VELOZ

 

“Sabe, Tia, eu me lembro daquela manhã ensolarada, ali, perto das palmeiras de tucumã, às margens do Rio Guamá. Estava eu e Veloz, sentados e olhando serenamente para o movimentos das águas. Acho que já era quase meio dia e a gente, ali, sentados. Eu falei pra ele que eu tava entediado. Veloz olhou pra mim e disse: ‘Tu tá entediado?! Tá bom! Vamos ter um pouco de ação’. Ele lançou um assobio agudo e as águas que passavam próxima das margens começaram se agitar. Então, levantou lentamente do fundo d’água uma mulher indígena, esbelta, lábios grossos, cabelos pretos e longos, com pinturas de guerra por tudo corpo e segurava um arco e flecha. Ela sorriu e disse: ‘Olá, Veloz. Que fazer outra aposta? Dessa vez, se eu vencer, eu vou querer pupunha cozida’. Veloz respondeu: ‘Se eu ganhar, vou querer aquele jerimum que sua aldeia cultiva’. Ela: ‘Combinado!’. Eu não tava entendo nada. Veloz me falou: ‘Tu não disse que tá entediado? Então, pronto. Vamos ter um pouco de adrenalina. A Mãe D’Água vai disparar a flecha dela naquela direção daquele aglomerado de palmeiras de tucumã, ali, do outro lado do terreno. E a gente tem que chegar lá antes da flecha dela. Sobe aí nas minhas costas que a corrida já vai começar. Mãe D’Água tava sobre as águas e em posição de lançar a flecha: ‘Veloz, tu já tá preparado?’. Acho que ela tava mirando em alguma palmeira de tucumã. ‘Sim, eu estou preparado’. Ela lançou a flecha. Veloz disparou no mesmo tempo da flecha e agora ele e o dardo disputavam com toda velocidade possível quem chegava até as palmeiras. O galope de Veloz levantava o capim seco, terra e seu galope fazia um som como se fosse um batalhão de cavalos galopando. A flecha suavemente cortava o espaço, o vento, a poeira que levantava daquele chão seco e do capinzal frágil.  Não teve chance. A flecha fincou em uma das palmeiras de tucumã logo na nossa frente. Veloz fez uma freada brusca que fez levantar todo capim seco ao nosso redor. Ofegante, olhou para Mãe D’Água que tava em pé sobre as águas do rio. ‘Veloz!!!’, ela gritou de lá, ‘Amanhã venho pegar minhas pupunhas cozidas!!!’, ela riu e mergulhou nas profundezas daquelas águas. Agora, a senhora, minha Tia, me diz que Veloz morreu, essa notícia eu recebo como a flechada no meu coração”.  

***

“Eu pensava que tu já sabias do falecimento do Veloz. Já faz muito tempo que tu veio aqui, na Vila Pernambuco. Mandamos avisar pra vocês. No recado dizia que Veloz adoeceu e logo faleceu. Talvez doença do coração. Logo ele, que tanto tinha energia pra correr? Até hoje não entendo a morte do Veloz. Toda vila ainda não entende a morte dele. Veloz tava sempre pronto para ajudar todos nessa comunidade. O próprio Veloz não aceitou sua morte. O corpo dele foi consumido pela terra. Mas sua alma anda entre a gente, entre a vila. Já viram várias vez ele conversando com Mãe D’Água lá na beira do rio, ali, perto das palmeiras de tucumã, onde tu e ele sempre ficavam conversando. Teve uma vez que ele veio aqui, mas ficou em silêncio. Eu disse pra ele aceitar que tinha morrido, que ele tinha que partir. Todas as noites, o Navio das Almas atraca ali, na beira do rio, para receber as almas  das pessoas e animais que morreram. Mas Veloz sempre se recusa em embarcar. O Capitão do Navio sempre fala pra ele: ‘Veloz, vamos!! Tá na hora! Este mundo não te pertence mais. Vamos!’. Mas Veloz não responde o chamado. Já se passa cinco anos, mas ele não embarca. Nesse cincos anos, o Capitão do Navio das Almas chama por ele”.

***

“A gente atravessou a madrugada conversando sobre Veloz. Na verdade, o sol já tava levantando. Neilton se levantou de junto da mesa que a gente tava conversando e sua Tia também se levantou pra preparar o café. Ele foi pra sala e se deitou no sofá. Acho que Veloz não sai de sua cabeça. Eu e Katiane continuamos na mesa. Houve um grande silêncio daquele início da manhã. Eu levantei e fui pro quintal. O rio ficava logo ali, bastava sair da porta da cozinha e descer a ribanceira para chegar até as águas que corriam suavemente. Na beira tinha uma canoa que estava amarrada junto de uma mangueira. A Tia do Neilton me chamou pra tomar café. Voltei e entrei novamente na cozinha. Katiane ajudava no preparação do café. Mas Neilton não veio pra junto da gente. Quando a gente tomava café, ouvimos um relinchar de cavalo. Fomos até a varanda da casa e vimos Veloz e Neilton conversando lá na frente da casa. Eles falavam alguma coisa, mas a gente não ouviu. Neilton montou sobre Veloz, entraram no quintal da casa e desceram ribanceira até chegar ao rio. ‘Neilton e Veloz!! pra aonde vão vocês??’, perguntou Tia do Neilton. Eles não responderam. Vimos também que lá na beira do rio tava Mãe D’Água armada de arco e flecha esperando por eles. ‘É hoje a nossa derradeira aposta?’, falou aquela indígena guerreira. ‘Isso mesmo!’, respondeu o cavalo, ‘Já pode dar sinal, Veloz, já to aqui preparado’, falou Neilton montado no cavalo. Mãe D’Água virou para direção do outro lado do rio, ali, bem longe, onde tem grandes árvores, e lançou sua flecha. No mesmo tempo, Veloz saltou com Neilton, sobre rio e saiu galopando sobre as águas com toda velocidade e já tava ultrapassando a flecha. O galope do Veloz era tão forte que fez levantar bem alto as águas do rio que acabou provocando uma chuva que caiu suave sobre a vila”.

 

 

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