REVOLTA - PARTE 1
A REVOLTA DO PINCEL
Quero
“narrar um fato que se deu em Castanhal”. Esse acontecimento abalou uma
população de maioria que descende de imigrantes nordestinos. Homens e mulheres
que acreditavam que a “cidade modelo” seria referência de “progresso” depois da
desativação da Estrada de Ferro de Bragança, da demolição da Estação de Trem de
Castanhal e da reforma, expansão e verticalização do espaço urbano
castanhalense.
O fato
ocorreu no dia 29 de março de 1987. Nesse dia três mil pessoas tomaram as
principais ruas e avenidas da “cidade modelo”. Formaram uma multidão que
destruíram todas as delegacias de polícia, os PM Box, o Fórum, algumas
residências de policiais e ainda tentaram invadir o Quinto Batalhão da Polícia
Militar. O referido quebra-quebra ficou conhecido como a Revolta do Pincel, porque
o menor Carlos Alberto Costa Rodrigues, acusado de ter roubado dois pincéis, foi
preso e torturado na Delegacia Central de Castanhal, o que resultou na sua
morte. Tal fatalidade mobilizou populares contra a segurança pública estadual.
O
velório de Carlos Alberto Costa Rodrigues atraiu inúmeros curiosos e pessoas
indignadas com a violência policial. Tomaram de conta do caixão e organizaram
um protesto pacífico que denunciava a brutalidade institucional que vitimou o
menor. Os manifestantes carregaram o caixão e exibiram cartazes com dizeres de
ordem. Fecharam a Rodovia Belém-Brasília (BR-316), depois passaram na frente da
Delegacia Central de Castanhal e foram para o cemitério São José. Após o
enterro se formou grupos de pessoas revoltadas que decidiram “punir” os
responsáveis pela tortura do garoto. Assim, quem primeiro sentiu a fúria
popular foi uma pessoa conhecida como “Senhor França” que, supostamente,
denunciou o menor que tinha furtado de sua casa os dois pincéis. A multidão
enfurecida, depredou, saqueou e, em seguida, incendiou a casa do “Senhor França”.
E ainda, nas paredes que restaram
da casa, os revoltosos escreveram dizeres como: “vingança e justiça”, “polícia
assassina” e “vingança por um pincel”.
Outro
grupo de amotinado subiu a Rua 28 de Janeiro com a convicção de invadir a
Delegacia Central de Castanhal. Esta se localizava entre Senador Lemos e a Rua
1º de Maio. Os policiais civis e militares que estavam no distrito se depararam
com a multidão enfurecida e decidiram abandonar o recinto. Antes da fuga, um
Sargento da PM libertou todos encarcerados que estavam no interior do prédio. A
população revoltada já estava derrubando o muro da delegacia quando o oficial e
os prisioneiros abandonaram o local. Os rebelados tomaram a Delegacia Central
de Castanhal e passaram destruir a mobília e equipamento de escritório,
destelharam, incendiaram e, por último, derrubaram quase todas as paredes do
distrito de segurança pública. Um dos amotinados exibia a palmatória que
encontrou no interior do recinto. A palmatória correspondia um dos instrumentos
de tortura que a polícia castanhalense usava contra os “suspeitos” detidos.
A
ocupação e destruição da delegacia atraíram mais curiosos e muitos se juntaram
à rebelião. Isso motivou os participantes da Revolta do Pincel para que promovessem uma verdadeira
marcha que se expandiu para nove bairros. A turba se deslocou através de
caminhada, de bicicleta, de motocicleta e até um caminhão basculante auxiliou
na locomoção. Dessa forma, os rebelados foram em cada residência dos policiais
civis e militares acusados de torturar Carlos Alberto Costa Rodrigues. As casas
desses agentes de segurança pública foram destruídas e incendiadas. Os
revoltosos não temeram e nem pouparam a casa do comissário de polícia que foi
reduzida às cinzas. Depois a multidão partiu para o Quinto Batalhão da Polícia
Militar de Castanhal, localizada no centro da cidade; e pretendia também
destruí-la. Os policiais militares que se encontravam no local se armaram para
evitar a invasão e estavam dispostos a disparar contra a multidão que se
aproximava. Mas Monsenhor Manoel Teixeira, vigário da igreja São José,
conseguiu impedir um confronto direto entre os manifestantes e a reduzida tropa
militar.
É
importante ressaltar que esse movimento de protesto não extrapolou seus
limites, pois não destruiu aquilo que não carregasse a marca da repressão. Ou
seja, a população enraivecida não saqueou lojas e nem mercados e não destruiu casas
não relacionadas com as autoridades de segurança pública. Quem sofreu com a
turba foram àqueles relacionados com o poder policial. Deste modo, as pessoas
que participaram diretamente da Revolta do Pincel não realizaram atitudes
arbitrárias, cegas e irracionais, pois o deslocamento pela “cidade modelo” visava
“punir” os envolvidos com a tortura do menor. No início da noite desse mesmo
dia, quando os insurgentes estavam depredando o Fórum, chegou a Tropa de Choque
de Belém para reprimir os rebelados e, semelhante ao que fez a multidão
insurrecta, deslocou-se por toda a cidade para dissolver os manifestantes. A
ação da patrulha militar era mais violenta possível: bastava que um grupo de
dez pessoas estivesse reunido em uma esquina para que os soldados atirassem e
agredissem. Com isso, dezenas de curiosos foram presos, espancados,
transferidos para Belém e liberados no dia seguinte sem dinheiro e abandonados
na capital paraense.
Em março
de 2017 completou trinta anos da Revolta do Pincel. Esse fato abalou homens e mulheres castanhalenses porque
perceberam que a história de Castanhal também é tecida pela violência. Esta
emerge tanto das instituições políticas quanto das relações sociais
constituídas historicamente. Portanto, o “progresso” castanhalense deixou
marcas apenas na mente e no coração de pessoas que acreditavam ou acreditam que
vivem numa “cidade modelo”.
***
A REVOLTA DO PINCEL OU TUDO COMEÇOU NA RUA DO AQUÁRIO
Na
quarta-feira do dia 25 de março de 1987, por volta das19h00min (dezenove
horas), Carlos Alberto Costa Rodrigues saiu da sua casa localizada na Rua 28 de
Setembro, nº1337, bairro Ajuricaba (atual bairro Nova Olinda), para visitar sua
“namorada de nome M.” que morava na Rua do Aquário, no bairro do Milagre. Era
costumeira essa visita. Carlos Alberto seguiu subindo a ladeira da Rua 28 de
Janeiro que dar acesso para o centro da “cidade modelo” e passa por de trás do
templo da Assembleia de Deus. Este templo fica entre Avenida Barão do Rio
Branco e Rua 28 de Janeiro. Ambas as vias são atravessadas pela Rua 1º de Maio
que possibilita chegar ao Camping Ibirapuera e, no sentido contrário, à rodovia
BR-316.
Depois de
subir a ladeira e passar pela igreja evangélica, Carlos Alberto dobrou para direita
da Rua 1º de Maio e seguiu para rodovia federal. Chegando nessa estrada de
rodagem dobrou para esquerda e partiu para o bairro do Milagre. Antes de chegar
à BR-316, ele passou ao lado da Delegacia Central de Castanhal. Esse distrito
policial ficava no seu caminho. Não deixava de vê, sempre que passava perto desse
estabelecimento, alguns policiais civis e militares proseando e fumando na
frente da delegacia. Outras vezes se deparou com viaturas trazendo suspeitos
aos gritos.
Carlos Alberto
continuava sua caminhada às margens da rodovia federal até chegar ao bairro do
Milagre. Quando andava pensava o quanto as ruas de Castanhal eram escuras.
Desde a sua casa, passando pela Delegacia Central, vários pontos da BR-316 e
até chegar à rua da casa da sua namorada eram vias escuras ou mal iluminadas.
Muito cansado, logo ficou aliviado quando pisou no pátio da residência da namorada
M. Mas de repente, um homem pardo, desconhecido, “alto, que vestia camisa
branca e calçava sandálias havaianas” o agrediu “pelas costas com forte
pontapé”. Não deu tempo de Carlos levantar. O homem estranho logo aplicou outro
golpe: “gravata”.
Os gritos e a
resistência de Carlos Alberto foram ouvidos no interior da casa da namorada M.
Ela e outros membros da família saíram para vê o que acontecia. M., já no
pátio, viu seu namorado sendo arrastado por aquele homem alto que acabou
deixando suas sandálias. A vizinhança apareceu na rua por causa do tumulto.
Todos presenciaram o homem estranho levando o menor até o PM-box que tinha na
Rua do Aquário e o entregou aos policias que estavam no local. Esses agentes algemaram
o garoto e o colocaram dentro da Kombi da polícia e partiram para o Rio Apeú...
Muito forte a descrição....e carregada de emoção
ResponderExcluirA Revolta do Pincel corresponde um dos principais conflitos sociais da história de Castanhal.
ExcluirCastanhal deveria lembrar que também já soube demonstrar indignação mediante arbitrariedades das "autoridades". Texto muito bom, Osi!
ResponderExcluirExatamente! Castanhal possui uma história de lutas sociais.
ResponderExcluirParabéns ozi! Texto retrata muito bem os exageros acontecidos naquela época pelas autoridades!seu trabalho merece um prêmio!! Memória e conscientização!!!
ResponderExcluirObrigado.
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