A CIDADE EM GREVE OU AQUELAS ÁRVORES - PARTE 2

 O Blog Correio do Osi está narrando a realização do primeiro movimento grevista da História da cidade de Castanha-PA, localizada na região nordeste do Pará, ocorrida em 1980. A referida experiência foi organizada por professores e professoras da rede de educação pública Municipal de Castanhal.  A participação desses homens e mulheres, nessa paralisação, não podem ser esquecida na História da Amazônia Urbana Contemporânea. A elite política da "cidade modelo", como é conhecida a cidade de Castanhal, e a imprensa local recorreram ao discurso anticomunista como tentativa para enfraquecer essa ação coletiva dos profissionais da educação. Tal estratégia desse grupo político conservador nos mostra que essa tática vazia da construção da ideia de invasão comunista não é recente no Brasil. Fiquem com a leitura da segunda parte sobre greve do magistério da "cidade modelo". 


A CIDADE EM GREVE OU AQUELAS ÁRVORES-PARTE 2

            No dia 17 de abril, às 15 horas, mesmo com ameaça de uma forte chuva, as professoras e professores se reuniram na Casa de Cultura da prefeitura. Debateram sobre o ato público realizado no dia anterior e o tempo de estudo que o prefeito pediu. Nesse mesmo horário, no gabinete da prefeitura, Almir Lima estava reunido com David Sá e as diretoras das seis escolas paralisadas. Irritado, o prefeito decidiu não atender as reivindicações do magistério castanhalense. Ainda mandou avisar aos grevistas que deveriam retornar ao trabalho até o dia 22 de abril. Caso contrário, recorreria ao Delegado Regional do Trabalho. Isso porque a legislação trabalhista proíbe servidores públicos de organizar greve. As seis diretoras se colocaram contra a greve. Mas elas alertaram o prefeito que os ganhos dos professores e professoras da rede municipal não garantem a sobrevivência desses profissionais. David de Amorim Sá concordou com as diretoras. 

             Almir Lima silenciou e baixou a cabeça. Ficou pensativo. Saiu do gabinete falando baixinho para ele mesmo e, em seguida, gritou pelo nome de Antônio Jatene. Pouco antes da finalização da Assembleia Geral dos professores, chegou um funcionário da prefeitura com a mensagem do prefeito. Ele anunciou a decisão de Almir Lima de não pagar o salário mínimo e a ordem da retomar as aulas até o dia 22 de abril. Isso causou uma grande agitação entre os grevistas. Nesse momento caia uma forte chuva acompanhada de raios e trovões. Sem notar a força da tempestade, o magistério municipal da “cidade modelo” decidiu continuar a paralisação.

          No dia 22 de abril as professoras e professores da rede municipal de Castanhal não retornaram para as salas de aula. Reafirmaram a paralisação das atividades educacionais. No dia 23 de abril, às nove horas de uma manhã nublada e abafada, os grevistas realizaram outro protesto. A concentração da multidão foi na Praça Matriz São José, que fica ao lado do prédio da prefeitura. Através de carro som, discursaram sobre a razão da paralisação e convidaram a população a se juntar aos professores na praça. Outro grupo de professores colhia um abaixo assinado em apoio à greve da educação de Castanhal. Pretendiam levar até o prefeito o documento com assinatura dos apoiadores. 

        Almir Lima ouvia os discursos dos paredistas de dentro do seu gabinete. Novamente agitado, o prefeito chamou o chefe de gabinete Antônio Jatene para garantir somente a entrada da comissão de professores. Antônio Jatene desceu nervoso até a recepção e chamou a polícia militar e alguns funcionários. Disse para eles que só entrava a comissão. Retornou ao gabinete. No interior do prédio da prefeitura se via muita agitação. Funcionários preocupados com uma possível invasão e outros rindo discretamente do nervosismo de Antônio Jatene e de Almir Lima.

           A comissão grevista entrou no prédio da prefeitura e foi até o gabinete. Quando entraram na sala do prefeito encontraram Almir Lima de cabeça baixa que deu um bom dia engasgado. Antônio Jatene de pé, ao lado do prefeito, tinha um olhar perdido. Almir Lima levantou sua cabeça e viu as professoras Juventina Alexandre Osório, Raimunda Lima Silva, Nazaré Pantoja Portillo, Maria Luzia Lemos dos Santos, Graça Bezerra, Dubiratan Barbosa e Édson Sousa. O deputado estadual do PMDB, Ademir Andrade, acompanhava a comissão. Almir Lima e Antônio Jatene ficaram desconcertados. Não esperavam a presença de um deputado estadual. Almir Lima se levantou de sua poltrona de supetão e disse a Ademir Andrade que os professores não retornaram às aulas porque estão sendo manipulados por pessoas infiltradas, por comunistas vindos de Belém. Continuou dizendo que a invasão da esquerda em Castanhal estava causando desordem social na cidade. 

        As professoras e os professores logo discordaram do prefeito. Disseram que não há nenhuma infiltração ou qualquer manipulação de comunistas. Mas afirmaram que a greve do magistério de Castanhal recebe apoio de várias entidades como Associação dos Professores do Pará (APEPA), Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Pará (DCE-UFPA), Oposição dos Gráficos, Oposição Bancária e do Partido dos Trabalhadores (PT).

         Ademir Andrade pediu calma ao prefeito e esclareceu que o Brasil vive tempos de mudanças, tempos de redemocratização. Almir Lima, pressionado pela comissão, recebeu os documentos dos grevistas que apresentavam os pontos das reivindicações. O prefeito pediu um prazo de quinze dias para estudar a proposta do magistério. Dessa vez quem saiu irritado do gabinete foi a comissão que foi até a Praça da Matriz e convocou todos os presentes para uma Assembleia Geral pela tarde. Com chuva ou sem chuva, deveria ter a assembleia. 

            Às 16 horas se iniciou a Assembleia Geral na Casa de Cultura. Novamente chovia muito. Mas não impediu a chegada das professoras e professores. Além dos mestres e mestras estavam presentes estudantes das escolas em greve, pais de alunos que apoiavam a paralisação e curiosos. Na reunião decidiram continuar em greve. Ao final do debate houve um tumulto na assembleia. Alguns professores denunciaram que tinha olheiro do prefeito infiltrado na reunião e apontaram para o suposto espião. Todos olharam para o fundo do auditório e viram o chefe de gabinete Antônio Jatene que estava discretamente nos fundos e no canto direito do recinto. Todos os professores apontaram para ele e o chamaram de olheiro. Ele saiu correndo da Casa de Cultura. Mesmo sob forte chuva ele desceu a Rua Senador Lemos, dobrou a direita na Rua Maximino Porpino e virou à esquerda na Avenida Barão do Rio Branco até chegar ao prédio da prefeitura. Subiu a escada até o gabinete de Almir Lima. Antônio Jatene estava todo molhado e disse ao prefeito que a greve continuava.

          No dia 28 de abril, às nove da manhã, uma manhã ensolarada, as professoras e professores em greve realizaram outro protesto na Praça Matriz São José. Na verdade, esse espaço público acabou se transformando no centro da manifestação. Todas as vezes que houve concentração dos grevistas, pessoas que iam ao comércio paravam na praça para ver o protesto daqueles profissionais da educação. Outra vez a comissão foi até o prédio da prefeitura para buscar a resposta de Almir Lima. Dessa vez não havia polícia militar na recepção. Apenas os funcionários do prédio que olhavam com curiosidade os grevistas. Estes subiram até o gabinete. Chegando, viram a porta da sala do prefeito aberta. Entraram. Mas não tinha ninguém. Quando estavam lá dentro, entraram o vice-prefeito Carlos Barbosa e o chefe de gabinete Antônio Jatene rindo. 

          A comissão perguntou por Almir Lima. O vice-prefeito disse que Almir Lima tinha viajado para Brasília para tratar de assuntos políticos. Os representantes dos professores perguntaram qual seria a resposta da prefeitura em relação às reivindicações dos grevistas. Antônio Jatene e Carlos Barbosa não poderiam dar a resposta sem a presença do prefeito. Então, a comissão se retirou do gabinete. Antes de descerem, Carlos Barbosa falou que os professores deveriam saber o valor da remuneração antes de aderir o emprego. Nisso houve um bate boca entre a comissão e o vice-prefeito. Antônio Jatene se escondeu atrás da cortina do gabinete. 

           Os grevistas saíram do prédio e foram até a Praça da Matriz São José e disseram aos presentes que Almir Lima não se encontrava na prefeitura. Ainda compartilharam o desaforo que Carlos Barbosa disse para a comissão. A declaração do vice-prefeito causou revolta entre os manifestantes. Imediatamente agendaram a realização de outra Assembleia Geral.

         No dia 29 de abril, organizaram a Assembleia Geral na sede do Guarani, no bairro Caiçara, às nove da manhã. O tempo estava nublado. Antes de começar a reunião havia uma agitação entre as professoras e os professores. Eles não esqueciam o que o vice-prefeito disse para eles: que os professores deveriam saber dos ganhos antes de aceitar o emprego no magistério municipal. Nesse clima de revolta, o corpo docente decidiu manter a paralisação. 

         No dia 02 de maio, os grevistas retomaram à Praça da Matriz São José. A praça pública não foi ocupada somente por grevistas. Compareceram pais de alunos e os estudantes, representantes da APEPA, PT, PMDB, DCE-UFPA, Comitê de Anistia dos Trabalhadores, Oposição dos Gráficos, Oposição Bancária, SPDDH e alguns estudantes da escola particular Colégio Modelo. Este último era da própria cidade de Castanhal. Junto com essa ocupação se aproximaram os curiosos que foram atraídos pela concentração dos manifestantes. Assim, formou-se uma multidão na Praça Matriz São José. Novamente o prefeito Almir Lima, que já tinha retornado de Brasília, solicitou a presença da polícia militar no prédio da prefeitura. Temia que os grevistas e/ou a multidão ocupasse o recinto da administração executiva municipal. 

                                                    Continua...


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