DESTINO

          Belizário olhava para as nuvens que estavam lá longe, além daquele matagal próximo de suas terras. Ele estava sob o sol forte. Mesmo assim olhava serenamente para elas. O neto de Belizário também olhava para as mesmas nuvens. Mas não via nada de interessante. Esse menino talvez tivesse pouco mais de dez anos. O pai do garoto estava junto deles e demonstrava incomodado com aquele sol de duas da tarde. Por isso, não percebia o devaneio do seu sogro. O genro do Belizário aparentava trinta anos. Os três estavam montados nos seus respectivos cavalos e galopavam suavemente para Vila de Castanhal.

A abstração de Belizário foi interrompida com barulho do maquinário do trem. Ele olhou para outro lado do caminho e viu, por trás de outro matagal, a fumaça da locomotiva sendo lançada para o alto e espalhada por aquele vento que corria por ali. O som da máquina movida a vapor foi se distanciando. Quando os três alcançaram o fim da estrada de areia que cruzava o trilho, Maria Fumaça já tinha passado pela entrada da vereda. Os três ainda viram o último vagão entrando na estação de trem lá longe. Belizário disse: “Ô, vocês vão logo pro mercadinho do Seu Vieira. Compra lá que logo precisa. Depois passam lá no Seu Potiguara traz de lá aquelas rapaduras brancas. Ouviram seus pestes!”.

O genro do Belizário estava banhado de suor: “Ô, homem. Senhor quer ir sozinho pra se encontrar com Senhor Cônego? Então, vou te acompanhar até lá na Capela São José Operário”. Belizário respondeu imediatamente: “Ô, cabra! Não precisa não. Eles não vão fazer essa ousadia não. Não aqui na Vila e muito menos perto do Senhor Cônego. Fique tranquilo. Vão logo pro Seu Vieira. Depois passo lá pra falar com ele. A gente não se demora muito aqui não. Não te esqueça de passar lá na repartição do telégrafo da estação. Ontem chegou uma encomenda da capital pra mim”.

Não se demorou muito e eles já passavam ao lado da Estação de Trem de Castanhal. No interior desse prédio, a locomotiva suspirava como estivesse cansada quanto passageiros desembarcavam e outras embarcavam. No meio desse movimento danado e do chiado do trem, crianças descalças e mulheres jovens, adultas e idosas se aproximavam junto às janelas dos vagões de passageiros para vender seus bolos de milho, de mandioca, tapioca, rapadura aos viajantes que não desembarcaram.

Belizário se separou dos seus parentes. Logo foi para capela. Ele se deparou com a construção da igreja que estava em sendo erguida ali próxima da estação. Ele passou por entre juntados de pedras e areias para obra, madeira de diversas espécies e telhas de barros vindas da capital. Já eram quase três da tarde. Mesmo sendo castigado pelo calor do sol, passava uma leve ventania que fazia subir poeira por aquela área em obras. Belizário foi obrigado inclinar um pouco sua cabeça para que o seu chapéu protegesse seus olhos da poeira. Mesmo com seus olhos abaixados, ainda enxergou algumas tendas de madeira e de lonas em torno dos materiais de construção. Nelas se encontravam homens jovens e alguns com idade avançada. Todos muito sujos. Eles eram os trabalhadores que edificavam a igreja. Belizário sabia que algumas daquelas pessoas andavam desocupadas, bêbadas e metidas em confusão pela Vila de Castanhal. Senhor Cônego não deixou de notar esses vadios e percebeu necessidade de acabar com aqueles vícios para facilitar a entrada da civilização, o progresso e consolidasse o ensinamento da santa igreja católica naquela comunidade que se formou à margem da estrada de ferro. O clérigo conversou com intendente da vila e enviou uma carta ao governado exigindo que obrigassem aqueles pecadores ao trabalho, ou melhor, fossem direcionados para construção da igreja.

Cônego aproveitou a ocasião para reunir alguns homens religiosos de Castanhal e conseguiram forçar a remoção de uma feira onde era local de bebedeira de aguardente e de jogos. Com apoio do poder público estadual, a feira foi suprimida e o terreno entregue para a administração do Cônego. Este disse que agora aquele local serviria para erguer a Igreja de São José Operário.

Belizário percebeu que aqueles trabalhadores maltrapilhos preparavam sua própria alimentação. Ele enxergou fogão à lenha improvisado em torno das tendas onde se encontravam alguns operários sentados no chão comendo farinha de mandioca com carne seca, quanto algumas crianças quase nuas e descalças que perambulavam por ali olhavam de forma fixa o movimento das mandíbulas daquelas forças de trabalho. Talvez todos aqueles homens pardos, pretos, brancos estivessem exaustos. Eles não se importaram com a passagem daquele homem de pele avermelhada que usava terno de brim e chapéu, bota de couro que passava ali montado no seu cavalo branco.

Belizário passava indiferente no meio daquela gente até chegar à pequena capela erguida de forma improvisada próxima do enorme esqueleto de madeira que esboçava a tão sonhada igreja. Era nessa capela onde ocorriam missas e novenas da Vila de Castanhal.  Desceu do cavalo e o amarrou sob a sombra de jambeiro que ficava ao lado da ermida. Belizário disse baixinho ao seu cavalo: “Ô, Destino. Fique aqui um pouco que já volto”. Senhor Cônego já aguardava o coronel embaixo dessa mesma árvore. Esse clérigo tinha sacrificado seu sono daquela tarde quente para receber Belizário. Não perdeu tempo e solicitou ao fazendeiro que se sentasse ao banco junto da mesa que o religioso havia improvisado para aquela visita.

O grande proprietário de terra tirou seu chapéu e se sentou a mesa. “A benção, Senhor Cônego”. O eclesiástico deu um leve sorriso: “Deus te abençoe meu filho, São José Operário te Abençoe”. Homem corpulento, alto, branco e com olhos verdes: assim era Senhor Cônego. Combinado com sua batina preta, a sensação de imponência ficava mais evidente. Depois da benção, Belizário disse: “Antes mais nada, quero me confessar”. O clérigo sempre sorridente respondeu: “Fique a vontade meu filho. Estamos seguros aqui embaixo desse jambeiro. Pode fazer sua confissão”.

 

***

O silêncio tomou conta entre os dois homens depois da confissão. Algumas risadas vinham das tendas dos operários. Mas mesmo assim não quebrava aquele momento que se ouvia o som do vento que passava por ali. CHOOOOOOOOOOOO!!! A locomotiva anunciava lá da estação que estava descansada e anunciava sua partida para capital. Os dois homens embaixo do jambeiro acompanhavam com seus olhos o movimento do trem que deixava a Vila de Castanhal. Quando o som da Maria Fumaça cessou, Senhor Cônego falou: “Meu filho, você veio sozinho de suas terras para cá?! Não é perigoso? Eu soube que ele te ameaçou de morte. Mas quando ele veio aqui, negou essa ameaça. Mas sabemos o que ele é capaz”. Belizário olhava a fumaça do trem que se dispersava sobre os telhados do comércio da vila. “Ô, Senhor Cônego. Não fique preocupado não. Ele não é ousado para querer me matar na frente de todos, daqui da vila. Nem me matar a luz do dia por aí. Ele não quer ter problemas com o governador. Ele precisa de uns favores aí para pagar sua dívida com imposto”. O clero emendou: “Ô, meu filho. Tenha cuidado. Já tivemos muito sangue alguns anos atrás. A vila não precisa de outro tiroteio pela estrada de ferro, vielas e nas frentes dos estabelecimentos comerciais. Você já enviou alguma carta para o governador, mandou algum recado para ele? Essas coisas precisam ser resolvidas na conversa e não nas armas”.

Belizário não demonstrava emoção. Ele estava com aparência serena. “Ô, Cônego. Não vou incomodar o homem não. Ele vive naquelas salas bonitas em reunião. Quanto isso, o outro não vai querer me matar assim não. Ele não tem coragem de enfrentar os homens do governo. Eu tô com governo. O outro tá com quem? O sangue passado aconteceu porque ninguém tava com governo, era disputa de terra mesmo, cada um queria mais que outro. Por isso que deu tudo aquilo. Tiro, correria, cavalo desembestado, gritaria, sangue, morte. Essa ameaça não vai provocar isso não”. Cônego suspirou fundo: “Ô, meu filho. Espero que você esteja certo. Aamanhã ele vem aqui novamente. Quer segredar algumas coisas. Vou falar para ele esquecer tudo isso”. Belizário não falou mais nada. Levantou da cadeira e colocou o chapéu na cabeça. “A benção Cônego!”. “Deus te abençoe, São José Operário te abençoe”, falou o clérigo com os seus olhos fechados.

Belizário montou no seu Destino saiu divagar pelo mesma passagem que veio, entre as tendas dos trabalhadores. Quando chegou à margem da estrada de ferro, viu seu genro e neto próximos de uma das colunas da estação de trem. Novamente juntos, o fazendeiro perguntou ao genro: “Ô, homem. Comprovou que tinha que comprar?!”. “Sim senhor coronel! Tá tudo aí no cavalo do menino”. O neto mastigava um pedaço de pão quanto via meninos e meninas maltrapilhas que brincavam com cães magrelos em torno da estação. “Então vamos logo! Já estar passando das cinco da tarde”.

Os três galoparam para a estrada que dava acesso às terras do Belizário. A estação de trem já sumia de vista. O genro parou repentinamente. “Ô, Satanás!!! Satanás do cão!!!”. Belizário se virou rapidamente com seu cavalo e sacou sua arma. “Ô, homem!! O que foi!? Você me assustou. Pensava que era aquele peste tava te atacando”. O genro balançava negativamente sua cabeça: “Eu esqueci de pegar sua encomenda lá na repartição do telégrafo”. “Ô, diacho, 600 diabos!!!”, resmungou Belizário. “Deixe, homem”, continuou o coronel, “Outro dia a gente volta aqui”. O genro não se conformou. “Ô, Coronel. Eu vou voltar lá e pegar essa encomenda. Não vou me demorar não. Vai ser rápido”. O genro disparou com seu cavalo para estação de trem. O neto de Belizário seguiu seu pai também. Belizário suspirou e gritou: “Não se demorem não seus demônios!!”. 

Belizário novamente desceu do seu cavalo. Ficou na entrada da vereda que levava até às suas terras. Ele olhou para o céu. Sabia que já se aproximava das seis da tarde. Amarrou Destino no galho de uma árvore que tinha ali na beira da estrada. Andou para lá e para cá. Olhava para direção da estrada de ferro que seguia até estação. Não via nem o genro e nem o neto. Nada deles. Agora olhava para direção da estrada de ferro que levava para outras cidades como São Francisco, Igarapé Açu, Livramento até a costa norte do atlântico que fica ali, na cidade Caeteuara. Não via uma viva alma. Sentou - se no trilho e ficava olhando para seu cavalo amarrado na entrada da vereda. Não ficou muito tempo sentado. O trilho estava muito quente. Falou sozinho: “Arre diacho!!! Mas essas pestes tão se demorando muito”. Caminhou até seu cavalo: “Aos Diabos!! Vamos embora Destino! Não espero mais ninguém aqui não!!”.

Belizário montou sobre Destino. Mas o cavalo se agitou. “Arre, Destino! O que foi?!”. Nesse momento, o coronel viu um vulto do seu lado esquerdo e logo sacou sua arma de seis tiros e apontou para o lado suspeito. Destino se aquietou e Belizário ficou firme segurando sua pistola e apontando para direção de um arbusto. “Vamos, Satanás. Apareça. Apareça que te acerto!”, disse coronel com a voz baixa. De trás do arbusto saiu um pequeno tamanduá. “Arre!! Bicho dos 600!! Vai assustar os demônios dos infernos!! Bicho do cão!!!”. Belizário sorriu daquele susto. Mas novamente Destino voltou a se agitar. Belizário passou olhar para aos lados com mais calma quanto o seu cavalo estava inquieto. Então, ele ouviu que por de trás dele alguém engatilhou uma arma. Virou-se rapidamente para ver quem era. Não deu tempo. O estranho deu-lhe um tiro certeiro.

 

***

Depois da passagem do último trem a comunidade caia na tranquilidade. A estação de trem ficava quase totalmente vazia, alguns estabelecimentos fechavam suas portas e outras ficavam com alguns grupos reunidos na frente para prosear coisas da política e da lavoura de mandioca. Os operários que tralhavam na construção da igreja recolhiam os instrumentos de trabalho sob a vista do Senhor Cônego. O que parecia mais um dia finalizado, veio o susto. O som do tiro ecoou por toda vila. Esse disparo paralisou rotina daquele fim do dia da comunidade.

O genro e neto de Belizário estavam recolhendo a encomenda lá na repartição do telégrafo da estação do trem. Eles se olharam. Não disseram nada um para o outro. Eles caminharam até a última coluna dos fundos da estação, direção que vai para vereda das terras do Belizário e da cidade Caeteuara. Não se enxergava muito lá no horizonte. A noite estava caindo. Mas eles ouviram um galopar de um cavalo que vinha ao encontro deles. Perceberam que vinha rápido. À medida que se aproximava da estação o cavalo ia ficando mais nítido e ia diminuindo seu galope. Nesse momento, inúmeros curiosos da vila foram até onde se encontravam os parentes do Belizário. Queriam saber se aquele cavalo que se aproximava era o Destino. O genro e neto ficaram desnorteados. Tinha acontecido o que eles temiam. Destino trazia o corpo baleado e ensanguentado do Belizário.

Destino parou e olhou para o genro e neto. O quadrúpede estava com aparência entristecida. Em seguida, o cavalo baixou sua cabeça e continuou andando até chegar à frente do terreno onde estavam construindo a igreja. Senhor Cônego se aproximou da estrada de ferro e pediu passagem para os curiosos que cercavam o cavalo. Cônego reconheceu o Destino que sustentava corpo daquele coronel que mais cedo tinha se confessado...

 

 

 

 

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A GRANDE JANELA ABERTA

O CANTO DO GALO

XEPÃO