de derrotar meus Seiscentos Demônios!! Ataques esses dois sem piedade!!!Avançar!!!!”. Manel Preto deu um golpe mortal que destruiu mais da metade dos Demônios. Eu girei velozmente no ar e acertei os demais que restaram. Papai Touro não acreditou e gritou inconformado: “Seus Malditos!!!!!!!!! Maldição!!!!Não me esquecerei disso!! Um dia nos reencontraremos!!!”. Assim,  o presepeiro–mor desapareceu como um raio.

Nesse momento, pousou perto de mim e de Manel a nossa heroína do bairro, Bruxa Sonífera. Ela chegou voando e trajava jaqueta Pink Flody, calça jeans, bota preta de couro e sobre a cabeça trazia seu chapéu de bruxa. Com olhos flamejantes e mãos que brilhavam como raios de relâmpagos falou: “Cheguei! Cadê os sacanas das gangues? O Dragão, cadê ele? E o Velho Touro seu pai, cadê? Vou dar um lição em todos eles!!”. Eu e meu parceiro de kung fu rimos da feiticeira. Sem dizer nada pra ela, eu e Manel caminhamos para direção do sol que já se deitava ali por trás do conjunto residencial Jardim Tóquio. Sonífera ficou sozinha lá na Rua Comandante Assis esperando se apareceria algum presepeiro pra ela encher de soco.

“Ei, ei menino. O que foi?!!”, me sacudiu Manel, “Tu se desligou de repente”. Eu olhei ao redor e já estava escurecendo. Os moleques riram de mim. Não me importei com as risadas e fui embora. O campo de futebol ficava próximo do quintal de casa, bastava atravessar a rua de piçarra e pular a cerca e já estava na cozinha onde já encontrava Mamãe Branca preparando o café da noite pra gente jantar.

4-     Lobinho

                    Eu já tinha completado mais de trinta dias de treinamento de karatê e Manel Preto tinha mostrado para mim e para molecada inúmeros golpes de kung fu. Em mais um dia de aula de karatê, o sensei me chamou: “Menino do Bairro Nova Olinda”, sou eu, “Vem aqui no meio. Hoje teremos desafios”, ele se virou para outro garoto que tinha a mesma idade que eu tinha naquele ano de 1990, “Você também, Menino do Bairro do Pirapora, vem aqui pro meio também. Agora vocês dois vão se enfrentar, mostra aí, você dois, o que aprenderam até agora. Quero ver ataque, defesa e contra ataque”.

 Eu estava ansioso por mostrar meus golpes. Inclusive queria mostrar os golpes de kung fu que aprendi com Manel Preto. Eu e o Menino do Bairro do Pirapora nos posicionamos no meio do dojo e o sensei pediu atenção pra nós dois: “Um, dois, três e já!!”. Eu gritei: “IIIIÁÁÁÁÁÁ!!!”, avancei sobre meu oponente. O Garoto do Pirapora também avançou sobre mim e deu um soco certeiro no meu rosto, um verdadeiro soco. Fiquei atordoado olhando para cima e parado e lentamente comecei andar para trás, de costas, ainda com a cabeça olhando para acima e assim segui andando de costas e o sangue escorrendo do meu nariz quebrado. Meus olhos lagrimaram por causa daquele golpe. 

Segui andando de costas e olhando para cima ali, pela avenida Barão do Rio Branco até chegar na esquina da Avenida Altamira onde dobrei e continuei andando lentamente de costas até chegar na rua de casa. Na minha cabeça lembrava todo treinamento de caratê, os elogios dos amigos lá da rua de casa, das dicas de kung fu de Manel Preto. Nada me serviu. Levei um soco bem seguro no rosto que acabou quebrando meu nariz. Que dor, que tristeza. Andando de costas e olhando para cima cheguei em casa, passei pela sala e deitei na minha rede de dormir.

Na manhã do dia seguinte, acordei e levantei da minha rede. Mas não estava mais usando meu quimono de brim cru daquele branco sujo. Tomei meu café com pão e corri para o quintal para brincar com Lobinho. Esse cão já estava com saudades de mim. Eu e ele brincamos pela manhã e pela tarde toda. Lá do fundo quintal, eu e Lobinho, vimos Manel Preto, Bruxa Sonífera e a Molecada da Rua de Casa lá no campo de futebol do bairro onde eles estavam treinando karatê e kung Fu.

Comentários

  1. Muito bom.... sensacional... trouxe várias lembranças dos meus colegas de infância.

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  2. Eu dei cada gargalhada aqui, me imaginei na narrativa. Parabéns!

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    1. Fico feliz por você tenha se divertida com as aventuras do Karatê Kid Fu. Continue acompanhando o blog Correio do Osi.

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