VINGADORES
A
maior parte da molecada da rua de casa estudava na mesma escola. Escola Pública
Senhora Pereira. “Crianças!! Não fiquem no corredor!”. Naqueles anos finais de
1980, quase não tinha professora na nossa escola. “Crianças!! Estão atrapalhando
a aula da professora Raimundinha Gigante. Vamos lá!! Todos vocês devem ir para
biblioteca ou para quadra esportiva”. Como a nossa classe ainda não tinha
professora, nós ficávamos pelos corredores da escola conversando sobre filmes
que passavam na televisão. “Chama Dona Gracinha! Manda ela levar esses meninos
pra quadra!!”. A meninada fazia tanto barulho que acabava incomodando outras professoras
que ministravam aulas. “Diretor Orival! Dona Gracinha está toda enrolada na
secretária!”. Mas naquele dia, a nossa conversa não era sobre filmes ou
desenhos animados. Todos falavam sobre a Turma da Anarquia, que era uma gangue
de jovens do bairro Nova Olinda. “Vêm seus meninos danados!!”, disse o diretor,
“Vou levá-los para quadra. Fiquem aí junto com seus outros colegas até a hora
do recreio. Não vão brigar aí na quadra!”.
Eu
e molecada não ficamos na área de educação física. Decidimos subir e se sentar sobre o muro da
escola e viramos para o lado de fora, de frente à Rua Duque de Caxias. Atrás de
nós, só ouvíamos a algazarra dos meninos e meninas correndo pela quadra. Quanto
eu olhava os transeuntes passando pela rua empoeirada, meus amigos comentavam
sobre a Turma da Anarquia. Eu apenas ouvia o que eles contavam. Eu preferia
falar sobre filmes, desenhos animados, histórias em quadrinhos. “Ainda vou fazer
parte da Turma da Anarquia”, Romeu falou isso quanto ficava de pé no muro. “Tá
doidé, Romeu!?”, se espantou Markito, “Tem que ser muito corajoso pra entra nessa
turma”. Romeu ficou por um tempo em silêncio, olhando para as árvores da
vizinhança da escola.
Romeu
se sentou novamente no muro e voltou a falar: “Queria ser igual ao Gafanhoto. Meu Tio viu ele
uma vez fugindo da polícia, lá no campo da Vila Nova, ali, pras bandas da COHAB.
Gafanhoto jogava bola com pessoal de lá quando a polícia apareceu de surpresa
pra prender ele. Gafanhoto saiu correndo do campo muito rápido e logo deu um
salto sobre o velho muro do campo. Atrás do muro já tinha um policial esperando
ele. Meu Tio disse que Gafanhoto, ainda no ar, voo sobre o policial e foi voando
até pousar no muro da Fábrica de Alimentos que fica lá perto do Vila Nova. Aí,
Gafanhoto saiu correndo sobre o muro da fábrica e deu outro grande salto e voo
novamente. Nesse voo, atravessou a
BR-316 e passou voando por aqui, por cima da escola. Ele foi cair lá no terreno
dos cajueiros, que fica lá perto de onde a gente mora. Queria ser assim:
rápido, veloz, poder voar como Gafanhoto. Titio disse que em Castanhal não tem
ninguém mais rápido que Gafanhoto”.
Emanuel
balançou a sua cabeça negativamente: “Gafanhoto é muito enjoado. Vive ali, no
canto da Rua Coronel Leal com Altamira, toda vez que eu passo por ali ele me
pede moeda. É muito chato ele. Da Turma da Anarquia acho bacana é o Pé Grande.
Ele é do caralho. Ele é legal com tudo mundo. Já viram ele jogando bola? Ele é
muito bom de bola. Às vezes, vou lá no campinho deles pra ver eles jogando
bola. Pé Grande dá cada bicuda na bola que a bola some no mato, ou cai lá no
quintal do Seu Ceará. Uma vez apareceu
um homem com terçado lá campinho e queria cortar Pé Grande. Toda galera da
Anarquia cercou esse Homem do Terçado. Pé Grande disse pra ninguém se meter, que
ele sozinho ia enfrentar o Homem do Terçado. Aí, todo mundo da gangue se
afastou. Fizeram um círculo. No meio da roda ficou Pé Grande e o Homem do
Terçado. Fiquei só de longe, vendo a briga. Não tinha coragem de ficar perto
não. O Homem do Terçado se jogou em cima do Pé Grande. Queria por queria
acertar uma terçadada no Pé Grande. O homem ia pra cima e vrum, vrum, vrum com
terçado. Pé Grande ia só desviando do terçado, ele é muito habilidoso. Ainda
tinha tempo de dá umas reviradas mortal. Acho que Pé Grande joga capoeira. Pé
Grande passou uma rasteira no homem e ele caiu e o terçado escapuliu da mão
dele. Nessa hora vi Gafanhoto passar voando e pegou o terçado ainda em pleno
ar. Pé Grande pulou de duas pernas no peito do Homem do Terçado quando esse
tentava se levantar. O pisão foi tão forte que o homem desmaiou. Pé Grande tem
uma pisada poderosa”.
Juninho
tomou logo a vez pra falar: “Tem o Camelão. Ele tá sempre ali, perto da Fábrica
de Carroceria empinando pipas e rabiolas. Uma vez fui comprar pão lá na Taberna
do Seu Peregrino, lá ouvi uma conversa de pessoal que tavam lá que Camelão pode
ficar invisível. Foi por isso que Camaleão mandou fazer muita tatuagem nas
costas dele, nos braços e nas pernas. Disseram que é as tatuagem que é o grande
segredo do Camelão pra ficar invisível, porque as tatuagem ajuda pra se camuflar, pra fica invisível. Antes do Seu Peregrino me dá o pão
padeiro, ouvi ainda que a polícia correu atrás do Camaleão ali perto do Centro
Social Urbano. Era de noite. Camaleão desceu correndo pra Transcastanhal. Quando
chegou no muro da Fábrica de Pinheiro, ele se encostou nesse muro e ficou de costas
pra rua. A polícia que tava de carro, não percebeu que Camaleão tinha se
encostado no muro e a polícia passou direto. Vocês já viram Camaleão sem
camisa? Ele só tem tatuagem invocada”.
“Eu
gosto mesmo é do Preto Índio??!!”, disse Eliel. “Ah, não, Eliel. Aquele é
doido, doido e doido. Tu sabe que ele é meu primo? Não gosto dele”, falou
Emanuel que olhava para o picolezeiro que passava . “Mas sabiam que foi Preto
Índio que sozinho conseguiu fugir de cinco policiais? Preto Índio é muito alto
e forte”. Juninho começou a rir: “Hahahahaha. Aquilo só tem tamanho!! Tu tá
doido mesmo, Eliel?! Aquilo só fica rindo lá no canto da nossa rua. Parece que é
até doido mesmo. Às vezes fica rindo sozinho até de madrugada”. Eliel não se
conformou: “Ele é da nossa rua, abestado. Ele é valente mesmo. Ele deu uma
pedrada num carro da polícia ali perto da Escola Padre Severiano. Depois saiu
correndo e atravessou o muro da igrejinha”. Markito ficou logo impaciente: “Só
mentira!! Como é que ele atravessou aquele muro? Tu viu a altura daquele muro?
É alto demais”.
Eliel
que estava de pé no muro da escola logo explicou: “Égua, vocês não sabem que as
risadas do Preto Índio é o segredo dele? Da risada ele pode ficar gigante. Foi
assim que atravessou o muro da igrejinha. Quando polícia vinha atrás ele começou
a rir sem parar, aí ele foi crescendo até ficar muito alto. Aí, ele só colocou o
pé do outro lado do muro e atravessou. Foi assim que ele conseguiu atravessar o
muro. Ainda foi atravessando outros muros. Ele só dava um passo e atravessava
até dois muros. Como ele ficou gigante, a polícia vinha seguindo ele. Nessa
hora Preto Índio deu outra grande risada e logo voltou ao tamanho normal. Aí,
os policial não acharam mais ele. E vocês não se lembram quando Índio Preto
tentou laçar o Dragão da Turma do Dragão? Ele quase capturou aquele animal
voador. Índio Preto é danado”.
Romeu
voltou a falar: “E o Diabo Louro? Ele é da Turma da Anarquia?”. Emanuel ficou
pensativo e respondeu: “Não sei não. Ele vivi ali, perto do Igarapé Castanhal.
Pode passar lá agora que tu vê ele. Me disseram que ele lança chamas. É por
isso que o cabelo dele é um louro quase fogo. Teve uma vez que um cara que queria pegar o Diabo Louro e levar pra
polícia. Esse cara veio andando naquele mato que fica na beira do igarapé, ali
perto da Rua Comandante Assis. Mas Diabo Louro logo percebeu esse cara no mato.
Aí, o Diabo Louro não perdeu tempo, lançou chamas no mato que logo tudo pegou
fogo e o cara saiu correndo pras bandas da Rua Coronel Leal”. Nilson
interrompeu: “O Diabo Louro não é da Anarquia não. Acho que ele não tem turma.
Vocês viram alguma vez ele metido nas brigas de gangue ou nas correrias deles
pra fugir da polícia? Ninguém viu não. Diabo Louro sempre fica ali, perto do
Igarapé Castanhal”.
“Ei, galera!”, Adrianinho já estava agoniado para falar: “Quero entrar naquela turma que o pessoal usa camisa de bandas de rock e fica ouvindo rock no toca fita ali perto da Avenida Barão do Rio Branco”. Nesse momento todos riram, até eu ri do Adrianinho. “Seu besta! Aquele pessoal não é uma gangue não. Esse pessoal só curte rock mesmo e sempre ficam ali na casa dos Dois Irmãos Roqueiros que moram ali na Altamira, já chegando na Barão”. Romeu rindo continuou: “É verdade, Adrianinho. Avenida Altamira pertence à Turma da Anarquia. Na verdade, acho que a Turma da Anarquia controla todo bairro Nova Olinda”.
O
Diretor Orival reapareceu na quadra da escola: “Vem bando de menino!! Vão
merendar e depois podem ir pra casa de
vocês”. Descemos do muro, merendamos e, em seguida, fomos até a nossa sala de
aula, pegamos nossos cadernos e fomos embora. Quase chegando na rua de casa,
Emanuel me perguntou: “E tu, quem é o cara doido que tu gosta da Anarquia?”. Eu
demorei um pouco pra responder. Quando dobrávamos à nossa rua, eu disse: “Não
gosto de ninguém da Turma da Anarquia não. Só tem doido”. Os membros dessa
gangue viva por ali, pela Avenida Altamira, Rua Coronel Leal, Paes de Carvalho
até mesmo na encruzilhada perto de casa: Altamira com Presidente Kennedy. Eu sempre os via quando saia para comprar pão na taberna ou quando ia para aulas de educação
física.
Nesse
mesmo dia, pela noite, logo peguei no sono e sonhei. Sonhei que eu empunhava
uma espada reluzente e montava sobre o nosso cão Lobinho. Ele tinha se
transformado no Lobinho Guerreiro e passamos a correr sobre um deserto formado
por areias e montanhas. Eu percebia que ainda liderava uma tropa. Esta era formada
pela Turma da Anarquia. Essa gangue me seguia com toda coragem. Quando olhei para
trás consegui identificar Gafanhoto, Pé Grande, Camaleão, Índio Preto, que
soltava grande risada; e todos outros membros com suas próprias habilidades. Ali,
pelo lado esquerdo, via Diabo Louro nos acompanho de longe. Ele surfava sozinho
sobre ondas de fogo. O Dragão da Turma do Dragão passava voando sobre nós.
Apesar de esse animal voador ser de outra gangue, ele veio para nos dar apoio. A
maior surpresa que eu tive foi vê os Dois Irmãos Roqueiros e seu grupo de
amigos que usavam camisas de bandas de rock se juntando a nós. Eu os liderava.
Eu os conduzia. Eu os guiava para a luta decisiva. Enfim, o horizonte nos
pertencia...
Gangues são muito a cara dos anos 1980. Esse fechamento deixou o texto redondinho, adorei. Afinal, quem nunca alimentou, ainda que em segredo, o sonho de ser líder de uma Gangues?!
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ResponderExcluirSó faltou o Emanuel falar "sai daí dá o c..". Hahahahaha. Viajei na história, final dos anos 80 nos mudamos pra Castanhal e moramos quase na esquina da Barão com Trans-Casatanhal (umas duas casas antes pra ser mais exato, em frente ao Centro Social Urbano), e essa história de gangue era terrível, vez ou outra se enfrentavam ali pela Barão, parecia o filme gangues de Nova York. Hahahahah
ResponderExcluirMais um conto fantástico cheio de riquezas literárias. Fascinante!
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