A CIDADE EM GREVE OU AQUELAS ÁRVORES - PARTE 1

              Há 43 anos eclodiu o primeiro movimento grevista da História de Castanhal-PA. A referida ação de trabalhadores e trabalhadoras foi organizada pelo corpo docente da rede de educação púbica municipal de Castanhal. Esses professores e professoras reivindicavam melhores condições de trabalho e o direito de receber salário mínimo pelo exercício do magistério. A luta desses profissionais da educação municipal da "cidade modelo" serviu de base e de inspiração, ao logo da década de 1980, para inúmeras greves  na cidade de Belém, capital do Estado do Pará; e motivou greves na educação nas diversas cidades na capital e no interior paraense: que eram as séries de paralisações da educação pública estadual. A crônica a seguir está publicada na minha Tese de Doutorado: FOI ALGO QUE NUNCA ACONTECEU: por uma História Social de Castanhal-Pa (1977-1987), UFPA, 2020. 

Boa leitura!


A CIDADE EM GREVE OU AQUELAS ÁRVORES- PARTE 1


        No dia 16 de abril de 1980 Castanhal acordou sobressaltada. Mesmo sendo nove da manhã a “cidade modelo” ainda estava sonolenta para entender aquele aglomerado de gente que caminhava no meio de sua principal avenida. Não era só a cidade que queria entender ou saber a razão da coragem daquele grupo que impedia ônibus e outros veículos de irem para o centro comercial. Os cidadãos castanhalenses também queriam saber quem era aquela gente que caminhava no meio da Avenida Barão do Rio Branco. Homens e mulheres jovens e adultos que passavam andando e pedalando pelas encruzilhadas da avenida, paravam e freavam suas bicicletas para ver a passagem daquelas pessoas. Motoristas de veículos menores e de ônibus urbanos deduziram que seria alguma espécie de procissão religiosa. Não poderia ser um cortejo fúnebre, pensavam os motoristas. Isso porque aquele ajuntamento de gente ia para a direção contrária do Cemitério São José.

           Os moradores das inúmeras residências que moravam ao longo da Avenida Barão do Rio Branco foram para frente de suas casas para ver se conheciam alguém metido naquele aglomerado. Alguns gritos e acenos de mãos foram trocados entre o grupo e os moradores. Então, a cidade e os castanhalenses souberam do que se tratava aquele amontoado de pessoas na avenida: eram as professoras e professores leigos, regulares e normalistas da rede municipal de Castanhal que iniciavam uma greve através de um protesto público. O magistério da “cidade modelo” reivindicava o pagamento de salário mínimo, o 13° (décimo terceiro) salário, o pagamento do FGTS e a recusa de usar um fardamento imposto pela Secretaria Municipal de Educação. As professoras e professores consideravam que uniforme de trabalho era caro e comprometia seus ganhos de seiscentos e 10 (dez) cruzeiros.

         Seis escolas municipais do 1º Grau (ensino fundamental) aderiram à greve. Foram as seguintes escolas: Padre Severiano Santos, Madre Maria Vigano, Graziela Gabriel, Maria de Encarnação, José João e Emília Gimenez. Nessas repartições de ensino estavam lotados 199 professores. A paralisação das atividades escolares levou seis mil alunos a ficarem sem aulas. Algumas professoras que participavam do protesto, como Maria da Conceição, Catariana Barros e Elizabeth Nascimento, eram as mais indignadas pela proibição de lecionar de vestido. Isso porque a Secretaria de Educação estava obrigando as professoras e os professores a usarem uniforme mais caro. As professoras citadas explicavam, ao longo da caminhada, para conhecidos e transeuntes que perguntavam o porquê da greve e do protesto. Elas se aproximavam e buscavam esclarecer para aquelas pessoas com olhares de espanto e de curiosidade sobre toda aquela movimentação no meio da Avenida Barão do Rio Branco. À beira da avenida principal de Castanhal se juntaram homens, mulheres, crianças e idosos. Até os cães vira-latas correram até a via para ver e latir diante de toda aquela movimentação de gente. Latiam não porque eram contra o protesto. Eram latidos de apoio. Tiveram alguns cachorros que acompanharam a manifestação. Outros cães não sabiam o que estava acontecendo. Balançando seus rabinhos de curiosidade, olhavam para o protesto e para seus donos. Eram olhares que pediam explicação. Mas foi em vão.

          Muitos curiosos que sabiam os motivos do protesto aplaudiam e soltavam gritos de apoiam aos grevistas. Outros apenas riam. À medida que a manifestação passava por várias partes da avenida, várias pessoas foram se juntando aos grevistas. Outros foram acompanhando a meia distância, mais por curiosidade. Entre os professoras e professores grevistas estavam estudantes e pais de alunos. Carregavam faixas e cartazes que estavam escritos os nomes das escolas municipais que tinham aderido à paralisação e dizeres de protesto. 

          Os grevistas diziam na manifestação que se indignaram com o prefeito de Castanhal, porque o chefe do executivo criou várias dificuldades para um diálogo entre o magistério municipal e a prefeitura. Esses obstáculos levaram os profissionais de educação a decidirem pela luta, pela resistência e declararam a paralisação das aulas nas escolas municipais. O protesto tomou as principais ruas do centro da “cidade modelo”. Além da Avenida Barão do Rio Branco, passaram pelas ruas Primeiro de Maio, Paes de Carvalho, Floriano Peixoto e Cônego Leitão. Depois de seguirem por essas vias, retornaram para a principal avenida e seguiram para o prédio da Prefeitura Municipal de Castanhal, onde se encontrava o prefeito Almir Lima que pertencia ao Partido Democrático Social (PDS). Enquanto isso no gabinete do prefeito, Almir Lima se encontrava em estado de agitação e andava de um lado para o outro. Na verdade, vários funcionários da prefeitura e o secretário do gabinete, Antônio Jatene, não paravam de andar pelas repartições do prédio. O nervosismo tomou conta de todos. 

         David de Amorim Sá, Secretario de Educação de Castanhal, tentava acalmar o prefeito Almir Lima. Disse ao prefeito que a reivindicação dos professores era justa. Mas discordava da paralisação do ensino municipal. Almir Lima se sentou à sua mesa e baixou sua cabeça, que ficou apoiada pelos braços e ficou pensativo. Balançou sua cabeça negativamente e olhou para Davi Sá e disse que os professores deveriam aceitar a proposta dele. Almir Lima propõe reajuste de 50% parcelado. Seria 25% a partir do dia 1° de março de 1980 e o restante seria a partir do dia 1° de junho desse mesmo ano. O Secretário de Educação de Castanhal lembrou ao prefeito que a primeira parcela não foi cumprida. Enfim, disse David Sá, de qualquer modo, os professores não aceitaram a proposta da prefeitura e decidiram pela greve.

          Almir Lima se levantou de sua mesa e foi até a janela do gabinete. Da janela viu a manifestação se aproximando do prédio da prefeitura. Ficou mais preocupado. Na verdade, ficou mais assustado. Viu que era uma multidão. Chamou seu secretário de gabinete e perguntou se a polícia militar já tinha chegado. Antônio Jatene disse que sim. Almir Lima deu outra ordem: todos os funcionários do prédio da prefeitura deveriam descer e dar apoio aos soldados. O secretário de gabinete saiu apressado do escritório do prefeito e foi convocando o pessoal que ia encontrando nos corredores da prefeitura: auxiliar de administração, atendentes, pessoal da cozinha e dos serviços gerais e entre outros deveriam descer até a recepção e apoiar os policiais no que fosse preciso. Alguns servidores municipais não se importaram com a ordem e se dirigiram até as janelas da prefeitura para ver a multidão que chegava. Queriam enxergar se encontravam alguém que conheciam no meio do protesto.

          A manifestação das professoras e professores chegou à Prefeitura Municipal de Castanhal trazendo uma multidão de curiosos. A sede da administração executiva da “cidade modelo” se localiza no antigo centro arquitetônico castanhalense. Onde, naquele ano de 1980, restavam apenas o Mercado Municipal, a Igreja Matriz São José e o próprio prédio da prefeitura. Lugares em que ocorriam diversos conflitos entre baratistas e antibaratistas. Com a abertura da rodovia Belém-Brasília e a demolição da Estação de Trem de Castanhal e outras antigas edificações, ergueram nesses espaços inúmeros estabelecimentos comerciais. Por essa razão, se tornou um espaço de intensa circulação de pessoas e de mercadorias. Essa dinâmica do centro comercial facilitou a atração de mais curiosos que se aproximaram daquela aglomeração que levantava muitas faixas e cartazes na frente do Prédio da Prefeitura Municipal de Castanhal.

          As professoras e professores grevistas, estudantes e pais de alunos tentaram entrar no prédio da prefeitura, mas a polícia militar e os alguns funcionários da prefeitura os impediram que entrassem logo na recepção. Um verdadeiro tumulto se formou na entrada do prédio. Aquela agitação e o empurra-empurra atraíram gente do comércio, vendedores ambulantes e transeuntes da Praça Matriz São José. Os grevistas queriam falar com o prefeito Almir Lima. O chefe de gabinete Antônio Jatene, bastante agitado, gritava lá de dentro do prédio que ninguém entrasse. Não adiantava forçar. Ouvindo isso, os grevistas forçaram mais ainda sobre os policiais militares e funcionários. Até que uma professora levantou os braços e pediu aos manifestantes que tivessem calma. Ela sugeriu que entrasse uma comissão de cinco professores para apresentar as reivindicações ao prefeito. 

        Depois de alguma resistência, a maioria concordou. Mais calmo, Antônio Jatene também concordou. O prefeito Almir Lima ficou mais nervoso quando soube que uma comissão formada por professoras grevistas estava subindo até a sua sala. O Secretário de Educação David de Amorim Sá pediu ao prefeito que ficasse calmo e sereno. Almir Lima se sentou à sua mesa e esperou as professoras. Elas entraram e olharam diretamente para ele. As professoras nem notaram a presença de David Sá. Almir Lima abaixou a cabeça e ouviu em silêncio as grevistas que diziam que discordavam da proposta da prefeitura e logo perguntaram quando o prefeito pagaria o salário mínimo ao magistério municipal de Castanhal. Almir Lima disse que não poderia responder naquele momento sobre a reivindicação delas e pediu tempo para estudar a possibilidade de pagar um salário mínimo aos professores castanhalenses. As professoras concederam esse tempo e se retiraram. Lá fora, os grevistas decidiram realizar uma assembleia no dia seguinte para debater estratégias da paralisação.

                                                                                                                Continua...

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