DESTINO - PARTE 2

 A postagem a seguir é a continuação de outro conto: Destino, que foi postado neste blog no dia 14 de fevereiro de 2020.

Boa leitura!



Lá fora o zepelim voava tranquilamente naquele céu de finalzinho da tarde da pequena cidade de Castanhal. “Arre Égua!!! Parece que a guerras das europas tá chegando pra esse rumo que a gente tá”, disse o Homem de Alpergata de Couro Encardido que era um adulto jovem, magro, queimado do sol, com mãos calejadas e avermelhas e usava roupas todas sujas, “Tu já imaginou essa arrumação danada!!? Aquele pessoal do fim do mundo, vindo pra cá, pra essas bandas!!? Alemãos chegando de trem aqui, americanos chegando de trem, italianos, ingleses chegando de trem...até japoneses..Tu já imaginou isso?!! Ia ser um verdadeiro estrupício dos infernos como tá acontecendo lá nas europas. Antes dos guardas me prender, ainda ouvi umas coisa lá na rádio da estação de trem que os alemãos tava tentando invadir os países dos ingleses, lá...Ô, homem, te levanta daí, vem até aqui, na janelazinha, ainda tá pra ver o bicho dos seiscentos voando. Parece um peixe boi muito gordo. Ele tá sumindo praqueles rumo dali”. 

O Homem Velho estava sentado sobre o desgastado, sujo e fino colchão estendido no chão da carceragem. Ele se levantou indiferente e se aproximou lentamente da pequena e estreita janela com grades da cela. Ainda conseguiu ver o zepelim passando sobre aquela mata que ficava por de trás do comércio da Rua da Frente, por onde passava a estrada de ferro. “Ora, pros diabos!!”, disse quanto voltava a se sentar no colchão, “Queria logo que esse pessoal das europa explodisse tudo aqui, jogar bomba nessa delegacia, na cidade, em tudo isso aí fora. Só assim acabava logo como minha agonia do Cão, só assim mesmo”.

“Ô, homem de Deus. Já tô aqui mais de três dias preso e vi que tu não tá dormindo não”, falou novamente o Homem de Alpergata, “Que agonia do Cão é essa?”. O  Homem Velho não respondeu logo não. Ficou em silêncio por alguns minutos. Fechou olhos, suspirou como estivesse muito cansado, tossiu, abriu os olhos e passou falar: 

“Toda pessoal que matei resolvera me atenazar. Todo dia esse pessoal grita dentro da minha cabeça, muita gritaria. Quando pego no sono esse pessoal aparece no meus sonhos gritando, me sufocando. Matei muita gente, muita mesmo!? Matei gente lá na minha terra, onde nasci, lá no sertão, naquela secura, da caatinga. Nenhum escapava da mira. Matava pra poder comer, pra ter dinheiro, pra viver. Nunca conheci minha mãe, meu pai foi embora, sumiu no mundo, me deixou, me deixou sozinho. Fui criado pelo meu Véio Avô, pai do meu pai, era homem muito pobre, sem nada na vida, só uma casinha feita de pau e barro. Eu roubava pra ter alguma coisa, pra comer. Fome do Satanás que sentia. Arre!! Vida dos Seiscentos Cão.

Teve um dia que me pegaram, me bateram. Outros me pegaram me ensinaram a dar tiros, a usar arma. Aprendi a matar. Me pagavam pra matar. Eu matava mesmo. Não tinha essa não. Bastava me pagar que eu matava mesmo. Ia até os infernos pra matar a pessoal que queriam que morresse, bastava me pagar. Matei muita gente, alguns nem lembro o nome, não lembro o rosto. Bastava me pagar. Nenhum escapava da mira, da minha mira. O único que escapou da minha mira foi aquele bicho que tem pacto com Demônio, que vivia lá no sertão fazendo assombração danada. Aquele bicho, o Bode Que Chispa Faísca das Patas. Tava eu, andando tamanho meio dia naquele sol da Besta Fera quando dei de cara com esse bode. Esse bicho me viu e foi logo soltando fogo pelo olhos e pela boca e partiu pra cima de mim. Dei muito tiro nesse bode e não acertei nenhuma bala nele, é o bicho do Cão mesmo. Tive que subir numa pedra grande, aquelas pedras grandonas que tem lá no sertão, na caatinga. O bicho ficou me rodando e depois sumiu na caatinga seca. Só esse bode que escapou da minha mira. 

Um dia me cansei de derramar sangue de gente desconhecida que eu matava. Não queria mais matar não, não mesmo, sabe? Mas um tempo atrás, muito tempo mesmo, acho que mais de vinte anos atrás, veio gente daqui, do norte, dessas bandas. Queria que eu matasse um coronel forte daqui, esse coronel era amigo do governador. Me ofereceram muito dinheiro. Aceitei, sabe? Mas tinha prometido pra mim mesmo que não ia matar mais não, que esse coronel que me pagaram pra matar ia ser o derradeiro. Aceitei e vim pra cá, pra esse fim de mundo de rios e mata. Arre!!!

Me despedi do meu Véio Avô. Falei pra ele, falei que ia pro norte, falei que ia ser o derradeiro. Meu Véio Avô me deu uma moeda suja, disse que era uma moeda do tempo que ele era moleque, deram pra ele essa moeda que vinha do tempo da monarquia. Me disse que eu tinha que colocar aquela moeda de baixo da língua do último, do último que ia matar. Tinha que passar a moeda no pouco de açúcar, abrir a boca do infeliz derradeiro e botar de baixo da língua. Ele disse que eu tinha que fazer aquilo pra ter paz, todo matador que não morria em serviço e que já pensava em parar com matança, tinha que colocar a moeda em baixo da língua do derradeiro morto, isso traria paz e não ia faltar dinheiro pra mim. Eu peguei a moeda, coloquei um pouquito de açúcar num saquinho e parti pra cá, pra essas bandas. 

Quando vim pra cá, pra essa cidade, essa cidade ainda era uma vila, um pequena vila. Tinha gente me esperando na estação de trem. Me deram um cavalo, uma parte do pagamento. Depois de alguns dias na vila, me mostraram o coronel, o infeliz que eu tinha que matar. Lá vinha ele, passando na frente da capela de São José Operário. Era homenzão branco dos infernos que usava terno de brim, muito cortejado pelos moradores e se chamava Coronel Belizário. Passei um tempo do Cão vigiando ele, vendo os dias que vim pra vila, fui conhecer a vereda que levava o infeliz até suas terras. 

Um mês depois seguindo os passos do peste, marquei o dia da morte dele. Naquele dia segui ele, até seus derradeiros passos. Lá, na entrada da vereda, que levava até as terras dele, armei a tocaia. Mas ele percebeu meu movimento, ele tava montado no seu cavalo, ele se virou rápido pra sacar sua arma, mas atirei logo, não errei o tiro, acertei as costas dele no momento que ele se virava pra mim. O cavalo do Cão dele se assustou, saiu galopando feito doido pra direção da vila e levou o corpo do seu dono de volta pra vila de Castanhal. 

Não deu tempo de montar no meu cavalo, meu cavalo tava amarrado numa árvore longe dali. Não consegui fazer o que tinha que fazer, de colocar a moeda de baixo da língua do coronel. Me pagaram. Mas comecei a ficar agoniado. Tinha que dar um jeito de colocar a moeda de baixo da língua do Belizário. Fui pro velório do coronel. Mas tava impossível, muita gente próximo do caixão. Não deu certo não.

Resolvi partir. Embarquei no trem que ia pra Belém. Mas não voltei mais pro sertão não. Resolvi subir o rio Amazonas. Passei trabalhar como seringueiro. Pensei que indo pra floresta, pras brenhas, sumir naquele mundo verde, ia esquecer do meu passado, do pessoal que matei. Mas esse pessoal resolveu aparecer nos meus sonhos, depois passou a parecer na mata fechada onde tava trabalhando, onde tava fazendo árvores sangrar leite. Esses mortos passou me atormentar, pra onde eu ia o pessoal morto aparecia. Não dormia mais sossegado ou passava dias ou semanas sem dormir porque esse pessoal não parava de gritar e de me sufocar.  

Uma noite eu vi o Coronel Belizário montado no seu cavalo. O terno dele branco de brim tava manchado de sangue, o cavalo dele também manchado de sangue, o sangue não parava de sair do corpo dele e do cavalo, era tanto sangue que virou um rio de sangue que me arrastava pela floresta, tentava nadar, mas não conseguia. Do fundo do rio de sangue saia todo pessoal que matei, me agarrava, me puxava pro fundo do rio de sangue. Isso sempre se repetia nos sonhos ou quando eu tava sozinho na mata tirando o leite da árvore seringueira. Anos e anos com esse sofrendo. Uma agonia medonha sentia quando me afogava nesse rio de sangue, eu me afogava ouvindo gritos, vendo rostos desfigurados dos mortos, o corpo só a  caveira desse pessoal que matei. Não aguento mais não de me afogar nesse rio sangue, é uma coisa medonha mesmo. 

Até agora tô sofrendo com isso. Isso é sofrimento da peste!! É sofrimento dos seiscentos!!! Já se passou mais de vinte e cinco anos ou trinta anos que matei o Coronel Belizário. Todos esse tempo de Cão sem paz. Não sei como, mas gente do governo me acharam, me prenderam. Agora tô aqui, de volta pro lugar que matei Belizário. Tô aqui, esperando pra ser chamado pra falar com o juiz da cidade, juiz quer me ouvir. Ouvir o quê? Ouvir o quê desse velho que sou? Eu sou velho amaldiçoado. Não adianta me ouvir não. Isso não vai trazer os mortos de volta não, não vai trazer Belizário de volta não, não vai trazer paz pra mim não. Não vai trazer nada não. Melhor é me matar logo, me jogar de baixo do trem quando tiver passando aí na frente”

 O Homem Velho colocou a mão direita no bolso da sua calça cumprida desgastada e retirou do seu interior a antiga moeda do seu Véio Avô e um saquinho contendo açúcar. “Até hoje ando com isso, não sei por que. Mas continuo levando como se fosse ainda encontrar o corpo do Belizário algum lugar, por aí, sabe?! E aí se achasse o corpo dele ia colocar a moeda de baixo da língua dele”. Parou de falar do seu tormento e se calou, não falou mais nada. Colocou a moeda e o saquinho de açúcar próximo do colchão que estava ao lado de algumas roupas sujas que serviam de travesseiro e se deitou. Já era noite e a carceragem se encontrava escura 

O Homem de Alpergata ouviu toda aquela narração em silêncio. Ele estava muito pensativo quanto acendia uma pequena lamparina de querosene. Talvez estivesse imaginando as angústias daquele velho que outrora era um matador. A imaginação só era quebrada pelos vozes dos guardas que conversavam lá no outro recinto, lá na recepção da delegacia. Falavam sobre a guerra que acontecia lá na Europa. O companheiro de cela do antigo matador se sentou em um dos cantos da prisão e aguardou o seu sono chegar.


*** 

O Homem Velho acordou naquela madrugada ao som do apito da locomotiva que vinha lá da estação de trem. Ele se levantou e se aproximou das grades da cela. Olhou para o companheiro de cela e viu que dormia. Alguns minutos depois, o Velho ouviu um relinchar de cavalo lá na recepção e não demorou muito pro cavalo entrar lentamente pelo corredor da delegacia. Vinha montado sobre esse cavalo um homem avermelhado, queimado do sol. Esse homem era alto e vestia terno de brim branco e chapéu na cabeça. Era o espectro de Belizário. O rosto de coronel tinha manchas rochas e seus olhos saíam lágrimas de sangue. Os olhos do quadrúpede também lagrimavam sangue.

O Homem Velho se afastou da grade: “Por favor, coronel. Mais uma vez não. Por favor! Pelo amor do Menino Jesus que fica no colo do São José Operário. Não quero mais me afogar no rio de sangue mais não, não aguento mais não, é muito sofrimento na minha cabeça, na minha alma, não aguento mais não”. O cavalo relinchou e em seguida Belizário falou: “Ô, peste de homem! O teu sofrendo acabou. Vem comigo. Os outros te esperam lá fora, os que tu matou, tão lá fora de esperando. Vieram te buscar. Agora vai se juntar de vez com a gente. Vem, Cabra! Tá na hora”. O Homem Velho atravessou a grade da cela e seguiu o fantasma do Belizário que já passava pela recepção da delegacia. E seguida, eles desapareceram.


*** 

Pela manhã, logo cedo da manhã, o Homem de Alpergata se aproximou do corpo do antigo matador sem vida que se encontrava estendido no desgastado colchão. Próximo da cabeça do cadáver estava a moeda antiga e o saquinho contento açúcar. O companheiro de cela do velho pegou a moeda e umedeceu com pouco de querosene que tirou da lamparina e, em seguida, misturou a moeda no açúcar que estava no pequeno pacote e o colocou de baixo da língua do defunto...

 

Comentários

  1. Fodastica. Arrepiante, angustiante e prende totalmente atenção de quem lê.
    De quebra tem esse estilo próprio q parece q vctaouvindoaspessoasfalando

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    1. Era assim que sentia quando ouvia as histórias do meu pai e vizinhos quando eu era criança.

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