DÁRIO - PARTE 2
“E agora, Brunão!? Não conseguimos nada até agora. Será que a gente vai conseguir juntar dinheiro até sábado, pra fazer a festa do seu aniversário?!”, disse Mimo quanto olhava para o sol escaldante de meio dia. “Ei, bicho! Não sei não. Essa galera é só furo. É por isso que tamo aqui em busca de alguma coisa que possa render dinheiro pra nós”, respondeu Brunão. Os dois estavam montados sobre as suas Formigas de Mais de Três Metros e elas caminhavam lentamente pela movimentada Feira da CEASA da cidade de Castanhal. A formiga do Brunão era avermelhada e a formiga do Mimo era verde musgo.
Brunão vestia uma velha armadura de cavaleiro medieval e segurava uma lança de dois metros e ainda tinha espada e escudo amarrados juntos da cela de montaria. Mimo, homem de mais de quarenta anos, branco, com uma barriga um pouco elevada, vestia túnica marrom franciscana e calçava chinelos de borracha, não parava de enxugar o suor da sua testa com lenço indiano.
Os dois estavam com seus pensamentos longe, distante. Brunão, mesmo com todo aquele barulho de trânsito caótico e de gente se movimentando, não parava de pensar como conseguiria dinheiro para fazer sua festa de aniversário, lá na casa do Professor Dário. Este, todos os anos, cedia sua residência ao Brunão. Mas naquele ano, o quase aniversariante estava sem recurso financeiro e o sábado se aproximava. Então, ele decidiu vestir sua antiga armadura de guerreiro medieval, chamou Mimo e as formigas para encontrar batalhas que gerassem recompensas.
“Poxa, e a gente quase derrotou o Chupa Chupa lá na comunidade de Iracema”, lamentou Mimo, “Não conseguimos derrotá-lo porque a Visagem da Garupa resolveu montar na sua formiga pensado que era bicicleta. Aí, o Chupa Chupa ganhou mais velocidade e sumiu pro rumo do Apeú”. Brunão tirou seu capacete de guerreiro e passou um pano para enxugar sua careca suada: “Aquela visagem é um peste dos seiscentos! Além de nos assombrar, ainda atrapalhou nossa a luta contra Chupa Chupa ou Bola de Fogo. A gente seria bem recompensado pela comunidade. Aí, a gente já tava com dinheiro para organizar meu aniversário”.
“Chefia! Ulha ali, ali no alto da Torre da Telepará! Olha quem tá lá!!”, gritou Formiga Avermelhada do Brunão, “É o Dragão da Turma do Dragão, daquela gangue lá do Ianetama!”, completou a Formiga Verde Musgo do Mimo. “Ei, bicho! Vamos lá, Mimo! É a nossa chance de enfrentar e derrotar esse Dragão dos infernos! A gente pode ser recompensado com os impostos coletados pela prefeitura. Assim, a gente pode fazer a minha festa de aniversário lá na casa do professor Dário!”. Brunão colocou de volta seu capacete, aprumou na cela da formiga e saiu em disparada. “Me espera aí, Brunão!”, gritou Mimo que logo galopou com sua formiga.
***
As duas Formigas de Mais de Três Metros galopavam com destreza no meio da Avenida Barão do Rio Branco. Elas ultrapassavam motocicletas, ônibus urbanos, automóveis, ciclistas, skatistas, patinadores. Quando estavam se aproximando da Torre da Telepará, Brunão e Mimo soltaram das suas formigas e caíram em posição de guerra junto daquele enorme estrutura de ferro. Brunão empunhou sua lança e Mimo retirou da sua túnica o seu Livro Sagrado de Magia: “Venha seu lagarto das trevas! Desça dessa torre e lute contra nós!”, bradaram os dois aventureiros.
Mas parecia que Dragão da Turma do Dragão não ouviu o desafio de Brunão e Mimo. O réptil gigante continuava lá no alto da torre, oponente, como estivesse esperando alguma coisa. “Ulha ali, chefia! Ali no alto, perto daquela nuvens. Parece que tá vindo um cometa, é estrela muito brilhante pegando fogo. Parece que tá indo na direção do Dragão!”, falou Formiga Avermelhada. “Ah, não. É ela...Bruxa Sonífera”.
Bruxa Sonífera vinha com toda velocidade que se chocou contra o Dragão e iniciaram uma grande batalha com explosões de fogo, de luzes, raios e trovões. Todas as pessoas que estavam no centro comercial da cidade correram, fugiram para buscar abrigo para não serem atingidos por faíscas e radiações de calor. “Corre, seus bando de porra!”, gritou Brunão, “Obora se esconder ali, na Igreja Matriz São José Operário!”. Já tinha muita gente no interior da igreja. “Égua! Essa foi boa! Quando a gente encontrou alguma coisa pra ganhar dinheiro, apareceu essa bruxa”, lamentou Mimo. “Ei, Mimo! Usa teu Livro Sagrado de Magia pra ver se a gente tem alguma chance de agente afastar a bruxa pra depois a gente pegar aquele bicho voador”. Mimo estava encostado na sua Formiga Verde Musgo: “Sem chance, Brunão! Sonífera é poderosa demais. Nem o Dragão é capaz de derrotá-la”.
Lá fora, Sonífera e o Dragão lutavam lá nas nuvens, lá no alto. Era um dia de muito sol, mas tinha muitas nuvens no céu. Dessas nuvens vinham raios e trovões produzidos pelo combate. Até que um raio atingiu a Praça da Matriz São José Operário. O impacto causou explosão que abriu uma enorme cratera. Dentro dessa fenda que ainda esfumaçava, levantou a Bruxa Sonífera que retirava o excesso de poeiras de sua roupa punk. Ela deu um salto e saiu voando feito foguete para lutar novamente contra o Dragão que estava escondido nas nuvens.
A Formiga Avermelhada bateu uma das suas patas no escudo do Brunão e disse: “Chefia, eu to morrendo de medo! O que vamos fazer?”. Antes que Brunão respondesse, outro trovão foi ouvido. Esse era mais forte que os outros. Mas logo seguiu um silêncio, o barulho da luta havia cessado. Todos que estavam dentro da igreja saíram para ver o que tinha acontecido. Lá fora, no meio da praça, perto da cratera, todos olharam para cima e viram uma bola de fogo que cortava o céu do centro da cidade: “É o Dragão! Acho que Sonífera deu um golpe seguro nele!!”, gritava Brunão quanto apontava para cometa de fogo.
***
Todos viram que o lagarto gigante caiu lá pra bandas do Camping Ibirapuera. “Vamos lá, turma!”, disse Brunão olhando para as formigas e Mimo, “É nossa chance de pegar o Dragão antes da Bruxa”. Eles montaram nas formigas e partiram galopando. Quando eles chegaram às margens do Igarapé Castanhal eles se depararam com Leônidas e os 300 espartanos que também iam atrás do réptil. “Ah, não. Só me faltava essa! Esses otários não vão pegar o Dragão não, não mesmo!”, Brunão empunhou sua lança e escudo e: “Atacar!!!!!!!”, os quatros atingiram aquela tropa de gregos clássicos que foram lançados para os altos e caíram lá pras bandas da História Antiga.
Em seguida, outra surpresa: “Brunão!!
Olha ali, na frente! É Napoleão com seus dez mil soldados montados nos camelos
que eles pegaram lá do Egito. Eles tão
perto da Rua Comandante Assis! Eles tão vindo pra cima da gente pra nos
combater. Mas deixa comigo”. Mimo sacou seu Livro Mágico Sagrado e lançou magia
sobre os franceses de camelos e os transportou para o Império Russo. “Hahahahah!
Lá eles tão lascados!”, riu Mimo.
“Ei, bicho! Olha ali, quem apareceu. Júlio Cesar e sua Legião Romana. Eles querem também pegar o Dragão”, Brunão sacou sua espada e escudo, saltou da sua formiga e passou a luta contra o general romano. As formigas e Mimo lutaram contra o exército latino. Nesse momento, passou voando sobre eles a Bruxa Sonífera. “Brunão”, gritou Mimo, “Não podemos perder tempo! Sonífera já passou voando!”. Ouvindo isso, Brunão deu um golpe certeiro no escudo e caneleira de ferro de Júlio Cesar que se desiquilibrou e caiu no Igarapé Castanhal.
Mimo e as formigas empurram toda legião pro igarapé. Mimo ainda teve tempo de abrir seu Livro de Sagrado de Magia e lançou um feitiço que fez aparecer uma forte correnteza de água que levou todos aqueles romanos pro rumo do Rio Boa Vista. “Júlio Cesar teve sorte de eu não mandar ele pro senado romano”.
Brunão e Mimo, montados novamente nas formigas, saíram em disparada com a esperança ainda de derrotar ou capturar o Dragão e entregá-lo para as autoridades da prefeitura e receber as recompensas. Com esse pagamento, Brunão poderia fazer sua festa de aniversário na casa do Professor Dário.
Os quatro chegaram ao local onde o Dragão tinha caído. Mas viram uma cena inusitada: a Bruxa Sonífera e o Dragão estavam flutuando um lado do outro e observavam o horizonte, praquelas bandas que ficam ali, além daquelas árvores do Camping Ibirapuera. “Chefias, ulha ali! É praquilo que eles tão olhando”, falou a Formiga Verde Musgo apontando para uma gigante Tromba De Areia que girava com muita velocidade. “E agora, o que será que vem aí?”, perguntou Mimo. “Não sei não, Mimo. Vou pergunta pra Sonífera”, Brunão tirou seu capacete de ferro e acenou e gritou: “Ei Bruxa!!! Ei!!! Aqui!! Vem aqui Sonífera!”. A bruxa ouviu o chamado e logo reconheceu que era Brunão.
Ela veio voando e pousou ao lado dos quatros. “Sonífera, o que tá acontecendo? O que tem naquela Tromba de Areia?”. “Que bom que vocês tão aqui. Aquela Tromba de Areia sequestrou a casa do Professor Dário. Eu parei de lutar contra o Dragão assim que percebi que no alto, lá no topo da Tromba de Areia, vi a casa do Professor Dário. Vamos lá! Vamos voar até ao topo da tromba e resgatar a casa”, ela estalou os dedos da mãos esquerda que fez surgir asas nas formigas.
“Não pode não, não pode não! Vamos resgatar a casa do Professor Dário! Dário é o nosso amigo, a gente sempre faz meu aniversário na casa dele. Vamos lá Mimo! Vamos lá formigas!”. Eles e Bruxa Sonífera saíram voando. Ela ainda chamou o Dragão: “Ei, calango aceso!! Vamos lá! Vem ajudar a gente!”.
***
Brunão, Mimo, as formigas, Bruxa Sonífera e o Dragão da Turma do Dragão voaram contornando a ventania em forma de funil até alcançar seu topo. Quando chegaram lá no alto, bem no alto começaram ouvir um som de guitarra distorcida acompanhada de bateria e outros instrumentos músicas. “Ei, galera! Eu saco esse som aí que a gente tá ouvindo. É a música Elevation, da banda U2”.
O que impressionava todos eles era que esse rock irlandês tomava conta de todo aquele céu, nuvens, o movimento da tromba. Era como se fosse uma de trilha sonora daquele momento. A música cantava assim:“High, higher than the sun, you shoot me from a gun, I need you to elevate me here, At the corner of your lips, Is the orbito of your hips, Eclipse, you elevate my soul, I’ve got no self-control, Been living like a mole, Now going down, excavation, I and I in the sky, You make me feel like I can, Fly, So high, elevation...
A casa do Professor Dário estava intacta em cima da Tromba de Areia. Na verdade, a casa estava entre uma camada de nuvens e a ventania de areia. Os livros da biblioteca do professor voavam em torna da residência. As formigas pensava que eram pássaros. Voava com os livros o tapete voador do Dário. Junto da janela da sala, do lado de dentro da casa, estava Professor Dário que olhava para frente, para o horizonte quanto dançava ao som do rock do U2.
Brunão chamou por ele: “Dário! Pra onde tu vai?!”. Bruxa Sonífera se aproximou de Brunão e disse: “Ele não está nos ouvindo e acho que ele não foi sequestrado pela ventania. Acho que a Tromba de Areia foi buscar ele e tá levando ele pra algum lugar. Vamos só acompanhar e ver o que acontece”.
A Tromba de Areia seguiu em frente levando a casa do Professor Dário. Este ia dançado dentro da sua residência ao som da música Elevation. Dário, homem negro, de mais de quarenta anos, usava seus óculos de graus e camisa de botão. Ele ainda viu e acenou ao Brunão, ao Mimo, as formigas, à Sonífera e ao Dragão que o acompanhava voando.
Lá na frente, de repente, se abriu um Portão Celeste. Agora a música do U2 ficou mais forte. Tromba de Areia se desfez lançando a casa do Professor Dário pra direção daquela entrada celestial. A casa girou suavemente em torno do seu próprio eixo e atravessou portal que se fechou. Brunão, Mimo, as formigas, Bruxa Sonífera e o Dragão da Turma do Dragão ficaram se olhando se entender nada. “Ei, o que foi que aconteceu? Estava tão divertindo e acabou assim, tão rápido?!”, questionou Brunão.
***
A casa do Professor Dário entrou no Paraíso Celestial girando no seu próprio eixo e as nuvens que serviam de base se desfizeram. A residência fez um pouso forçado que fez tremer todos os moveis da morada. O próprio Dário teve que se segurar para não cair. O rock irlandês tinha parado. Dário abriu a porta de entrada de sua casa e saiu logo pra conhecer o seu novo lar.
“Ei, porra!!!! Tu já chegou!!!”, gritou Xepão que correu pra abraçar Dário. “Cheguei sim!”, respondeu Dário. “Não era o momento. Ainda não era hora. Mas estamos aqui...”. Dário parou de falar quando percebeu que sua casa tinha caído em cima de uma pessoa. “Ei, Xepão! Caramba. A minha casa caiu em cima de alguém. Olha ali, ficou só as pernas de fora, ficou só aparecendo do joelho até as pernas...”, Xepão logo interrompeu: “Ei, porra! Não esquenta não. Era só um negacionista. Olha ali, nos pés dele, ele usava botas de fazendeiro, andava falando asneira por aqui, ninguém saber dizer como ele entrou aqui. Mas acho que esse aí já era”. Nesse momento, as pontas das botas se entortaram formando meia lua e desapareceram para baixo da casa.
***
“Olha ali, quem vem ali! Ele vem te receber”, disse Xepão. Dário olhou na direção que Xepão apontou. Dário começou a rir e falou: “Égua, não acredito! É Ele! O Todo Poderoso! Deus!”. Xepão balançou a cabeça de forma negativa: “Não é Deus não, seu porra! É Karl Marx!”. Dário riu mais ainda: “Hahahahahaha! Mas eles se parecem muito! Hahahahaahah”. As risadas do professor tomaram conta do Paraíso Celestial. “Vem cá, seu barbudo!”, Dário falou quanto se aproximava do filósofo alemão, “Me dá um abraço”.
A música Elevation voltou a tocar...
Aos professores Jefferson Alves (Xepão) e Dário Azevedos dos Santos: não esqueceremos de vocês!
Emocionante. Muita riqueza em todo o desenrolar da narrativa. Conseguiu combinar um final de homenagens e crítica política sem perder a sensibilidade do conto.
ResponderExcluirHomenagem merecida!
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