LOVE

Jabutina e Jabutino passavam o dia todo fazendo amor lá no jardim da Mamãe Branca. “Ô, Touro. Esses jabutis passam o dia fazendo essa pouca sem-vergonhice”. Papai Touro comia pão com farinha na merenda da tarde. “Ô, mulher. Deixa os bichos aí sossegados. Não tão fazendo mal pra ninguém HAHAHAHA”. Quando Mamãe Branca estava colocando carvão no ferro de passar roupa, o nosso cão Lobinho entrou na cozinha gritando: “Mamãe!! Papai!! Tem filhotes de jabutis no jardim e no quintal de casa!”. Papai se levantou do banco lá da cozinha e foi ao jardim que ficava lá na frente de casa: “Vixi!! Tem uns dez jabutizinhos por aqui!!”. Lá da cozinha mamãe gritou: “Ô, Touro. Tira esses bichos daí!!! Eles vão comer minhas plantas!!”. Papai Touro agarrou os dez filhotes de jabutis e os levou para o fundo do quintal onde encontrou mais seis jabutizinhos. “Tomá-la ti!! Dezesseis danados!!”. Manel Preto passou junto da cerca e viu Touro segurando os filhotes. “Eita Touro!! Me arranja uns seis desses jabutis. Quero fazer um caldo gostosos deles!! Hahahaha”. Touro colocou os jabutis no chão. “Tu tá doidé!! A mulher me mata”.

Jabutina e Jabutino não paravam de fazer amor aos beijos. Mamãe Branca ligou o rádio e sintonizou na Rauland Am para achar aquela programação que tocava sempre naquela hora, às três da tarde, as músicas do Ted Max. Depois colocou água para ferver para preparar o café. Quando abriu o armário para pegar a vasilha que continha o pó de café, caíram dessa guarda despensa dezenas de filhotes de jabutis que se espalharam por toda cozinha. “Chega Touro!!! Vem logo aqui. A cozinha tá cheio de bichos!!!”. Touro retornou apressadamente para cozinha. Manel Preto pulou sobre a cerca para o lado de dentro do quintal e também se dirigiu para lá. “Que diabéisso!!! Donde apareceu essa arrumação de filhotes de jabutis??!!”. “Ô, Touro! De dentro do armário!! E também o casal de jabutis não param um pouco, só vivem se agarrando”.

Manel Preto estava encostado na janela da cozinha vendo os jabutizinhos se espalhando pela casa: “Vixi Maria!! Parece que tá aparecendo mais. Olhe ali, de baixo do guarda louça, tá saindo mais filhotes de lá”. Os cães Lobinho, Ceci e Duque entraram pela sala de casa: “O quintal tá cheio de jabuti!!! Eles tão mordendo nossas patas e os nossos rabinhos!!”, falou Ceci. Lobinho pulou no colo de Touro: “Papai Touro!! Tem um monte de jabutizinhos brotando lá do chão do quintal”. Duque teve que pular na mesa para não ser mordido pelos jabutis que estavam espalhados pelo chão da cozinha. Duque disse: “Ceci, vamos subir na jaqueira. É única forma de não sermos devorados”. Ceci saiu de casa com toda velocidade e pulou nos galhos da jaqueira e subiu e subiu e ficou bem lá em cima. Duque fez o mesmo. Papai Touro levou Lobinho até a jaqueira e o colocou em um dos galhos de fácil alcance.  

A nossa casa e todo quintal foram tomados por filhotes de jabutis. Mamãe Branca ficou desesperada. “Ô, Touro. Eles vão acabar com tudo, com as minhas plantas e com a casa toda. E agora?”. Manel Preto falou: “É porque Jabutina e Jabutino não param de se amassar. Quanto mais amor, mais filhotes”. Papai Touro começou a procurar o casal de jabutis: “Cadê essas pestes!! Não tô achando. Eles não tão mais aqui no jardim. Eles se esconderam para continuar fazendo amor. Bando de bichos do Cão!!”. Os filhotes de jabutis não cessavam de aparecer no quintal e no interior de casa. Eram tanto filhotes de jabutis que passaram a subir nas árvores. Os cães que estavam lá em cima, no olhinho da jaqueira gritaram: “Mamãe Branca!! Eles tão subindo!! A gente tá lascado”. Mamãe Branca vendo toda aquela situação se dirigiu para seu companheiro: “Ô, Touro, homem de Deus!!! Vai chamar aquela bruxa...”, papai não deixou mamãe terminar a frase: “Que bruxa?!! Tu não lembra que tu jogou 200 gramas café na cara dela...?”, agora mamãe interrompeu papai: “Não é Jasmim não. É mãe dela: Mamãe Sonífera!! Ela tá lá na casa dela, ali na encruzilhada da Altamira com Coronel Leal. Vai lá chamar ela, pra ver se dar um jeito com essa bicharada do Satanás!!”.  

***

      Era já quase cinco da tarde. Papai Touro se aproximava da casa da bruxa quando ouviu uma voz: “Ô, Touro. Tu quer falar com Mamãe Sonífera? Ela tá ali, ó, no Bar Holiúdy bebendo umas...”. Quem tinha falado era Dona Fefínia. Como Mamãe Branca, ele não tinha intimidade com aquela vizinha fofoqueira que morava ali, próximo da encruzilhada. Ele não disse obrigado. Simplesmente foi até ao Bar Holiúdy. Sonífera estava de costas para rua, junto do balcão tomando uma caneca de cerveja e ao lado da caneca estava seu chapéu de bruxa em forma de cone. Touro estava entrando no bar e logo a chamou: “Mamãe Sonífera!”. Ela se virou. Mamãe Sonífera era uma mulher de meia idade, parda e com longos cabelos louros e encaracolados, olhos castanhoverdes, usava um longo vestido azul escuro com detalhes brancos. O cinturão era preto com fivela prateado. Os lábios carnudos pintados de chocolate com leite. Ela se virou e logo reconheceu que aquele homem é o companheiro de Mamãe Branca. “Ô, Touro. Pra você eu sou Bruxa Sonífera. Mamãe Sonífera é para os meus clientes. Mas diga. O que posso fazer por você?”. 

Sonífera era uma pessoa prestativa. Apesar do mal olhado dos vizinhos, ela sempre os tratou bem. Ela sabia que Mamãe Branca jogou 200 gramas de café no rosto da sua filha, a Bruxa Jasmim. Mas sabia que esse insulto não foi por causa da Jasmim ser bruxa. Foi por causa da Jasmim não ter feito um bom trabalho de magia. Quando soube que Mamãe Sonífera estava na cidade, Mamãe Branca a procurou para pedir desculpas e explicou à razão da irritação que teve contra Jasmim. As duas mulheres da mesma idade se deram bem. Até tomaram café juntos. Mamãe soube através de Sonífera que o cão Magrelo e gatinha Diamantina Verde sabiam falar. Mamãe Branca disse também que seus cães falavam. Isso fez se aproximar ainda mais essas duas mulheres. 

Papai Touro explicou tudo para bruxa sobre o excesso de amor entre Jabutina e Jabutino e os nascimentos descontrolados de filhotes de jabutis. Ela deu último gole na caneca que tinha cerveja e colocou chapéu de bruxa na sua cabeça: “Sr. Holiúdy, depois retorno aqui. Vou ali ajudar uma amiga”, virou-se para Touro, “Vamos!!”. Ainda dentro do bar, ela lançou de suas mãos uma magia luminosa que provocou um grande barulho como se fossem ondas de praia se quebrando nos recifes. Toda vizinhança correu para frentes de suas casas, da rua e para o meio da encruzilha. Todos curiosos viram aquelas ondas de fogo azul que se formaram ali pras bandas da rodovia federal e vinham tomando toda Avenida Altamira. Esse fenômeno mágico não causava destruição e nem vítimas. Simplesmente a onda passava sobre todas as coisas sem provocar danos. Todos os moradores daquela parte do bairro Nova Olinda se impressionaram com a gigantesca onda de fogo azul.                       

Quando essa maré de fogo azul cortou a Avenida Barão do Rio Branco, uma das vias da cidade de Castanhal que corta Avenida Altamira; Sonífera fez aparecer duas pranchas de surf num passe de mágica. “Touro! Nós vamos surfando até o quintal da sua casa”. Touro e Bruxa Sonífera saltaram da frente do bar Holiúdy com as suas pranchas sobre as ondas de fogo azul que passavam e saíram surfando até chegarem à encruzilhada Avenida Altamira e com a Rua Presidente Kennedy, onde fica a nossa casa. Dona Fefínia que estava na porta da sua janela e olhava tudo aquilo passivamente. Falou calmamente para si mesma: “Eita diacho!!! Até Touro e Dona Branca tão metidos com esse negócio de bruxaria. É por isso que esse mundo vai se acabar”.

***

 

Toda vizinhança da rua de casa, os operários da Fábrica de Alimentos e da Fábrica de Carroceria, os estudantes das escolas públicas Seu Severino, Dona Virgulina e Senhora Pereira estavam juntos da nossa cerca de estaca vendo Mamãe Branca e Manel Preto tentando impedir que os filhotes de jabutis passassem para outros quintais das casas dos vizinhos. Era um desespero só. Ninguém tinha coragem de entrar no quintal. Todos os curiosos temiam de serem devorados por aqueles milhares de jabutizinhos. A Turma da Anarquia se aproximava do nosso quintal quando viu bem ali na encruzilhada Avenida Altamira com a Rua Comandante Assis, vindo enorme onda de fogo azul trazendo a Bruxa Sonífera e Papai Touro. Tinha uma coisa que fazia a Turma da Anarquia sentir medo: Bruxa Sonífera. Existia um boato pela cidade que essa gangue de jovens temia o Dragão da Turma do Dragão. Não é verdade não. A grande prova disso que até o Dragão veio voando lá do bairro Ianetama, da Rua da Piscina, pra ver a danação de jabutis. Mas esse gigante animal, quando soube que Bruxa Sonífera estava chegando, se escondeu junto com a Turma da Anarquia lá no matagal próximo do Camping Ibirapuera. Nesse momento, esses rivais que disputavam as ruas da cidade de Castanhal estavam unidos para verem o que a bruxa faria com aqueles pequenos animais.

Sonífera e Touro vinham surfando tão rápido e tão alto que os dois fizeram uma manobra radical do surf chamado aéreo. Ao final da manobra os dois perderam o equilíbrio das pranchas levando a feiticeira cair lá nos fundo do quintal, bem no meio dos jabutizinhos. Papai Touro caiu sobre os galhos da jaqueira. Os cães Lobinho, Ceci e Duque ficaram felizes com retorno do papai: “Papai Touro!!! Que bom que não demorou muito pra voltar. A gente tá com medo dos jabutizinhos nos comer!!”.  Sonífera se levantou aos gritos: “Meus Deus!! Essas pestes estão estragando meu belo vestido!!”. Mamãe Branca estava retirando os jabutizinhos de dentro do nosso pote de água quando viu a bruxa no quintal. “Ô, Sonífera. Esses danados tão acabando com tudo. Mas não quero fazer maldade com eles não. Eu gosto deles. Só que tão destruindo as minhas plantas e já tão comendo a nossa casa”. Os cães que estavam no alto da jaqueira chamaram mamãe: “Mamãe Branca! Mamãe Branca! Os bichinhos ainda continuam subindo nas árvores. A gente tá com medo. Eles podem comer a gente!!”. Manel Preto tentava retirar os filhotes de jabutis do tronco da jaqueira. Mas era impossível. Eram tantos, eram centenas de milhares. Não dava nem para ver o chão. Sonífera se aproximou da Mamãe Branca e disse: “Cadê Jabutina e Jabutino?”. Mamãe respondeu: “Eu sei lá!! Esses imorais sumiram!! Tão fazendo amor descontroladamente escondidos por aí, pelo quintal”.

Sonífera andou com dificuldade no meio dos jabutizinhos até chegar ao meio do quintal. Ela levantou o braço esquerdo para o céu e invocou um raio que veio de uma nuvem que estava bem alta. Ela fez uma pequena bola desse raio e soprou sobre essa esfera reluzente e ainda disse: “Traga-me Jabutina e Jabutino”. Em questão de segundos, a bola de raios se deslocou por várias partes do quintal e da nossa casa até achar o casal de jabutis. Eles estavam escondidos e se beijando em baixo da cama dos meus pais. A esfera reluzente ganhou forma de uma pequena cama de luz e trouxe flutuando Jabutina e Jabutino. “Por Deuses do Norte!! Esses bichos não param de fazer amor. Ainda tem fôlego para se beijarem!!”.  Mamãe Branca falou lá da cozinha de casa quanto jogava uma bacia de jabutis da janela: “Rápido, Sonífera!! Eles tão no alto das árvores e os cachorros tão desesperados”. Lobinho, lá do alto da jaqueira, gritou: “Mamãe Branca! Mamãe Sonífera! Agora os jabutizinhos tão se aproximando de nós!! Sejam rápidas!!”.

Sonífera já sabia o que fazer: “Dona Branca. Esse casal de jabutis é encantado. Vou mandá-los para Terra dos Confortos das Nuvens. Lá, farão amor infinitamente”. Os olhos da bruxa emitiram um forte brilho que logo fez pousar uma nuvem de algodão. Ela colocou Jabutina e Jabutino sobre nuvem e imediatamente deu uma ordem: “Nuvem Viajante, leve-os para Terra dos Confortos das Nuvens!!”. A nuvem subiu voando e levando o casal de jabutis. “Quanto a vocês, suas pestinhas!!! Vou mandá-los para Ilha da Evolução que fica no Oceano Pacífico, lá na costa do Equador”. Bruxa Sonífera desenhou um circulo no ar que ganhou forma de um portal que tinham as bordas de fogo vermelho. Fez outros gestos com as mãos e criou um pequeno furacão que se formou lá no matagal próximo do Camping Ibirapuera. Os rapazes da Turma da Anarquia correram do matagal desesperados e o Dragão da Turma do Dragão fugiu voando e se tremendo de medo. Ele voltou para Rua da Piscina. O furacão não era tão grande. Mas produzia uma ventania que assustou todos os curiosos que estavam juntos da cerca de casa. Todos fugiram temendo o furacão que se aproximava. Papai Touro, Lobinho, Ceci e Duque tiveram que se segurar bem firme nos galhos da jaqueira. “Se segura aí seus bandos de cachorros do cão!!!”, gritou papai quando a jaqueira balançava com a ventania.  O pequeno ciclone entrou no nosso quintal e passou a sugar todos os jabutizinhos que foram lançados para portal que os levava para Ilha da Evolução. Aí, eles puderam viver tranquilamente junto com as outras espécies de animais.

***

 

No dia seguinte, o quintal lá de casa estava sossegado e Mamãe Branca começou cuidar das plantas que foram quase totalmente devoradas pelos filhotes de jabutis. Bruxa Sonífera tomava café amargo de baixo da nossa jaqueira e estava acompanhada do Papai Touro, Manel Preto e dos nossos cães Lobinho, Ceci e Duque. Ela explicava para eles sobre a dura vida das bruxas nas Terras dos Papagaios. “Meus queridos, conversa está boa. Mas preciso ir para casa. Em outra oportunidade contarei sobre as bruxas que passaram a viver nos trópicos úmidos”. Ela se levantou do tamborete e soltou um forte assobio agudo: “FÍÍÍÍÍUUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ!!!!!”. A vassoura voadora veio voando até chegar às mãos de Sonífera. “Ô, Dona Branca. Eu já estou indo para minha casa. Passarei por aqui antes de eu retornar para minha terra. Tchau seus marmanjos! Tchau Lobinho, Ceci e Duque!”. Ela se sentou na vassoura e saiu voando do quintal de casa.

 

***

Papai Touro estava deitado na rede no seu quarto. Já era pouco mais de meio dia e meia. Lá fora estava um céu azulado e o sol tinindo. Repentinamente começou uma forte ventania. Após esse vendaval, Papai Touro percebeu ruídos e estalos sobre o telhado do quarto. Era como estivesse chovendo pedras. Mas lá fora, no céu, não tinha nuvens de chuva. O telhado passou a arriar lentamente para dentro da casa. “Que diabéisso!!? Será o Satanás Chegando?!!!”. Então, o telhado continuou arriar, arriar até que desabou sobre a rede onde estava deitado Papai Touro. Ele viu que o que fez desabar o telhado foi uma chuva de filhotes de jabutis. Centenas de milhares de jabutis caiam do céu sem parar sobre o quintal e a nossa casa. Papai se levantou no meio daqueles pequenos animais. Ele olhou para cima e viu a Nuvem Viajante à deriva que estavam Jabutina e Jabutino fazendo amor e produzindo mais filhotes que caiam dessa nuvem sem parar.

Bruxa Sonífera estava pegando na caneca cheia de cerveja bem gelada, lá no Bar Holiúdy, quando ouviu um grito que veio lá das bandas da esquina da Kennedy com Avenida Altamira: “SOOOONÍÍÍÍÍÍÍÍÍFERAAAAAAA!!!!!!! TÁ CHOVENDO FILHOTES DE JABUTIIIIIS!!!!”. Sonífera bebeu toda cerveja da caneca de uma vez só e colocou seu chapéu na sua cabeça: “Aí, meus Deuses do Norte!! Universo não está sendo bom comigo! FÍÍÍÍUUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ”. A vassoura voadora voo até o Bar Holiúdy e, em seguida, a bruxa se sentou nela e saiu voando novamente para direção do nosso quintal. Ela estava lá cima voando quando ouviu o grito do Manel Preto que veio lá do quintal da casa dele e foi ouvindo por todos da cidade de Castanhal: “É MUITO I LOVE YOUUUUU!!! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!”.

 

 

 


Comentários

  1. Professor suas histórias são muito boasss ❤️❤️

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  2. Já estou ansiosa pela próxima postagem, são maravilhosas, parabéns!!!♥️

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  3. Olá, Bruna!! Obrigado elos elogios. Minha intenção é postar dois contos por mês. Continuei acompanhando blog Correio do Osi.

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