LETRAS

 1

A gente seguia por aquele caminho cercado de mato e de grandes árvores. Essa passagem estreita, que passava uma pessoa por vez, ligava a velha casa da Vovó Alda à vários terrenos e igarapés lá da Cabeceira do Apéu. Ao final desse caminho se chegava à rodovia municipal de piçarra chamada Transcastanhal. Do outro lado dessa via, o caminho continuava por uma escolinha pública.

Essa escola tinha forma de casa: erguida toda de tábuas, de madeiras firmes e constituída de grandes janelas: uma na frente, que acompanhava a porta de entrada; e uma de cada lado das laterais do estabelecimento de ensino; e outra aos fundos. Escolinha era pintada de azul celeste e branco. Quem cuidava dessa residência das primeiras letras  e ministrava aula era uma professora que já estava aposentada. Ela era branca, possuía cabelos curtos e grisalhos e de olhos verdes. Sempre usava um vestido longo e de cores básicas.

2

Nesse caminho seguia Vovó Alda, Mamãe Branca, eu e minha irmã Kekel. Caminhamos até chegar à escolinha. Lá encontramos a Professora Aposentada falando alto contra o prefeito. Este estava acompanhado dos vereadores e de um grande proprietário de terras muito conhecido na região. “Os senhores não vão conseguir destruir essa escola não! Não vão mesmo não! Mesmo que tragam os seiscentos demônios!!! Mas não vão conseguir não!! Pensa que não sei?!!! Esse aí, que tá contigo, tá comprando tudo por aqui, tá comprando todas essas terras aqui perto. Ele quer esse terreno da escola, ele quer comprar esse terreno e derrubar a escolinha, não vai derrubar não, não mesmo! E o senhor, prefeito?! Deveria ter vergonha! Essa escola aqui é do povo, é da comunidade! Senhor não vai destruir não! Nem vem tocar na escola! Nenhum de vocês aqui vão tocar na escola! Agora vão embora daqui! Vão trabalhar! Eu preciso limpar a escola que tá só poeira por causa dessa estrada. Mais tarde as crianças tão vindo pra cá, pra estudar e merendar Leite Peidão”. 

O prefeito, antes de se retirar, disse: “Mas professora...senhora já tá aposentada e já tá tudo aprovado lá na Câmara Municipal...Olha! Semana que vem a gente vai voltar aqui com o trator!”. Ele, os vereadores e o fazendeiro foram embora. “Vão embora suas pragas dos infernos! Pode trazer o trator e o Satanás!!!”, gritou a Professora Aposentada.

3

“Oi, minhas queridas!! Podem entrar. Vou fazer café pra nós”, falou a Professora Aposentada quando viu a gente se aproximando. Dentro da casa escolinha existia algumas cadeiras de estudo, uma estande cheia de livros infantis e uma pequena cozinha que cheirava leite em pó e café. “Vem cá seu moleque e sua moleca, vem comer leite peidão hahahahaha”, professora nos deus, pra mim e pra minha irmã, duas canecas que continham leite em pó. Esse leite era conhecido como Leite Peidão que era muito denso, doce e colava em excesso no céu da nossa boca. Mas a gente se divertia comendo esse leite. Na escola onde eu estudava, lá na escola Senhora Pereira, no Nova Olinda, quando tinha merenda, era esse leite peidão que nos servia.

“Ô, minha velha letrada”, disse Vovó Alda, “Acho que tá na hora de deixar essa escola. Esses homens da política vão vir com tudo, eles não vão desistir não”. A Professora Aposentada estava com olhos em lágrimas: “Eu não vou desistir também não, Dona Alda, não vou entregar essa escola não, não vou mesmo”. Elas conversavam próximo da estante de livros. Depois de alguns momentos de exaltação da professora, elas passaram a conversar sobre várias coisas quanto bebiam café. Até residas se ouviu. “Ô, Dona Alda, espero que meus moleques venham amanhã pela manhã, ainda tem muito leite aqui”. Vovó Alda respondeu com uma voz entretecida: “Eles vão vir sim...”.

4 

Todas vezes que a gente ia ao Rio Janjão, a gente enxergava a escolinha, lá longe, lá em cima, depois do ramal que leva à Colônia do São Raimundo, lá estava a escolinha em forma de casinha de cores azul e branco. Pra que vinha da cidade, ou do nosso bairro, depois da curva do S que existia na Rodovia Transcastanhal; essa via ia descendo até chegar ao Rio Janjão e quem vinha por essa estrada já via a escolinha lá em cima. Lá longe, se destacava a escolinha com suas duas cores no meio daquele verde que existia por lá.

5

A Vovó Alda acordou com ventania que passava com toda velocidade por dentro da sua casa velha. Ela se levantou sobressaltada e foi até a janela do seu quarto. Abriu a janela e viu que não tinha nenhuma nuvem de chuva no céu: “Mas que diabéisso? Pra que essa ventania agora pela manhã? Nem sinal de chuva no céu!”. Mas vovó logo sentiu que algo estava acontecendo lá na escolinha e de imediato correu para lá. 

Lá, encontrou prefeito, os vereadores, o grande proprietário de terras e o Trator da Prefeitura para destruir a escola. A Professora Aposentada estava colhendo flores do jardim quando foi surpreendida, logo cedo da manhã, por aqueles senhores.

Ela entrou na escolinha e trancou a porta de entrada. Foi até a estande de livros e retirou de lá uma Enciclopédia Infantil de Pássaros. Abriu esse livro e disse: “Vamos, meu amiguinho! Chegou a hora!”. De dentro dessa enciclopédia saiu um passarinho azul e pulou para o meio da sala e começou a crescer, crescer, crescer até sua cabecinha tocar no teto. O passarinho gigante colocou suas asas para fora da escolinha através das janelas das laterais da escola; e seus pés atravessaram o piso de tábuas. 

Quem estava do lado de fora, via uma escola com pés e asas que saiu andando lentamente e passou sobre o trator e sobre aqueles homens que estavam vendo se acreditar que vinham uma escola andando. Em seguida, a escolinha com os pés do passarinho gigante passou a correr com toda velocidade até alçar voo. Isso mesmo, a escolinha de duas cores voou até alcançar as nuvens. Lá de cima, bem lá do alto, lá da janela da frente da escolinha estava a Professora Aposentada que apreciava o vento e todas aquelas nuvens leves de algodão...

 

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