ABRAÇO
O Abraço da Noite era uma assombração. “Ô, Compadre Touro. O diácho do vulto arranjou de aparecer de novo. Ver se pode?!!”. O Abraço da Noite, vez e outra, atormentava a comunidade do Janjão. “O quê?!! Não diz isso!! Sério?! Quando apareceu de novo?”. Essa assombração ou vulto aparecia nas noites sem lua. “Ô, Touro. Foi ontem mesmo, quase de madrugada”. Quem passava por ali, nos anos de 1980, próximo do Rio Janjão altas horas da noite, corria o risco de ser abraçado por essa visagem. “Que diabo! Quem assombração abraçou agora?”. Quem fosse abraçado pelo vulto ficava todo dolorido, com a vestimenta rasgada e com hematomas pelo corpo. “Ô, Touro. Foi Sabá Leiteiro que foi abraçado. Ele tá lá, todo dolorido e assustado, lá na casa dele”.
A comunidade do Janjão se localizava no interior da cidade Castanhal e próximo das margens do Rio Janjão. A estrada Transcastanhal levava até a comunidade. Essa via, nas décadas de 1970, 1980 e até a maior parte dos anos de 1990; era de piçarra e existiam fazendas e terrenos baldios nos dois lados da estrada. A região cortada pela Transcastanhal, quando caia a noite, ficava tomada pela escuridão. “Ô, Compadre Touro. Deixa eu volta pra casa. A mulher tá esperando a mistura do almoço. Quando for me visitar, não inventa de ir de noite não, viu?. A assombração voltou aparecer”. Os moradores do Janjão e de outras comunidades próximas tinham o costume de irem andando ou de bicicleta para o centro comercial de Castanhal. Alguns trabalhavam na Feira da Ceasa, outros faziam compras de mantimentos para abastecerem suas tabernas que tinham na vila Janjão. Tinham aqueles que iam em busca de trabalho temporário na cidade. Muitos desses moradores retornavam para comunidade já com a noite caída e alguns tinham a infelicidade de serem abraçados pelo Abraço da Noite.
O vizinho Manel Preto estava junto do seu portão de ripas. “O que foi, já? Aconteceu alguma coisa lá no Janjão?”, ele perguntou ao Papai Touro. “Compadre Assis disse que o Abraço da Noite apareceu de novo e já até abraçou Sabá Leiteiro ontem a noite”. Manel Preto estremeceu: “Tá doidé!! De novo!!”. O protestante Seu Raimundo e o Peixeiro Tóbias se aproximaram: “O quê vocês já tão falando, agora cedo da manhã?”, perguntaram os dois vizinhos ao mesmo tempo. “Abraço da Noite apareceu de novo lá no Janjão. Tem uma coisa, quando aparece assim, fica dias aparecendo e abraçando quem passa de noite pelo rio ou por ali por perto”. Seu Raimundo reagiu imediatamente: “Pessoal, isso não é assombração não. Isso é gente, é gente tarada que gosta de agarrar pessoas, pra fazer imoralidade. Depois somem, dá um tempo e aí aparece de novo pra agarrar o pessoal besta que fica andado de noite por ali. Isso é gente e Amém!!!”. Tóbias se benzeu: “Ixi, Raimundu. Tu é crente, tu sabe que tem espiritu por aí, assombração do Cão. Eu mesmo já vi Mãe D’Água ali no Igarapé Castanhal”.
Seu Raimundo riu: “Que nada, Homem de Deus!! E Coitada da Mãe D’Água caso esteja vivendo naquela sujeira do Igarapé Castanhal. Todo esgoto da cidade é despejado ali. Ô, Tobias, tenha glória de Deus!! Assombração não existe”. Manel Preto emendou logo: “Não tenho medo de ladrão não. Gosto de correr atrás de ladrão. Mas de visagem...eu não quero saber não. Cruz credo. Espírito que anda por aí, existe sim”. Todos esses homens que conversavam, ouviram uma voz que veio lá da esquina Rua Kennedy com a Travessa Pio XII: “Arre égua, que o fuxico corre solto feito Bode que Chispas Faíscas das patas!”, gritou o carroceiro Seu Ceará depois de te cuspido uma porção de tabaco que trazia na boca. “Diz aí, bando de cabra ruim, quais as novas?”. Touro explicou tudo para o vizinho carroceiro sobre o reaparecimento do Abraço da Noite. Seu Ceará era um homem branco de rosto avermelhado, com seus 50 anos. Sempre andava de calça cumprida de jeans surrado, chapéu de palha, camisa de botão, bota de couro e sempre acompanhado de facão. Ganhava a vida fretando sua carroça lá na Feira da Ceasa. Não era brigão, mas sempre estava disposto a enfrentar algum perigo.
Houve momento de silêncio entre esses
homens. Seu Ceará, que continuava mascando seu tabaco, quebrou esse devaneio.
“Cabras! Isso é gente! Não é visagem não! É alguém que ataca pessoal por lá,
pra quelas bandas. Visagem não arranha não, não deixa marca não. O Bode que
Chispas Fogo das Patas não é visagem. É um bode possuído. E eu vou provar pra
vocês que é gente que não tem o que fazer ou é gente possuído. Já faz tempo que
queria saber mais sobre isso. Ô, Touro. Quando essa visagem aparece, fica aparecendo muitas vezes por alguns dias, né?”. Touro coçou a cabeça, “É
sim...mas homem, fica quieto. Não te mete com coisa de assombração...”. Seu Ceará
interrompeu logo: “E o teu compadre me deixa dormir na casa dele lá no Janjão?
Se ele deixar, eu vou tentar me encontrar com Abraço da Noite”. Todos se
olharam com a decisão do carroceiro. Seu Raimundo logo disse: “Com Glória de
Deus, Ceará vai provar que é gente tarada”. Seu Ceará cuspiu seu tabaco: “Que
Glória de Deus nada, é na Glória do Facão”.
***
Dois dias depois, Velho Ceará estava hospedado na casa do Compadre Assis na comunidade do Janjão. “Ô, homem de Deus! Tu tá certo disso? Ô, Seu Ceará. Arma a rede aí na sala e vai dormir. Já são 10 da noite. Deixa essa coisa pra lá”. Ceará tomava café com rapadura, “Isso é gente, não é assombração. Me veja mais café. Esse café tá danado de bom. Sabe, Seu Assis, a gente que veio do Baturité, a gente gosta disso, de ver as coisas de perto, sem medo. Tu deveria saber disso, tu num veio do sertão pernambucano? Tu ainda não viu o bode quando morava por la?”. Compadre Assis se benzeu: “O que é isso cabra? Cruz credo. Nunca vi esse bode do Satanás! Meu tio Zeca pegou cabeçada desse bode e até hoje anda doido da cabeça. Agora eu já vi a Bola de Fogo voando por ali, agora esse fogo voador chupa até cavalo. Deus me livre de eu enfrentar essas coisas que vem do inferno”. O carroceiro riu e se levantou do banco. “Café tá danado de bom. Mas já vou descer lá pro rumo do Rio Janjão, pra ver se logo me encontro com Abraço da Noite. Sabe, Assis, chamei Touro pra me acompanhar. Mas se tremeu todo dizendo que não vinha hahahahahaha”, Ceará ria alto, “Sabe, homem”, continuou o carroceiro, “Touro veio do Baturité também. Mas desconfio que ele é frouxo”, riu novamente. “Toma Ceará, leva duas lamparinas”. “Ô, Compadre Assis, não precisa não. Eu vou conseguir andar nesse escuro. Já sou acostumando andar no breu”, falou Seu Ceará.
Seu Ceará deixou a casa do Compadre Assis e seguiu caminho que levava até a ponte que ficava sobre Rio Janjão. Essa ponte permitia a continuidade da estrada Transcastanhal que seguia para outras comunidades como São Raimundo, Cabeceira do Apeú, Iracema e Santa Terezinha. Quem vinha do centro urbano de Castanhal, a comunidade Janjão ficava à esquerda logo após a ponte.
Era uma noite sem luar, mas o céu estava tomado de estrelas. Seu Ceará caminhava no escuro assobiando. Além do seu próprio assubiu, ele ouvia cantos de algumas corujas e cantos de grilos. Quando chegou a Transcastanhal, mesmo naquela escuridão, logo avistou os esboços da ponte. Mas primeiro desceu a ribanceira que levava à umas das margens do Rio Janjão. Ficou ali ouvindo o correr do rio. Uma vez e outra, os morcegos sobrevoavam e se desviavam da cabeça do Seu Ceará. Os morcegos ainda faziam voos rasantes sobre ás aguas do rio. Era mês de setembro, a estiagem estava castigando aquela região. Por isso que o rio corria calmo, pois estava com volume de água reduzida. Naquela noite, apesar do verão, ventava um pouco. O carroceiro subiu a ribanceira e foi até a ponte.
Olhou a escuridão ao redor, só percebia o movimento dos galhos e folhas do matagal dos terrenos baldios em torno do rio. Atravessou toda a ponte, caminhando no sentido para quem vai para o centro de Castanhal. Ceará ficou pensando se já era meia noite. De repente, teve a ideia de andar na beira da estrada, quase junto do matagal. Mas não percebeu nada de diferente. Retornou para ponte e foi para o outro lado, na direção para quem vai para o caminho da comunidade do Janjão. Agora andou bastante. Ele estava mais de um quilômetro da ponte. Até parecia que ia para São Raimundo. Parou e olhou novamente em torno. Mas nada. Foi para beira da estrada e acabou topando numa enorme pedra. Resolveu se sentar sobre ela. Ficou ali sentado, mas não via uma viva alma, nem veiculo passava, nem gente, nada. Olhou para o céu estrelado. Lá longe, lá no firmamento do breu, ele via algumas estrelas se movendo. “Que diácho é isso?”, pensou consigo mesmo quando observava o movimento dessas estrelas. Lá longe, lá do centro de Castanhal, veio um grande som: CHOOO CHOOOOOOOOOOOOOooooooo... Era um antigo apito do trem que estava instalado lá na Fábrica Têxtil, no bairro Ianetama; era troca de turno dos operários. “Então, já é meia noite!”, falou baixinho. Esse apito do trem se fazia ouvir por toda cidade de Castanhal, inclusive algumas zonas rurais também se ouvia esse grito de memória que passou algum tempo alimentando a saudade de muita gente.
Seu Ceará se levantou da pedra e retornou para o caminho que levava até a comunidade do Janjão. Quanto caminhava, retirou seu tabaco da bolsa da calça cumprida. Preparou o cigarro, pegou a caixa de palitos de fósforos e acendeu seu fumo. Ele já entrava no caminho da vila quando a chama da cabeça do palito de fósforo entrou em combustão. Nesse exato momento ele se deparou com enorme vulto querendo abraça-lo. Cuspiu o cigarro fora e fez o movimento para pegar seu facão. Mas o vulto foi mais rápido. O Abraço da Noite abraçou com muita força Seu Ceará. Este não conseguiu desembainhar sua faca. O Abraço da Noite o abraçou, o abraçou com mais e mais força. Ceará começou ter dificuldade de respirar. No desespero, Seu Ceará se jogou para trás. Foi uma confusão só. Tanto o vulto quanto o carroceiro rolaram pela ribanceira até chegar à beira do Rio Janjão. Seu Ceará se levantou rapidamente e desembainhou o facão. Mas não via mais o movimento do vulto. O carroceiro ficou olhando para todos os lados. Ele estava na beira do rio. Olhava e olhava. Nada. Será que Abraço da Noite foi embora. De repente, Abraço da Noite levantou da beira do rio e avançou sobre o Ceará que foi novamente abraçado. Mas o braço da mão que empunhava o facão estava livre. Antes que sentisse o forte aperto do abraço, enfiou com toda força o facão nas costelas do Abraço da Noite que acabou soltando o carroceiro. Este aproveitou o momento para enfiar novamente o facão, agora no ventre do vulto.
O Abraço da Noite deu um grito. Mas
ainda teve força de pegar Seu Ceará e lança-lo de volta para ribanceira. Ceará
caiu e rolou de costas até chegar novamente na beira do rio. Levantou-se
rapidamente e subiu correndo a ribanceira. Quando alcançou a estrada estava
atordoado. Não percebeu mais nada, nenhum movimento, nada de vulto. Ali mesmo,
Ceará resolveu volta correndo para o nosso bairro, para a rua de casa. O nosso bairro, Nova Olinda, fica próximo da
estrada Transcastanhal. Uma hora depois, Ceará já estava batendo na porta de
casa. “Touro! Touro! Touro!”. Não foi só Touro que acordou. Alguns vizinhos
também acordaram com barulho do bater de porta naquela madrugada.
***
O sol estava alto. Todos os moradores da rua de casa cercavam Seu Ceará. Todos queriam ouvir relato da luta entre Seu Ceará e o Abraço da Noite. Ceará estava todo sujo de barro, piçarra e de sangue. Mas esse sangue não era dele. Bebia café que Mamãe Branca lhe deu. Mas já estava cansado de tanto repetir a história do confronto. Manel Preto fez a pergunta que todos queriam fazer: “Fala homem de Deus!! Era visagem ou gente que não tem o que fazer?”. O carroceiro deu uma golada no café quente, “Preto, não sei, não sei. Mas essa coisa tem muita força. Quase morri sem ar!!”. Touro já ia falar alguma coisa quando avistou Compadre Assis chegando de bicicleta: “Ô, Ceará!! Pensava que tu tinha morrido. Pessoal do Janjão acharam o corpo do Abraço da Noite. Como não te acharam, logo pensei que tu já tava por aqui”. Todos da rua se entreolharam. “O corpo do Abraço da Noite??!!”, gritou Manel Preto. “Não te falei! Oh, Glória!!!”, gritou para o céu Seu Raimundo. Então, Touro, Seu Raimundo, Manel Preto, Tobias, Ceará foram para o Rio Janjão. Todos queriam saber o que realmente era o Abraço da Noite.
Quando eles chegaram ao local, os
moradores da comunidade estavam em torno do cadáver do vulto. Seu Ceará abriu
caminho no meio do pessoal que cercava o corpo da coisa, seguido por Compadre
Assis, Touro, Seu Raimundo e Tobias. Logo, eles puderam ver o que realmente era
aquela assombração que atormentava Janjão. O Abraço da Noite era um enorme
tamanduá bandeira. Foi encontrado morto no meio de um matagal próximo das
margens da Transcastanhal e da ponte do Rio Janjão. Seu Ceará viu o furo que
fez com seu facão no ventre do animal. Mas todos que viam o animal abatido
ficavam tristes. Não foi diferente para Seu Ceará e os vizinhos da rua de casa que acompanhavam carroceiro. Todos eles se entristeceram. Todos viram que o tamanduá
bandeira era uma fêmea e junto do corpo dela tinha quatro filhotes de tamanduás
que choravam pela morte da mãe.
Parabéns!!!
ResponderExcluirGrande profissional.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMuito lindo seu trabalho. Cito sua dissertação de mestrado na minha dissertação tbm. Aliás gosto muito, um dia vamos escrever algo sobre Castanhal juntos. Abçs!!!
ResponderExcluirOi, Daniele Barreto. Muito obrigado! Em breve a minha tese estará disponível para o público. E vamos escrever juntos sim sobre Castanhal!! Obrigado!!
ResponderExcluir