RAGNAROK

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“Ulha, pessoal! Lá em cima, no céu! Acho que vai acontecer aquilo que disseram por aí!”. Já fazia alguns dias que muita gente andava tensa pelas ruas do bairro Nova Olinda. "Gente do céu!! É verdade então!! E agora? Eu não me confessei!!". Na verdade, o clima de tensão tinha tomado conta da cidade de Castanhal. “Minha Nossa Senhora!! Eu vou entrar pra dentro de casa, não quero ver isso não!”. Até nos programas das rádios FM e AM comentaram sobre a notícia que andava assustando muita gente. “Chegou informação que inúmeras pessoas estão saindo de suas casas e do trabalho para olharem para o céu. Por outro lado, tem gente se escondendo na própria casa e indo às igrejas para rezar ou orar”, diziam radialistas.

“Ô, Touro”, indagou Manel Preto, “lá na Feira da CEASA tá todo mundo falando desse fim do mundo que vai acontecer hoje, alguns disseram que chegaram ver o Bebê Mensageiro lá na maternidade, viram o bebê falando, falando que o mundo vai se acabar hoje. Disseram que o Bebê Mensageiro é feio demais. Tu tem coragem, Touro, de ver de perto um Bebê Mensageiro?”. Eu estava sentado à mesa de casa tomando café da manhã quanto ouvia Papai Touro respondendo a pergunta: “Tenho coragem sim, não tenho medo não. Não tenho medo dessas coisas não.  Mas Manel, todo mundo sabe que vai ter o fim do mundo, não sei por que desse desespero. Deixa essa porra se acabar. Ninguém presta neste mundo. E tu, preto, tu tinha coragem de ver o Bebê Mensageiro?”. Manel Preto arregalou os olhos: “Deus me livre”, se benzeu, “Não tenho coragem não homem, me livra disso! Tá doidé!!”. Eles conversavam do lado de fora da cozinha.

Eu estava morrendo de medo. “Será o fim do mundo mesmo?!”, pensava. Já fazia dias que os vizinhos falavam que hoje seria o dia do Juízo Final. Eles falavam isso desde que se espalhou a notícia pela cidade que tinha nascido um Bebê Mensageiro lá na Maternidade. Esse bebezinho logo disse, depois do primeiro choro, que trazia mensagem para o mundo, para humanidade: “Eu trago mensagem para todas criaturas deste mundo. Depois de três dias sem nuvem, a Lua e o Sol vão se chocar entre si e o mundo se acabar”. Essa foi a mensagem.

Não era a primeira vez que nascia Bebê Mensageiro. Antes de eu nascer, já tinham nascidos outros que traziam sempre mensagens, alertas e conselhos. Minha Madrinha de Batismo me falou uma vez que um Bebê Mensageiro avisou pras pessoas ficarem vigilantes, porque apareceriam Anjos Celestiais de Resgate que levariam para o céu alguns escolhidos de Deus. Ela disse que muita gente ficou agitada, outros nem dormiram pra ver se via ou se encontrariam anjos voando por aí, pela cidade. Teve gente que viu, lá pras bandas do Morrinho, ali, no final da COHAB, um anjo levando uma criancinha pra nuvens.

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Eu estava morrendo de medo do mundo se acabar. “Me disseram, Touro, que o mundo vai se acabar com fogo, todo mundo vai sofrer, vai ser muito fogo, gritos, desesperos. Me falaram isso o pessoal lá da feira”, disse Manel Preto.  Ouvindo isso, não aguentei, comecei a chorar. Não queria ouvir mais nada sobre fim do mundo. “Não chora moleque doido! Tá vendo que isso não é verdade! Ô, Touro! Ô Manel!”, falou Mamãe Branca da janela para os dois homens que conversavam ali, perto do jirau de lavar louças, “Param de falar disso, de falar dessas coisas de Bebê Mensageiro, de fim do mundo, de fogo, dessas coisas aí. Esse moleque começou chorar aqui na cozinha e eu já tô aqui aperriada pra preparar o almoço de hoje”. Papai Touro entrou na cozinha: “Ô, mas um dia tudo isso vai acabar mesmo! Esse moleque do Satanás tem que saber logo disso. Uma vez tudo se acabou com água, agora tudo vai se acabar com fogo, acho que fogo vai vir lá do céu, lá de cima mesmo, quando a Lua e o Sol se arrebentarem um contra outro”. Ouvindo isso, saí me tremendo de medo para o quintal. 

O cão Lobinho me viu choroso. Ele sabia o motivo da minha tristeza: “Não fica assim não, eu vou te proteger. Vem! Vamos nos esconder ali, em cima do pé de acácia”. Mas eu continuava chorando. Mesmo assim, peguei o Lobinho e o coloquei no meu colo. Ali, naquela árvore, naquele pé de acácia, subi até chegar no galho mais firme. Eu segurava o cãozinho danado quanto escalava. Ali, naquela meia altura, nos sentimos escondidos de tudo. Parei de chorar. Meus pensamentos ficaram vazios. Voltei a si quando Lobinho falou: "Vamos ficar aqui caladinho. Assim, o fim do mundo não vai achar a gente".  Ficamos em silêncio e o vento passou suavemente pelo pé de acácia. Mesmo ali, entre os galhos da árvore, a gente viu, lá no alto, lá longe, a Lua indo ao encontro do Sol...

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