RABIOLA MORCEGO PARTE 2
Vamos continuar mais uma história de Ozias e sua Rabiola Morcego. Eu postei, na semana passada, aqui no Blog Correio do Osi; os meus dois primeiros contos : Rabiola Morcego ou Os Três Gatinhos e Cavalo Cansado. Ambas contam a história do meu irmão do meio que era apaixonado por rabiolas, pipas, papagaios e balão feito de jornal.
Sapo Estrelado é o meu terceiro conto que escrevi em 2018. Nos anos 80 e 90, convivíamos com muito sapos na quintal de casa.
Boa Leitura!
SAPO ESTRELADO
Mamãe
Branca e as vizinhas da rua de casa gostavam de preparar paçoca de amendoim nas
tardes de verão. “Ô, Baiana. Ôbora fazer paçoca? Tá uma tarde boa pra isso. Tem
amendoim aqui em casa”. “Tem?! Então, pronto. Bora fazer logo. Vou aqui pegar
farinha...Ô, Branca, vou chamar tua comadre”. “Chama lá aquela beata. Diz pra
ela trazer açúcar. Já vou aqui limpar o pilão”.
Não se demorou. As três mulheres apareceram no quintal de casa. Ali, em
baixo da mangueira, juntaram o carvão e preparavam o fogo. Jogaram os amendoins
numa panela velha de alumínio e botaram para assar. Quanto assava, elas
conversavam sobre a filha do Pioneiro que fugiu de madrugada para dançar na
sede do Vila Nova, lá no COHAB. Elas riam dessa presepada. “Eita, que o converseiro
aí tá bom”, falou a Vizinha Protestante que estava junto da cerca. “Entra aí
mulher, vem cá, vem logo, vem preparar paçoca com nós”, logo falou minha
Madrinha de Batismo.
A
vizinha Mão de Carta também viu aquela arrumação. “Uai, que bulolô de conversa
é esse aí no quintal?”. “Arre, vem logo também”. “Vou aqui primeiro fazer um
cafezim pra trazer pra cá”. “Não demora não”, gritou Mamãe Branca. Apareceu
Dona Joaninha: “Maninha, esse cheiro de amendoim torrado bateu lá em casa. Esse
ventão da tarde tá levando esse cheiro pra tudo lugar”. “Tá aqui o cafezim.
Demorei?”. Tomaram café, despejaram o amendoim torrado no pilão e tum, tum,
tum, tum. “Põe açúcar” e tum, tum, tum. “Põe agora a farinha” e tum, tum, tum.
O cheiro doce torrado da paçoca de amendoim se espalhou por toda bairro.
Sapo do Quintal via tudo isso do seu esconderijo secreto. Ele mesmo construiu sua morada com resto de telhados e de estacas. Sempre gostava de vê Mamãe Branca trabalhando e cuidando do quintal. Mas também gostava dá susto nela. O que ele fazia? Fazia aparição repentina. Simplesmente aparecia...puf! Surgia ao pé do urucum quando Mamãe Branca colhia as sementes dessa planta. “Sapo do Satanás!!! Vai assustar tua mãe”. Sapo do Quintal ria dos pulos de susto daquela mulher branca de olhos castanhoverde. Uma vez ele puf! Apareceu no jirau e Mamãe Branca dava outro pulo. “Sapo do Cão!!!! Ô, Lobinho. Tira essa sapo daqui”.
Lobinho vinha correndo feito doido lá do fundo quintal e arrebatava Sapo
Estrelado. “Vem, Sapo Estrelado. Vamos correr pelo quintal”. Sapo Estrelado
montava sobre as costas do cão como se fosse um cavaleiro. Lobinho corria como
uma besta fera pelo quintal de casa. Corria até lá nos fundos e retornava.
“Eita, diácho. Dois bichos danados”, dizia Papai Touro da janela da cozinha.
Sapo
do Quintal viu as mulheres preparando paçoca e pensou: “Vou aparecer
repentinamente, lá com elas. Serei o centro das atenções”, e ria quando
pensava. Ele se concentrou e puf! Apareceu caindo sobre a cabeça da Mamãe
Branca. “Vixi, mulher. Caiu sapo na tua cabeça”, gritou a Vizinha Protestante.
“É tu de novo, Sapo do Quintal! Tu não te cansa não bicho dos 600 diáchos”,
falou mamãe. Ela o pegou e ficou olhando sério. E ele? Só ria. “Ô, Lobinho.
Leva esse filhote de cruz credo pra passear”. Sapo logo montou nas costas do
cachorro e saíram galopando. Lobinho falou: “A molecada da rua tá brincando de
corrida de rua. Vamos Lá?!!”. Sapo animado disse: “Então, vamos!!”.
A
Molecada da Rua de Casa corria sem parar na rua. A gente fazia disputa de
corrida entre si. A Nossa rua não era rua, era uma travessa. Entre Comandante
Assis e Presidente Kennedy. A nossa travessa era aterrada e cheia de tocos e
restos de cacos de tijolos que vinham com aterro. Assim mesmo, gente corria de
uma ponta a outra da travessa. No inverno, gente fica todo sujo de lama. No
verão, gente fica todo sujo de poeira. Eu corria contra o Barrigão quando
apareceu Lobinho trazendo Sapo do Quintal. Todos os meninos e meninas saudaram
a chegada dos dois bichos. “Sapo”, falou Emanuel, “Vamos disputar corrida. Mas
não pode fazer púf!”. “Tudo bem. Vou montando no Lobinho. Vamos lá, Lobinho, vamos
vencer”.
Emanuel
e Sapo do Quintal que etsava montado sobre o Lobinho se prepararam e já!!!!
Saíram correndo até chegar lá no canto da Comandante Assis. Chegando lá,
voltaram correndo feito doidos até chegar lá no canto da Presidente Kennedy.
“Ulha, Sapo do Quintal parece um cavaleiro montado no Lobinho”, disse Nilsinho.
E corriam, corriam, corriam. Quem venceu? “Sapo do Quintal montado no Lobinho venceu!!!”,
gritou toda molecada. “Poxa! Esses dois são espritado mesmo”, Emanuel falou bem
cansado. Era uma alegria só dessa meninada. Sapo do Quintal e Lobinho eram
querido por essa Molecada da Rua de Casa. Emanuel não ficou triste. Também
comemorou a vitória deles. A alegria desses meninos e meninas se misturou com o
cheiro doce torrado da paçoca que vinha lá do quintal de casa.
Todos
os vizinhos saíram de suas pequenas casas para saber da onde vinha aquele
cheiro encantador. “Que cheiro gostoso. Vem lá da Dona Branca”, falou pra si
mesma a Vizinha Professora. “Arre diácho, paçoca de amendoim. Vou pegar um
bocadinho pra nós”, disse Pioneiro para sua esposa e filha. E muitos outros
moradores da rua pensaram o mesmo. Todos queriam provar um pouco daquela
paçoca. Mas os Gigantes se irritaram com toda aquela alegria da molecada e do
cheiro doce torrado. Ali, perto do Pinheiro de Alumínio, os Gigantes se
levantaram e foram até a nossa travessa. “Parem com essas risadas!! Parem de
fazer paçoca de amendoim!!”.
Todos os vizinhos, as vizinhas que estavam no quintal de casa e a molecada sentiram medo daqueles homens grandes. Lobinho e Sapo do Quintal não sentiram medo. Esses dois correram até aos pés desses gigantes e púf!!! Sapo do Quintal apareceu na testa de um dos Gigantes. Púf!!! Apareceu na cabeça de outro Gigante e Púf! Púf!Puf! Puf! O some e desaparece do sapo irritava os Gigantes. Mas o Sapo do Quintal ficou cansado de tanto usar sua mágica. Ele foi capturado por um dos Gigantes. “Sapo do Quintal! Tu és ousado!!”, gritou um Gigante. Lobinho mordia os pés desses monstros. Mas nada. Os caninos do cão não conseguiram causa dor nos dedos desses grandes homens. “Vamos mantear esse anfíbio”, sugeriu um dos Gigantes. “Vamos!!”, concordaram outros. Eles abriram uma enorme manta e lançara o sapo no meio dela. Passaram a mantear o pobre animalzinho.
Os
Gigantes lançavam o manto para cima e Sapo Estrelado mais pra cima ia. Fizeram
isso repetitiva vezes. Sacudia a manta para o alto e o Sapo do Quintal mais pra
cima ia. Ele já estava muito cansado. “Coitado do Sapo do Quintal”, molecada
pensava lá no canto da cerca de estaca de casa. A gente não podia fazer nada.
Sapo do Quintal estava sendo manteando e ninguém poderia ajudá-lo. Nem Lobinho
poderia.
Mantear
Sapo do Quintal causou revolta por toda cidade. Lá da Avenida Altamira vieram
os Trabalhadores da Carroceria, a Turma da Anarquia, Os Dois Irmão Roqueiros, Os
Estudantes da Escola da Senhora Pereira, Os Trabalhadores da Fábrica de
Alimentos, As Beatas da Igreja Dona Perpétua, As Mulheres da Minha Deusa e os
Ciganos que estavam acampados próximos de casa. Lá do Ianetama vieram os Trabalhadores
da Fábrica Têxtil, Pessoal do Bosquinho e o Dragão voando que trazia nas costas
os membros da Turma do Dragão. Do
Milagre veio os Clientes do Cabaré Aurora, Os Moradores da Vila da Dona
Pretinha, Os Jogadores da Santa Lidiana e o Pessoal do Aquário Dance. Lá da
Estrela veio o Pessoal que Joga Pelada e Vôlei no Calçadão da Estrela, a Turma
da Van e Ela. Manel Preto, trouxe os Feirantes da Ceasa. Uma verdadeira
Multidão se formou e todos vieram para socorrer Sapo do Quintal.
“Meu
Deus! Será uma guerra”, pensou a Vizinha Professora. Mas todo mundo ouviu um
grito: “Ulha, ali!! Lá em cima!!Perto das nuvens!!”, gritou Junior Pescoço de
Dinossauro lá de cima do pé de Açaí do quintal de casa. Ele viu Ozias sobre a
Rabiola Morcego voando entre as nuvens. Ozias manobrou Rabiola Morcego para
fazer mergulho rasante em direção dos Gigantes. Passou feito foguete sobre a
cabeça dos temíveis homens e resgatou Sapo do Quintal. Toda aquela multidão que
veio para resgatar Sapo do Quintal festejou a ação da Rabiola Morcego.
Sapo
do Quintal ia colado sobre a cabeça de Ozias. “Não se preocupe, Sapo do
Quintal. Dessa altura eles não pegam a gente”. Lá de cima, voando sobre as
nuvens, sobre a Rabiola Morcego, Sapo do Quintal ficou tranquilo e passou
apreciar as nuvens. O devaneio do sapo foi interrompido por uma forte ventania
que arrancou Sapo do Quintal da cabeça do Ozias. O vento era tão forte que
lançou o pequeno anfíbio para o espaço sideral. “Meu Deus!!, gritou a Multidão.
“Se segura bicho! Se segura nas nuvens!!”. Os Estudantes da Escola da Senhora
Pereira disseram que não era possível se segurar nas nuvens. “O vento tá forte
demais”, ainda balbuciaram As Mulheres da Minha Deusa.
Ozias
puxou as talas da Rabiola Morcego para fazer retorno e resgatar novamente Sapo do
Quintal. O Dragão da Turma do Dragão também se lançou num grande voo. Mas era
tarde demais. Sapo do Quintal já orbitava nosso planeta. Lá no espaço, o sapo
pode vê todos os planetas do sistema do solar. Mas Sapo do Quintal não sentiu
medo. Ficou até curioso. Sempre via os astros lá do quintal de casa.
Toda
a noite ele ficava em cima do telhado de casa para vê as estrelas e os
planetas. Ficava escondido de baixo de uma folha seca que caia da jaqueira. Era
perigoso ficar no telhado. Rasga Mortalha sempre sobrevoava nosso quintal. De
baixo da folha seca, o sapo ficava contado as estrelas. “Nossa!! Eram centenas
de bilhões”.
Agora
ele estava ali, no espaço, mais próximo da estrelas e dos planetas. Logo passou
perto da Lua. Por cima da Lua, viu Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.
Quase não conseguia vê Plutão. “Eu vou conhecer todos os astros!”. Pensou Sapo
do Quintal. Saiu flutuando, voando e
nadando pelo espaço sideral. “Cuidado Sapo do Quintal!”, gritou novamente a
Multidão. O sapo estava tranquilo e resolveu pular em cada asteroide que
encontrava. “Não faça isso bicho doido!!”, gritou bem alto Manel Preto. “Volta
Sapo do Quintal!! Nós te amamos!! Precisamos resistir juntos!! Precisamos de
você!! Tem muita gente violenta por aqui! Você pode fazer diferença no combate
contra eles!”. Ouvindo isso, Sapo do Quintal viu nosso planeta azul, a nossa
região, a nossa cidade e nossa rua. Ele ficou pensativo e falou: “Eles tem
razão”.
Sapo
do Quintal se concentrou e deu um grande salto e veio voando com toda velocidade
e mergulhou no nosso planeta. Desse mergulho se transformou numa estrela
cadente. “Vejam!! O Sapo do Quintal se transformou no Sapo Estrelado!!”,
gritaram os jovens da Turma da Anarquia. Sapo Estrelado cortou o céu da nossa
cidade como uma grande bola de fogo.
O
pobre do sapo ficou muito preocupado. Passou a pensar que poderia virar um sapo
assado. Mas passou pelas nuvens que logo o esfriou. Percebeu que não estava mais
voando. Agora estava caindo, caindo, caindo. Quando caia, viu lá em baixo o
Igarapé Castanhal. Mirou bem no rio e se deixou cair livremente. A ventania ressurgiu
e lançou-o para longe do igarapé. Agora poderia cair em qualquer lugar da
cidade e se machucar. “Arre égua!”, se desesperou minha Madrinha de Batismo, lá
do quintal de casa. “Vamos fazer alguma coisa por ele”. “Deixa comigo”, falou a
Vizinha Mão de Carta. Ela retirou do bolso secreto do seu vestido a umas das
suas cartas de Tarot. “Lá vai Sapo Estrelado!!”, e ela lançou lá do nosso
quintal.
A
carta de Tarot foi voando, voando e voando e o Sapo Estrelado concentrado e vupt!!
Lá vai ele surfando sobre a carta. Dominou a carta e surfou sobre vários
bairros de Castanhal. “Lá estava Nova Olinda. É lá”, veio surfando, surfando e
vupt!! O vento novamente o arrancou de cima da carta e caiu e no olhinho da
maior árvore lá do Taboquinha Bosque. “Ufa!!!”, suspiraram todas mulheres que
comiam paçoca de amendoim lá do quintal. Mas Sapo Estrelado estava triste:
“Poxa, ainda estou longe de casa”. Os membros da Turma do Dragão sacudiam seu
animal: “Vai lá, Dragão! Vai buscar o sapinho!!!”. Mas o Dragão era um bicho
que viva cansado. Preferiu ficar ali, no alto da Torre da Telepará.
“Aqui
Sapo Estrelado! Estica tua mão!”. Sapo Estrelado olhou para cima viu Ozias e
Lobinho que vinham voando na Rabiola Morcego. “Que alegria!!!”, sorriu o sapo.
Ele esticou a mãozinha dele, esticou, esticou e vupt! Lobinho agarrou com pata
a mão do Sapo Estrelado. Ah, isso foi total emoção para multidão que assistia
tudo isso com emoção. Ozias manobrou mais um voo e lançou com toda segurança
Sapo Estrelado sobre essas as pessoas que o esperavam. Todos alegremente abraçaram
Sapo Estrelado.
Os
Gigantes não aceitaram toda aquela confraternização. Eles convocaram a Polícia
Palmatória para acabar com todo aquele tumulto. A polícia chegou numa velha
Kombi e se armou para reprimir. Mas logo viu que se tratava de muita gente.
Sentiu medo e fugiu. Os Gigantes gritaram de raiva e disseram que um dia
acabaria com a ousadia da Rabiola Morcego.
A
multidão entrou no quintal da nossa casa trazendo Sapo Estrelado no colo e teve
mistura danada de pessoas, de alegria e do cheiro doce torrado de paçoca de
amendoim.
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