LAMPARINA

 

A gente ria dentro da sala escura. Risadas discretas, risadas sufocadas, risadas que ficavam presas nas bochechas. Ninguém sentia medo daquela escuridão. Mesmo com a janela aberta da sala, a obscuridade tomava conta do ambiente, até porque existia uma enorme jaqueira quase de frente da casa velha onde a gente estava. Essa gigantesca árvore impedia de enxergar a noite estrelada sem luar. Os risinhos e cochichos cessaram quando vimos aquela pequena língua de fogo que surgiu bem ali, nos fundos do único quarto daquela antiga moradia cercada por matagal e árvores.

Agora a silêncio era total. A pequena língua de fogo ia se aproximando e abrindo passagem para aquela que trazia essa reduzida chamas. O cheiro de querosene tomou conta da sala quanto a gente via, mesmo com iluminação limitada, a expressão daquela matriarca de olhar firme que passou pela sala e seguiu para cozinha. “Ô, seus filhotes de lobisomens! Pensa que não sei, que andam por aí, com malcriação de vocês?! Ô, bando de Cão!! Só quero pegar vocês aprontando umas!!”. Ela seguiu para cozinha levando a pequena lamparina de querosene na mão esquerda, quanto usava a mão direita para se apoiar na entrada da cozinha, pois ali tinha um degrau.

Alguns sábados dos anos finais de 1980 e início de 1990, Mamãe Branca nos deixava na casa da Vovó Alda. Assim, mamãe poderia acompanhar o Papai Touro nas festas do Taboquinha Bosque, Bosquinho, Vila Nova. “Deixa esses pestes aí, nessa sala, é aí que eles vão dormir”, dizia vovó quando a gente ia se acomodando na sala da casa antiga que em outros tempos, no tempo do trem, essa moradia decadente, que ficava ali, na Cabeceira do Apeú; era o rancho do Coronel Chico Bezerra, nosso bisavô e sogro da Vovó Alda.

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Retomou a escuridão na sala, agora uma escuridão mais fraca. Mas desta vez ninguém se atrevia a rir. Ninguém queria se arriscar, porque Vovó Alda estava bem ali, na cozinha, de onde se ouvia barulho de panelas e se enxergava fragmentos de sombra dela. Eu, meus irmãos e os nossos primos e primas ficamos em total silêncio. Nesse sábado, outros tios e tias tinham deixando também alguns dos seus meninos com a vovó. Aí foi uma algazarra só. A gente passou o final da tarde de sábado correndo entre as árvores, pelos caminhos que existiam no matagal e explorando os escombros que restou do antigo casarão do Chico Bezerra. 

Vovó Alda ficava sentada na puxada da casa quanto observava a nossa diabruras que espantava o sossego daquela moradia. “Bando de Satanás!! Se algum Cão dos Infernos pisar nas minhas prantas, ou arrancar aí, meus café, quebrar os pés de cana...eu toco fogo em vocês, bando de cavalos dos infernos!!!”. A gente ria se ela vê. “Tudo isso aí, é neto da senhora?!”, perguntou um pequeno proprietário de terra que morava por aquelas redondezas da Cabeceira do Apéu, “Sim, compadre. Tenho netos pretos, de pele mais clara, morenos...mas aqueles..ali, olha acolá, tá vendo? Eles ali é branco, olha aquela ali, é branquinha como uma das minhas filhas”. Vovó Alda era branca e de olhos azuis, olhos que despertava admiração de muitos, mas para nós, moleques do capeta, expressava censura, castigos. Ela era descendente nordestinos que migraram do Rio Grande do Norte para Vila de Castanhal. Mas esses imigrantes acabaram se fixando por aquelas bandas onde ficam colônias agrícolas de São Raimundo, do Janjão e da Cabeceira do Apeú.


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Mamãe costumava contar que Vovó Alda nasceu adulta. Quando vovó nasceu, dizia mamãe, ela não olhou para trás e nem para própria mãe que tinha falecido por complicações do parto, porque não teve tempo, logo deram uma enxada pra ela. Logo foi levada para a lavrar a terra, a fome andava por aquela região e não se podia perder tempo. Ela não resistiu esse destino, pegou na enxada e se lançou à terra para preparar para o plantio. Nasceu adulta, nasceu sentindo fome, nasceu para matar qualquer coisa que pudesse distraí-la que existisse fome ali, assim lavrava a terra no tempo da chuva, no tempo do sol, no tempo da poeira, no tempo da lama e no tempo do fogo. Não restava mais nada para ela nessa vida, apenas o trabalho. Ela casou. Ninguém da comunidade acreditou nisso, mas ela casou e teve muitos filhos, filhas, netos e bisnetos.  

 

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Vovó Alda nos serviu o jantar. Ela arranjou mais dois lamparinas e as colocou no meio de uma grande mesa de madeira que ficava no canto afastado da cozinha. A janta era o que sobrou do almoço daquele dia. Arroz, farinha e galinha cozida. Vovó sempre estava pronta para nos castigar, mas ela não admitia que netos e netas lavassem a louça. “Vão dormir, Seus Infelizes do Capeta!!!”.

Os meus irmãos e primos mais velhos não obedeceram a vovó e pularam a janela da sala para o lado de fora. “Ei, seus doidos! Vovó vai pegar vocês!”, gritou baixinho uma das primas. “Cala Boca! A gente não vai demorar não. A gente vai tentar ver a Bola de Fogo, que o pessoal chama também de Chupa Chupa”. Os mais novos ficaram curiosos, queriam ver também a Bola de Fogo. Todos pularam pela janela, inclusive eu. 

A gente andava em fila indiana pelo terreno cheio de árvores e cercado de matagal. Cada um segurava na mão do outro, estava muito escuro. Sons de grilos, canto de corujas, assobios longínquos faziam arrepiar as nossas espinhas. Lá da cozinha da velha casa, a gente ouvia o mexer e lavar de panelas. Acho que vovó já estava aprontando café da manhã. Antes de sair da cozinha, cheguei a ver espigas de milho descascadas que estavam depositadas no canto do fogão de barro.

Chegamos numa áreas descoberta. Agora dava para ver o céu daquela noite. Uma noite estrelada e sem luar. Sentamos em círculos e ficamos olhando para aqueles infinitos pontos brilhantes. “Ulha! Ulha! Tá vendo!? Aquelas estrelas ali, tão se movimentando!”, falou alto novamente a prima que não lembro quem era. “Fala baixo, sua Mucura!! Se a vovó ouvir a gente ela quebra a gente na porrada”. O silêncio voltou e nos deixamos hipnotizar por aquelas estrelas. A gente enxergava aqueles brilhos se movendo lentamente lá longe, lá no firmamento. “Será que aquilo é o Chupa Chupa?”, perguntei pro meu irmão Ozias que estava sentado ao meu lado. “Acho que sim. Mas Chupa Chupa não tá vendo a gente não. Ele tá muito alto, tá lá perto de outros planetas”.

Depois de alguns momentos, a gente viu um vulto passando ali, bem ali perto da jaqueira. Me arrepiei, mas logo percebemos que era Vovó Alda. “Será que ela tá procurando a gente?”, perguntou um dos primos para meu irmão mais velho. “Não sei não”, disse Ozeias. Vovó carregava sua lamparina com chamas agitadas e seguimos os passos dela em fila indiana, em silêncio, para vovó não saber que a gente seguia ela. Vimos também que vovó se sentou no chão e colocou sua lamparina ao seu lado, em cima de uma grande pedra. Em seguida, ficou contemplando aquelas estrelas que dominavam aquele céu noturno. A gente se aproximou onde ela se encontrava e nos escondemos por de traz de alguns pés de cafés. Ela falava alguma coisa, falava pra ela mesma. A gente ficou em silêncio, atento, a gente queria ouvir o que ela dizia, ela falava sozinha. Tinha momentos que ela parava de falar, de gesticular com a boca. Ali, ela ficou pensativa por vários minutos.

Repentinamente vovó Alda se levantou e retornou para casa velha e passou próximo da gente sem nos ver. Passou falando e conseguimos ouvir uma parte do que ela falava: “Só queria entender por que eu tive que nascer adulta.” Entrou novamente na cozinha e passou a ralar o milho até o início da madrugada...

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários

  1. Tanta sensibilidade nesse conto que mistura memórias da infância e o cotidiano dos migrantes nordestinos na nossa região.

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