ELA

 

Era uma vez...

*** 

...na Praça da Igreja Matriz São José Operário. Naquela noite de crisma, a praça estava tomada de familiares e de dezenas de fieis que tinham lotado para celebração dos novos Soldados de Cristo. “Vem comigo! Eu sei de um lugar que ninguém vai nos incomodar”.  Foi uma longa missa ministrada pelo Grande Bispo da Capital. “Por que a gente não pode ficar aqui, na praça, namorando?”. Eu já estava impaciente com toda aquela cerimônia. “Tem muita gente aqui. Vem comigo, é um lugar só pra nós dois”.  E Nada desse ritual acabar. Ansiedade já tinha tomando conta de mim. Eu só pensava em namorar. Só deseja sair da igreja e beijar a minha primeira namorada. “Aqui, Aqui, rápido. Vamos aproveitar que hoje não tem vigia.

Chegamos junto à uma cerca de ferro que impedia o acesso à Torre da Telepará.  A Rua Porpino estava vazia. Não se via ninguém por ali. Ela não perdeu tempo. Escalou a cerca e pulou para lado de dentro. “Vem logo! Pula!”. Eu hesitei. Isso era loucura, pensei. O que faremos aqui, ao pé dessa enorme torre? Na mesma noite de Crisma? Contrariado e sem pensar mais em nada, pulei também para o lado de dentro. Corremos até chegar à torre. Ela não titubeou, foi logo escalando. Eu sentia medo. Ainda perguntei pra ela se precisar de tudo aquilo pra gente se beijar. Ela não respondeu. Mas logo passei a subir atrás Dela. Subimos aquela alta torre que era vista em vários pontos da cidade. Era vista até nas colônias agrícolas. Subimos até ao topo.  

Lá nesse topo, perto das nuvens, nos sentamos um ao lado do outro, ficamos bem juntinho. Eu estava muito cansado. Não demorou vir a recompensa: ficamos namorando, nos beijando. O céu estava estrelado e a cidade em movimento estava toda iluminada. Lá embaixo, logo ali, na praça, víamos os crismados e os familiares se fotografando, conversando e se abraçando. Não custava de a gente ter ficado ali, no cinzeiro da Praça da Matriz se beijando. Alguns minutos depois Ela falou: “Somos Soldados de Cristo!”, e soltou um riso, “Imagina se agente recebesse armas de guerra, para lutar em nome da fé hahahahahah. Caso fosse possível, eu queria escolher a minha própria arma. Arma que eu ia escolher seria Arco que Lança Estrelas Cadentes. E sua arma, qual seria?”. Fiquei pensado. Demorei um pouco a responder. “Uma espada...uma Espada de Luz de Fogo”. Ela riu novamente. “Pronto, então! Não seremos Soldados de Cristo!”, fez uma pousa e continuou, “Seremos dois Antigos Guerreiros Pagãos que tem as estrelas como deuses”.

Ela se levantou e fez um gesto como estivesse lançada uma flecha. “Será que podemos ter essas armas encantadas?”. Eu olhei para Ela e falei: “Não sei. Acho que pra mim não é possível não”. Ela repetiu o mesmo movimento, o mesmo gesto. Até que...Aconteceu mesmo!!! Apareceu um arco dourado na mão esquerda dela. “Nossa!!”, Ela gritou. Era o Arco Estelar. Ela ficou encantada e eu assustado.  Posicionou com firmeza o Arco Estelar para direção do Cristo Redentor e puxou a flecha que apareceu imediatamente ao gesto dela. Tudo era luz, tudo era brilhante. Percebi que apareceram duas flechas, Flechas de Estrelas Cadentes. Ela puxou até o limite e lançou. As Flechas de Estrelas Cadentes passaram voando com toda velocidade sobre a Praça da Matriz, da Mãe Maternidade, do Igarapé Castanhal, da Rua Manga do Boi, da Avenida Altamira, onde os Dois Irmãos Roqueiros e Seus Amigos que Usam Camisetas de Bandas de Rock se assustaram com aquele fogo reluzente, que cortava aquela parte do céu da cidade de Castanhal. A flecha ainda passou por cima da Escola Senhora Pereira, em seguida ela fiz uma curva e seguiu ao rumo do monumento e desfez bem próximo da cabeça do Cristo Redentor.

***

Eu só pensava Nela na escola e nem prestava atenção na aula. Já fazia quase um ano que a gente namorava. Eu estava contando as horas. Eu e Ela combinamos nos encontrar na tarde daquele dia. As horas passaram. O horário combinado se aproximava. Fui em casa, almocei, troquei de roupa e esperei o calor daquela tarde amenizar. Eu tinha que encontrá-La na frente da escola onde Ela estudava. Eu estava lá, esperando. A sirene da última aula tocou e Ela logo apareceu lá no portão do colégio. Ela de uniforme escolar era mais encantadora. Ela me abraçou, sorriu e me beijou. “Você veio mesmo!!! Estou tão feliz! Vamos! Vamos procurar lugar que a gente fique à vontade. Eu tenho uma surpresa pra você”.  Ai, Meu Deus! Será que Ela vai querer subir novamente na Torre da Telepará? Não foi isso. Mas sempre era assim, Ela sempre tinha alguma surpresa pra contar ou para fazer. Todas às vezes eu ficava impaciente, porque só queria beijá-la e sentir o calor do seu corpo.

Ela abriu a mochila e retirou um amontoado de material que tinha textura de couro, mas esse aglomerado de pelota possuía várias cores. Ela sacudiu tudo aquilo e virou um balão gigante que passou a subir. Ela puxou cordas que continham na esfera e amarrou num cesto grande e partimos. Aquele voo meu deu um frio na barriga. Eu preferiria os beijos e não os repentes que Ela gostava de fazer. “Assim, a gente vai ter mais privacidade”, Ela não parava de sorrir.

Não demorou muito e já víamos todo bairro do Caiçara: o campo do Guarany, o campo do Bilheteiro, o Monstro do Lago, a Casa da Minha Tia Raimundona. Mas o balão perdeu sua força de flutuação e começou a murchar. Fizemos um pouso emergencial, lá no final da Rua Comandante Assis, ali, pras bandas da Estrada de São Francisco. Na verdade, pousamos em cima de uma pequena árvore. “Aff...Vamos namorar aqui mesmo, nesse cesto e em cima dessa árvore”, disse Ela toda sorridente. E lá, ficamos namorando.

Depois de alguns beijos, Ela levou um susto: “Ai, Meu Deus!! Meu Pai tá vindo ali. Vamos nos esconder. Ele não pode saber que eu  estou namorando. Rápido! Pula logo!”. Pulamos e saímos correndo. “Vem, por aqui! Eu tenho uma Tia que mora bem ali, bem ali no canto. Vem!”. Realmente, era bem ali no canto. “Titia! Titia! Rápido! Abre o portão! Meu Pai tá vindo ali! Eu tô com meu namorado aqui. Papai não pode vê a gente!”. Rapidamente apareceu uma mulher junto da cerca e abriu o portão para nós. “Rápido! Entrem logo! Vão pra cozinha”, disse a Tia Dela. “Ufa! Escapamos! Papai quase pegou a gente. Ainda bem que ele não me viu namorando”. 

Lá, ficamos, na casa da Tia. Esta preparou um café da tarde, conversamos e depois a Tia nos deixou à sós na sala. Passamos o resto da tarde nos beijando, nos olhando e rindo sem razão. Que belo final de tarde. Os últimos raios solares atravessaram a janela da sala que chegavam até nós dois.

 

***

Percebi que Ela estava pensativa. “O que foi?”, perguntei. “Nada...”, Ela respondeu. Mas continuou em silêncio. Quando eu ia perguntar novamente, Ela falou: “Quero te contar uma coisa. É segredo, é um segredo que guardei por muito tempo”. Fiquei curioso e preocupado. “Pode contar. Eu prometo que não vou contar pra ninguém não”. Ela se levantou, foi até à mesa e pegou uma xícara. Colocou um pouco de café e bebeu. Em seguida, virou para frente da janela da sala e sem olhar pra mim e revelou o segredo: “Eu aprendi a desenhar um Navio Explorador. Eu aprendi desenhar sozinho. Posso desenhar um Navio Explorador pra nós dois. Podemos usá-lo para alcançar aquela linha do horizonte, ali, onde aquelas nuvens descem até desaparecerem. Você navegaria comigo?”.

Fiquei calado. Seria melhor a gente ficar se beijando até nos esquecermos de tudo? Mas Ela tinha planos. Mostrou restos dos lápis que usou para aprender a desenhar o Navio Explorador. Explicou como fazia as linhas retas, linhas diferentes e linhas misturadas. Quanto a mim, só pensava em beijá-la. “Especialmente com esse tipo de lápis...”. Ela se calou...e perguntou pra mim: “Você não gostou do navio que aprendi a desenhar, não é?!”. Não notei sua decepção. Respondi: “Você pode me mostrar depois seus desenhos...vem cá, me beija”. Ela se afastou de mim: “Já tá tarde, já está escurecendo”.

Eu e Ela nos despedimos de sua Tia e saímos, seguimos pela Rua Comandante Assis até chegar à esquina onde nos separaria. “Quando a gente vai se vê? Vamos marcar um encontro lá no Calçadão do Estrela, que tal?”, perguntei. Mas Ela não respondeu.

Ela parou e retirou um caderno da sua mochila e arrancou uma página que tinha um desenho e lançou para cima. Acho que Ela estava irritada. A página continha o desenho do Navio Explorador feito por Ela. A folha se amassou no pleno ar, virou um bolo de papel amassado que foi crescendo, crescendo, crescendo. Depois esse bolo de papel se desamassou e se transformou num enorme Navio Explorador, do tamanho de um quarteirão. Muita gente se assustou com aparição repentina daquela embarcação. Alguns curiosos se aproximaram para apreciar aquela nave do mar. Ela entrou no navio, abriu as velas dos mastros, acendeu todas as lamparinas que existiam lá. Sozinha, girou o leme que fez equilibrar toda aquela estrutura de madeira e de aço no ar. 

O Navio Explorador lentamente começava voar. Ela foi até aborda ao lado esquerdo da embarcação e disse para mim: “Sabe de uma coisa: Adeus!!! As nuvens serão só minhas!!!”. Assim, o navio saiu voando sobre aquela noite de céu estrelado...

 

Comentários

  1. 😍😍 amei demais Osi! Como sempre, vi a cidade e seus costumes. Sinto por ele que não sonhava como ela.

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  2. Este é o meu conto preferido, até o momento.

    Um enredo envolvente, instigante, mágico!Diria que remete até a uma sensualidade.
    O último parágrafo certamente arrebatou-me junto ao navio rumo as estrelas.

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