RABIOLA MORCEGO PARTE 3
A saga continua. Os Gigantes da "cidade modelo" não se cansavam de tentar de destruir a alegria das crianças lá da rua de casa, lá nos anos finais de 1980.
Árvores Voadoras (escrito em 2018) é o meu terceiro conto e integra às aventura do meu irmão Ozias e da sua Rabiola Morcego.
Boa Leitura!
ÁRVORES
VOADORAS
Quati do Mato veio correndo lá do matagal que ficava próximo do campo de pouso de aviões do Camping Ibirapuera. O sol estava tinindo de tão quente. Eram duas horas da tarde. Mesmo assim, Quati do Mato veio correndo, correndo, correndo. Chegando perto da nossa cerca de estaca, foi logo subindo na jaqueira. Subiu. Mas não viu ninguém. Só viu as jacas duras amadurecendo. Rapidamente desceu e entrou em casa. Lobinho viu a pressa do quati. Logo percebeu que era por causa do vento. Foi até cerca e viu pelas frestas que o vento subia a Presidente Kennedy. Lobinho chamou toda bicharada do quintal. “Vento! Vento! Vamos subir nas árvores, pessoal!!!. Elas já tão se agitando”.
Toda bicharada que dormia naquela tarde quente acordou e foi logo subindo nas árvores do quintal. Eu estava na rede e me balançava com tanta força que meus dedos dos pés tocavam no teto de cavaco velho de casa. Eu ouvia Rádio Rauland e Mamãe Branca preparava o café da tarde. “Que cheiro gostoso do café”. Quati do Mato subiu pelo o velho armário e saltou para os punhos da rede: “Bora, menino. Bora, menino”. Ele sacudia os punhos da rede. “O vento da tarde está chegando. Já está bem ali. Passando pelas árvores que ficam lá no Igarapé-Castanhal. As árvores do quintal de vocês já estão se preparando para navegação. Elas estão agitadas, agitadas demais. Vamos, vamos. Chama os moleques!!”.
Pulei da rede e saí correndo pelos quintais dos vizinhos chamando a molecada da rua: “O vento tá chegando! Vamos Lá!!”. Como se fosse um passe de mágica, a rua ficou tomada de meninos e meninas e fomos correndo para o quintal de casa. Papai Touro viu aquela arrumação toda: “Bando de moleques do Cão!! Já vão virar bicho!!”. Meus meios irmãos por parte de pai que trabalhavam com Papai Touro, fazendo e concertando sapatos em casa mesmo, riam e gritavam: “Eita, molecada!! Corre! Corre! Corre! Hahahahahahaha!”.
Quati do Mato estava todo agoniado. “Vamos, vamos subir. A poeira da Rua Presidente Kennedy já tá subindo. Sobe, sobe”. Eu subia rápido na jaqueira. A molecada se distribuia nos Pés de Canela, de Mangueira, de Abacateiro e até no pé de Pupunha. Subimos todos. A bicharada do quintal já estava toda arrumada pelos galhos. Na jaqueira ficou eu, Emanuel, Lobinho e Quati do Mato. Entre as folhas vi Bicudo, Patarrão e os pintos se equilibrando no Pé de Canela junto com outras meninadas. Ceci, Duque e Sapo Estrelado no Abacateiro.
A Mangueira ficou só com as meninas. Lá no olhinho da pupunheira se pendurava Júnior Pescoço de Dinossauro. Todos se posicionaram rápidos porque o Vento chegava e trazia as andorinhas, chicos preto, chicos pardos, pardais, sanhaçus, anus e rolinhas. Vinham surfando sobre o vento.
Todos preparados: Três, dois, um, zero!!! O vento passou com toda força sobre nós! “Que maravilha!!!”, gritou Lobinho. Todas as árvores do quintal passaram a zarpar. Nenhuma delas queria perder aquela rajada de ventania. Elas começaram a navegação voando, voando, voando. Éramos a tripulação das Árvores que Navegavam Voando. Cada uma tinha um comandante. Lobinho e Emanuel comandavam a nossa nau jaqueira. Sapo Estrelado guiava a árvore Abacateiro. Manu conduzia a Mangueira. Junior Pescoço de Dinossauro era o único da sua nave. Todos eram comandantes das Árvores que Navegavam Voando. Eles comandavam tudo lá do olhinho das árvores. Sem medo nenhum. Molecada corajosa.
O vento sacudia os galhos, as folhas, o tronco das árvores. A gente fecha olhos e sentia o calor da luz solar e da ventania que passava sobre o rosto da gente. Os passarinhos voavam sobre nós. Como era gostoso navegar nas Árvores que Navegavam Voando. Alcançamos as nuvens. Quati do Mato, em cima da minha cabeça, pegou um pouco de nuvem que desmanchou em suas patinhas. Lobinho sempre com a língua de fora. Toda molecada rindo e acenando uma para outras.
Lá longe, dava para enxergar outras árvores de outros quintais que voavam um pouco próximo de nós. A meninada de lá também nos acenava. Era uma alegria só naquelas tardes de estiagens ventiladas. A pupunheira se sacudia mais. Junior Pescoço de Dinossauro ia de um lado para o outro sem parar. “Ele é muito corajoso mesmo. Navegar sozinho assim na árvore pupunheira”, falou Quati do Mato. Olhei para baixo e vi Mamãe Branca tomando café da tarde.
Ela estava na janela da cozinha e também navegava. Ela sempre nos acompanhava da Janela da Cozinha que Navegava Voando. Não sei como ela fazia isso. Bastava ela ficar na janela para pegar um pouco de vento que logo navegava. Ficava ali, pensativa. De repente, desaparecia entre as nuvens. Mas logo em seguida reaparecia. Reaparecia e acenava para nós. “Cuidados seus pestes! Não voa muito alto não! Bando de meninos do Cão!”.
Para completar a nossa alegria, vinha lá de longe, lá do horizonte, daquelas nuvens distantes, vinha voando Ozias sobre a Rabiola Morcego. Passou voando sobre as Árvores que Navegavam Voando. Toda molecada e bicharada saldaram alegremente aquele menino que não temia sonhar. “Quero voar na Rabiola Morcego!”, gritou Patarrão pendurado nos galhos do Pé de Canela. Até Junior Pescoço de Dinossauro se equilibrou melhor na pupunheira. Aquela tarde de verão nos pertencia. Mas os Gigantes se levantaram lá no horizonte da cidade. Eles acordaram com o som da nossa alegria. Não admitiam tamanha ousadia desses meninos que moravam ali perto do matagal. Ainda tinha aquele menino da Rabiola Morcego que voava pelo céu da cidade.
Os Gigantes se
levantaram, gritaram e sopraram ventos malvados para nossa direção. Ventos
violentos nos atingiram. Os galhos, ao invés de balançarem, tremiam. “Que coisa
estranha.”, pensou Quati do Mato. “Se segurem!!!”, Mamãe Branca lançou voz lá
da Janela da Cozinha que Navegava Voando. Ela foi atingida também. Junior
Pescoço de Dinossauro quase caiu. Todas as Árvores que Navegavam Voando
pousaram.
Ozias sobre a Rabiola Morcego cortava o céu da Cabeceira do Apéu quando viu a ameaça dos Gigantes. Passou pelas nuvens e fez um voo rasante sobre os Gigantes que os deixou atordoados. Eles tombaram. Não se deram por vencidos. Levantaram novamente e lançaram sobre Nova Olinda as Motos Motocross. Os filhos dos Gigantes montaram nelas e se exibiram pelas ruas do bairro. Faziam verdadeiras algazarras.
As Motos Motocross faziam barulhos ensurdecedores e produziam tempestades de poeira. Os Gigantes ergueram uma pista de competição para esses motorizados no Camping Ibirapuera. Eles realizavam competições entre si.
A molecada desceu das árvores e foram para junto das cercas de arame farpados do Camping Ibirapuera. Queriam vê aquelas máquinas barulhentas correndo e pulando. Passaram se iludir, porque desejavam ter uma das Motos Motocross. Mas não podiam. Não tinham condições de comprar. A molecada percebeu que estava distante de tudo aquilo. Nem poderia entrar no camping para apreciar melhor e mais de perto as competições. Entravam somente os Gigantes, os Filhos dos Gigantes e os Filhos dos Gigantes da Capital.
Os nossos vizinhos, as Turmas da Anarquia, da Van e do Dragão e Os Dois Irmãos Roqueiros foram hipnotizados pelas máquinas razinzas. Ozias percebeu tudo isso. Os meninos deixaram de navegar nas Árvores que Navegavam Voando porque preferiam ver as Motos Motocross. Até os adultos da nossa vizinhança foram enfeitiçados. Isso não poderia continuar. Ozias pousou. Precisava de um plano para arrancar a atenção novamente dos moleques.
Ele procurou o Feiticeiro Nelson. Este estava preocupado só de fugir, de se esconder, estava sendo perseguido. Ozias se lembrou do seu irmão mais velho. Ele poderia ajudá-lo. Quando entro no quintal de casa encontrou a bicharada triste. A molecada não dava mais atenção para os animais. A meninada só queria saber das Motos Motocross. Lobinho se aproximou de Ozias e disse: “E agora? Ninguém brinca mais com a gente. Quero correr, quero jogar e quero navegar nas Árvores que Navegam Voando, quero vê esses meninos correndo pelo quintal”. “Já tenho uma ideia. Fique tranquilo. Tome, guarde a Rabiola Morcego”, falou Ozias.
Ozias encontrou seu irmão mais velho fazendo o dever de casa. Ozeas da Matemática só gostava de estudar matemática. Passava o dia rascunhando números na cozinha, na rede, na sala e no quintal. Gostava de desenhar também. “Ozeas, quero que construa outras Rabiolas Morcego. Precisamos atrair esses meninos.” Ozeas da Matemática passou a projetar várias rabiolas, pipas e papagaios. Passou o dia no quintal desenhando essas avoadas. Pegou papel velho, saco plástico, cola de sapateiro, linhas. Passou cinco dias construindo essas voadeiras. Rabiola Morcego servia de base para fabricação das outras rabiolas.
Até que um dia, Ozias gritou da cerca de casa: “Ei, pessoal! Vamos empinar rabiola, pipas, papagaios. Olha aqui! Tem um monte no quintal.” Toda criançada pendurada na cerca de arame farpada do Camping Ibirapuera ouviram o chamado de Ozias. “Rabiola?!!”, “Pipa?!”, “Papagaio?!”. “Vamos lá galera!!!”.
A meninada veio correndo para direção do nosso quintal e logo viu todo tipo de voadoras. Rabiola Borboleta, Rabiola Jacinta, Rabiola Minhoca, Rabiola Rã, Pipa Andorinha, Pipa Disco Voador, Papagaio Avião, Papagaio Barco, Papagaio Submarino e muitas outras. Cada um escolheu que gostava. Era uma alegria só. As risadas e a gritaria das criançadas tomaram conta das tardes ensolaradas.
Ninguém mais queria vê as Motos Motocross. Todo início de tarde os Moleques da Rua de Casa reuniam no nosso quintal. Deram mais atenção aos animais. Lobinho estava muito contente. Os patos Bicudo e Patarrão voltaram contar as suas estórias para os moleques. Sapo Estrelado ficava vendo tudo lá do seu esconderijo. Quati do Mato, lá da jaqueira, comia jaca. Comia jaca e se emocionava de vê tantas crianças alegres.
O grande momento era quando via o vento da tarde. Todos corriam para encruzilhada da Altamira com a Presidente Kennedy e lançavam suas voadoras. Toda bicharada gritava de felicidades. O firmamento azul ficava tomado do todo tipo de rabiolas, pipas e papagaios. Voavam, planavam e faziam mergulhos mortais e antes de tocarem no chão retornavam para o céu azulado. Ficavam lá em cima, perto das nuvens.
Tinha moleque que navegava sobre as Árvores que Navegavam Voando e ainda empinava sua pipa em cima dessas embarcações. O voo de Ozias sobre a Rabiola Morcego deixava mais colorida essas tardes de verão. Os Gigantes viam tudo isso. Insistiam que céu, as nuvens e o azul do firmamento pertenciam a Eles. Os Gigantes apareceram lá longe. Riram daquelas crianças pretas, pardas, brancas, pobres. Riam tão alto que fizeram surgir as Ultraleves.
As Ultraleves eram pássaros enormes que tinham motor. Tomaram o céu da cidade. As rabiolas, as pipas e os papagaios foram sendo devorados pelas ultraleves. A tarde deixou de ser colorida. Mas as Ultraleves não conseguiram devorar Rabiola Morcego. Habilidosa e rápida deixava os pássaros gigantes que tinham motores tontos. Ozias sempre guiava Rabiola Morcego e rodopiava no céu azulado e mergulhava sobre a cabeça dos Motoqueiros das Motos Motocross. Subia, subia e fazia uma grande giro em torno das Ultraleves. Quati do Mato aplaudia a coragem daquele menino que enfrentava os filhotes dos Gigantes.
***
Os Gigantes organizaram a Super Grande Largada Das Motos Motocross. Nesse Super Grande Dia estariam todas as Tv’s da capital. Elas registrariam o dia que os Gigantes dominariam todo aquele céu. As Ultraleves fechariam o céu para que nenhuma rabiola, pipas e papagaios passassem diante das câmeras de tevê. Quati do Mato descobriu o plano dos Gigantes e correu para contar pro Ozias. “Será no próximo domingo”, disse Quati do Mato.
Ozias passou dias pensando sobre isso. Quando chegou o domingo da Super Grande Largada Das Motos Motocross, Ozias colocou a Rabiola Morcego nas suas costas, como se fosse uma mochila. Chamou Lobinho: “Lobinho!! Tá na hora”. Montou sobre Lobinho e gritou: “Vai Lobinho! Corre! Corre!”. Eles saíram em disparada.
Desceram a Presidente Kennedy, atravessaram Igarapé Castanhal e foram para direção do Calçadão do Estrela. Quando chegou ao calçadão, ele desceu das costas do cão e mandou Lobinho retornar. Ozias ficou no Calçadão do Estrela esperando o momento que faria a surpresa para todos.
Na pista de competição, os motores das Motos Moto Cross roncavam esperando a Super Grande Largada Das Motos Motocross. As Ultraleves planavam sobre o Camping Ibirapuera fazendo guarda do céu. Nas arquibancadas estavam muitas pessoas bem arrumadas que usavam óculos escuros. Do outro lado, ali longe, depois das cercas de arame farpadas, se encontravam a Molecada da Rua de Casa, os Estudantes da Escola da Senhora Pereira, os membros das gangues Turmas da Anarquia, da Van e do Dragão, esta acompanhada do lagarto voador: Dragão da Turma do Dragão; os operários da Fábrica de Carroceria, da Fábrica Têxtil, da Fábrica de Alimentos, As Mulheres da Minha Deusa, As Beatas da Igreja Dona Perpétua, os Ciganos, os Clientes do Cabaré Aurora, os Moradores da Vila da Dona Pretinha, os Feirantes da CEASA, O Feiticeiro Nelson e Ela. Todos aguardavam a surpresa que Ozias e Rabiola Morcego fariam.
Os Gigantes anunciaram a largada da Super Grande Largada e as Motos Motocross saíram com toda velocidade. Mas no exato momento dessa partida, antes que poeira subisse, ouviram uma Pessoa Bem Arrumada que Usava Óculos Escuros da arquibancada apontar para o céu e gritar: “Olha!!! Uma Rabiola Morcego vem vindo!!! Vem das nuvens!!”. De fato era Ozias sobre a Rabiola Morcego saindo das nuvens. As Ultraleves não tiveram chance. Ozias passou rapidamente perto delas com toda velocidade.
Rabiola Morcego fez um mergulho e passou sobre as cabeças das Pessoas Bem Arrumadas que Usavam Óculos Escuros que estavam nas arquibancadas. Virou para o lado e realizou uma manobra radical sobre os motoqueiros que tinham largados. A rabiola estava super veloz e fez subir uma grande tempestade de poeira que atingiu diretamente o evento Super Grande Largada das Motos Motocross. Os motoqueiros caíram, as Pessoas Bem Arrumadas que Usavam Óculos Escuros ficaram cobertas de poeiras e as Ultraleves caíram lá na colônia de Iracema. As tevês registraram tudo. Lá no quintal acontecia uma verdadeira alegria da bicharada e da molecada. Ozias voou, voou, voou sem medo.
***
No dia seguinte, todos foram para frente da pequena televisão preto e branco que a gente tinha lá em casa. Compareceram alguns vizinhos, Molecada da Rua de Casa, os garotos das Turmas da Anarquia, da Van e do Dragão, os Dois Irmãos Roqueiros, os Estudantes da Escola Senhora Pereira, os Ciganos acampados ali perto de casa, o Dragão da Turma do Dragão e alguns operários das fábricas da cidade. Todos queriam vê o voo da Rabiola Morcego no programa de esporte de meio dia. Quem não conseguiu entrar ficou pelas janelas ou atento para ouvir a notícia. O Dragão da Turma do Dragão ficou rente à janela da sala de casa. Ele era mundo grande, não dava pra entrar na sala de casa. Mas ele ficou ali, na janela. Ele queria pelo menos ouvir assim: “Rabiola Morcego apareceu voando na hora da largada”.
Começou o programa de esporte. Todos ficaram em silêncio. A primeira notícia foi exatamente a Super Grande Largada Das Motos Motocross. O programa de esporte só mostrou as Pessoas Brancas Bem Arrumadas que Usavam Óculos Escuros e os Motoqueiros das Motos Moto Cross caídos. Disseram que um motoqueiro largou antes da permissão, causando uma grande confusão. Houve um “AAAAAAHHHHHH!!” na nossa sala.
Todos ficaram
tristes, decepcionado com o programa de esporte. Não mostrou o voo da Rabiola
Morcego. Mas a molecada não ficou triste por muito tempo, porque sabia que o
céu da cidade pertencia pra todos. Quati do Mato apareceu repentinamente na
janela da sala gritando: “O vento!! O vento!!! Vem vindo”. Corremos para o
quintal de casa e cada um subiu na sua árvore preferida. Estava na hora de
navegar nas Árvores que Navegavam Voando.
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