RABIOLA MORCEGO PARTE 1

 Rabiola Morcego ou Os Três Gatinhos foi o primeiro conto que escrevi. Narra a história do meu irmão Ozias que era louco por rabiolas, papagaios, pipas, kangulas, balão de folhas de jornais. Lembro, como se fosse hoje, ele correndo atrás das pipas ou empinando as rabiolas, papagaios pelas ruas do nosso bairro. E outra coisa, ele adorava gatos. Em 2017, escrevi esse conto para representar essa memória da minha infância. 

Rabiola Morcego foi escrito para ser o primeiro e o último. Mas  alguns amigos e amigas sugeriram que o conto deveria continuar. Então, escrevia a segunda parte da história: Cavalo Cansado (2017). Percebi, depois de algum tempo, que já tinha escrito mais três histórias que davam continuidade às peripécias do meu irmão. 

Rabiola Morcego ou Os Três Gatinhos e Cavalo Cansado foram publicados no site Mas Como Então (hoje desativado), em 2017. 

A partir de hoje, o blog Correio do Osi vai publicar a Saga do Ozias com a sua Rabiola Morcego. Começaremos com a republicação dos dois primeiros contos: Rabiola Morcego e Cavalo Cansado. Quando tudo começou...


RABIOLA MORCEGO OU OS TRÊS GATINHOS

 

A bicharada tomava conta do quintal de casa. Tinha cães, gatos, patos, pintos, periquitos e curiós. Sem contar das visitas diárias de rolinhas, bem-te-vis, sabiás, chico-pretos, pardais, senhaçus, anus, corujas, gaviões, urubus. Aparecia de vez em quando cachorro do mato, camaleão, quati, raposa e até jiboia. Ainda no quintal de casa existia uma comunidade de rãs independente. Elas habitavam em baixo do nosso banheiro velho de madeira. Em torno dessa área de banho era sempre úmida por causa da água do chuveiro, do balde e da bacia que escorria pelas frestas das tábuas. O que era uma alegria para a comunidade de pererecas. Manel Preto adorava comer essas rãs. Sempre pedia permissão da minha mãe e do meu pai para caçá-las. Manel, ali mesmo no nosso quintal, arrancava o couro, as tripas e fritava as rãs no fogo de carvão. Fazia farofa dessas rãs. “Vai ser gostoso assim no inferno! Hahahaha!”, ria com a boca cheia de farofa. Aparecia para nos visitar o pavão do Camping Ibirapuera. Mas não entrou no quintal. Preferiu ficar do lado de fora. Ficou junto da nossa cerca de estaca conversando com os patos e pintos.

Todos esses animais gostavam do nosso quintal. Por isso que vinham nos visitar. Era um quintal amplo, arborizado e ficava entre duas vias: na parte da frente, encontra a Travessa Pio XII. Quanto aos fundos, dava acesso à Avenida Altamira com Presidente Kennedy. Por esse lado da cidade de Castanhal, até no início de 1990, havia muito terrenos baldios. Terrenos com matagal. Nessas áreas verdes existiam inúmeras espécies de animais. Vinham muita gente de outros bairros para armar curió próximo desses espaços arborizados.

Os animais domésticos de casa passavam o dia no quintal. Os cães Ceci, Lobinho e Duque gostavam de conversar de baixo da mangueira. Falavam, falavam, falavam. Os gatos, ou melhor, os três gatinhos Remela, Remelinha e Remelão ficavam ali, pelo pé de canela fazendo tolice. Os cinco pintos vivam explorando o quintal. Tentavam encontrar minhocas. Os dois patos, Bicudo e Patarrão, sabiam de tudo, se diziam donos da verdade. Sempre se metiam nas conversas dos cães. Bicavam qualquer um que não acreditava nas estórias que eles contavam. Meu pai sempre tinha que tirá-los da confusão que eles mesmos armavam. Os periquitos e curiós vivam nas gaiolas rindo das presepadas dos patos.

Quem sempre gostava de conversar com os patos eram os bem- te -vis, chico- pretos, anus, pardais, sabiás, senhaçus e rolinhas que pousavam na jaqueira de casa para descansarem. Esses pássaros traziam novidades para Bicudo e Patarrão. Traziam notícias do Janjão, do Apeú, Colônia 03 de Outubro, Iracema, Inhagapí, da Vila do Americano, da Terra Alta e de muito outros lugares. Por isso que os patos sabiam de muita coisa. Uma vez Bicudo e Patarrão conseguiram evitar uma tragédia. Lutaram contra a raposa que tentou devorar os pintos. Foi uma briga feia. A raposa fugiu toda bicada. Caíram nas graças do Papai Touro. Este passou exibir os patos para toda vizinhança. “Ninguém pode com eles!!Nem Satanás!!!”, dizia meu pai. “Tá doido Velho Touro!!! Bora comer eles no tucupí!!”. Gritou a vizinha Baiana. Touro logo respondeu: “Di jeito neum!!. Eles guardam meu quintal”. Os cães ficaram com certa inveja dos patos. Mas reconheceram a valentia deles. 

Ozias, meu irmão do meio, era o terror para Remela, Remelinha e Remelão. Ele passava a manhã mimando os bichanos. Só tomava café da manhã, assistia televisão, ouvia rádio e almoçava acompanhado dos três gatinhos. Sempre os colocava no colo e saía para passear na rua. Junto dos amigos, dividia a atenção entre as conversas e os mimos que fazia com os gatinhos. Quando ia ao comércio da Avenida Altamira, para comprar alguma coisa para complementar o almoço, botava Remela, Remelinha e Remelão dentro de uma mochila velha cheia de furos. Jogava a mochila nas costas e saía. Ia conversando com os gatinhos até chegar ao comércio. Retornava, tirava os gatos da mochila e dava de comer para eles. Tinha mania de colocar sobre sua cabeça o Remelão. Os outros dois ficavam no colo de Ozias quando se sentava na frente de casa. Ficava ali o resto da manhã. Conversava, conversava, conversava com os três gatinhos.

 “Esse filho do Touro é doidu mermo. Doidu como pai que fica aí passeandu com os patus. Doidisse só...cruz credo”, andava falando lá no mercadinho da esquina o Vizinho Peixeiro. Único momento que os bichanos tinham sossego era quando meu irmão partia para escola depois do almoço. Livres do excesso de mimos, os pequenos felinos chispavam para o quintal e se penduravam no pé de canela. Ficavam de boa curtindo a sombra, as folhas, as sementes e o cheiro da canela. 

No final da tarde, meu irmão chegava da escola e logo ia para o quintal procurar Remela, Remelinha e Remelão. Recomeçava novamente os mimos. Depois das 10 ou 11 da noite, todo mundo de casa se recolhia para dormir. Ozias sempre se deitava na rede com os três gatinhos. Desde que a mamãe ganhou os felinos, meu irmão dormia com eles. Encantou-se com os bichinhos. Foi ele quem deu os nomes aos gatinhos: Remela, Remelinha e Remelão.

Até que um dia, numa madrugada, Ozias acordou com gritos. “Aiaiaia!!!!”. Um choro alto. Todos de casa acordaram. Menos meu pai porque já fazia muito tempo que não dormia mais. Gritos, choros, berros. “Aiaiai!! Os gatinhos!!! Morreram!!! Acorda, acorda...eles morreram...aiaiaiai!!”. Foi alvoroço só. Mamãe deu um pulo da cama. “Que foi peste??!!! Por que esses gritos??!!!”. Papai estava no quintal conversando com os curiós, com os cães e com os patos. Percebendo o rebuliço, saiu correndo em direção da sala de casa onde eu e meu irmão dormíamos. Mamãe acendeu a luz e viu Ozias abraçado com os três gatinhos mortos. Chorava, chorava, chorava. Os vizinhos acordaram. Manel Preto chegou de supetão. Pensava que era ladrão. Estava doido para pegar um ladrão. Mas não era ladrão. Remela, Remelinha e Remelão morreram sufocados. Ozias, no meio do sono, fez um movimento brusco e involuntário na rede. Ficou por cima dos três gatinhos, o que levou a morte deles.

Papai Touro enterrou Remela, Remelinha e Remelão próximo das cercas de arames farpados do Camping Ibirapuera. Estava acompanhado de todos os animais de casa. Inclusive o pavão compareceu ao enterro. Ozias passou dias chorando, chorando, chorando. Subia na jaqueira de casa. Ficava lá no olhinho, lá no topo e chorava, chorava. “Não foi minha culpa!!!”, gritava lá de cima. “Não foi minha culpa!!! Volta gatinhos!!! Me perdoa!!! Volta!!!”. Os cães, os patos e eu ficávamos em baixo da jaqueira. Esperando ele descer. Deixou de dormir na rede. Passou a dormir no sofá. Nem eu queria dormir na rede dele. Toda manhã, depois do café, subia na jaqueira ou na mangueira para chorar e chamar os bichanos. Desejava que os três gatinhos retornassem.

Meu irmão ficou assim por muito tempo. Passou os choros. Mas andava triste pelo quintal. Bicudo e Patarrão fazia palhaçada para ele rir. Mas isso não tinha efeito sobre ele. Às vezes subia na cerca de estaca e ficava lá, olhando para as nuvens, para o Camping Ibirapuera e para o centro da cidade.

Até que uma tarde ventilada de maio, 3 da tarde, viu uma coisa estranha que vinha do céu. Vinha de longe. Tentou identificar aquilo. Vinha cortando as nuvens. A coisa estranha vinha descendo e ficando mais visível. Ela tinha asas enormes e um rabo cumprido. Muito cumprido. Viu também que lá em cima da Presidente Kennedy, ali na Kennedy com o 1º de Maio, depois do Igarapé Castanhal, vinha correndo os moleques do bairro da Estrela e estavam armados de galhos secos. Eles estavam caçando aquilo que vinha do céu. Atravessaram o igarapé e passaram a subir a rua. A coisa agora alcançava as árvores do Camping Ibirapuera. Ficou nítida. “É isso!!!”, gritou Ozias. “É uma rabiola! Uma Rabiola Morcego!”. A enorme Rabiola Morcego planava sobre a Rua Presidente Kennedy. Os moleques tentavam pegá-la com os galhos secos. Não conseguiam.

Rabiola Morcego ganhava altura com o vento. Fazia manobras sobre a meninada. Até voos rasantes ela fazia sobre as cabeças das molecadas que vinham da Caiçara, do Estrela e até do Centro. Depois apareceu mais meninada vinda da Travessa Ipiranga, da Coronel Leal, da Paes de Carvalho. Um deles gritou: “Parece que a rabiola tá viva!! Tá viva!”. Rabiola Morcego voava livremente. Ainda voou sobre a Travessa Ipiranga e Comandante Assis. Passou por cima da pista de Motocross do Camping Ibirapuera. Voltou para Kennedy e rasgou voo cortando novamente sobre as cabeças deles. Rabiola Morcego veio vindo. Veio vindo para direção do quintal de casa. Meu irmão ficou observando todo movimento da Rabiola Morcego. “Eu consigo pegar ela. Rabiola Morcego será minha”, pensou consigo mesmo. Pulou da cerca e foi para o meio da encruzilhada da Presidente Kennedy com a Avenida Altamira. Ficou lá. Encarando Rabiola Morcego que vinha no voo rasante. Ozias não tirou os olhos dela. Vinha vindo, vinha vindo. Quando estava próxima, ele rapidamente saiu para o lado e pulou para cima da Rabiola Morcego no momento que ela decolou para o alto, para bem alto. 

Segurou nos talos da Rabiola Morcego. Ela subia mais ainda. Alcançou as nuvens. Ozias não sentiu medo. Estava firme e seguro nos talos da rabiola. Lá em baixo, os moleques ficaram de boca aberta. Testemunharam a habilidade do meu irmão de pular e segurar a Rabiola Morcego. Os cães, os patos, os pintos, os periquitos e curiós de casa também viram tudo aquilo. Ficaram orgulhosos de vê Ozias dominando aquele animal feito de talos, papel e linhas. Lá em cima, lá nas nuvens, meu irmão ficou sentado sobre Rabiola Morcego. Ficou contemplando o firmamento. 

Sobrevoaram Janjão, São Raimundo, Iracema, Santa Teresinha. Passaram no meio de muitas nuvens. Quando olhou para esquerda ele viu os três gatinhos em cima de uma nuvem. Isso mesmo. Eram eles. Remela, Remelinha e Remelão acenaram para ele e disseram: “Não se culpe pelo que aconteceu. Não foi sua culpa. Nós o perdoamos. Você nos amou muito e nós te amamos. Saiba que estamos muito felizes aqui em cima. Não se preocupe conosco”. Ozias passou a chorar. Chorou, chorou, chorou. Chorou tanto que suas lágrimas se transformaram em chuva que caiu sobre as colônias agrícolas. Mas chorou de felicidade. Agora podia ficar tranquilo. Os três gatinhos estavam felizes no céu e  tinham perdoado meu irmão. 

Viu também que o sol sorria para ele. Um sorriso radioso que vinha lá dos confins do espaço. Ozias sentiu que fazia parte de tudo aquilo. Sentiu que seu espírito tinha uma ligação com o vento, com as nuvens, com os raios do sol, com o azul do céu, com universo. Sentiu também que nunca estaria separado dos três gatinhos. Estariam sempre no seu coração.

Saíram das nuvens. Puxou as asas da Rabiola Morcego para sobrevoar o centro de Castanhal.  Percebeu que estavam voando sobre Caiçara. Depois passou voando ao lado da Torre da Telepará. A elite castanhalense viu tudo àquilo como uma afronta. Não admitia que o menino pobre conquistasse o céu da “cidade modelo”. Os Gigantes da cidade resolveram chamar a Polícia Palmatória. Quando Ozias voava sobre a Avenida Barão do Rio Branco viu sua casa, as árvores e a bicharada do quintal, os moleques lá na Presidente Kennedy. Deu ordem para Rabiola Morcego pousar na Avenida Altamira. Foi baixando, baixando.

A Avenida Altamira se encheu de moleques e de outros curiosos que viram Ozias dominando Rabiola Morcego. Baixando, baixando. Lentamente. Todos correram para acompanhar meu irmão em cima da rabiola. Na esquina da Comandante Assis com Altamira, estava concentrada a Turma da Anarquia. Uma das gangues mais temíveis de Castanhal. “Olha aí galera!!! Esse moleque agora é considerado nas paradas. Quem domina Rabiola Morcego domina o setor”. Todos da gangue riram. Mas bateram palmas para meu irmão. Enfim, ele pousou. Rabiola Morcego era sua.

A Polícia Palmatória chegou para prendê-lo. Recebeu ordem dos empresários, dos magistrados, dos políticos e das famílias tradicionais defensoras da propriedade para levá-lo para delegacia. Acusaram Ozias de ousadia sem permissão. Mas quando viu a multidão se formando em torno dele, sendo elogiado e aplaudido, a Polícia Palmatória recuou. As pessoas que cercaram meu irmão queriam saber como ele conseguiu dominar Rabiola Morcego e voar com ela sobre as nuvens. Ele apenas riu. Desde aquele momento, Ozias se tornou o maior apanhador de rabiolas, pipas e papagaios de Castanhal.

***

“Acorda abestado! Levanta. Rabiola Morcego vem vindo. Vem lá da Estrela”. Ozias me acordava batendo nos meus pés. Levantei espantado do sofá. Era 3 da tarde. Estava uma tarde ventilada. Ainda sonolento passei pela cozinha de casa. Mamãe ouvia Rádio “Rauland AM” e fazia o café da tarde. Olhei para o quintal. Toda bicharada corria para junto da cerca. Eu corri também. Subi na cerca de estaca. Lá de cima da cerca, vi Ozias todo animado no meio da encruzilhada da Presidente Kennedy com Avenida Altamira. Gritou para mim: “Eu consigo pegar ela! Rabiola Morcego será minha!” e riu bem alto. Estava se preparando para apanhar Rabiola Morcego que vinha vindo, vinha vindo, vinha vindo...

  

                                        xxx 

 

CAVALO CANSADO OU ESTE MUNDO NÃO NOS PERTENCE MAIS

 

Agora Ozias rasgava o céu de Castanhal com sua da Rabiola Morcego. Voava sem limites. Deixava os gigantes da “cidade modelo” cada vez mais enfurecidos. Por outro lado, meu irmão lançava alegria para todas as molecadas dos bairros castanhalenses. “Ulha!!! É o menino que dominou a Rabiola Morcego!!!!”, gritava e apontava com dedo para o céu um menino da Rua Manoel Manoim, lá do bairro do Milagre. “Olha mãe!! Rabiola Morcego!!”, dizia outro lá do conjunto Imperador. Alegria mesmo era no bairro Nova Olinda, onde Ozias morava. A nossa vizinhança sempre se emocionava ao vê aquele menino voando livremente entre as nuvens. Sentia-se parte daquela liberdade. A bicharada do quintal de casa subia na cerca de estaca para vê Ozias voando ou pousando, ali, na Presidente Kennedy. Lobinho ficava responsável para guardar a Rabiola Morcego. “Pega Lobinho. Vai guardar a rabiola. Não deixa ninguém saber onde fica guardada”. Todo orgulhoso, Lobinho dava cambalhotas com a língua de fora. “Pode deixar”. Pegou a Rabiola Morcego e saia como um foguete. Bicudo e Patarrão tentaram adivinhar o local secreto da Rabiola Morcego. Em vão. Lobinho não abria o jogo. “Vamos dar biscoito ‘Scooby’ pra você, Lobinho. Mas conta pra nós, conta”. Lobinho só rosnava. “Seu abestado!” disse Bicudo.

Certo dia, quando retornava de um dos seus voos, Ozias viu, lá de cima, uma movimentação danada perto da nossa casa. Muita gente. Multidão de vozes. Rapidamente pousou na jaqueira e acabou se encontrando com o Quati do Mato. Este falou: “É o Cavalo Cansado. Estava tão cansado que desmaiou na sombra da jaqueira. O tombo dele no chão se fez ouvir em todo bairro. Assim, apareceu toda essa gente para vê o pobre cavalo. A vizinhança da sua rua, as pessoas que moram na Travessa Ipiranga, na Comandante Assis e na Avenida Altamira. Até os jovens da Gangue da Anarquia estão aí misturados. Cavalo Cansado chegou acompanhado do Tatu Bola de Óculos e do Tamanduá Bandeira”.

Meu irmão desceu da árvore no momento em que Papai Touro colocava Cavalo Cansado no colo e o levou para o nosso quintal. Pediu para Ceci, Duque e Lobinho armarem uma rede ali, entre a mangueira e o pé de canela. Armada a rede, Touro colou o cavalo com todo cuidado na rede. A multidão também entrou no nosso quintal. Ficaram curiosos. Queriam saber a história do Cavalo Cansado. Eles entraram sem pedir licença. Muitos subiram na jaqueira, na mangueira, no abacateiro e no pé de canela. Todos viram os hematomas no corpo do cavalo. Papai trouxe água. Mas Cavalo Cansado continuava desacordado.

Tatu Bola de Óculos explicou: “Então, nós morávamos num sítio. Lá na Cabeceira do Apeú. Cultivávamos macaxeira e mandioca. Eu campinava e Tamanduá Bandeira comia as formigas de fogo danadas. Tempo depois chegou Cavalo Cansando pedindo abrigo. Nós o acolhemos. Morando conosco, se responsabilizou de levar nossa pequena produção para a Feira da Ceasa. Tudo ia bem. Até que chegaram os Gigantes e começaram a tomar todas as terras daquela região. Não somente tomavam as terras alheias, como também desmatavam e assoreavam os igarapés. Com o nosso sítio não foi diferente. Quando os Gigantes chegaram para invadir o nosso terreno, Cavalo Cansado os enfrentou com toda coragem que tinha. Infelizmente era impossível vencê-los. A situação obrigou a nossa fuga. Cavalo Cansado nos jogou nas suas costas e partimos com toda velocidade”. Tamanduá Bandeira completou: “Na fuga, ainda olhei para trás. Vi nosso sítio sendo destruído pelos gigantes. Estava tudo desmoronando. Não sobrou nada. Nem as memórias daquele lugar sobreviveram. Foi assim que chegamos aqui”. 

Cavalo Cansado acordou.  Ficou alguns minutos em silêncio. Então, falou: “Me cansei desse mundo. Estou cansando. Quero dormir e não acordar mais. Quero dormir. Trabalhei, trabalhei. Vida toda trabalhei. Meus antepassados também trabalharam, trabalharam, trabalharam. Vieram com os pioneiros, com imigrantes nordestinos. Ajudaram a abrir a Estrada de Ferro de Bragança. Depois, décadas mais tarde, abriram a Rodovia Belém-Brasília. Trabalharam tanto...para quê? Ficaram esquecidos, abandonados. Prometeram que o trabalho nos traria fartura, liberdade e reconhecimento. Nos enganaram. O trabalho nos trouxe ilusão, exploração, dor, pobreza, angústia, doenças. Trabalhamos para enriquecer os Gigantes. Eles que ficam com a fartura, com liberdade e com  reconhecimento.  Não deveria ser assim. A riqueza gerada pelo trabalho deveria ser repartida para todos, de forma igualitária. Mas não é assim. Não é assim não. Além da exploração do trabalho, o mundo está tomado por ódio, intolerância e violência. Esqueceram que somente reconhecendo as diferenças que chegaremos a igualdade. As pessoas perderam seus sonhos e se conformaram com vida que tem. Não querem mais mudar o mundo. Não pensam mais em combater a miséria, a fome, a guerra, o preconceito e a falta de amor. Cada um preferem viver dentro de uma bolha, se isolar e consumir, consumir, consumir”.

“Não fica assim não Cavalo Cansado. Não durma para sempre”, falou Ozias junto da rede. “Ainda há esperança nesse mundo. Basta fechar os olhos e voar!!!”. Cavalo Cansado olhou para Ozias. “Ozias, você é um menino cheio de sonhos. Por isso que conseguiu dominar a Rabiola Morcego. Na verdade, qualquer um pode dominar Rabiola Morcego e voar, voar. Ganhar a liberdade lá no firmamento. Mas as pessoas desejam logo ter as coisas. Estão aceitando qualquer trabalho. Trabalham muito para adquirir coisas que não precisam e para proteger seus bens materiais, acabam odiando seu próximo. Tudo isso acaba favorecendo os Gigantes. Eles riem da nossa desunião. Agora, meus amigos, quero descansar”. 

Todos que estavam ao redor do Cavalo Cansado, ficaram constrangidos com esse o discurso. Quantos deles não largaram seus sonhos para escolherem qualquer trabalho só para adquirir coisas? Por que não lutavam contra a miséria social e o preconceito? Por que somente os Gigantes que ficam com toda riqueza, inclusive com a liberdade? Por que não lutam contra os Gigantes? Todos pensaram: há possiblidade de criar um novo mundo? 

 Tatu Bola de Óculos e Tamanduá Bandeira prepararam o almoço. Tinham Trazido um pouco da macaxeira do sítio destruído. Descascaram e cozinharam. Touro fez fogo de carvão e assou milho. Ozias, depois da refeição, foi para escola. Durante a aula, não parava de pensar no Cavalo Cansado. Quando retornou para nossa casa, viu Cavalo Cansado conversando com a bicharada lá no fundo quintal. Narrava outras aventuras e dos inúmeros ofícios que exerceu. Contou também da frustrada tentativa de derrubar um dos Gigantes. Os patos estavam indignados. “Queria uma oportunidade de bicar os olhos desses Gigantes. Bando de monstros!!!”, reclamou Patarrão.

Passaram os dias. Os hematomas do Cavalo Cansado já tinham desaparecidos. Ele, como sempre, muito pensativo no quintal. Tatu Bola de Óculos lia um livro e Tamanduá Bandeira ajudava Ceci e Duque na manutenção da cerca de estaca. Ozias trazia Rabiola Morcego. “Cavalo Cansado, você ainda tem algum sonho?”. “Meu garotinho, tenho alguns. Mas continuar neste mundo é certeza de perdê-los para sempre”. “Venha comigo”, chamou Ozias. “Posso levar meus amigos?”, perguntou Cavalo Cansado. “Pode sim. Já ia chamar eles também”. Os quatro foram para Presidente Kennedy. Ozias orientou: “Vou lançar Rabiola Morcego para o horizonte. Quando ela retornar, a gente pula em cima da rabiola e vamos voar lá pra nuvens”. Então, ele lançou a Rabiola Morcego e, logo depois, ela vinha vindo. “Se preparem”, disse Ozias. Rabiola Morcego passou voando baixo pelo lado deles e, sem perder tempo, os quatro pularam sobre a rabiola e saíram voando, para lá, para cima, para as nuvens.

Ozias, Cavalo Cansado, Tatu Bola de Óculos e Tamanduá Bandeira voavam suavemente sobre as nuvens e sentiam o vento doce do final da tarde. Cavalo Cansado olhava sempre para frente. Observava minuciosamente o sol que começava se esconder por trás do nosso planeta. Tatu Bola de Óculos olhava para baixo. Parecia que estava analisando a cidade de Castanhal. Tamanduá Bandeira acenava para as pessoas que olhavam para eles. Acenava com sua linguinha de comer formigas de fogo danadas. 

Todos os moradores do bairro Nova Olinda saíram de suas casas para vê Rabiola Morcego conduzindo os quatro lá no céu. “Vejam!! Eles estão voando!!! Voando sobre Rabiola Morcego”. Vários curiosos correram para encruzilhada da Rua Presidente Kennedy com a Avenida Altamira. Sabiam que eles pousariam nesse cruzamento. Até gente do Jardim Tóquio apareceu para vê o pouso da rabiola. Os membros da Gangue da Anarquia se deitavam, muitas vezes, na beira da Avenida Altamira para contemplar o voo do Ozias. A surpresa dos moradores daquele bairro foi a vinda dos Operários Esgotados da Indústria Têxtil e da Fábrica de Alimentos. Mesmo desestimulados depois de um dia tenso de trabalho, queriam apreciar o voo da Rabiola Morcego. Os Gigantes protestavam contra tudo isso.

“É isso”, disse Cavalo Cansado. “Chegou a hora de partirmos”. “Partir pra onde?”. Ozias perguntou. “Vamos para o infinito. Para conquistar as estrelas”. “Não vai não Cavalo Cansado. Mamãe Branca vai cuidar de vocês. Tem lugar pra todos os bichos no nosso quintal”. “Sinto muito. Mas este mundo não nos pertence mais. Subam nas minhas costas meus amigos”. Tatu Bola de Óculos e Tamanduá Bandeira subiram rapidamente nas costas do Cavalo Cansado. Este olhou para Ozias e falou: “Nunca abandone a sua imaginação e seus sonhos. Adeus menino da Rabiola Morcego”.

 Cavalo Cansado deu um salto para o firmamento. Galopou voando, voando, voando. “Vejam!!! Cavalo Cansado tá voando!!!”, “Cavalo Cansado tá correndo e voando lá no céu!!!”, “Não vai embora não Cavalo Cansado!!! Perdoa a gente”. Gritavam os homens que não tinham coragem de realizar seus sonhos. 

Cavalo Cansado ganhava velocidade e mais velocidade. Tatu Bola de Óculos e Tamanduá Bandeira, bem seguros nas costas do Cavalo Cansado, ainda tiveram tempo para darem aceno de despedida para Ozias. E mais velocidade, velocidade e eles se transformaram num raio de fogo que foi subindo com toda rapidez para o infinito. Quando a linha de fogo desapareceu, houve uma grande explosão de luz que clareou toda Zona Bragantina. Dissipada a luz, surgiram três estrelas que passaram se juntar com as constelações do universo. Muitos chamaram essas três estrelas de as Três Marias ou Cinturão de Órion. Mas Ozias sabia que não eram nem as Três Marias e nem o Cinturão de Órion. Na verdade, as três estrelas eram o Cavalo Cansado, Tatu Bola de Óculos e Tamanduá Bandeira.

***

Não vi nada disso não. Mas eu sei de todas essas coisas porque Quati do Mato narrou pra mim, a história do Cavalo Cansado. Eu estava internado no Hospital São José. Tinha sofrido um acidente. Meu braço direito pegou fogo porque derramei  álcool etílico próximo da boca do fogão acesa da cozinha de casa. Mamãe Branca me acompanhava. Numa tarde triste no hospital, chegou Quati do Mato para fazer uma visita.  A enfermeira ofereceu café para ele. O quati saboreava o café quanto contava a história do Cavalo Cansado que caiu de cansado na sombra da nossa jaqueira. O tombo foi ouvido em todo bairro. Cavalo Cansado chegou acompanhado do Tatu Bola de Óculos e do Tamanduá Bandeira...

 

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