SOVIÉTICOS
Era noite de sábado de São João do ano de 1985. As chamas da nossa fogueira estavam oponentes e nossos vizinhos formavam um circulo em torno desse fogaréu. Eles apreciavam o mingau de milho que Mamãe Branca tinha preparado naquela noite junina. Esses moradores se encontravam sentados sobre tamboretes, tocos, folhas de castanholas e pedras. Arranjados dessa maneira consumiam, em silêncio, aquela mistura de grãos de milho, leite de coco e leite condensado. Até a molecada da rua de casa bebiam o mingau calado. Isso não era normal. Em outras ocasiões de noite juninas, ocorriam verdadeiras algazarras de mulheres e homens adultos e criançada. Enquanto os pais conversavam e riam alto em torno da fogueira em chamas, a meninada corria pela rua cheia de mato e giravam seus braços em que as mãos seguravam fios que traziam amarrados palha de aço acesa. A molecada também brincava de esconde esconde pelo matagal que existia por ali, na Travessa Altamira com Presidente Kennedy. Mas naquela noite, pairava um clima de constrangimento.
Mamãe Branca estava irritada porque Papai Touro ainda não tinha chegado da Feira da CEASA. Ele saiu no final da tarde daquele dia e disse que antes das sete da noite já estaria de volta. Mas aconteceu que já era quase dez da noite e nada do papai. “Aquele peste! Cão! Vai me pagar hoje!! Aquele miserável disse que ia só fazer uma cobrança e voltar logo. Satanás mentiroso!! Deve tá lá com aquelas putas do Beco do Mijo! Ah, hoje ele me paga!!”. Os vizinhos viam e ouviam mamãe falando tudo isso para Vizinha Professora. Mas ninguém se atrevia em se meter nessa conversa.
Na frente da casa da Vizinha Protestante se encontravam conversando Minha Madrinha de Batismo, Vizinha Mão de Carta, Vizinha Baiana, Manel Preto e a Bruxa Sonífera. Esta flutuava em posição de meditação quanto conversava. “Esse Touro não tem jeito não. Que peste dos infernos ele é!!”, falou Vizinha Protestante. “É verdade mesmo. Esse meu compadre nunca aprende. Já chamei atenção dele”, concordou Minha Madrinha de Batismo. Manel Preto foi logo falando: “Ô, mulherada!! Alguma coisa aconteceu na CEASA pro Touro não vir logo”. “Lá vem tu, Manel!!”, interrompeu a Vizinha Baiana, “Já quer defender aquele sem vergonho!!!”. Vizinha Mão de Carta emendou: “É sim, Manel! Todo mundo sabe que tu e Touro ficam aprontado por aí. Pensa que a gente não sabe?!”. Sonífera endireitava seu chapéu de bruxa quando falou: “Eu que não quero meter minha magia nessa confusão. Olhem ali! Lá vem o sem vergonho com cara limpa limpa. Aff!!”.
Papai Touro vinha dobrando a esquina da rua de casa com a Presidente Kennedy. Ele vinha andando lentamente. “Ô, pessoas. Boa noite!”. Alguns vizinhos responderam com desconfiança. Mas logo se calaram porque ninguém queria se envolver naquela iminência de briga de casal. Papai percebeu certa indiferença dos vizinhos. “E o mingau da mulher?! Tá gostoso??”, falou papai para quebrar aquele silêncio medroso. Mamãe Branca apareceu repentinamente diante dele. “Isso é hora de chegar?!! Desgraça do Cão!!!”. Papai Touro ficou logo desconcertado e nervoso: “Ô, mulher! Deixa eu te falar o que aconteceu comigo lá na Feira da Ceasa!”. As chamas da fogueira permitiram que os vizinhos vissem a expressão irritada da Mamãe Branca: “Seu Cavalo do Cão!! Vou dizer que aconteceu!! Tu ficou com aquelas sem vergonhas do Beco do Mijo!! Foi isso...E tá cheirando só a cerveja!!!”, ela empurrou papai e continuou falando, “Seu 600 Demônios!! Não é a primeira vez que tu faz isso!! Não vai ter mingau de milho pra tu não!! Outra coisa, hoje tu não vai dormir aqui em casa não. Vai procurar outro lugar!! Seu Satanás!!!”. Papai Touro ainda tentou falar: “Roubaram minha bicicleta, minha barra circular...eu tava procurando os demônios que me roubaram...”, “Cala boca, seu filhote de lobisomem!!! Passei a tarde toda de hoje fazendo esse mingau, arranjado pau velho pra fazer a nossa fogueira e tu resolve sumir pras bandas da Feira da CEASA!! Some daqui!! Vai dormir com as quengas!!!”.
Papai Touro ficou triste e saiu da frente de casa e voltava pelo mesmo caminho que veio. Manel Preto chamou por ele: “Ô, Touro. Tu vai pra onde, homem de Deus! Já é tarde da noite. Já passa das onze da noite. Pra onde vai nessa escuridão?! Por essas noite andou aparecendo o Chupa Chupa. Essa Bola de Fogo andou chupando sangue de gente por aí. Dorme aqui em casa”. Papai Touro parou no meio da encruzilhada da Presidente Kennedy com Altamira e respondeu: “Ô, Manel. A mulher não acredita em mim não. Vou ficar andando por aí, até amanhecer. É o jeito...”. Papai Touro não terminou a frase e de repente surgiu sobre ele uma forte luz. Esse brilho clareou toda rua e matagal ali perto de casa. Manel Preto não perdeu tempo. Ele saiu correndo e pulou sobre sua cerca para lado de dentro do seu terreno e se escondeu atrás do pé de carambola. “Tu é doidé!! É só falar nessa desgraça que ela logo aparece”.
A vizinhança toda se assustou com aquela luz. Alguns correram para suas casas, outros ficaram curiosos para saber da onde vinha aquele clarão que pairou sobre Papai Touro. “Vixi!! Danou-se!! É o Chupa Chupa”, falou a Vizinha Protestante. “Corre Touro!! Sai daí de baixo dessa luz!!”, gritou Manel Preto. “Eu não consigo me mover!!!!”, disse Papai Touro. “Ôpa!!! Agora negócio ficou sério!!”, reagiu Bruxa Sonífera. Ela já fazia gestos com suas mãos para lançar alguma magia contra a Bola de Fogo. Mas Mamãe Branca, lá da frente casa, disse para ela: “Ô, Bruxa!! Deixa ele! Agora ele vai aprender não me deixar mais esperando por ele. Deixa ele, deixa esses bichos levar ele. Vão fazer até um favor!!! Te lasca pra lá filho do Cão!!!”.
Bruxa Sonífera deu um salto e voo até Mamãe Branca: “Ô, mulher! Tu tá falando sério? Tu vai deixar essa coisa levar o Touro!?”. Mamãe não respondeu. Nesse momento, Chupa Chupa ou Bola de Fogo foi ganhando forma mais nítida. Todos viram que era uma espécie de disco voador. Essa nave espacial começou abduzir Papai Touro, bem ali, na encruzilhada, na presença de todos. Os vizinhos gritaram: “Branca!! Eles vão levar o Touro e chupar todo sangue dele”. “Não quero nem saber!! Espero que chupe todo sangue dele até ele ficar só esqueleto e chifre hahahahahahaha!!”, riu Mamãe Branca. Lá longe, nos altos da Torre da Telepará, ali perto da Igreja São José Operário, estava o Dragão da Turma do Dragão. Esse grande animal se surpreendeu com aquela espaçonave. Até queria ajudar aquele pobre homem que estava sendo sequestrado por aqueles Óvnis. Mas sabia que Bruxa Sonífera estava por ali, ela sempre ficava por aquelas bandas, no bairro Nova Olinda. O Dragão tinha muito medo daquela mulher.
O disco voador parecia uma tampa de panela. Na parte superior desse objeto tinha uma saliência, como aqueles bilotinhos que a gente pegar na tampa. Talvez isso fosse a cabine dos pilotos da nave. Na parte inferior existiam várias linhas que ganhavam formas retangulares. Nesses desenhos geométricos saiam luzes de inúmeras cores, especialmente laranja fogo. Por isso que ganhava forma de Bola de Fogo. A luz que abduzia Papai Touro era azulada e tinha efeito paralisante. Por isso que papai não conseguia se mover.
Manel Preto ficou abismado com aquele disco voador: “Soviéticos!!! São os Soviéticos!!! Eles que andam chupando sangue das pessoas por aí. É por isso que a bandeira deles é vermelha”. “Soviéticos? Quem te disse isso, homem?!”, indagou a Vizinha Baiana. “Meu patrão me disse isso. Ele sempre fala que os soviéticos tentam dominar o mundo. Por isso que esses comunistas inventaram disco voador: para dominar todo mundo!!”. Minha Madrinha de Batismo deu uma risada: “Hahahahah!! Ô, homem besta do cão. Tá vendo que isso pode ser japonês? É japonês que gosta de fazer essas coisas que ficam voando, essas coisas espacial...de nave especial”. Manel Preto não parava de repetir: “É soviético!!! Me patrão falou! É soviético!!”.
Eu e os cães Duque, Ceci, Lobinho, Sam Marino, Keti Bola e Samy, olhávamos tudo aquilo junto da cerca do quintal de casa. Ficamos com pena do Papai Touro. Chamei a bicharada e saímos correndo para encontrar com mamãe. Lobinho logo abraçou Mamãe Branca quando a encontrou lá perto da fogueira. O nosso cãozinho Lobinho chorava: “Mamãe Branca, a gente ama Papai Touro. Por favor, não deixa o Chupa Chupa chupar papai e deixar ele só esqueleto e chifre. Por favor, mamãe. Perdoa Papai Touro”. Nesse momento, todos os outros cães de casa abraçaram Mamãe Branca. Ela ficou pensativa. Logo depois, “Ah, também. Dessa vez vai passar. Não quero ver vocês chorando por aí como um bando de abestados”.
Mamãe Branca se dirigiu à Sonífera, “Ei, Bruxa Sonífera! Resolve toda essa arrumação doida!”. Bruxa falou alegremente: “É pra já!!!”. Então ela voou e lá do alto começou sair relâmpagos do corpo dela. Lá de cima, ela viu o Dragão lá longe e soltou seu forte assobio: “FIIIIIIIIUUIIIIIIII!!!”. Dragão pegou um susto daquele assobio que quase caiu lá do alto da Torre da Telepará. “Ei, Lagartão! Presta atenção!! Vai ser ao meu sinal. Vai ser coisa rápida!”. O Dragão da Turma do Dragão ficou confuso. “Será que Bruxa Sonífera precisa da minha ajuda? Ela quer que eu salve aquele homem que está sendo abduzido?”. Mas de qualquer forma o Dragão ficou atento.
Papai Touro já estava chegando à escotilha da nave espacial quando Bruxa Sonífera fez um simples estalo com seu polegar em frisão com os outros dedos da mão esquerda. O som do estalo cancelou o processo de abdução e as luzes do disco voador se apagaram. Então, Papai Touro veio caindo lá do alto. Em questão de milésimos de segundos, Dragão entendeu tudo que tinha que fazer. O grande animal deu um salto da torre e saiu voando com toda velocidade e apanhou o papai antes que se chocasse no chão. O Dragão ganhou altura e fez um voo rasante sobre as árvores do Camping Ibirapuera e retornou para direção da rua de casa. Nisso, as luzes da nave espacial reacenderam e os Óvnis fugiram na velocidade da luz para o espaço sideral.
Todos os vizinhos da rua de casa comemoraram. Todos ficaram felizes porque Touro foi salvo. Todos ficaram felizes porque sabiam que Papai Touro não ficaria só esqueleto e chifre. O Dragão pousou suavemente na encruzilhada da Presidente Kennedy com Altamira e colocou papai com todo cuidado no chão. Em seguida, Dragão levantou voo e retornou para o alto da Torre do Telepará. Lá longe, ele viu os moradores abraçando Touro e trazendo ele nos braços. Manel Preto liderava aquele motim de alegria que reunia somente homens da rua de casa. Mamãe Branca parou diante daquela multidão que trazia Papai Touro: “Ô, vão parando aí. Bando de Satanás!! Quero falar uma coisa pra essa peste aí, esse aí que vocês tratam como herói”, ela olhou pro papai, “Dessa vez passou, viu?!! Mas hoje tu dorme na casa dos nossos cachorros, lá de baixo da mangueira! Nem pense levar lençol ou qualquer outro pano e muito menos travesseiros! Ouviu??!! Cão Miserável!!”.
***
Eu não conseguia dormir naquela noite. Eu estava sentindo pena do papai, porque ele dormia lá fora, no relento da madrugada. Levantei da minha rede de dormir e caminhei lentamente até a janela da cozinha. Abri com todo cuidado a janela e enxerguei Papai Touro dormindo logo ali, de baixo da mangueira, com Duque, Ceci, Lobinho, Sam Marino, Keti Bola e Samy. Vi que papai se levantou do meio dos cachorros e foi para o fundo quintal. Ele olhava para os lados, como se estivesse averiguando se não tinha ninguém olhando. Ele só viu que o Dragão continuava lá no alto da Torre da Telepará. Quando chegou junto da cerca, uma forte luz veio do céu sobre ele. Chupa Chupa tinha reaparecido. E agora? Pensei. Eles voltaram para raptar Papai Touro. Ninguém poderia ajuda-lo. Todos os vizinhos estavam dormindo. Bruxa Sonífera estava em algum lugar da cidade bebendo cerveja. De repente saiu uma voz da nave espacial, uma voz estranha e robótica. Mesmo assim ninguém da rua de casa e do bairro acordou. A voz dizia assim: “?Nep perestroika glasnot? [Nosso plano deu certo?]”. Papai Touro respondeu: “Volga!! Nep glasnot!! [Sim!! Deu certo!!]”.
O disco voador lançou uma luz azul marinho sobre o quintal de casa e fez aparecer a bicicleta barra circular do Papai Touro. Novamente a voz misteriosa saiu do Chupa Chupa: “SPUTNIK GÓRKI!!! [ADEUS AMIGO!!!]”. Papai estendeu braço esquerdo: “SPUTNIK!!!! [ADEUS!!!!]”. Nesse momento a nave especial ganhou mais altura e saiu em disparada, sem fazer barulho pelo céu da madrugada da cidade de Castanhal. Voou sobre as árvores Taboquinha Bosque, da Feira da Ceasa, da Caixa D’Água da COSANPA. Voou ainda pelas proximidades da Torre da Telepará e sumiu lá para bandas do campo do Pirapora. Ouviu-se um estrondo. Talvez a espaçonave tivesse quebrado a barreira do som.
O Dragão da Turma do Dragão viu tudo isso lá do alto da Torre da Telepará. Mas ficou sem entender nada.
Perfeito. Para mim um dos melhores.
ResponderExcluirÊ, seu Touro danado.
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