RABIOLA MORCEGO PARTE 4: FINAL
Enfim, chega ao fim a saga do meu irmão Ozias e da sua Rabiola Morcego. Esse final foi escrito em 2018 e teve como título Lobinho. Mas é a primeira vez que está sendo publicado. O Blog Correio do Osi tem o privilégio de trazer essa derradeira aventura.
Então, vamos lá! Vamos acompanhar esse voo.
Boa leitura!
LOBINHO
Eu estava lá no alto, no olhinho da jaqueira. Lá em cima, bem no alto. No topo. “Menino!! Cuidado!! Pelo amor de Deus!!! Não vai cair daí!!”. Mamãe Branca gritava lá de baixo. Ela lavava louça no jirau. “Por que todo menino é danado?”. Na verdade, Mamãe Branca passava o dia todo junto ao jirau. Sempre estava ocupada. Sempre fazendo alguma coisa. Não parava de lavar louças, lavar roupas e de preparar a nossa comida. “Esse menino ainda vai me matar do coração”. Eu ria da mamãe. Depois ela se esquecia de mim. Eu ficava só olhando pra ela. Ela entrava na cozinha, saía da cozinha e ia para o jirau. Do jirau para cozinha. Não parava nem um pouquinho. Aí, repentinamente, voltava a lembrar de mim: “Ô, Touro, olha esse menino!”.
O jirau era onde ela decidia tudo na casa. Lá do alto da jaqueira eu ficava vendo o vai e vem da mamãe e do balançar dos seus cabelos louros. “Esse menino é capeta. Não morre assim não”. Gritava Papai Touro lá da barraca onde ele fazia as sandálias. Papai era sapateiro. Essa barraca ficava junto da nossa pequena casa de pau a pique revestido de cimento. “Não liga pra ele não, mãe. Ele só sabe fica nessa jaqueira”, reclamava minha irmã Kekel e continuava: “Gente do capeta é assim mesmo, sempre aprontando”.
Quando mamãe se desocupava, lá pra duas ou três da tarde, preparava o café da tarde. Depois ia para o quintal. Ia cuidar e conversar com todas as plantas pequenas e grandes. Eram várias. Papoulas, margaridas, rosas brancas e rosas vermelhas e muita plantinhas com flores. Tinha também samambaias e os pés de Urucum, de Ajuru, de araçá. Mamãe Branca passava o resto da tarde conversando com esse mundo de plantas. Os cães Ceci, Duque e Lobinho acompanhavam serenamente Mamãe Branca pelo quintal. Eu ficava por ali, no olhinho da jaqueira. Apreciando as árvores do Camping Ibirapuera, do Igarapé Castanhal e dos quintais dos vizinhos. Dava pra vê até as árvores lá longe do Janjão, do Jardim Tókio e até mesmo a cabeça do Cristo Redentor.
O melhor momento era quando passava o vento. Isso mesmo. O vento. Nesse momento a jaqueira voava navegando sobre o bairro Nova Olinda. Quem sempre me acompanhava na navegação era Quati do Mato. Ele tinha um costume de ficar sempre em cima da minha cabeça. De repente o quati puxou meus cabelos e gritou: “Olha menino, lá em cima, nas nuvens! É teu irmão voando na Rabiola Morcego”. Ozias passou voando sobre nós. Sumiu pros rumos pra quem vai para a Vila do Apeú. Sentia orgulho do meu irmão. Ele não tinha medo de voar. Quanto a mim, não tinha medo de subir no olhinho da jaqueira.
Ozias retornou voando sobre Milagre, Pirapora, Morrinho, Saudade, COHAB. Quando se aproximava novamente do nosso bairro, Ozias sentiu que a Rabiola Morcego estava perdendo altura. “Sobe mais Rabiola Morcego!!”, gritou Ozias. Rabiola Morcego continuava perdendo altura. Nesse momento passava por cima dos Pinheiros de Alumínio que ficam ali, às margens da Transcastanhal. Subitamente Rabiola Morcego perdeu força e se engatou no alto de um dos pinheiros. Ficaram lá em cima, pendurados. Ozias não entendeu que aconteceu. “Vamos Rabiola!! Voa, voa”. Nada de resposta. Ali, por aquelas árvores de Pinheiro Alumínio, dormia O Gigante Dono dos Pinheiros de Alumínio. “Voei Rabiola Morcego!!”, gritou mais alto o menino que dominava a rabiola.
O gigante acordou: “O quê!!?? É aquele menino que ousa voar sobre o céu da minha cidade?! Agora vou pegá-lo HAHAHAHA. Vou acabar com a ousadia desse menino”. O gigante levantou rapidamente e caminhou com passos largos até o pinheiro que estava engatado Ozias e a Rabiola Morcego. Chegando ao pé da árvore, o gigante teve que escalar porque pinheiro era o mais alto da cidade. Ozias sentiu a árvore balançar. Quando olhou para baixo, viu o gigante escalando. Ozias ficou nervoso. Fechou os olhos e se lembrou do primeiro voo, do primeiro sentimento que o fez voar até as nuvens. “Vamos Rabiola!! Voei!!”. A Rabiola Morcego de desengatou e saiu plainando sobre a Rua Comandante Assis e ganhou novamente as alturas. Lá de cima, quase nas nuvens, Ozias viu o gigante gritando: “Não poder ser!!! Ele estava tão próximo da minha mão!! Nããããoooo”. O Gigante Dono dos Pinheiros de Alumínio não se conformou. Do alto do pinheiro deu um grande salto e caiu bem no meio da Rua Comandante Assis. Perseguiu Ozias que voava sobre Rabiola Morcego. “Ele não vai escapar de mim!!!”.
Ozias sentiu outro susto. Um susto maior. Rabiola Morcego perdeu novamente a força. Caíram girando, girando, girando. “Acorda Rabiola Morcego!!!”, gritou Ozias e puxava os talos da rabiola pra vê se conseguia controlá-la. Girando, girando, girando. Caíram no quintal de casa. Caíram sobre a mangueira. Foi um barulho só. Toda bicharada do quintal se espantou. “Vamos pessoal!! Vamos acudir Ozias!”, alertou Lobinho.
Quati do Mato desceu rapidamente da jaqueira e correu até a mangueira onde subiu feito foguete. Lobinho, Patarrão, Bicudo e o Sapo Estrelado não perderam tempo. Logo ajudaram Ozias a descer da mangueira. “Quati do Mato”, falou Lobinho, “Tu ficas responsável pela Rabiola Morcego”. Sem perder tempo, Quati do Mato foi desenrolar as linhas e rabo da rabiola. Lá em baixo, Sapo Estralado falou: “Ei, vocês estão sentindo o que eu estou sentido? Tremor de terra!!!”. Ouvindo isso, Quati do Mato subiu até o olhinho da mangueira. Viu que o gigante se aproximava. “O gigante!! O gigante!! Ele está se aproximando!”.
Quati gritou para mim: “Menino! Menino! Desce da jaqueira. Vai avisar tua mãe!!”. Desci e fui até a cozinha. Mamãe Branca não estava lá. Fui até a sala. Também não estava. Mas da porta da sala vi que ela estava na frente de casa e encarava O Gigante Dono dos Pinheiros de Alumínio. Mamãe Branca olhava firmemente o gigante. “O que tu quer aqui, seu nojento!?”. O gigante olhou para baixo e aproximou seu rosto pálido e falou: “Ouça, mulher de olhos castanhoverde: O voo da Rabiola Morcego está com os dias contados. Em breve a ousadia daquele menino terminará”. Quando gigante falava eu, Duque, Ceci, Lobinho e Quati do Mato e nos aproximamos e ficamos ao lado da Mamãe Branca. Me agarrei na cintura dela. O gigante me viu e logo percebeu que eu era filho daquela mulher branca. Então ele riu: “HAHAHAHAHAHAHAHA!!! Esse menininho índio preto é teu filho?!!! HAHAHAHAHAHAHA!!”. Mamãe Branca me colocou no colo: “Isso mesmo. Ele é meu filho”. O gigante riu novamente: “HAHAHAHAHAHAHA!! Sabe, mulher branca, é a primeira vez que vejo uma mãe branca que cria um índio que não é índio, mas é preto HAHAHAHAHAHA. Por isso que esta cidade não pode pertencer a todos.
Senti que o coração da Mamãe Branca acelerou. “Arre!”, disse ela para o gigante, “Não tenho medo de sua risada, demônio do cão! Eu sei viver nesta cidade do jeito que eu quero. Do jeito que meus filhos e vizinhos querem”. Lobinho, Ceci e Duque rosnaram para o gigante. “Sai daqui, agora!!!”, gritou Lobinho. O gigante se retirou da frente de casa. Ele foi embora rindo. Quati do Mato subiu pelas pernas da Mamãe Branca até chegar à cabeça dela. Mamãe voltou para cozinha e me levou no colo. Olhei para mamãe. Seus olhos castanhoverdes ficaram avermelhados. Passaram sair lágrimas dos seus olhos.
Não entendia por que Mamãe Branca chorava baixinho. Na cozinha, beijou meu rosto e me colocou na janela que dava para o fundo do quintal. Quati do Mato pulou da cabeça dela para cima do armário. Onde ficou quietinho vendo Mamãe Branca chorar junto da mesa. Depois ficou pensativa. Passaram as lágrimas e preparou novamente o café da tarde. Ela passou a cantar. Cantar baixinho. “Que música é essa?”, perguntou Quati do Mato. “Ah, é uma música do tempo do meu avô. Ele costumava cantar pra mim. Vovô Chico Bezerra. Saudades desse velho nordestino da peste”.
Papai Touro não viu o Gigante Dono dos Pinheiros de Alumínio e nem as lágrimas castanhoverdes avermelhadas da mamãe. Ele estava lá no pé da mangueira. Estava com a bicharada do quintal ao redor do Ozias. “O que foi que aconteceu com a Rabiola Morcego? Por que a gente caiu?”. Houve um silêncio demorado. Todos os animais ficaram atentos. Esperando a resposta do Papai Touro. “Você tá crescendo, seu peste. Tu não pode mais tá voando por aí não. Não mesmo!”, disse Papai Touro. Os animais se assustaram com que ouviram. Ficaram olhando um para o outro. “Eu, crescendo?”, Ozias falou. “Isso mesmo”, continuou papai, “Daqui algum tempo, tu vai ter que lançar Rabiola Morcego para o céu”.
Sapo Estrelado deu suspiro. Passou olhar para baixo. Ficou entristecido. Sabia que Touro tinha razão. Ozias estava crescendo e teria que deixar de voar. Sapo Estrelado se retirou devagarinho. Aquilo era muito dolorido. Lobinho não tinha entendido: “Papai Touro, não se preocupe. Ozias tem muito sonhos. O que aconteceu foi só um descuido”, Lobinho falava e dava cambalhotas. Sonhos. Essa palavra fez Papai Touro abaixar seus olhos e ficou pensativo. Ceci e Duque se entreolharam. Patarrão e Bicudo pensaram que talvez Touro estivesse exagerando. Ozias foi se deitar. Estava cansado.
Eu tinha ouvido tudo isso da janela da cozinha. Também não entendi o silêncio do Papai Touro. Apenas senti medo. O que quebrou essa sensação em mim foi o cheiro do café que tomava a pequena casa. “Venham tomar café. Bandos de espritados do Sataná!!”. Mamãe Branca colocou copos de vidro e a chaleira velha cheia de café bem quente sobre a mesa. Eu e Quati do Mato nos servimos. Cada um pegou um copo de vidro e enchemos de café. Misturamos no café a margarina e farinha de mandioca. Ficamos tomando essa mistura com a colher. Quando sorvia essa merenda da tarde, acabei lembrando a frase do Papai Touro: “Daqui algum tempo...”. Fiquei pela cozinha até anoitecer. Quati do Mato se retirou logo nas primeiras horas da noite.
***
A noite chegou. Naquela madrugada, lá no horizonte, lá por trás daquelas árvores, os gigantes da “cidade modelo” subiram e deram às mãos. Lançaram um sopro ruim sobre toda a cidade. O sopro atingiu o nosso bairro e sacudiu com toda força as árvores do nosso quintal. Papai Touro dormia na rede que ficava estendido no corredor da nossa casa. Ouviu o zunindo do sopro. Não teve coragem de olhar pelas frestas das janelas quando as árvores estavam se chocalhando. Preferiu se encolher na rede.
Mamãe Branca estava na cama. Ela também preferiu não vê os estalos dos galhos e nem ouvir o zunindo. Mamãe chorou naquela madrugada, porque sabia o que seus filhos encontrariam ao nascer do sol. Chorou porque sabia que todos aqueles meninos pobres da rua não seriam o mesmo. O sol se levantou desconfiado. Acordamos com a agitação da bicharada no quintal.
Ozias foi o primeiro a se levantar e a
ir até o quintal. Estava tonto. Não sabia por que. Que tonteira mais estranha.
Andava cambaleando. Tombou. Caiu no meio do quintal. Todos os animais o
cercaram. Todos assustados. Não conseguiram acredita no que viam. Como aquele
menino que dormiu menino e agora acordou rapaizão? Já seria um jovem adulto? Ozias
se levantou e caminhou até o fundo do quintal. Chegou até a cerca de estaca.
Encostou seu rosto nas estacas e ficou olhando para além dela. Viu a Rua Presidente
Kennedy, as árvores do Camping Ibirapuera e o campo de pouso. Percebeu que
olhava tudo de forma diferente. Teve a sensação que a paisagem tinha perdido cores.
“O que foi Ozias? O que tá vendo?”, perguntou Lobinho. Ozias não falou nada.
Retornou para cozinha de casa.
***
Ozias entrou na cozinha. Estava acompanhado do Lobinho e do Sapo Estrelado. Lobinho se acomodou de baixo da velha mesa da cozinha e Ozias colocou Sapo Estrelado na janela. Ozias ficou pensativo quando se sentou a mesa. Papai Tourou entrou na cozinha trazendo pão padeiro e disse tristemente: “Daqui algum tempo chegou. Você já sabe o que deve fazer”. Ozias abaixou a cabeça e seus olhos começaram a lagrimar. O coração do Lobinho acelerou e os olhos do Sapo Estrelado lagrimaram. Mamãe Branca entrou com chaleira cheia de café quente. Ela tinha feito o café na casa da vizinha Baiana. Nosso gás tinha acabado. Mamãe Branca trouxe o café segurando as suas lágrimas. Não teve coragem de falar nada para Ozias. Quando deixou o café na mesa, logo se retirou. Correu para casa da minha Madrinha de Batismo. Ficou lá chorando.
Ozias tomou o café e foi até a sala de casa e pegou a Rabiola Morcego e caminhou para o fundo do quintal. Lobinho o seguiu: “Ozias!! Resista. Você não pode abandonar seu sonho, sua imaginação. Resista!! Lembra o que disse o Cavalo Cansado. Não abra mão do seus sonhos”. Ozias estancou no meio do quintal. Entre a mangueira e o pé de canela. Lembrou-se do Cavalo Cansado deitado na rede, ali mesmo. Ozias lembrou a tristeza daquele animal que trabalhou a vida inteira para os homens. Quando se lembrava do Cavalo Cansado, foi cercado por Bicudo, Patarrão, Ceci, Duque, Lobinho, os pintos, os curiós do Papai Touro e os periquitos. Ozias sentiu que não podia resistir. Seguiu até o fundo do quintal. Pulou a cerca e ficou no meio da encruzilhada da Avenida Altamira com a Rua Presidente Kennedy. Ficou ali parado. Ficou de cabeça baixa. Ficou olhando para Rabiola Morcego. Parecia que estava chorando. Todo bicharada do quintal de casa subiu na cerca. O mais desesperado era Lobinho: “Ozias!! Não!! Por favor! Não faça isso!! Resista!! Você precisa seguir seus sonhos. Você precisa voar!!!”.
Todos os vizinhos e os nossos amigos de infância da rua de casa, todos os moradores da Nova Olinda e de outros bairros sentiram o desespero de Lobinho e a tristeza de Ozias. Todos foram para lá, para a encruzilhada: os operários da Fábrica de Carroceria, de Alimentos e da Indústria Têxtil, os Estudantes da Escola Senhora Pereira, As Beatas da Igreja Dona Perpétua, as Mulheres da Minha Deusa, os Ciganos lá de perto de casa, o Pessoal do Taboquinha Bosque e do Bosquinho, a Turma da Anarquia, Os Dois Irmãos Roqueiros, o Dragão que trouxe os membros da Turma do Dragão, os Clientes do Cabaré Aurora, os Moradores da Vila da Dona Pretinha, Pessoal do Aquário Dance, Pessoal que Joga Pelada e Vôlei no Calçadão do Estrela, os feirantes da CEASA e Ela. Todas foram vê aquele menino que havia conquistado o céu da cidade modelo. Agora se deparavam com um menino triste. Todos ficaram entorno de Ozias. Todos sentiam a angústia que ele sentia. “Resista!! Ozias! Veja. Todos estão aqui!! Eles desejam que você resista!!”, gritou Lobinho lá da cerca do quintal de casa.
Eu peguei Sapo Estrelado e coloquei em cima da minha cabeça. Chegou repentinamente Quati do Mato. “Menino, eu demorei acordar. Eu estava sonhando com tudo isso. É verdadeiro pesadelo”. Eu, Quati do Mato e Sapo Estrelado subimos até na jaqueira. Lá de cima, nós vimos aquela Multidão que tinham cercado Ozias. Este olhou para cima. Um olhar demorado. Demorou-se. Então, lançou a Rabiola Morcego para o céu. Lançou para o infinito. Todos que estavam ali viram o último voo da Rabiola Morcego. Ela voou, voou, voou. Voou para as nuvens. Voou para o azul sem cor do céu. A Multidão presente abaixou a cabeça. Todas as pessoas presentes estavam entristecidas e agitadas. Choravam discretamente e se perguntavam por que tinham que abrir mão dos sonhos.
O Dragão da Turma do Dragão ficou tão triste que deixou de voar. Retornou andando para Ianetama. Alguns moradores viram o Dragão chorando por ali, na Rua da Piscina. Lá de cima da jaqueira, lá do olhinho dessa árvore eu, Quati do Mato e Sapo Estrelado olhamos Ozias de cabeça baixa. Olhamos para cima. Mas não se via mais a Rabiola Morcego. Ela foi embora. Eu chorei também. “Não chore menino”, disse Quati do Mato. Mais adiante. Lá no horizonte. Os gigantes riam, riam, riam. “Conseguimos!! A cidade e o céu novamente nos pertencem. HAHAHAHAHAHA. Venham, soldados! Levem todos!!!”.
A cidade começou a tremer. “Meus Deus!! O que será isso?”, disse Mamãe Branca lá da casa da Madrinha de Batismo. Milhares de soldados vinham marchando pelas ruas da cidade. “Marche, marche, marche,”. Soldados uniformizados. “Marche, marche, marche”. Soldados marchando em ordem. “Marche, marche, marche”. Traziam armas. “Marche, marche, marche”. Traziam em suas mãos chicotes. “Marche, marche, marche”. Soldados pararam.
O Capitão do Exército que Usava Chapéu de Vaqueiro gritou alto: “Soldados!! Peguem seus chicotes! Peguem seus relhos!! Açoitem todos aqueles que estão na rua!!”. Soldados passaram a marchar e chicotear quem encontravam pelas ruas da cidade. “Pátria!!”. Gritava os soldados quando chicoteava. Todas as pessoas correram. Entraram em suas casas, pularam as cercas, se esconderam nos seus quintais. “Pátria!!”, Páááá!! Páááá! Lá da jaqueira gente ouvia o estalo dos chicotes. “Ozias!!, Sai daí!!! Vem pro quintal! Os soldados estão chegando”, gritou Sapo Estrelado. “Pátria!!”, páááá!!. O chicote estalou nas costas dos operários castanhalenses. Tiveram que retornar imediatamente ao trabalho. Os Patrões aplaudiram a ação dos soldados. “Pátria”, pááááá!!. O chicote estalou nas costas dos Ciganos. Estes tiveram que desarmar suas tendas e fugiram, foram em busca de outra cidade.
“Pátria!!”, páááá!! O chicote estalou nas costas das Mulheres da Minha Deusa. Elas correram. Voltaram às pressas para boate. Mas a boate não existia mais. O lugar estava vazio. Elas ficaram sem lugar, sem rumo. Não podiam retornar para suas famílias porque tinham sido expulsas ou seis pais vivam na miséria. Outras nem família tinham. “Pátria!!”, páááá!!. O chicote estalou nas costas dos Estudantes da Escola Senhora Pereira. Esses estudantes estavam sem carteira, sem merenda e sem professores para protegê-los. “Pátria!!”, páááá!!. As Beatas foram esquecidas por seus afilhados. Estes só apareciam às vezes na semana santa. Restou para elas a dor no peito de não mais abençoar como antes seus afilhados.
Os Clientes do Cabaré Aurora foram presos e extorquidos pelos soldados. Clientes que não tinham dinheiro foram torturados. Lá do céu do Milagre, vinham caindo paraquedistas. Abriram os paraquedas e pousaram sobre o teto do Cabaré Aurora. O peso dos paraquedistas fez o cabaré desabar. A Vila da Dona Pretinha foi invadida por soldados e eles passaram a expulsar seus moradores.
Os soldados também procuravam Nelson. Ele era acusado de práticas de feitiçaria. Tinha lido os livros perigosos e conversava com Pajés e com Mãe D’Água. Nelson deveria ser chicoteado em praça pública. Mas Nelson conseguiu fugir. Ele se transformou num passarinho azul e saiu voando para o rumo da cidade dos Caetés. Até hoje vive disfarçado de vendedor ambulante. Bosquinho e Aquário Dance foram invadidos pelos soldados. Eles chicotearam todos que dançavam nessas sedes. Os dançantes foram presos e chicoteados pelos soldados. “Pátria!! Pátria!! Pátria!!”. O chicote alcançou as costas dos feirantes da CEASA. Esses voltaram rapidamente para feira e tiveram que se calar e continuar vendendo a carne verde inflacionada. “Pátria! Pátria! Pátria!”.
As Turmas de ruas da Anarquia, da Van e do Dragão e os Dois Irmãos Roqueiros não aceitaram as chicotadas e muito menos a ascensão daquele Capitão do Exército que Usava Chapéu de Vaqueiro. Os jovens se juntaram para enfrentar os soldados e derrubar Ordem da Pátria do Chicote. Mas esses meninos não tinham qualquer tipo de armas. Tinham apenas a coragem. Atacaram e pularam sobre os soldados. Estes revidavam com mais chicotadas. “Como ousam lutar contra os defensores da Ordem da Pátria do Chicote??!!!”, berrou o Capitão do Exército que Usava Chapéu de Vagueiro. Os soldados tinham certa dificuldade de capturar os membros das gangues e os Dois Irmãos Roqueiros. Os garotos corriam como atletas na Avenida Altamira e nas ruas Comandante Assis, Coronel Leal, Paes de Carvalho, Ipiranga, Duque de Caxias e na Transcastanhal.
Os jovens pegavam em estacas, pedras e cipós e iam para cima dos soldados. Soldados caíam. Mas se levantavam rapidamente. Os soldados tinham o Estado, o Chicote e os Gigantes. Esses três pilares os motivaram a serem mais violentos possíveis. “Marche! Marche! Marche!”. Soldados marcharam sobre os meninos. Os garotos rebeldes foram derrotados e tiveram que fugir. Passaram a viver na clandestinidade.
Agora os soldados marchavam para perseguir
Ela. Inteligente e rápida, Ela sempre conseguia fugir dos soldados, sempre estava
à frente deles. Eles criavam estratégias e diversos planos, mas não conseguiam
capturá-la. O Capitão do Exército que Usava Chapéu de Vaqueiro convocou um
agente secreto para rastrear e prender Ela. Não tiveram êxito. Ela se despistou
de todos esses agentes ocultos Mas teve um dia que Ela ficou cercada. Isso
aconteceu perto de sua casa. Em cada esquina tinha um soldado com chicote. Ela
se lembrou de uma Tia que morava ali perto e logo se dirigiu para lá. A Tia não
mediu esforços para ajuda-la. Eu lembro que essa Tia sabia do nosso segredo, do
nosso namoro. Quando os soldados se dispersaram, Ela pôde retornar para sua
casa. Despediu da sua Tia e logo correu para direção de sua casa antes que os
soldados reaparecessem nas ruas. Enfim, em casa. Ela ficou aliviada e passou a
desenhar um grande navio. Essa nave marítima seria usada contra os soldados. Chegaram todos seus recrutas para embarcar no
navio que Ela projetou. Mas eu não embarquei. Ela me esperou. Mas eu não
apareci...
***
Manel Preto veio correndo lá do centro da cidade. “O cinema tá afundando!! Vamos pessoal!! Vamos lá!! Gente não pode deixar afundar”. Todos os homens da rua de casa correram para o centro da cidade. Quando chegaram, viram imagem assustadora. Viram o cinema sendo engolido lentamente por enorme buraco. Os Donos da sala da imaginação não tinham mais forças para segurar. Muita gente lançou laços sobre a sala. Amarraram nas bordas. Passaram a puxar. “Puxem!!!!!”, gritou Manel Preto. Mas quanto mais puxavam, mais o cinema era engolido.
O Coreano Castanhalense de meia idade e que usava capacete estilo mineiro que retira carvão das profundezas da terra, pulou até abeira do abismo e segurou uma das bordas do cinema Uma vez me disseram que esse coreano morava ali, perto da rodovia federal. Morava sozinho, num pequeno quarto. Ele usava toda sua força, todos seus sonhos para não deixar o cinema ser engolido. “Segura coreano! Segura coreano!”, Manel Preto gritava loucamente. Coreano Castanhalense segurou a sala da imaginação por muito tempo segurou, segurou.
Quanto segurava, passou a lembrar de todas as maravilhas, todas as imaginações que os filmes traziam para ele. Lembrou-se dos momentos de tristezas que passava sozinho no quarto onde dormia. Quando sentia tristeza, ia até ao cinema. Lá, esquecia toda tristeza e passava a alimentar a sua imaginação através dos filmes. Ficava pensando como seria se fosse perseguido por um gorila gigante, lutar contra alienígena invisível, lutar ao lado do Bruce Chinês, se atrapalhar com os trapalhões, enfrentar sozinho o exército soviético no deserto do Afeganistão. Mas agora, naquele momento, via que tudo isso podia se perder. O que faria? Ficaria em casa sozinho? O Coreano segurava o cinema a qualquer custo.
A multidão também puxava com as cordas. Mas foi impossível. O cinema foi engolido. Desapareceu. O Coreano ficou ali mesmo, deitado de bruços, no meio da Avenida Barão do Rio Branco. Chorava discretamente. Não tinha coragem de retornar para sua casa. Não tinha coragem de vê o que restou da cidade. Os nossos vizinhos voltaram todos entristecidos. Manel Preto ficou pensando no Coreano. Aqueles anos foram ruins para todos. Os gigantes riram de tudo aquilo. Riram, riram e fincaram os seus pés com toda força próxima das nascentes dos rios e igarapés. A pisada foi tão mortal que criou uma onde gigantesca de barro, lama, cimento e ferro que afogaram o Rio Apéu, Igarapé Castanhal, Lagoa Azul, Igarapé da Pinguela, do Janjão. Todos os lagos, rios e igarapés pediram por socorro. Ninguém ouviu o pedido de ajuda.
Os gigantes não se cansavam. Resolveram verticalizar a cidade. Eles deram ordem para construírem grandes colunas de concreto. Teve uma coluna que ficou tão alta, tão alta que um trabalhador caiu lá de cima e veio caindo, caindo, caindo e caiu para o esquecimento da história.
O Capitão do Exército que Usava Chapéu de Vaqueiro soube que na rua de casa não se encontrava nenhum homem adulto. Todos tinham corrido para socorrer a Sala da Imaginação. “Soldados!! Peguem todos os jovens e leve-os para o Grande Tiro!!!”. Soldados passaram a marchar sobre a nossa estreita rua. “Marche! Marche! Marche!”. Todas as mães saíram de suas casas e foram enfrentar a Ordem da Pátria do Chicote. Elas não tinham armas. Mas enfrentaram aqueles homens que marchavam. Os soldados não as pouparam. Chicotearam todas as mães. “Marche! Marche! Marche!”. Os soldados pisotearam as mães e entraram em cada casa e levaram jovens para o alistamento militar. Chutavam as portas. Reviravam as camas. Quebravam os jiraus. Arrancavam as plantas, as flores e as frutas. Alguns animais dos quintais dos vizinhos foram executados. Sapo Estrelado conseguiu levar toda bicharada do nosso quintal para seu esconderijo secreto.
Ozias ainda estava na encruzilhada da Avenida Altamira com a Presidente Kennedy. Estava de pé e de cabeça baixa. Não percebeu os soldados se aproximando dele. Os soldados passaram por nosso quintal, quebraram a nossa cerca e foi até onde Ozias se encontrava. Mamãe Branca tentou defendê-lo. “Não levem meu filho!!! Ele já perdeu seus sonhos!!”. Soldados arrancaram Mamãe Branca da frente do Ozias e o levaram para o Grande Tiro. Lá da jaqueira, vimos os jovens sendo levados para o quartel do Grande Tiro. Todas as mulheres estavam atordoadas com tudo aquilo.
Os homens chegaram. Mas ficaram em
silêncio. Eles se desabaram na frente de suas casas. Mamãe Branca estava
sentada na encruzilhada. Lá da jaqueira vi que ela chorava. “Vamos descer Quati
do Mato. Mamãe chora”. Mas chegamos até à cerca de casa. Não tinha coragem de
me aproximar da Mamãe Branca. Fiquei ali, junto da cerca e vendo mamãe chorar
na encruzilhada. Lobinho apareceu, pulou sobre cerca e foi até Mamãe
Branca. Lobinho estava inconformado:
“Por quê? Por quê?”, gritava Lobinho olhando para cima. “Por que golpearam a
nossa esperança? Por quê!!? Por quê!!?? Não é justo. Não estou suportando tudo
isso. Eu vou embora. Vou para bem longe dessa dor!!”.
Mamãe Branca chorosa disse: “Não sei, Lobinho! Não sei. Mas não se vá. Fica com a gente. Nós te amamos. Você é alegria do nosso quintal”. Mamãe Branca chorava, chorava, chorava. As suas lágrimas se derramavam sobre rua poeirenta. Ela usava um vestido estampado de cores diversas. Percebi que ela segurava uma enorme flor, segurava pelo talo. Era um girassol. Lobinho ficou em silêncio. Vê Mamãe Branca chorando de perto foi outro golpe que ele sentiu. Lobinho ficou de costas para ela. Olhou por um tempo para as árvores do Camping Ibirapuera e para a direção do Igarapé Castanhal. Depois se virou e olhou para o nosso quintal. Ele me viu junto da cerca. Voltou a olhar para Mamãe Branca sentada no chão de cabeça baixa. Cheirou seus cabelos loiros. Então, Lobinho saiu correndo em direção da cerca que separa a Avenida Altamira do campo de aviação do Camping Ibirapuera. Pulou sobre cerca para o lado de dentro do camping, atravessou o campo de aviação e alcançou o outro terreno de mata fechada, ali, onde é hoje o bairro Novo Estrela.
Tentei gritar. Tentei chamar Lobinho. Pedir para ele não nos abandonar. Mas não consegui, não saiu minha voz. Lobinho sumiu. Ninguém mais viu aquele cachorro danado. Fiquei sufocado. Não conseguia nem chorar. Toda bicharada do quintal sofreram com a decisão de Lobinho. Ceci e Duque foram chorar de baixo da cama da mamãe. Mamãe Branca se levantou. Ainda segurava o girassol. Viu se aproximar dela todas aquelas mulheres da rua de casa. As nossas vizinhas. Mesmo agredidas e tristes, todas as vizinhas foram até a Mamãe Branca. Minha Madrinha de Batismo, a Vizinha Protestante, a Baiana, A Professora, a Mão de Carta, a Merendeira da Escola Municipal, Dona Joaninha, A Mulher do Caminhoneiro. Todas aquelas mulheres coloridas e pobres abraçaram Mamãe Branca. Ficaram juntas, próximas. Elas sentiam a mesma dor. No meio delas saiu o girassol voando girando voando girando voando para o céu, para o firmamento. Os olhos daquelas mulheres acompanharam o voo do girassol que já alcançava as nuvens. Quando girassol ficou invisível aos nossos olhos, aconteceu uma chuva de sementes de girassol.
Não pude fazer nada por minha mãe. Ainda estava estático junto da cerca. Quati do Mato e Sapo Estrelado conseguiram me tirar do fundo do quintal e me levaram para a cozinha de casa. Quati do Mato decidiu preparar um pouco de café. Mas não encontrava a velha chaleira. A cozinha e parte da casa estavam bagunçadas. “A casa tá toda revirada”, disse Quati do Mato. “Não é a casa que está revirada, Quati do Mato. É o mundo que se encontra revirado”, retrucou Sapo Estrelado. Os dias se passaram. Passei me esconder no mato. Não ia mais para escola. Preferia ficar no mato escondido. Quati do Mato me disse que não era correto e que deveria ir para escola. Mas não ia. Nem queria também voltar pra casa. Não queria vê minha mãe sofrer.
Uma tarde a encontrei no quintal. Ela se aproximou de mim, me abraçou e chorou. Quando suas lágrimas caíram sobre mim, passei a encolher. Na verdade, eu não estava encolhendo. Eu estava voltando a ser uma criancinha. Sapo Estrelado se assustou com aquilo. Ele sabia que lágrimas choradas no espaço se tornam estrelas. Mas não sabia que lágrimas de mães poderia transformar seu filho em bebê novamente. Ceci e Duque sabiam que seus uivos espantavam visagens do quintal. Mas desconhecia dos encantos das lágrimas de mãe. Quati do Mato ficou muito confuso. Todo esse devaneio foi quebrado com os gritos do Papai Touro: “Cadê esse sem vergonho?! Cadê esse moleque espritado?! Vou ensinar pra ele não fugir da escola! Ele quer virar curipira?! Cadê, ele?! Cadê esses seiscentos do Sataná!! Vou dá uma surra nele, agora!!!”.
Mamãe Branca disse: “Toma. Ele tá aqui comigo. Nos meus braços”. Quando me viu, Papai Touro parou repentinamente. Não entendia o que via. Como seu filho voltou ser quase um bebê? Ficou por alguns momentos me olhando. Passou a ter medo. Ele se afastou da Mamãe Branca e passou andar para trás e tropeçou na raiz do pé da mangueira e caiu de costas. Sentado no chão, passou a lembrar de quando era bem criança. Lembrou que estava nos braços do seu pai, o Velho Leôncio Marinho. Lembrou de uma brisa sobre eles. Viajavam num vapor que trazia migrantes para Amazônia. Lembrou do porto e do trem que os trouxe para as colônias agrícolas. Lembrou também da fome, das chuvas, do calor, das febres, das gripes.
Quando me tornei um bebezinho, queria novamente retornar ao útero da Mamãe Branca. “Não pode”, ela disse olhando para meus olhos. “Por quê? Uma vez a senhora me disse que eu não queria nascer. Que o médico se esforçou muito para me tirar de dentro da senhora e quando me retirou eu demorei a chorar ”. “Não me lembre dessa história”, falou Mamãe Branca. “Vamos! Pare com isso. Volte a crescer porque você já nasceu.”. Então, me ela me ergueu, bem lá em cima. Bem no alto. Dava pra vê todas as árvores do bairro. Ela sacolejou meu corpo. Depois dessa sacudida, voltei a crescer novamente.
Mamãe Branca continuou abraçada comigo. “Vamos dançar, meu filho”. Passamos a valsar pelo quintal de casa. Valsamos, valsamos. Não tinha nenhuma música. Mas valsamos. Valsamos a partir de uma música imaginária. A cadela Ceci levantou Papai Touro e passou a valsar com ele. Duque valsava com Quati do Mato. Sapo Estrelado valsava com Bicudo e Patarrão. Todos valsaram. Valsaram e flutuaram. Voaram sobre a nossa cerca de estaca e passaram a valsar na Avenida Altamira. Valsaram, valsaram. Todos os vizinhos passaram a valsar também.
***
No quartel do Grande Tiro se ouvia gritos e ordens do Capitão do Exército que Usava Chapéu de Vaqueiro. “Marche! Marche! Marche! Marche para direita. Marche mais para direita. Marche até a extrema direita. Vamos seus moleques!!!”. Ozias e outros jovens marchavam sem parar, obedeciam sem parar. Por vários dias marcharam, marcharam, marcharam. No dia da Bandeira do Chicote, marcharam aos pés dos Gigantes. Estes apenas riam da daqueles meninos submetidos ao chicote. Os Gigantes concordavam entre si que aqueles jovens não deviam ultrapassar seus limites. Esses meninos deveriam aceitar que a nação não pertence a todos.
Encerrado o desfile militar do dia da Bandeira do Chicote, um dos Gigantes se levantou e chamou o Capitão do Exército que Usava Chapéu de Vaqueiro. O Gigante disse para o oficial que deveria dispensar os jovens que desfilaram. Agora eles seriam transferidos para o mercado de trabalho. “Deixá-los lá. Entregues ao trabalho sem prazer. Recebendo em troca um pagamento mínimo. Ou entrega-los para o setor de trabalho não fixo, do trabalho sem definição. Cujo pagamento depende do que eles venderem ou do serviço que arranjarem”.
Ozias passou carregar caixas de cevada. Carregava infinitas caixas de cevadas. Subia nas infinitas escadas com as caixas de cevada. Descia nas infinitas escadas com as caixas de cevada. Carregue e descarregue. Não fique parado. Tem mais caixas, mais escadas, mais depósitos, mais cevadas. Todos os dias, ao final da tarde, chegava cansado em casa. Chegava tão cansado que não falava com ninguém. Não falava com Mamãe Branca, com Papai Touro e nem com a bicharada do quintal. Às vezes ele se lembrava do Lobinho. “Mãe, cadê Lobinho?”. Os olhos da mamãe lagrimavam quando ouvia essa pergunta. “Não sei, meu filho. Ninguém mais viu ele. Aquele cachorro danado sumiu...”.
Ozias trabalhou por muitos anos
carregando e descarregando caixas de cevada. Certo dia, depois do almoço, Ozias
resolveu não retornar ao trabalho. Decidiu armar a rede no quintal de casa.
Arrumou os punhos da rede nos galhos do pé de canela e nos galhos do pé da
mangueira. Armada a rede, se deitou e caiu num sono profundo. Estava muito
cansado. Talvez cansando do mundo. Dormiu, dormiu. Era uma tarde ventilada de
verão. Dormiu, dormiu. Pouco antes do final da tarde, Ozias acordou com
relinchar. Levantou da rede e viu um
cavalo diante dele. “Oi, Ozias. Lembra-se de mim?”. Ozias sorriu e logo
respondeu: “Claro que me lembro de você, Cavalo Cansado”. Opa! Tinha uma coisa
estranha, notou Ozias em si mesmo. Ozias tinha voltado a ser criança. “Que
incrível!!”, ele pensou. “Venha, Ozias. Suba nas minhas costas e vamos voar por
esse céu”.
O menino logo obedeceu e montou sobre o cavalo. “Estou seguro. Pode voar”. Cavalo Cansado saltou sobre a nossa cerca do quintal e alcançou a encruzilhada da Altamira com a Presidente Kennedy. Cavalo Cansado parou um pouco. Ele e Ozias olharam para árvores do Ibirapuera e para centro da cidade. Não tiveram dúvidas. Sabiam o que fazer. Então, o cavalo partiu com toda força sobre a rua de piçarra da Presidente Kennedy. Partiu para direção do Igarapé Castanhal. Galopava levantando poeira. Galopava, galopava, galopava voando, voando. Antes de chegar às margens do igarapé o cavalo se lançou para um voo mais alto, para o céu. Lá em cima, bem lá no alto, eles viram o sol se pondo. Ozias olhou para baixo. Viu toda a cidade lá de cima. Viu também o nosso bairro e nossa rua. Percebeu que a cidade e as pessoas mudaram. Nessa mudança muitos esqueceram o que viveram. A cidade não se reconhecia a si mesma. Ozias entristeceu. Passou a lembrar da molecada que se reunia no nosso quintal, das árvores, das flores, do jirau, do cheiro do café da tarde que Mamãe Branca fazia, da barraca de trabalho do Papai Touro, da bicharada, dos vizinhos, dos terrenos baldios, dos moleques, dos igarapés e das árvores do Taboquinha Bosque. Ozias chorou. Chorou por tudo isso que passou e que não existe mais. Suas lágrimas não caíram sobre a cidade. Elas foram para o firmamento e se transformaras estrelas. Por isso que a maior parte das pessoas que se deparam com uma noite estrelada, acabam despertando nelas algumas lembranças. As estrelas carregam memórias.
Cavalo Cansado relinchou e disse: “Olhe, Ozias, ali, mais adiante. É o Lobinho!!”. Ozias que contemplava o crepúsculo, olhou para outro lado do horizonte e viu Lobinho correndo sobre as nuvens e voando, correndo sobre as nuvens e voando. “Lobinho! Lobinho! Seu danado!”. O cão ouviu Ozias lá de longe e viu que o menino estava do outro lado, montado sobre Cavalo Cansado.
O cão fez um grande salto e voou até alcançar os dois. Lobinho chorou de emoção. “Ozias, me perdoa. Me perdoa por ter abandonado vocês. Fiquei confuso com toda aquela mudança. Não suportei vê o último voo da Rabiola Morcego”. Ozias abriu os braços: “Lobinho, você não precisa pedir desculpas. Me dá um abraço”. Os dois se abraçaram e choraram. Nesse momento apareceram voando Mamãe Branca, Papai Touro, Ozeias da Matemática, Kekel, Quati do Mato, Ceci, Duque, Bicudo, Patarrão e os gatinhos Remela, Remelinha e Remelão. Lobinho ficou mais emocionado quando abraçou Mamãe Branca.
Ela voou por um tempo com o cão danado no colo. Lobinho nunca esquecerá o quanto a mamãe zelou por eles. Ela lançava Lobinho mais para o alto e o cão dava cambalhota e fazia voos rasantes. Percebi que todos ficaram felizes com aquele encontro e todos voaram sobre as nuvens. Todos se abraçaram e choraram juntos e juntos partilharam as lembranças, as dores e a esperança. Nesse momento o sol dormia e as estrelas tomaram conta do céu. Elas passaram a iluminar a noite. “Olhem ali”, falou Quati do Mato. Ele apontou para as Árvores que Navegavam Voando. Em cada árvore voadora tinha uma amigo de infância que guiava a navegação. A molecada passou acompanhar o voo de Ozias que continuava montado sobre Cavalo Cansado. Lá no cosmos, entre as estrelas, estava Sapo Estrelado. Ele nadava e flutuava no meio das constelações.
Cavalo Cansado passou a correr voando
mais rápido, mais rápido. Todos voavam no mesmo ritmo. Voaram em direção das
estrelas. Aquelas estrelas ficavam além das árvores do Ibirapuera. Eu vi tudo
isso lá do alto da jaqueira de casa. No alto dessa árvore acabei me deparando
com essas memórias. Esse dia não saiu da minha cabeça. Foi o dia que a cidade
deixou de ser um lugar de imaginação e de sonhos se transformou na cidade do
progresso.
POSFÁCIO
Ozias era o garoto que vivia correndo atrás de rabiolas, papagaios, pipas. Ele adorava correr, pular cercas, cruzar ruas e entrar no matagal sem medo para apanhar rabiolas e outras semelhantes que vinham lá dos bairros do Estrela e do Caiçara. Mamãe Branca vivia chamando Ozias: “Menino do Cão!! Sai desse sol!! Cuidada por aí!!!”. Ele só ria. Fica ali parada no meio da encruzilhada da Avenida Altamira com a Presidente Kennedy. Às vezes passava o dia todo só olhando as rabiolas.
Eu ficava vendo tudo isso lá de cima da jaqueira de casa. Quem sempre estava com ele lá na encruzilhada erro Preto, o marceneiro. Preto trabalhava numa movelaria perto de casa. Quando o marceneiro se desocupava ia ao encontro do Ozias. Os dois ficavam observando os voos das rabiolas. O marceneiro também criava rabiolas, papagaios e pipas no seu tempo livre. Preto explicava para meu irmão como se construía rabiolas mais resistentes e rápidas.
Um dia, Preto, o Marceneiro surpreendeu
todos do bairro. Tinha construído a maior rabiola da cidade. A rabiola não era
apenas grande. Ela tinha forma de Morcego. Ela chamava sua criação de Rabiola
Morcego. O marceneiro amarrou uma linha forte na Rabiola Morcego e lançou para
o céu. Ozias e a molecada da rua de casa ficaram encantados com o voo da
Rabiola Morcego. Preto saía correndo e puxava a linha traçada na rabiola. Ele
correu para a direção do Igarapé Castanhal. Mas o vento estava tão forte que
fez a linha se partir e a Rabiola Morcego foi lançado a esmo pelo céu.
Preto se desesperou. Não acreditava no que aconteceu. Ele ficou estático. Começou a chorar. Sabia que quando a Rabiola Morcego caísse nas mãos daquela moleca, a sua criação seria estraçalhada pela agitação daqueles meninos.
Preto ficou entretecido e foi chorar sozinho, lá na beira do Igarapé Castanhal. Sentado às margens do igarapé, Preto chorava silenciosamente. Logo depois ouviu uma voz de criança chamando por ele. Preto se levantou e olhou para trás e viu Ozias trazendo Rabiola Morcego. Ela estava intacta. O marceneiro pulou de alegria e agradeceu Ozias por ter salvado sua criação.
Preto pegou a rabiola e ficou olhando por alguns minutos para ela. Depois olhou para o céu. Olhou novamente para rabiola. “Sabe, Ozias”, disse Preto, “Rabiola Morcego é sua”. Ozias ficou tão alegre que ele retornou para casa voando sobre a Rabiola Morcego. Preto não parou. Criou várias rabiolas: Rabiola Borboleta, Rabiola Jacinta, Rabiola Mucura e muitas outras. Um dia Preto foi embora. Passamos muitos anos sem saber do seu paradeiro.
Muitos anos depois, eu soube que Negão era zelador de uma igreja em alguma cidade que surgiu às margens da antiga Estrada de Ferro de Bragança (E.F.B.). Quanto ao Ozias, entrou para o exército. Ele não queria ser soldado. Não queria ir para o quartel. Queria continuar olhando para o céu e apreciar as rabiolas, papagaios e pipas. Ozias ia todas as tardes para o quartel. Isso causava uma dor no seu peito. Na semana da pátria, toda molecada da rua de casa foi vê Ozias marchar. De longe nós vimos Ozias marchando sem firmeza. Ele até tropeçou um pouco. Tropeçou porque ele tinha visto voo de uma rabiola ali longe.
Lobinho era realmente um cachorro muito
danado. Fazia de tudo no quintal de casa. Passava o dia atentando os outros
cães e outros animais. Mamãe Branca e Papai Touro sempre flagraram Lobinho
pensativo nos fundos do quintal. Ele ficava como uma estátua. Nem se movia.
Ficava olhando para aquelas árvores lá de longe. Um dia ele foi embora. Mamãe
ainda chegou vê-lo partindo. “Volta Lobinho!!”. Lobinho não olhou para trás e
seguiu seu caminho...
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