VÍRUS

 

ATO I

                                                                        TRANSEUNTES

A jovem Maria estava angustiada no interior do trem urbano. Ela não dormiu bem a noite toda. Essa insônia foi provocada por causa da piora do estado de saúde de sua mãe. Esta se encontrava internada na Unidade de Extrema Observação do Hospital de Tratamento Especial Público (HTEP). Maria soube que o exame realizado a partir da amostra da saliva coletada de sua mãe deu positivo para o Vírus 19. Este vírus atacava todo sistema respiratório do ser humano. A contaminação desse vírus se tornou uma pandemia. As principais nações tomaram medidas extremas para evitar a disseminação da doença. Como não existia qualquer vacina ou tratamento para combater o avanço do vírus, os Chefes de Estados e de Governos, através dos apoios dos legislativos e dos judiciários, baixaram leis que restringiam circulação de cidadãos, espetáculos públicos e de funcionamento de inúmeras fábricas pelo mundo. Depois de 60 dias de distanciamento e isolamento de pessoas, todos os países passaram por convulsões sociais nas ruas das principais cidades do mundo. Esses protestos reagiram contra as leis imediatas que foram impostas pelas nações. Centenas de manifestações de rua se espalharam por vários continentes. Algumas mobilizações sociais foram financiadas por grandes corporações financeiras que não desejavam paralisar ou reduzir a produção e reprodução do capital.

A ansiedade de Maria aumentou no interior do trem urbano. Várias vias que esse meio de transporte passava estavam interruptas por causas dos protestos que já duravam vários dias na cidade. Ela desejava chegar o quanto antes ao HTEP. Não poderia perder tempo. Desceu do trem e seguiu andando. Ela caminhava apressadamente na calçada de uma das principais vias. Maria logo percebeu que aquela manhã estava mais intensa que os outros dias. Além das manifestações e do caos no trânsito, tinha muita pessoas andando apressadamente nas ruas, nas avenidas, pegando táxi e outros meios de transportes. Todos esses transeuntes estavam falando através dos seus aparelhos comunicadores. Ela notava que era como toda aquela gente estivesse em busca de informações ao mesmo tempo. Ninguém se olhava nas ruas e praças públicas. Todos andavam apressadamente.  

Maria pegou seu aparelho comunicador e clicou nas notícias do dia. Todos os noticiários informavam sobre um acidente aéreo que aconteceu na sua cidade. Um avião de passageiros caiu distante do aeroporto depois de alguns minutos da decolagem. Então, era isso. É por isso que todas as pessoas andavam preocupadas nas ruas. Estavam em busca de informações de parentes que embarcaram no avião. Maria soube através das redes de notícias que o avião caiu no meio de um bairro populoso. Aquilo mexeu ainda mais com suas emoções. Ela parou um pouco e se lembrou de amigos que moravam nesse bairro atingindo pelo acidente aéreo. Mas ela precisava chegar o quanto antes no hospital. Que angústia, que caos, que sentimento desesperador. Ela alcançou a orla da cidade. Nesse momento se deparou com pessoas apontando para o céu. Ela olhou também. O quê eles viram? Viram dois aviões de passageiros perdendo controle e caindo além das serras que cercavam a cidade. Minha nossa, outra tragédia. Pensaram todos. Pessoas choravam, gritavam de desesperos nas ruas e até se ajoelhavam para rezar, ali mesmo, na rua, na orla, nas calçadas.

Helicópteros de resgates, veículos dos bombeiros e até as forças armadas se deslocavam para os locais onde caíram as aeronaves. Os protestos que aconteciam nas ruas foram reprimidos com ação da polícia e da parte das forças armadas. De repente o som de estralo de ferros e de outros metais até culminar num som de desabamento acompanhado de gritos, de desespero e de angústia que tomaram conta dos transeuntes. O que tinha acontecido? Um prédio de 50 andares em construção desabou ali perto do quarteirão onde estava Maria. Ela ficou mais confusa. Começou a chorar. Mas se manteve firme. Seguiu para o hospital. Não demorou muito para chegar ao centro de tratamento. Ela entrou no grande prédio e foi recebida por um enfermeiro que a esperava. Ele a levou para uma sala onde se encontrava o médico que cuidava da mãe de Maria. Ele pediu para Maria se sentar. Ela não se sentou. Pediu para o especialista ir direto ao assunto. O médico disse que sua mãe tinha acabado de falecer. Não resistiu os danos causados pela infecção gerada pelo Vírus 19.

Maria sofreu um grande choque com a notícia da morte da sua mãe. Agora tudo se tornou estranho para ela. As paredes da sala onde ela estava começou a se desmanchar, o médico se evaporou instantaneamente, tudo começou ficar distorcido. Ela ouviu vozes distantes. Abriu bem os olhos e tentou abrir a boca e gritar. Mas não conseguia. Ela tentou falar, também não conseguia. Começou a se sacudir na cama e pensou retirar todos aqueles aparelhos inseridos na sua boca e nas suas narinas. Mas estava com as mãos imobilizadas. Nesse momento, os enfermeiros se aproximaram apressadamente junto dela. “Ela saiu do estado de coma!! Ela deve está tendo um ataque provocado pela infecção do Vírus 19!!”. Outra equipe de profissionais da saúde entrou no quarto onde estava internada Maria há mais de um mês. “Desde cedo que o corpo da paciente se tremia e suas pálpebras se mexiam constantemente. De repente ela se despertou e passou a se sacudir!!”. Maria arregalava mais ainda os seus olhos como quisesses falar. Ela sentia fortes dores no peito, a dificuldade respirar só piorou e passou a perder os sentidos. Não enxergava mais os enfermeiros, só uma imagem indescritível da realidade externa. Ela percebeu que a dor começou a diminuir, sentiu um profundo cansaço e silêncio total, não sentia mais o corpo. Ela faleceu...

ATO II

ALÔ

Mamãe Branca cuidava do meu jardim. Arrancava matos que cresciam ao arredor das papoulas de flores brancas, amarelas e rosas. Depois ela as regou. Ficou olhando por algum um tempo o jardim. Percebi que ela andava triste. “O quê foi mamãe? Está com olhar perdido e triste”. Ela se aproximou de mim: “Ô, meu filho, eu tô pensando nos meus bichos. Eles ficaram todos lá em casa. Eu tô com saudades deles. Também tô com saudades das minhas plantas. Achava que eu não ia sentir faltar deles. Mas tô sentido falta sim. Já tô aqui na cidade Caeteuara já seis meses...”. Não deixei Mamãe Branca terminar de falar: “Mas mamãe...já te expliquei. Eu trouxe a senhora pra cá para se proteger dessa pandemia do Vírus 19. Essa pandemia está matando muita gente pelo mundo e tem milhares de pessoas infectadas. Lá na nossa cidade se tornou foco dessa doença. Neste país, grande parte preferiu aceitar a desinformação propagada pelo governo central e ainda reforçou a negação da mortalidade provocada pelo Vírus 19. Por isso que eu trouxe a senhora para cá. Aqui estamos mais seguros”.

Mamãe lavou as mãos na torneira próxima do jardim. Dirigiu-se para uma área que fica nos fundos de casa. Sentou-se numa cadeira que tinha lá. Ficou um em silêncio. O celular da Mamãe Branca tocou. Ela atendeu: “Alô! Quem fala?”. Outra voz respondeu: “Oi, Mamãe Branca. Sou eu, a gatinha preta Safira. Tô te ligando pra dizer que tamos com saudades de você Mamãe Branca. A senhora volta quando pra cá, pra cuidar de nós?”. Mamãe ficou mais inquieta: “Bando de bichos danados!! Vocês acordaram quando? Eu dei o Beijo do Longo Sono em vocês pra vocês ficar quietinhos aí. Agora fizeram o favor de acordar”. Safira riu: “Ô, Mamãe Branca. Aqui todo mundo sonhou e a gente se encontrou no sonho. Como nosso sonho demorou muito, então a gente passou sentir falta de você Mamãe Branca. Aí, no sonho, todo mundo se combinou pra acordar pra te abraçar. Mas a gente acordou e não te viu em casa. Depois Quati do Mato veio nos visitar e disse pra gente que a senhora foi pra Caeteuara pra se proteger do vírus. Mas volta Mamãe Branca, volta pra cá. A gente vai cuidar da senhora. Bebel quer falar com a senhora. Toma Bebel, Fala aqui”. A cadela Bebel pegou o celular: “Oi, mamãe. Volta logo pra cá, a gente te ama, a gente vai cuidar da senhora. Mamãe, aquela dor de dente tá voltando de novo. Vem logo, tá?!”. Safira falou novamente: “Mamãe Branca, vou desligar, volta logo, tá bom? Tchau mamãe!!”.

Mamãe Branca ficou mais preocupada. Ela deu o Beijo do Longo Sono nos seus bichos. Esse beijo tem o poder de adormecer os animais até o retorno dos seus donos.  Mas lá na casa da mamãe, a saudades dos gatinhos e dos cães foram tão forte que eles acordaram. “E agora?”. Ficou pensando Mamãe Branca. “Como vou convencer meu filho me deixar voltar pra casa? Ele não vai me deixar ir, tenho certeza disso”. Mamãe Branca continuou em silêncio e mais triste ficou. Sabia que não voltaria tão cedo para sua casa e cuidar dos seus bichos. “Esse vírus mexeu com todo mundo. Mas que droga!! Esse distanciamento social tá me cansando. Pobre dos meus bichinhos...”.

No dia seguinte, bem cedo, Mamãe Branca bebia seu café bem quente. Seu filho ainda estava dormindo. Ela não dormiu bem. Acordou várias vezes na madrugada e ficou pensando nas gatinhas e nos gatinhos Safira, Florzinha, Murilo, Luna, Lua, Mel, Malu, Dakota. Pensou nas cadelas Bebel, Milu e Dudu. Quanto ela tomava seu café, ficou perdida nos seus pensamentos. Ela voltou a si quando ouviu alguém batendo na porta da sala de recepção. “Quem será que veio cedo da manhã pra cá?”. Ela se levantou da cadeira, foi até a porta e abriu. Mamãe Branca levou um susto: “Safira!!! Como tu veio pra cá, pra Caeteuara?”. A gatinha Safira abriu um sorriso, apontou com uma das suas patinhas dianteira para o meio da rua e disse: “Todo mundo lá de casa veio buscar a senhora, Mamãe Branca. Olha aí na rua.” Mamãe saiu da sala e foi até na frente de minha casa e viu várias Nuvens Viajantes. Cada nuvem trazia um gatinho e uma gatinha e as cadelas lá da casa da mamãe. Safira falou: “Olha ali, Mamãe Branca. É Alessandra, sua neta. Ela veio também. Ela trouxe uma Nuvem Viajante pra senhora. Mamãe, vem com a gente”.

Mamãe Branca não pensou duas vezes: “Tá bom. Vou voltar com vocês”. Toda bicharada soltou gritos de alegria. Lá do meu quarto ouviu esse barulho danado. Levantei-me e fui ver o que estava acontecendo. Vi a porta da sala aberta. A mesa de jantar tinha xícara com pouco de café ainda quente. Eu saí e vi Mamãe Branca subindo numa nuvem. “Mamãe!! Pra onde senhora vai com esses bichos???”. Mamãe Branca estava muito contente e respondeu sorrindo: “Vou voltar com eles pra casa. Tu não vai entender, meu filho. Eu  amo esses meus bichinhos!!”. Todos estavam sentados nas suas nuvens que logo levantaram voos e voaram lá pras bandas onde o sol se põe.

ATO III

PLUTÃO

Eu tive muita sorte. Todo sistema de refrigeração, aquecimento, produção de água e oxigênio estava funcionando. O painel de geração de energia do meu Módulo de Exploração Especial (MEE) não foi danificado. Nossa!! Como estou aliviado. Mas por outro lado fiquei sem qualquer comunicação. Ainda não consegui me comunicar com meus amigos que estão orbitando Plutão na Grande Nave Exploradora. Eles estavam me procurando. Sei disso porque o sistema de rastreamento acionou automaticamente logo após o impacto. Eu fiquei aproximadamente um mês na superfície de Plutão.

Aconteceu tudo muito rápido. Meu MEE estava se preparando para aterrissar em uma das crateras de Plutão. Eu estava pousando nessas imensas fendas que ficam próximas de uma grande bacia de gelo e nitrogênio congeldo. Mas a região que circundava a cratera escolhida para o pouso, foi atingida por pequeno asteroide que teve forçar o suficiente para causar um grande impacto. Fragmentos de rochas e de gelo atingiram diretamente MEE. Isso prejudicou o sistema de controle. MEE fez aterrissagem forçada que danificou os sistemas de decolagem e de comunicação. O módulo caiu em uma das margens da cratera e cercado de rochas e gelo. Lá fora, tudo muito escuro e frio. A temperatura de Plutão fica abaixo de duzentos graus Celsius negativos. Impossível do ser humano caminhar sobre a superfície do planeta anão se os trajes não possuírem equipamentos e sistema aquecimento adequados. Repito: eu tive muita sorte. O sistema de aquecimento MEE não se danificou. Caso contrário, morreria congelado. Devo relatar que céu de Plutão é surpreendente, mágico, magnífico. Conseguia ver nitidamente o centro da Via Láctea, o forte brilho do Coração da Constelação de Escorpião e através de um sistema de observação, enxergava com facilidade o Aglomerado Globular localizado um pouco abaixo da Constelação de Escorpião. Sem contar com vários mundos congelados desconhecidos que fazem parte do Cinturão de Kuiper.

Plutão fica próximo da fronteira do sistema solar. A nossa Estrela está ali, ainda bem brilhante. Mas sua iluminação não tem tanta claridade neste planeta distante. O tempo terrestre que fiquei no planeta anão me levou a repensar sobre essa minha carreira de Astronauta Coletor. Nós realizávamos inúmeras missões de reconhecimento e de coleta de planetas, de luas e de outros astros que nos levava a passar vários meses e até anos nesse espaço, nesse vácuo, nesse extremo silêncio infinito e absurdamente distante da Terra. Cheguei ao momento que necessitava ficar mais presente no nosso planeta, no meu país e com minha família. Sinto falta de apreciar o azul do céu, o verde das matas, o vento que passa suavemente no rosto, as pessoas falando, o encontro com amigos e as boêmias. Queria ficar próximo dos meus, dos meus parentes e da minha pequena biblioteca. Precisava viver. Eu era apaixonado por viagens espaciais. Aprendi muito quando percebi que somos apenas poeira especial nesse oceano infinito de estrelas, de constelações, nebulosas, supernova, de asteroides, de buracos negros e de Galáxias. Não deixarei de fazer viagens nas minhas luas preferidas e até mesmo prestar alguns serviços para alguma empresa espacial. Desde que eu fiquei menos que o tempo mínimo de um Astronauta Operário. Quero voltar para Terra e viver. Estava com um mês que não tinha informação da Terra, dos familiares e dos amigos. Eu estava com saudades de todos.

O aparelho comunicador do meu MEE deu sinal de funcionamento. “Oi, Quem a fala é a Tenente Ana Hidaka. Alguém aí? Você está bem?”. Que alegria de ouvir uma voz. Mesmo que tenho som eletrônico e com ruídos de interferências. Era o Módulo de Resgate. Sim, sim. Era a equipe de resgate. Vieram me resgatar.  

***

Enfim, resgatado. Depois de passar por uma série de exames médicos, fomos para a plataforma da Grande Nave Exploradora. Era momento que teríamos notícias da Terra. Quando nós estávamos se aproximando da plataforma, veio à nossa direção apressadamente a comandante da espaçonave. A Comandante Alik estava com expressão de extrema preocupação. “Engenheiros e Engenheiras Espaciais! Durante o resgate, o nosso sistema de comunicação normalizou. Agora mesmo chegaram notícias da Terra”. Ela voltou-se para mim e disse: “Você ficou sem comunicação não por causa dos danos provocados pelo asteroide. Esta grande nave também ficou sem comunicação com a Terra e com outros MEE que exploravam mundos congelados do Cinturão de Kuiper por um mês. Estávamos preocupados de não conseguir resgatá-los à tempo. Mas por outro lado, temos notícias nada agradáveis do nosso planeta. Vocês precisam ouvir o quanto antes”. Nós ficamos tensos e fomos até a plataforma onde tinha grande tela de transmissão que servia para realizar assembleia e comunicação coletiva com a Terra. Nessa tela apareceu a diretora da Agência Pública Espacial do Sul, acompanhado com representante das nações. Disseram: “Caros engenheiros e engenheiras espaciais e demais membros da Grande Nave Exploradora. Um vírus, conhecido como Vírus 19, espalhou por todo globo terrestre. Isto é, estamos enfrentando uma pandemia. O Vírus 19 provocou a morte de milhões de pessoas por vários países. E o vírus continua matando. Vocês não podem retornar agora para Terra...”.

                                                                                                                 FIM

O Blog Correio do Osi entra em recesso. Estarei de volta  no dia 20 de janeiro de 2021.

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