XÍCARAS
Mamãe Branca caminhava com muita pressa sob o sol de uma da tarde. Ela andava ali, na Avenida Altamira e queria chegar o quanto antes numa casa que ficava próxima da encruzilhada da Avenida Altamira com a Rua Coronel Leal. Essa casa ficava quase de frente do Bar Holiúde. Mamãe Branca tinha pressa porque não queria que ninguém a visse entrando lá. Nessa morada residia uma mulher jovem que fazia simpatias e interpretava sonhos. Ela morava sozinha e talvez tivesse no máximo trinta anos. Uma das vizinhas dessa moradora, conhecida como Dona Fefínia, contava por aí muita coisa a respeito dessa mulher solitária. Esta se transformava, contava Dona Fefínia por todo bairro Nova Olinda, em cavalo nas noites de lua cheia, virava coruja e até alimentava a Cobra Gigante que Tinha Chifre e Cabelos que habitava lá nos fundos do açúde do Camping Ibirapuera. Fefínia andou falando ainda que certa vez, numa madrugada, viu a moradora misteriosa entrando na Bola de Fogo ou Chupa Chupa para voar por aí para sugar o sangue das pessoas da cidade de Castanhal e dos bichos que habitavam os matos lá das bandas do Rio Janjão, São Raimundo, Cabeceira do Apeú, Iracema, Santa Terezinha, Terra Alta,Vila do 21 e Vila da Calúcia.
Outros vizinhos e moradores do bairro nunca viram nada de estranho nessa vizinha discreta e que sempre se mostrou educada e acolhedora com as pessoas que a procuravam para ensiná-las algum tipo de chá. Mas todos ali tinham certeza sobre uma coisa dessa mulher que chegou em Castanhal há três anos: ela adorava tomar cerveja e dançar sozinha quando tinha música ao vivo no Bar Holiúde. Aos finais de semana vendia tapioca com café na frente de sua casa. Às vezes, aos finais da tarde, ficava sentada na frente de sua residência fumando cachimbo. Todos os dias ela recebia visitas de pessoas desconhecidas, de pessoas que não eram do bairro. Mas naquele início de tarde de novembro de 1990, a mulher jovem recebeu a visita de Mamãe Branca. Como vocês sabem, eu morava ali perto mesmo e minha mãe ainda mora por lá e é bastante conhecida até hoje no Nova Olinda.
Mamãe Branca chegou nervosa na frente da casa da mulher misteriosa e logo bateu palmas. Em seguida, ouviu-se uma voz que ecoou pela encruzilhada: “Cuidado aí, Dona Branca. Não deixa ela te transformar em sapo ou te jogar na boca da Cobra Grande lá do açúde do Ibirapuera”. Mamãe Branca olhou para trás e se deparou com Dona Fefínia que estava junto da sua janela da sua casa. Ela não possuía nenhuma intimidade ou qualquer relação com essa vizinha fofoqueira. Por isso, mamãe virou o rosto e fingiu que não a ouviu. Nesse momento, a mulher jovem apareceu na porta da sua sala de visitas: “Oi, boa tarde. Quer entrar e falar comigo?”. Ela perguntou isso porque sabia que Mamãe Branca queria seus serviços, pois era comum receber visitas em horários inusitados. “Boa tarde. Posso entrar logo?”, perguntou Mamãe Branca. “Pode sim. Entra aí. É só empurrar o portão. Depois dá volta na casa e espera lá na porta da cozinha”.
A casa dessa mulher era modesta e tinha estilo arquitetônico Raio Que o Parta. A pintura da residência era verde escuro, telhado de barro e existiam plantas de várias espécies na frente e no quintal. Uma cerca de estaca protegia a propriedade e a privacidade da moradora. Esta fechou a janela e se dirigiu para cozinha. Mamãe Branca se deparou com cão magro nos fundos da casa. “Não tenha medo. Ele não morde. Ele se chama Magrelo”. Mamãe sorriu e disse: “Eu gosto de cachorro também. Lá em casa eu tenho três cachorros danados”. Magrelo balançou seu rabinho, entrou na cozinha e se sentou perto da mesa. A mulher puxou uma cadeira. “Sente-se aqui, quanto preparo um café pra nós”.
Mamãe entrou na cozinha e se sentou. Passou a observar aquela mulher jovem e bonita. A minha mãe percebeu que tinha a mesma altura dela. Nem muita alta, nem muita baixa. A moradora usava um vestido estampado simples que se destacavam duas cores: o branco e o azul. A estampa era de estrelas. Tinha a pele parda. Tinha cabelos encaracolados e avermelhados. Lábios grossos e olhos castanhos claros. Usava óculos que combinava com os formatos dos olhos e do rosto. Carregava uma expressão tranquila. Mamãe Branca viu um gato vindo da sala da casa. Era um gato estranho. Tinha os pelos verdes e olhos bem azuis. “Ulha, que gato engraçado”. A mulher jovem coava o café quando respondeu: “Ela fêmea. Ela se chama Diamantina Verde hahahahah”. Diamantina Verde se juntou ao Magrelo e ficaram ali, observando a visitante.
As duas mulheres tomaram café preto e pouco amargo. A anfitriã se apresentou. Ela se chamava Jasmim. “Pode me chamar de Dona Branca”, disse mamãe. Elas conversaram mais um pouco. Alguns minutos depois, Mamãe Branca explicou o motivo daquela visita: “Eu gosto de jogar no Jogo do Bicho. Mas já faz uns dois ou três meses que não acerto nenhum bicho, nenhum jogo. To errando demais nas minhas intuições”. Jasmim pouso sua xícara na mesa e respondeu: “Entendo...mas você está dormindo bem?”. “Não, não to dormindo bem não”. “Por que não está dormindo por esses meses?”, questionou a mulher. “É por causa do Satanás do meu companheiro. Ele andou fazendo muita raiva demais pra mim...”. “Sei...talvez seja esse excesso de raiva que está atrapalhando sua intuição. Mas hoje eu vou te ajudar acertar no Jogo do Bicho”. Mamãe ficou contente.
Elas ajeitaram suas posturas nas cadeiras da mesa da cozinha. “Diga-me, Dona Branca, o que senhora sonhou nessa noite”. Mamãe Branca tentou se lembrar do sonho: “Sonhei com meu avô, ele se chamava Chico Bezerra. Ele era coronel, ali na colônia da Cabeceira do Apéu. Mas não ficou nada dele não. Hoje a família do meu avô ficou muito pobre, principalmente eu. Sonhei que meu avô tava montado no seu cavalo branco e cercado por vários homens que também tavam montados em cavalos. Eles gritavam. Eles galopavam voando, dando tiro pra cima”. A jovem mulher ficou pensativa. Tirou um pequeno livro de capa azul escuro do seu vestido. Abriu o livrinho. Depois de consultá-lo, balançou sua cabeça afirmativamente.
Ela se levantou, pegou outra xícara, trouxe para mesa e colocou café. Colocou essa xícara que tinha café no meio da mesa. Pegou uma caixa de palitos de fósforo. Tirou um palito da caixa e o riscou. Quando a chamas instantaneamente passava a consumir a cabeça de fósforo, ela jogou o palito aceso dentro da xicara com café e logo abafou com as mãos a boca dessa xícara. Quando retirou as mãos, uma densa fumaça saiu de dentro do recipiente. Essa fumaça subiu e se espalhou pelo forro da cozinha. Essa mesma fumaça ganhou forma de um animal. “Está vendo?”, apontou Jasmim para fumaça que subiu: “Está formando um animal de quatro patas”. Mamãe Branca ficou impressionada com que via. Realmente a fumaça formava um animal quadrúpede. “Agora vamos para última etapa”, falou Jasmim.
Jasmim pegou uma espécie de vasilhame de cima
do armário da dispensa. Dentro desse objeto tinha vários pequenos papeis
dobrados. “Aqui dentro, tem esses papeis. Cada papel está escrito um tipo de
animal. Tem vários animais escritos nesses papeis dobrados. Coloque a mão no
recipiente e retire apenas um papel”. Mamãe Branca fez o que ela pediu. Tirou
do papel e deu para Jasmim. Esta leu o que estava escrito: Cavalo. “Então, Dona
Branca. Vai dar cavalo. Pode ir sossegada que hoje pela tarde você acertará no
Jogo do Bicho”. Mamãe Branca agradeceu e
perguntou quanto custava àquela consulta. “Traga-me do mercadinho do Seu Cebola
200 gramas de café. Isso já paga”. Mamãe se levantou da cadeira e respondeu:
“Tá bom. Antes das seis da tarde venho aqui te trazer o café. Tchau! Boa tarde”.
Jasmim acompanhou Mamãe Branca até o portão: “Boa tarde, Dona Branca. Até mais
tarde”.
***
Jasmim cuidava de suas plantas no quintal quando ouviu bater de palmas que veio lá da frente da casa dela. “Opa, meu café chegou. Acho que são seis da tarde”. Ela foi até ao portão da casa e viu Mamãe Branca de costas para cerca. “Oi, Dona Bra...”. Mamãe Branca se virou apressadamente e jogou um pacote de 200 gramas de café no rosto da mulher. “Tu é uma mentirosa sem vergonha. Não aceitei porra nenhuma. Deu Touro no Jogo do Bicho e não Cavalo como tu afirmou!!!”. Mamãe Branca deus as costas e se retirou rapidamente quanto resmungava para si mesma.
Jasmim nem pegou na embalagem de café que estava no chão. Entrou na casa triste e passou a quebrou todas as suas xícaras. “Desisto! Desisto! Cansei-me de tudo isso! Não sirvo para esse tipo de trabalho! Cansei-me! Eu não acerto nada! Nem consigo acertar nem o bicho que vai dar no Jogo do Bicho!!!”. Sentou-se junto da sua mesa na cozinha e começou a chorar. “Jasmim tenha calma. Não se desespere não”, disse o cão Magrelo “Você só tem seis meses que começou praticar simpatias e interpretar sonhos. Mais cedo ou mais tarde você acertará”. Ela olhou para seu cachorro e falou: “Magrelo, tu não entende. Só quero fazer coisas simples. Ajudar no dia a dia dessas pessoas que me procuram. Mas para essas coisas simples não consigo fazer nada. Nem cartomante consigo ser”. “Ô, Jasmim! Você quebrou todas as xícaras. Que desperdício...”, reclamou Diamantina Verde quanto juntava os cacos das xícaras que estavam espalhados por toda parte da cozinha.
Jasmim se levantou da cadeira e falou com firmeza: “Sabe de uma coisa: eu vou retornar para minha cidade. Vou retornar para meu antigo emprego. Esses trabalhos que estou fazendo aqui não estão dando certo”. Ela enfiou uma das mãos no pequeno bolso do seu vestido de estampa e retirou uma ficha de telefone. “Magrelo, pega essa ficha e vai ligar para Mamãe Sonífera. Diz para ela que eu vou embora hoje mesmo. Diz para ela voltar, o quanto antes, para cuida desta casa. A casa é dela e ela deve cuidá-la. E outra coisa, Magrelo: não deixa ninguém te ver falando no telefone público. Nem vai ficar falando por aí a toa”. Magrelo pegou a ficha, pulou a janela, pulou a cerca e saiu com toda velocidade pela Avenida Altamira. Diamantina Verde voltou a reclamar: “Ai meu Deus. Lá vai a gente arrumar as nossas coisas novamente. Mais uma mudança. Aff! Vai para Caeteuara, Cidade do Calcário, Cidade do Sal, Cidade do Peixe Gordo, Cidade Que Virou Timboteua, Santa Irene, Cidade dos Contrários, Cidade Modelo hahahaha...modelo...só se for nos sonhos! Vai para nordeste, centro-oeste, leste...ô, patroa, cansei disso”.
Não demorou muito e Magrelo já estava de volta. “Pronto, Patroa. Amanhã pela manha Mamãe Sonífera já estará aqui”. Jasmim falou impacientemente: “Égua, Magrelo. Você ainda demorou”. Magrelo coçou a cabeça e ia responder. Mas Diamantina Verde pediu para ele não responder: “Ei, Magrelo. Fica na tua. Ela está com a peste!”. Jasmim requentou o resto do café que estava no bule e colocou esse restante dentro da última xícara da casa. Em seguida, deu um gole no café, arremessou a xícara na parede e saiu da casa e foi para rua. Jasmim parou no meio da Avenida Altamira. Nesse momento havia intenso fluxo de pessoas e toda a vizinhança estava na frente das suas casas conversando. Todos viram aquela mulher parando no meio da avenida: não só a vizinhança, mas também todas as pessoas que passavam por ali naquele momento: operários da Fábrica de Alimentos e da Fábrica de Carroceria, as beatas que iam para Igreja Perpetua, os estudantes que retornavam das escolas Severino, Virgulina e Senhora Pereira e até os rapazes da Turma da Anarquia. Todos pararam entorno de Jasmim. Todos queriam ver o que ela iria aprontar.
Jasmim passou a girar no meio da avenida. Girou, girou, girou e produziu uma grande ventania que assustou todos os curiosos. Muita gente correu para se esconder nas suas casas e outros correram para casa dos seus conhecidos que moravam por li. De repente houve uma grande explosão de luz. Quando a luz se apagou, todos se depararam com uma mulher bem arrumada: Jasmim estava agora com um longo vestido escarlate com mangas cumpridas até aos pulsos e com detalhes pretos. O vestido estava entrelaçado com um cinturão preto de fivela prateado. Seus lábios e cabelos ficaram vermelhos reluzentes. Ela estava bem maquiada. A armação do seu óculos ficou prateado cintilante. Usava par de botas pretas. Segurava um chapéu preto em forma de cone. Ninguém acreditava no que estava vendo. Como assim? Como ela conseguiu trocar de roupas no meio da rua? De onde ela arranjou aquela roupa esplêndida? O que realmente ela é? Foi algumas das perguntas das pessoas que viram aquele fato inusitado lá no bairro Nova Olinda.
Jasmim colocou o
chapéu na sua cabeça, olhou para o céu e lançou um forte assubiu agudo:
“FÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍUUUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ!!!!!”. Todos os vizinhos e curiosos tiveram que
tampar seus ouvidos porque temiam de ficarem surdos. Os jovens da Turma da
Anarquia se esconderam nos quintais da vizinhança de tanto medo que sentiram.
Outra ventania se formou. Lá em cima, lá do céu, veio um pássaro gigante
chamado Pássaro do Céu. O enorme animal pousou ali, no meio da encruzilhada da
Rua Coronel Leal com Avenida Altamira. Ela saltou sobre o pássaro e gritou para
direção da casa que morava: “Vamos! Não demorem!! Caso contrário, vocês não
conseguirão me acompanhar”. Logo, ela deu uma ordem ao Pássaro do Céu: “Pode lançar
voo!!! Vamos! Antes que anoiteça”. O pássaro se lançou num grande voo e
rapidamente alcançou as nuvens. Lá da janela da casa onde Jasmim morava, saíram
voando Magrelo e Diamantina Verde que estavam sentados numa vassoura voadora. “Patroa!!!
Espere por nós!!!!!”. Dona Fefínia, viu
tudo aquilo da janela da sua casa e disse para todo mundo que estava na rua: “Tão
vendo?! Eu sempre dizia pra vocês que essa mulher era estranha demais!”.
amei, o senhor é muito talentoso!!!
ResponderExcluirEmily Giovanna, muito obrigado.
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