MERENDA

 

ATO I


O maior terror que pairava sobre nós era quando as nossas mães nos chamava aos gritos. Eu e a Molecada da Rua de Casa nos tremíamos todo ao ouvir esse chamado: “Emanueeeellll!!!!!!!!!!! Cadê tu seu sem vergonha!!!!!!!”, “Romeeeeeuuuu!!!!!!!!!!! Seu moleque doido!!”, “Augusstooooooosss!!!!!! Vem pra casa seu filhote de lobisomem!!!!!!!!!”, “Menino do Satanás!!!!!!!!!!!!!!!!!”. Ai daquele que não respondesse. Quem não respondesse logo levava uma surra de chinela, ou de cinturão ou de galhos de goiabeira.  

A demora em responder o chamado significava para as nossas mães que a gente estava num lugar longe praticando coisas proibidas ou estava simplesmente se recusando em obedecê-las. Na verdade, elas pensavam tudo isso junto. Olha que Mamãe Branca falava pra mim: “Onde tu tava, seu moleque?! Tava por aí fazendo coisa que não presta, né?! Por isso não veio logo, né?! Preferiu ficar lá, onde tu tava, fazendo sem-vergonhice no mato, né?! Seu peste!!! Vai pegar uma pisa pra nunca mais sumir de casa assim, sem avisar, sumir por aí, sem dizer nada! Vem cá! Não corre não! Vai ser pior sem correr, seu cabra safado do Satanás!! Vem cá seu moleque e toma isso nas costas pra nunca mais brincar com a minha paciência!! Não próxima vez que tu tentar correr, vou esquentar teu couro até pegar fogo!”.


                           ATO II                       


Meu irmão Ozias e Outros Garotos da Rua riam da gente. Riam porque a gente pegava surra das nossas mães. Riam porque eles eram mais velhos do que nós e também era uma das principais diversões desses jovens. Eles iam pra junto da cerca de qualquer casa da nossa rua onde estava acontecendo alguma pisa. “Ei, a Vizinha Professora tá dando uma peia no filho dela, obora lá ver!”, e eles saiam correndo até a casa da professora pra vê-la castigando seu filho. “Ei, Mamãe Branca tá batendo novamente no meu irmão mais novo. Obora lá no quintal de casa ver isso”, Ozias e os rapazes iam todos felizes para apreciarem a surra que Mamãe Branca me dava. Depois, “Ei, tem mais uma lapada rolando ali, na casa da Vizinha Baiana, hahahahaha! Meu Deus! Hoje é dia da surra nessa nossa rua hahahahah”, aí eles saíam correndo para casa da Baiana.

ATO III


Preto Índio quando não estava junto com a Turma da Anarquia lutando contra as gangues rivais, estava prestando serviço às nossas mães. Que tipo de serviço? Capturar todo moleque que violava o principal Mandamento das Mães: Não correrás! “Ô, Preto Índio, vai ali apanhar meu menino. Quando fui pegar a chinela pra dar uma surra nele, ele correu, saiu correndo. Eu avisei pra ele não correr . Pega lá ele, que te dou uma merenda: café com leite e meio pão massa fina”. Preto Índio não pensava duas vezes. Inclusive usava seus poderes para capturar os corredores. “Upa!! É pra já vizinha!!!”, aí ele ria, “HAHAHAHAHAHAH”, ficava gigante e sai atrás dos meninos que corriam da surra. “Eu tô te vendo, seu moleque! HAHAHAHAHAHA”, lançava seu longo braço pra pegar o coitado que estava ali, naquele terreno baldio próximo da pista de aviação do Camping Ibirapuera.

 Ozias e os Outros Garotos da Rua turma já estavam ansiosos por ver mais uma peia. Quando viram Preto Índio trazendo o corredor, todos se alegraram: “Mais uma surra que a gente vai ver hahahahahaha!!”. O fugitivo era o filho da Vizinha Mineira. Ela estava na frente da sua casa esperando Preto Índio que trouxe o infeliz. “Tá aqui ele, vizinha”, e entregou no colo dela. “O que te falei, seu filhote de Sacana?! Te falei que se tu corresse era pior...”. Aí, mais uma vez Preto Índio recebia sua recompensa: merenda que era de Qui Suco de Uva e Bolacha Doce. Ele apreciava o lanche quanto via Vizinha Mineira dando lapada no filho. 


ATO IV


Mesmo assim, teve um dia que me revoltei. Mamãe Branca não me deixou ir banhar no Rio Janjão junto com a Molecada da Rua de Casa. “Não vai não!! Já te disse!”, mas não me conformei com a decisão da mamãe: Aí eu gritei contra ela: “Eu vou sim!!!!!!!”. Mamãe, que estava lá no quintal, se virou para mim e arrancou o primeiro galho de árvore que encontro pela frente e veio para minha direção. Ai, Meu Deus, o que eu fiz?!!!”, pensei comigo mesmo, “Eu vou pegar mais uma surra da mamãe...não, não vou pegar essa pisa, vou correr”. Mesmo sabendo que não podia violar o Mandamento da Mães: Não Correrás! Mas eu corri!!.   

Mamãe Branca ainda gritou: “Não corre que é pior!!”. Mas corri mais ainda. Pulei a cerca de casa e sai correndo pela Avenida Altamira até chegar à Rua Comandante Assis e dobrei para esquerda, pra quem desce para o Igarapé Castanhal. Eu corri sem parar. Mas agora não vou só correr. Vou fugir! Desaparecer!”. Eu já estava lá longe, mas ainda assim ouvi mamãe gritar: “Preto Índio!! Pegar aquele moleque corredor pra mim!!”.

Eu fiquei mais desesperado, comecei a chorar. Meu Deus, e agora? Preto Índio vai me capturar, ele sempre consegue capturar a gente. Meu Deus! Mais uma surra, mais um castigo. Preciso sumir de vez dessa cidade”. Mesmo distante ouvi as risadas do Preto Índio, olhei pra trás e vi ele crescendo, crescendo até ele ficar completamente gigante. Eu queria ter o mesmo poder dele. Queria rir para me transformar no Pássaro de Fogo e voar na velocidade luz na direção do firmamento.


ATO V


Eu corria sem parar. Corria, corria. A terra tremia cada vez mais e mais. Preto Índio Gigante estava mais próximo. Mas não olhei mais pra trás. Eu corria e chorava. Preto Índio tinha perdido a paciência: “Vou te pegar, vou te pegar!”. Ele dava pisadas mais fortes que provocou terremoto que abalou todo nosso bairro. Para piorar a situação, comecei ficar cansado de tanto correr. Resolvi me entregar. Parei de correr e me virei. Aí veio a surpresa. Eu vi Berí, enteado do vizinho Manel Preto, pedalando numa bicicleta barra circular com toda velocidade e trazia na garupa o meu irmão Ozias. Berí era bastante habilidoso com a bicicleta. Conseguiu passar e manobrar por de baixo do gigante. Eles quase foram esmagados pelas pisadas do Preto Índio.

Pararam ao meu lado. “Ei, sobe aí no varão da bicicleta. Vamos fugir! Vamos pro Rio Janjão!”. Ozias completou: “É sim, vamos lá! Vamos pro Rio Janjão! Hoje também tô com vontade de ir pro rio. A gente passa a tarde lá tomando banho no rio. A gente volta pra casa no começo da noite. Aí, Mamãe Branca vai tá mais tranquila”. Eu estava muito cansado e decidi subir no varão da barra circular. Berí voltou a pedalar com toda velocidade e agora levava eu no varão e mais Ozias na garupa. “Pedala mais rápido! O gigante Preto Índio vai me pegar! Pedala logo”. Berí pedalou mais rápido e pedalou tanto que saímos voando.

 Quando a gente estava ganhando altura, Preto Índio tentou nos agarrar com suas mãos enormes. “Maldição!!!!!!”, gritou o meu perseguidor. Berí não parava de pedalar. “Se segurem aí, ainda tamo ganhando altura”. Mesmo assim, ele dobrou repentinamente para direita e passamos sobrevoar sobre o bairro Pirapora. Não demorou muito e aí ele dobrou para esquerda. Nessa manobra a gente alcançava as nuvens. Lá em baixo a gente viu a Igreja Matriz São José Operário.

“Acho que a gente tá muito alto”, falou Ozias. “É mesmo, vou diminuir a nossa altura”. Suavemente Berí manobrou a barra circular e desceu mais um pouco. Voamos em torno da Torre da Telepará e, em seguida, seguimos voando para o Rio Janjão. Lá de cima já dava para ver os moleques pulando no rio e se divertindo. Mas Berí fez outra manobra que fez sumir da minha vista o Rio Janjão. Agora eu via as árvores do Camping Ibirapuera, a Rua Presidente Kennedy e o nosso quintal...Ei?! Quintal?! Espera aí...não quero voltar agora pra casa...

Berí riu: “Hahahahaha, a gente te trouxe de volta hahahhahah”. Ozias emendou: “Mamãe Branca também me pediu pra te pegar Hahahhaha”. Aí pousamos no quintal de casa e ela estava lá, com galhos nas mãos me esperando. “Berí e Ozias me entregaram pra mamãe: “Hoje teu couro pega fogo, moleque dos seiscentos! O que eu disse?! Não corre...”. Eu não reagi, abaixei meus olhos e eu aceitei meu destino”.

ATO VI 

Berí e Ozias comemoravam: “Égua, cara. Conseguimos pegar teu irmão antes do Preto Índio Gigante”. Ozias riu vitorioso: “Hahahahhahha!! Agora recompensa será nossa. Mamãe Branca vai comprar caldo de cana e pastel de queijo folheado pra nós...”.

 

 

 

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