VINGADORES - PARTE 2
Tarde de muito sol. “Lá vem! Lá vem! Lá vem!”. Uma tarde de sol de outubro. “Corre, corre, vai chamar logo o Pé Grande. Diz pra ele que eles tão vindo”. Era um sol de 1989. “Égua, cara! São eles mesmo!! Mas nós enfrenta eles!!”. Não era só tarde de sol. Era também uma tarde de muito vento. “Pé Grande!! Eles tão vindo! A gente viu eles, lá longe. Já tão atravessando o Igarapé Castanhal”. Esse vento da tarde fazia subir muita poeira. O Sol, o vento e a poeira se misturavam com os gritos de guerra dos jovens da Turma da Anarquia que vinham lá da Avenida Altamira. Todos se dirigiam para Rua Presidente Kennedy, outrora sem pavimentação e moldada por barro e piçarra; era cenário de mais um confronto entre as principais gangues rivais da cidade de Castanhal.
Manel Preto deu gritos lá na rua de casa: “Ei, pessoal!! Vai ter muita onda, ali!! Vai ter porrada!! Ô bora lá vê!! A Turma da Van tá vindo lá do bairro da Estrela! Eles querem dá porrada na galera da Anarquia!”. Toda vizinhança deixou de tomar o café da tarde e seguiu para o local do confronto. “Tu é doidé!! Esses bando de Satanás não tem o que fazer mesmo?!! Brigar essa hora? Nesse sol dos infernos?!!”, falou Papai Touro para meus irmãos lá na cozinha quanto tomava chá de canela, “Esses bando de Filhotes do Capeta tinha que se matar logo”. Manel Preto já estava liderando os vizinhos curiosos: “Hahahahahaha! É muita onda nessa cidade!!! Hahahaha! Ei, Touro!! Ô bora lá vê!! Hahahaha!”.
Papai Touro saiu da cozinha, atravessou o quintal e até alcançar o portão dos fundos e passou acompanhar todos aqueles homens da rua de casa. Isso mesmo. Todos esses homens deixaram seus cafés da tarde para apreciarem mais um confronto de turmas de rua. Ulha ali!! Até o Dragão da Turma do Dragão tá trazendo aquela gangue lá do Ianetama! Eita Touro!!!! É hoje que mundo se acaba!! Hahahaha!!”. Touro colocou uma da mãos na testa para proteger os olhos dos raios solares: “Tão vindo mesmo. O bicho já passou voando por cima da Caixa D’ Água da COSANPA”.
Mamãe Branca e as outras mulheres da rua de casa saíram logo depois dos homens. “Bando de macho bestas!!”, disse a Vizinha Protestante, “Perder tempo pra vê briga desses moleques!!”. “Arre égua!!, Num é mesmo mulher?!”, respondeu Minha Madrinha de Batismo, “Pra isso eles gostam. Quero vê se esses marmanjos gostam de rezar, se gostam de ir pra igreja”. Mamãe Branca estava irritadíssima: “Ô, Touro! Vem pra cá, seu Cão dos Infernos!! Deixa esses bando de sem vergonhas pra lá!! É só uma bordoada muito bem dada neles que logo tomam jeito...ai ai, se algum filho meu se meter com esses moleques vagabundos eu arranco o couro dele na faca e ainda passo sal com limão na carne viva”.
Eu e toda molecada subimos na jaqueira lá de casa. Subimos até o olhinho da árvore, bem lá no alto. A gente não queria perda nada dessa briga não. “Eliel, sobe logo!! A porrada já vai começar”, dizia Romeu. “Vai pra quele galho. É nele que a gente vai ver melhor a briga deles”, eu falei para Emanuel que ainda estava escolhendo em qual galho seria melhor para assistir o encontro mortal entre duas gangues. A gente estava tão alto que dava para enxergar a Feira da CEASA, o açúde do Camping Ibirapuera, a torre da Igreja Matriz São José Operário e as árvores das sedes dançantes Taboquinha Bosque e do Bosquinho.
“Ulha!!!”, apontou Emanuel para o céu, “Tão vendo?!!”. Olhei para cima e me espantei. O Dragão passou voando e raspando sobre as nossas cabeças. Essa rápida passagem do réptil voador fez os galhos da jaqueira e das demais árvores do quintal de casa balançarem. “Tu viu!!?”, gritou Eliel quanto os galhos ainda se moviam intensamente, “O Dragão tá voando com a galera da Turma do Dragão. Eles estão montados nas costa do lagartão!!!”. “Eu vi, eu vi, eu vi”, Markito falou apressadamente. Vimos também que mais curiosos vinham de outras ruas e de outros bairros. Até os operários da Fábrica de Carroceria, da Fábrica de Alimentos e da Fábrica Têxtil apareceram. Eles aproveitaram o horário do café para dar uma olhada naqueles rapazes que se preparavam para o confronto.
Quanto ao Dragão da Turma do Dragão voava sobre o céu do nosso bairro, vimos do alto da jaqueira que todos os membros da Turma da Anarquia vinham correndo, lá da Avenida Altamira, enfrentar os seus rivais. Não sei ao certo quantos eram. Não estou bem lembrado. Mas acredito que era mais de trezentos jovens. Cada um com seus poderes. Entre eles se destacavam Pé Grande, Gafanhoto, Camaleão, Besourão, Formiga de Fogo, Miau Doido, Dog Fither, Rato da Feira. Todos juntos, todos determinados para proteger seu setor: Avenida Altamira. Dessa via, ouvimos uma risada estridente: “HAHAHAHAHAHAHAHA”. Era Preto Índio. Ria mais ainda: “HAHAHAHAHAHA”. Tinha se tornado um gigante de quase quarenta metros.
A Turma da Van caminhava sob a poeira daquela tarde de outubro. Vinha de longe, dali, daquelas bandas por trás da sede Taboquinha Bosque. Atravessou o Igarapé Castanhal e quando chegou do outro lado do rio, onde prosseguia a Presidente Kennedy até a Avenida Altamira; Chiquito Doido disse: “A sorte foi lançada”. Chiquito Doido era o líder da Turma da Van. Ele usava o quimono velho e uma faixa branca amarrado na cabeça que passava pela testa. Os mais famosos desse grupo eram: MacGaren, Giluke, Gyodai e Roladeira. Este tinha o poder de tremer todo chão ao seu redor. À medida que eles se aproximavam, o tremor de terra ia aumentando. Acho que a Turma da Van era formada por duzentos ou mais membros.
***
A Turma da Anarquia e a Turma da Van ficaram frente a frente, numa distância de menos de duzentos metros. Eles se olhavam, eles se odiavam, eles queriam provar que não sentiam medo. Os curiosos estavam ali, juntos da cerca de estaca de casa, em pequenos grupos e espalhados por ali, pelas proximidades da encruzilhada da Rua Presidente Kennedy com Avenida Altamira.
De repente, um grito de guerra. As duas turmas correram uma à direção da outra. A luta seria olho por olho. Preto Índio dava seus enormes passos, Gafanhoto voava com toda velocidade, Pé Grande corria dando saltos mortais. Chiquito Doido triplicou seus músculos, Gyodai lançava raios dos seus olhos, MacGaren dava um super salto, Giluke mostrava habilidades com varas e Roladeira fez abrir fendas do chão. As duas gangues se chocavam de frente que gerava grande explosão.
Disputas de força física, intenso movimentam de corpos, ataques e defesas, contra ataques, subidas e quedas, pedras lançadas, pedras quebradas, raios que se cruzavam, relâmpagos que vinham de um céu sem nuvens, grandes tremores de terra. Dragão que sobrevoava aqueles jovens guerreiros mostrou por que veio. Ele lançou chamas sobre os rapazes da Anarquia. “Cuidado galera!!!! Dragão ficou do lado da Van!!!”, alertou Pé Grande. Mais chamas, mais vantagens para Turma da Van. Preto Índio quase agarrava a cauda do monstro voador.
Dragão dava voltas e fazia voos rasantes. Em seguida, lançava mais uma carga de chamas que atingiria Camaleão se Diabo Louro não tivesse aparecido. Esse garoto de fogo levantou rapidamente uma muralha de labaredas que protegia o Camaleão. A Aparição repentina do Diabo Louro trouxe alegria para Turma da Anarquia. Ele tinha a fama de renegado, solitário, sem pacto com nenhum grupo de rua. Mas naquele momento ele surgiu para dar apoio aos jovens da Avenida Altamira. “Pé Grande, pode deixar comigo. Dragão é meu! Agora é fogo contra fogo!! Outra coisa: eu moro neste bairro e vou defende-lo”. Diabo Louro formava uma ponte de fogo que o levava para cima e ainda conseguia surfar sobre essa onda flamejante para travar a luta em pleno ar contra o lagarto de asas. O duelo entre Dragão e Diabo Louro incendiava todo matagal seco dos terrenos baldios do bairro Nova Olinda.
Manel Preto, líder dos curiosos que estavam ali apreciando aquela batalha, apontou para o céu e gritou: “Ulha ali, ali em cima, no céu, tá vindo uma estrela cadente, acho que tá vindo pra cá. Ei, Touro! Será que é o Chupa Chupa ou os Soviéticos?”. Touro olhou para aquela estrela que vinha queimando daquelas bandas, da ali, das bandas da Vila Calúcia: “Rapaz!! Que diabéisso!!? Não é o Chupa Chupa não. E muito menos os soviéticos. Eles só aparecem altas horas da noite. Ainda é três da tarde. Pode ser o Satanás que tá vindo”. Manel se tremeu todo: “Tá doidé! Ei, galera, ô bora sair daqui!! Aquela estrela cadente pode ser o Capeta dos Infernos!!”. Todos saíram correndo e se esconderam no quintal de casa. Foi um desespero só.
As duas gangues também perceberam aquela estrela cadente que vinha caindo. Eles observaram o quanto aquela a estrela rasgava o céu daquela tarde de sol. Eles notaram também que a estrela cairia bem no meio deles, no meio da batalha. E caiu mesmo. Outra explosão, uma explosão com muita luz. Manel Preto, a vizinhança de casa e os demais curiosos tiveram a visão embaçada por causa do excesso de luz. Mas logo a visão de todos retornou ao normal. Quando a poeira e as faíscas se dissiparam, viram uma mulher se levantando no exato local onde tinha caído aquela estrela. Dela, vinha uma torce: “Cof, cof, cof, cof”.
Papai
Touro logo notou que ela usava jaqueta e calça jens, botas e cinturão preto,
usava pulseiras punk e sobre a cabeça uma chapéu de bruxa. “Será que é...”,
Manel não completou a frase. Franziu a testa e olhou para Touro. Este disse: “É
ela mesma...é a Bruxa Sonífera!”.
Dragão que continuava voando não pensou duas vezes: logo fez outro voo rasante não para fazer outro ataque, mas para fugir da Bruxa Sonífera. Retornou para o bairro Ianetama e lá se escondeu na Rua da Piscina. “É ela!! A bruxa!! É a Bruxa Sonífera!”, gritaram ao mesmo tempo todos os jovens das duas gangues. Foi um verdadeiro desespero, todos eles fugiram, cada qual retornou para sua casa. Não era só a Turma da Anarquia que sentia medo de Sonífera, mas todas as gangues de Castanhal.
“Cof,
cof, cof, cof...oi pessoal”, saudou Bruxa Sonífera aos curiosos que saiam aos
poucos do quintal de casa. “Perdi alguma coisa por aqui? Cof, cof, cof, cof”.
Mamãe Branca, Vizinha Baiana, Vizinha Mão de Carta, Vizinha Protestante, Minha
Madrinha de Batismo foram passando pelo meio daqueles abelhudos e cada uma
trazia um cipó nas mãos. “Tu não perdeu nada não, mulher”, disse Mamãe Branca,
“Esses bandos de machos besta tão tudo aí vendo briga de moleques. A gente já ia
dar uma surra de cipó de goiabeira pra botar todo mundo pra correr, principalmente
naqueles brigões. Vem, mulher, vem tomar café da tarde com a gente”. Bruxa
Sonífera olhou para o sol quanto andava: “Café? Nesse calor? Eu preferia uma
caneca cheia de cerveja bem gelada...”
A gente vai lendo e vai imaginando cada parte da história como se fosse em quadrinhos.
ResponderExcluirObrigado.
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