REVOLTA - PARTE 1



        Em 2017, fui convidado para escrever um breve texto sobre a Revolta do Pincel para o site Mas Como Então (hoje desativado). O referido escrito tinha como título: “História Social: a Revolta do Pincel e a cultural da violência em Castanhal” que foi reproduzido em inúmeros blogs e redes sociais. Com a aproximação do dia 29 de março (dia que aconteceu a Revolta do Pincel), republico esse mesmo texto aqui no blog Correio do Osi. 

        As frases e palavras entre aspas não são da minha autoria. Elas foram extraídas das fontes documentais que me serviram de pesquisa como, por exemplo, a frase “narrar um fato que se deu em Castanhal”. Esta afirmação foi retirada da leitura de cordel que narra o motim. Essa rima tem como título "A Revolta de Castanhal No dia 29/03/1987", escritor por Adalton Alcântara Monteiro. 

         Em seguida, posto um texto inédito de minha autoria que tem como título “A Revolta do Pincel ou Tudo Começou na Rua do Aquário”; que narra o momento em que o menor Carlos Alberto Costa Rodrigues foi detido. A tortura e a morte desse garoto foi o estopim da revolta que eclodiu na “cidade modelo”. Em breve, será publicada minha tese de doutorado que faz releitura dessa rebelião e de outras ações coletivas no espaço urbano de Castanhal. Nos dias 27 e 28 de março de 2021, postarei dois contos inspirados nessa rebelião. Boa Leitura!!

***

                                                         

A REVOLTA DO PINCEL

 

Quero “narrar um fato que se deu em Castanhal”. Esse acontecimento abalou uma população de maioria que descende de imigrantes nordestinos. Homens e mulheres que acreditavam que a “cidade modelo” seria referência de “progresso” depois da desativação da Estrada de Ferro de Bragança, da demolição da Estação de Trem de Castanhal e da reforma, expansão e verticalização do espaço urbano castanhalense.

 

 

O fato ocorreu no dia 29 de março de 1987. Nesse dia três mil pessoas tomaram as principais ruas e avenidas da “cidade modelo”. Formaram uma multidão que destruíram todas as delegacias de polícia, os PM Box, o Fórum, algumas residências de policiais e ainda tentaram invadir o Quinto Batalhão da Polícia Militar. O referido quebra-quebra ficou conhecido como a Revolta do Pincel, porque o menor Carlos Alberto Costa Rodrigues, acusado de ter roubado dois pincéis, foi preso e torturado na Delegacia Central de Castanhal, o que resultou na sua morte. Tal fatalidade mobilizou populares contra a segurança pública estadual.

 

O velório de Carlos Alberto Costa Rodrigues atraiu inúmeros curiosos e pessoas indignadas com a violência policial. Tomaram de conta do caixão e organizaram um protesto pacífico que denunciava a brutalidade institucional que vitimou o menor. Os manifestantes carregaram o caixão e exibiram cartazes com dizeres de ordem. Fecharam a Rodovia Belém-Brasília (BR-316), depois passaram na frente da Delegacia Central de Castanhal e foram para o cemitério São José. Após o enterro se formou grupos de pessoas revoltadas que decidiram “punir” os responsáveis pela tortura do garoto. Assim, quem primeiro sentiu a fúria popular foi uma pessoa conhecida como “Senhor França” que, supostamente, denunciou o menor que tinha furtado de sua casa os dois pincéis. A multidão enfurecida, depredou, saqueou e, em seguida, incendiou a casa do “Senhor França”.  E ainda, nas paredes que restaram da casa, os revoltosos escreveram dizeres como: “vingança e justiça”, “polícia assassina” e “vingança por um pincel”.

 

Outro grupo de amotinado subiu a Rua 28 de Janeiro com a convicção de invadir a Delegacia Central de Castanhal. Esta se localizava entre Senador Lemos e a Rua 1º de Maio. Os policiais civis e militares que estavam no distrito se depararam com a multidão enfurecida e decidiram abandonar o recinto. Antes da fuga, um Sargento da PM libertou todos encarcerados que estavam no interior do prédio. A população revoltada já estava derrubando o muro da delegacia quando o oficial e os prisioneiros abandonaram o local. Os rebelados tomaram a Delegacia Central de Castanhal e passaram destruir a mobília e equipamento de escritório, destelharam, incendiaram e, por último, derrubaram quase todas as paredes do distrito de segurança pública. Um dos amotinados exibia a palmatória que encontrou no interior do recinto. A palmatória correspondia um dos instrumentos de tortura que a polícia castanhalense usava contra os “suspeitos” detidos.

 

A ocupação e destruição da delegacia atraíram mais curiosos e muitos se juntaram à rebelião. Isso motivou os participantes da Revolta do Pincel para que promovessem uma verdadeira marcha que se expandiu para nove bairros. A turba se deslocou através de caminhada, de bicicleta, de motocicleta e até um caminhão basculante auxiliou na locomoção. Dessa forma, os rebelados foram em cada residência dos policiais civis e militares acusados de torturar Carlos Alberto Costa Rodrigues. As casas desses agentes de segurança pública foram destruídas e incendiadas. Os revoltosos não temeram e nem pouparam a casa do comissário de polícia que foi reduzida às cinzas. Depois a multidão partiu para o Quinto Batalhão da Polícia Militar de Castanhal, localizada no centro da cidade; e pretendia também destruí-la. Os policiais militares que se encontravam no local se armaram para evitar a invasão e estavam dispostos a disparar contra a multidão que se aproximava. Mas Monsenhor Manoel Teixeira, vigário da igreja São José, conseguiu impedir um confronto direto entre os manifestantes e a reduzida tropa militar.

 

É importante ressaltar que esse movimento de protesto não extrapolou seus limites, pois não destruiu aquilo que não carregasse a marca da repressão. Ou seja, a população enraivecida não saqueou lojas e nem mercados e não destruiu casas não relacionadas com as autoridades de segurança pública. Quem sofreu com a turba foram àqueles relacionados com o poder policial. Deste modo, as pessoas que participaram diretamente da Revolta do Pincel não realizaram atitudes arbitrárias, cegas e irracionais, pois o deslocamento pela “cidade modelo” visava “punir” os envolvidos com a tortura do menor. No início da noite desse mesmo dia, quando os insurgentes estavam depredando o Fórum, chegou a Tropa de Choque de Belém para reprimir os rebelados e, semelhante ao que fez a multidão insurrecta, deslocou-se por toda a cidade para dissolver os manifestantes. A ação da patrulha militar era mais violenta possível: bastava que um grupo de dez pessoas estivesse reunido em uma esquina para que os soldados atirassem e agredissem. Com isso, dezenas de curiosos foram presos, espancados, transferidos para Belém e liberados no dia seguinte sem dinheiro e abandonados na capital paraense.

 

Em março de 2017 completou trinta anos da Revolta do Pincel. Esse fato abalou homens e mulheres castanhalenses porque perceberam que a história de Castanhal também é tecida pela violência. Esta emerge tanto das instituições políticas quanto das relações sociais constituídas historicamente. Portanto, o “progresso” castanhalense deixou marcas apenas na mente e no coração de pessoas que acreditavam ou acreditam que vivem numa “cidade modelo”.


***


A REVOLTA DO PINCEL OU TUDO COMEÇOU NA RUA DO AQUÁRIO


Na quarta-feira do dia 25 de março de 1987, por volta das19h00min (dezenove horas), Carlos Alberto Costa Rodrigues saiu da sua casa localizada na Rua 28 de Setembro, nº1337, bairro Ajuricaba (atual bairro Nova Olinda), para visitar sua “namorada de nome M.” que morava na Rua do Aquário, no bairro do Milagre. Era costumeira essa visita. Carlos Alberto seguiu subindo a ladeira da Rua 28 de Janeiro que dar acesso para o centro da “cidade modelo” e passa por de trás do templo da Assembleia de Deus. Este templo fica entre Avenida Barão do Rio Branco e Rua 28 de Janeiro. Ambas as vias são atravessadas pela Rua 1º de Maio que possibilita chegar ao Camping Ibirapuera e, no sentido contrário, à rodovia BR-316.

 

Depois de subir a ladeira e passar pela igreja evangélica, Carlos Alberto dobrou para direita da Rua 1º de Maio e seguiu para rodovia federal. Chegando nessa estrada de rodagem dobrou para esquerda e partiu para o bairro do Milagre. Antes de chegar à BR-316, ele passou ao lado da Delegacia Central de Castanhal. Esse distrito policial ficava no seu caminho. Não deixava de vê, sempre que passava perto desse estabelecimento, alguns policiais civis e militares proseando e fumando na frente da delegacia. Outras vezes se deparou com viaturas trazendo suspeitos aos gritos.

 

Carlos Alberto continuava sua caminhada às margens da rodovia federal até chegar ao bairro do Milagre. Quando andava pensava o quanto as ruas de Castanhal eram escuras. Desde a sua casa, passando pela Delegacia Central, vários pontos da BR-316 e até chegar à rua da casa da sua namorada eram vias escuras ou mal iluminadas. Muito cansado, logo ficou aliviado quando pisou no pátio da residência da namorada M. Mas de repente, um homem pardo, desconhecido, “alto, que vestia camisa branca e calçava sandálias havaianas” o agrediu “pelas costas com forte pontapé”. Não deu tempo de Carlos levantar. O homem estranho logo aplicou outro golpe: “gravata”.

 

Os gritos e a resistência de Carlos Alberto foram ouvidos no interior da casa da namorada M. Ela e outros membros da família saíram para vê o que acontecia. M., já no pátio, viu seu namorado sendo arrastado por aquele homem alto que acabou deixando suas sandálias. A vizinhança apareceu na rua por causa do tumulto. Todos presenciaram o homem estranho levando o menor até o PM-box que tinha na Rua do Aquário e o entregou aos policias que estavam no local. Esses agentes algemaram o garoto e o colocaram dentro da Kombi da polícia e partiram para o Rio Apeú...

 

Comentários

  1. Muito forte a descrição....e carregada de emoção

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A Revolta do Pincel corresponde um dos principais conflitos sociais da história de Castanhal.

      Excluir
  2. Castanhal deveria lembrar que também já soube demonstrar indignação mediante arbitrariedades das "autoridades". Texto muito bom, Osi!

    ResponderExcluir
  3. Exatamente! Castanhal possui uma história de lutas sociais.

    ResponderExcluir
  4. Parabéns ozi! Texto retrata muito bem os exageros acontecidos naquela época pelas autoridades!seu trabalho merece um prêmio!! Memória e conscientização!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A GRANDE JANELA ABERTA

O CANTO DO GALO

XEPÃO