SONHO

 1

Meu irmão Ozias pegou a bicicleta barra circular do Papai Touro e saiu pedalando escondido. Antes de fazer isso, ele me chamou e falou: “Vamos pegar a bicicleta do papai e chamar o pessoal pra gente ir lá pro rumo do Rio Janjão, pra pegar jaca manteiga”. Ele pedalava e eu ia montado na garupa da bicicleta e Lobinho ia sentado na cabeça do meu irmão. Na verdade, quem deu a ideia de pegar a bicicleta do papai foi Lobinho que era um cachorrinho vira lata de raça misturada que tinha uma pelagem laranja escuro com algumas mexas brancas. Esse cão não latia assim: auauauau! Mas latia assim: aahuuuuuuuuuuuuuu! Como os lobos daqueles filmes que passavam na Sessão da Tarde. Por ter esse latido diferente, Mamãe Branca o batizou de Lobinho.

2

Lobinho já tinha chamado toda Molecada da Rua de Casa e a gente já estava na estrada da Transcastanhal seguindo para o Rio Janjão. Era mais ou menos seis bicicletas velhas e cada uma tinha dois moleques lá da rua. A nossa tinha três moleques: Ozias, que ia pedalando; Lobinho e eu.

Nesse dia era sábado de verão e se caminhava para cinco da tarde. Quando a gente descia a estrada poeirenta, o tempo tinha escurecido mais. Mas isso foi provocado por excesso de sombras das grandes árvores que existiam às margens da Transcastanhal, já ali, perto do Rio Janjão. Atravessamos o rio e logo nos enfiamos naqueles terrenos cheios de jaqueiras que ficavam ao lado esquerdo de quem vinha do centro urbano da cidade de Castanhal.

3 

Lobinho nos liderava naquele terreno de matagal e de jaqueiras. Ele usava seu olfato para encontrar qual daquelas árvores frutíferas tinha jaca madura. “Ulha! Ali! Naquela jaqueira tem jaca madura!”, gritou Lobinho. A gente correu pra lá, pra aquelas bandas que apontou o nosso cão. Ozias foi o primeiro a subir na jaqueira que Lobinho tinha indicado. Ozias era louco por jaca. Ele apanhou essa grande fruta e jogo ao chão. Desceu rapidamente e agente começou devorar toda aquela jaca adocicada que se desmanchava nas nossas mãos. Por isso que era chamada de jaca manteiga.

Lobinho balançava seu rabinho sem parar. Ele estava muito feliz por nos ver comer toda aquela fruta gigante. Mas depois ninguém mais encontrou mais jaca madura. Ozias subiu em várias jaqueiras mostrado por Lobinho. Mas não encontrou nenhuma madura, pronta pra ser devorada, nenhuma mesmo. O restante da molecada ajudava também. Tentava encontrar alguma jaca amadurecida em jaqueiras mais distantes. Eu procurava pelo chão, pra ver se achava alguma jaca madura que tinha caído por ali, mas não achei nenhuma não. Só me deparei com aquele enorme sol do final da tarde de verão. Depois de passar por algumas árvores altas e por matagal, acabei achando esse sol. Parecia que essa estrela estava tocando nas copas daquelas árvores ali longe, bem distante, que eram as árvores mais longe daquele terreno onde a gente se encontrava.

4

“Aqui! Aqui! Vem Ozias!”, gritou Lobinho, “Vem aqui! Nessa jaqueira tem duas jacas quase maduras. A gente pode tirar daí de cima e esconder elas. Aí no outro dia a gente volta aqui e as jacas já vão tá maduras”. Ozias gostou da ideia e logo subiu e apanhou as duas jacas quase maduras. Lobinho logo arranjou alguns arbustos para esconder as frutas. A gente escondeu as jacas quase maduras entre os arbustos.

Em seguida, pegamos as bicicletas e voltamos para casa. Já estava anoitecendo quando chegamos na nossa rua. Papai Touro nem sentiu falta da sua velha bicicleta barra circular. Pouco tempo depois, a gente tomou nosso banho e jantamos. Ozias arrumou sua rede de dormir e chamou Lobinho: “Vamos, Lobinho! Vamos logo dormir pro tempo passar rápido pras jacas escondidas ficar logo maduras”. O cãozinho pulou pra dentro da rede e logo pegaram no sono.

5 

A minha rede de dormir ficava armada acima da rede do meu irmão. Também me preparei pra dormir. Como ainda era cedo da noite, não peguei logo no sono. Mas Ozias e Lobinho já estavam dormindo. Não demorou muito e os dois rocavam. Da minha rede olhei pra eles e eles não só roncavam, eles roncavam e sonhavam. Eu vi o sonho deles. Eles sonhavam que estavam correndo livremente num terreno cheio de jaqueiras com jacas manteigas maduras. Eles corriam muito felizes porque iam apanhar todas aquelas jacas maduras. E lá longe o sol brilhava alegremente...

 

 

 

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