ALTERED BEAST

 

Naquela manhã de estiagem dos anos de 1980, Manel Preto finalizava o conserto do telhado da casa dele. Ele assentava telhas seminovas sobre a madeira do teto. Bruxa Sonífera estava lá em cima da casa com ele. Ela ajudava nosso vizinho açougueiro nesse trabalho final. Sonífera usava sua magia que fazia vir até suas mãos as telhas de barro que estavam lá embaixo e as entregavam pro magarefe falador que logo ia ajustando uma por uma.

Manel Preto morava em uma das casas que tinham quintais que faziam fundos com os terrenos baldios que existiam lá próximo da rua de casa. Esse vizinho, quando não estava trabalhando lá na Feira da CEASA, estava na sua casa consertando alguma coisa ou estava na casa de outros vizinhos contados causos ocorridos lá na feira livre.

               Lá de cima do telhado, Manel e Sonífera não deixaram de perceber as diabruras que eu e a Molecada da Rua de Casa fazíamos lá no matagal. “Não liga pra eles não, Sonífera, é só um bando de filhotes de lobisomens virando bicho no mato Hahahahaha! Tem dia aí que passam o dia todo treinando aí, nessa mataria aí, treinando pra ver se conseguem se transformar em lobisomens atacados da lua Hahahahahaha!!!”, disse Manel Preto. “Arre!! Hahahahaha”, riu Bruxa Sonífera. 

            O vizinho falou novamente: “É quase onze da manhã e o sol tá com a molesta!!! Daqui a pouco eles vão pegar o que é deles Hahahahahaha!!”. A bruxa, trajando sua jaqueta Perl Jam e calça jens, botas pretas e com seu chapéu de cone; indagou: “Ô, Manel! Por que essa risada?”. Ele respondeu rindo: “Hahahahaha! É porque os pais deles vão chamar todos esses monstrinhos do Juízo Final que tão nesse mato. Essas pestes da danação morrem de medo quando seus pais chamam eles, é sempre sinal de muita peia da boa Hahahahahahaha!”.

Manel Preto tinha razão. A gente morria de medo quando os nossos pais nos chamava aos gritos. Inclusive, como vocês sabem, já até escrevi sobre o quanto era um terror ouvir também das mães dizerem: “Não corre!! Se correr é pior!”.

Não demorou muito quando os pais, principalmente as mães, começaram nos chamar aos gritos. Elas iam até ao meio da rua e gritavam por nossos nomes. Ouvimos o primeiro grito: “Ô, MARCUS AUGUSTOOOOOOOO!!!”. Toda Molecada da Rua de Casa estava lá em cima da mangueira se balançando nos galhos e comendo manga com farinha ou com sal. “Eita!! Marquinho!!! Tua mãe tá te chamando!”. Marquinho desceu da mangueira com toda velocidade e depois correu pelo meio do matagal e atravessou o quintal do Manel Preto. “Esse aí, que passou correndo aí, Sonífera, que passou feito uma bala, vai apanhar só de chinela de havaiana, vai pegar só na cara Hahahahahah!!”. A bruxa falou com tristeza: “Coitado de lobisomenzinho”.

“Ô, JÚÚÚÚÚÚNIOOOORR!!!!!”. Juninho estava junto da grande raiz da mangueira colhendo mangas que ele tinha derrubado, “Caramba! Já vou gente” e saiu em disparado para casa dele e atravessou também pelo quintal do Manel. “Hahahahahahahaha!!! Esse aí, vai pegar peia só de cinturão, o couro das costas dele vai ficar bem quente hahahahhaha”. Sonífera: “Ô, Manel. Não rir não”.


“CLEEEEEBEEESOOOOOONN!!!!!”, Manel Preto não perdeu tempo: “Hahahahahahah!!!! Esse aí, sabe?! Tem maninha de se joelhar na frente da mãe dele, mas ela não perdoa ele não, ela não quer nem saber não. Ei, Sonífera, sabe o que a mãe dele faz? Ela dar surra com galhos de castanhola nas costas desse infeliz aí Hahahahahaha”. A bruxa suspira: “Aff!! Pobrezinho”.

Assim foi sendo chamado cada menino que estava lá no matagal até chegar a minha vez: “MOOOLEEEEEQUEEE DO SAAATAAANÁÁÁÁÁÁÁSSSSSS!!!!!”, era Mamãe Branca me chamando. Ouvir ela me chamando desse jeito era de fazer o meu coração sair pela boca. “HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!”, gargalhou como nunca Manel Preto, “Sonífera, esse é meu preferido. Ele aí apanha tanto, tanto, tanto que até A Besta Fera se altera lá nos Infernos, se altera porque essa besta chora com pena do coitadinho HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!”. Bruxa Sonífera não se aguentou: “HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA...”

 

 

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