Bode

 Chico Bezerra não parava de saltar berros quando dava voltas pela varanda do seu casarão: “Malditos! Malditos! Bando de Satanás!!”. No interior daquela residência acontecia um verdadeiro estropício dos seus filhos e filhas. Eles acompanhavam os passos do pai pelas janelas dos quartos, das salas, da cozinha e pelas portas que davam acesso para parte externa do casarão. Alguns tensos e outros rindo dos modos do Chico Bezerra. “Malditos!! Será o Satanás?!!! É eu que vou resolver tudo isso?!!”. Alfredo, o filho mais novo, ria dos gritos do pai. “Eita!! Que papai hoje tá levado à bexiga!”. Chico Bezerra e toda sua família migraram do sertão do nordeste para Amazônia. “Alfredo! Tira essa tua cara da janela”, disse Carminha, irmã mais velha. Chico Bezerra, ainda muito jovem, não perdeu tempo no porto de Belém. Juntou todos da família e foram para estação de trem e embarcaram na Maria Fumaça. “Pera aí, Carminha!! Me deixa!”. Bezerra e família desembarcaram na estação de trem da Vila de Castanhal e foram recebidos por antigos conterrâneos. “Ô, Alfredo. Papai te mete chibata”. Bezerra tinha economias. Comprou terras, ali, na Colônia da Cabeceira do Apeú. “Carminha, papai não para de enrolar o fumo dele”.

Chico Bezerra ampliou suas terras, plantou muita mandioca, feijão, cana de açúcar, café, se meteu com política e declarou guerra contra o Tenente Barata. “Carminha, papai resmunga sem tirar o cigarro de tabaco da boca”. Como aquele homem pardo, esbelto, de olhos verdes, de meia idade não parava de dá volta pela varanda, ficava um rastro de fumaça em torno do casarão. “Carminha, papai tá parecendo um bicho soltando fumaça pela venta”. De repente, Chico Bezerra entrou no casarão. Surpreendendo todos os filhos e filhas que se encontravam na sala de recepção. Mas Bezerra atravessou a sala sem percebê-los. Seguiu direto para o corredor e entrou no seu quarto sem perceber a presença da sua prole. Deixou um rastro de fumaça de tabaco por onde passava. Alfredo não se conteve: “Eita, que papai parece a Maria Fumaça!! Hoje vai ter bala!!”. Antes que Bezerra saísse do quarto, todos foram para cozinha. Ninguém queria cruzar o caminho dele. Nem as filhas. Da cozinha todos viram quando ele saiu do quarto com sua espingarda.

Bezerra não saltava o cigarro de tabaco aceso da boca. Quando cruzou a porta da sala de recepção para varanda, logo avistou seus principais trabalhadores que já esperavam embaixo da gigante jaqueira. Desceu a escada e se aproximou deles. Todos perceberam que o patrão estava agitado. Chico Bezerra parou diante dos seus trinta homens. Nesse momento um homem jovem se aproximou de Bezerra, estendeu a mão direita e pediu a benção. “Bença padrín". Chico: “Deus abençoe você, São José Carpinteiro Bençoe você”. Abençoado o afilhado, Bezerra se voltou para os demais: “Cabras!! Vocês já ouviu sobre o Bode que Chispa Fogo das Patas??!!”. Logo alguns se benzeram e outros deram um leve sorriso. “Ô, Bode danado!! É uma assombração que anda pelo sertão. Ô, bicho mal assombrado! Aparece qualquer hora do dia! Ele aparece mais quando o sol tá tinando. É um Bode dos seiscentos diabos!! Ele não gosta de gente!! Quando vê algum besta pela caatinga, logo fica doido da cabeça e passa correr atrás do abestado. Quando corre solta faísca nas patas. Bicho brabo! Dá cabeçada na pessoa, muita cabeçada. Solta fogo pela venta dele!! Bicho danado!! Botou Lampião pra correr, botou os macacos pra correr, bota jagunço pra correr, bota coronel pra correr. Conta que Corisco pegou uma cabeçada do Bode que Chispa Fogo das Patas. Corisco ficou atordoado. É Por isso que os macacos acertaram ele. Corisco atordoado... Uma vez eu e meu avô vimo esse bicho do capeta, lá no sertão. Gente tava caçando quando ele passou galopando um pouco longe da gente. Quando avistou a gente, deu uma freada dos infernos. Uma freada que fez o chão de poeira pegar fogo. Depois veio pro nosso rumo. Meu avô deu uns tiro nele. Mas o bode não parou. Veio, veio, veio e quando chegou bem perto a gente soltou para os lados. Aí ele passou direto, sumiu e deixou um rastro de fogo. Eita, bode doido do cão. Anda dizendo também por ai que viram o Bode que Chispa Fogo das Patas aqui pra essas bandas da Amazônia. Dizem que migrou também. Viram ele, ali, pras bandas de Iracema. Pessoal que anda de trem já avistaram ele pras bandas de São Francisco, Igarapé-Açu e no Livramento. Queria que o bicho mal assombrado aparecesse por aqui. Mas não vou esperar o bode não. Ia colocar o Bode pra dá cabeçada no Tenente Barata. Mas vai ser a gente mesmo. Aquele pessoal do Barata vai vê é o cavalo do cão queimando o céu da Vila de Castanhal. Ninguém aqui é cangaceiro, ninguém aqui é jagunço. Mas hoje gente vai entrar atirando naquela vila. Vocês vão me ajudar pra colocar as coisas no lugar. Pra mostrar pros outros bestas da política que é de nós que Barata tem medo!!”.

Aqueles homens jovens e de meia idade riram e gritaram erguendo suas pistolas e espingardas. “Ô, Carminha! Não te disse que hoje tem bala!”, falou Alfredo que estava na janela da sala vendo e ouvindo seu pai contando a história do Bode que Chispa Fogo das Patas. “Alfredo! Não deixa papai te vê!!”. Chico Bezerra deu ordem para seu afilhado: “Rapaz, vai buscar os cavalos!!”. O jovem saiu correndo sem perder tempo. Alguns o acompanharam. Logo todos estavam montados. Chico Bezerra foi o último a montar. Ele olhou para o casarão.  Viu os seus oito filhos que estavam nas janelas da sala. Chico Bezerra sorriu e gritou para seus homens: “Vamos meus homens!!! Vamos tomar o céu de Castanhal!!”. Então passaram a galopar.

A poeira levantou sobre o casarão. Alfredo foi o primeiro a sair da casa grande. Queria vê o bando sair voando. Em seguida, veio Carminha e outros irmãos e irmãs. Todos viram a cavalaria saindo da propriedade e seguindo pela estrada que levava até a Vila de Castanhal. “Poxa!!! Não vi fogo saindo das patas dos cavalos!!”. Carminha olhou para Alfredo rindo: “Seu besta do cão!! É o Bode que lança faísca da pata” e ela riu, riu, riu. Chico Bezerra e seus homens tomavam a estrada de chão. Ele gritava: “Vamo mais rápido!!”. Cuspiu o cigarro de tabaco e gritou novamente: “Mais rápido!!”. Os cavalos galopavam com toda força e velocidade. Essa carreira era acompanhada de gritos, ruivos e dizeres: “A Vila de Castanhal vai ser nossa!!”. Chico Bezerra sorriu e baixou sua cabeça até o ouvido do seu cavalo e falou alguma coisa. Então, o cavalo ficou mais veloz e passou a voar. Passou a voar e galopar e soltar fogo pelas patas. Mas não voava sozinho. Os outros cavalos que traziam os homens de Chico Bezerra montados também galopavam voando e saltando fogo pelas patas.

Os homens de Chico Bezerra gritavam de alegria e ergueram suas pistolas e espingardas. “Eitadiácho!! Que a gente vai acabar vendo São José Carpinteiro!!”. Todos os moradores da Colônia da Cabeceira do Apeú viram aquele grupo de cavaleiros voando. O compadre Assis, lá da Colônia de São Raimundo, viu Bezerra e seus homens alcançando as nuvens: “Vixe!! Hoje Chico tá com os cãos!!!”. Chico Bezerra e seus homens galopavam sobre as nuvens que lançavam raios e trovões. O som trovejante da cavalaria de Chico Bezerra foi logo ouvido pelos moradores da Vila de Castanhal. Mesmo longe, os comerciantes, guardas da vila, sapateiros, carregadores de água, políticos, professoras, passageiros na estação de trem, vendedores de rapadura, tapioca e de bolo de macaxeira viram aquelas nuvens lá longe soltando raios. Um dos aliados do Barata que tomava café na estação de trem, viu os cavaleiros nas nuvens lá longe. Logo percebeu que era Chico Bezerra que vinha para libertar o Homem das Letras que estava preso na delegacia. Esse aliado correu em cada casa dos outros aliados. Em seguida, sem perder tempo, fizeram uma reunião. O Baratista Mais Exaltado defendeu pegar em armas e travar uma luta aberta contra Chico Bezerra e seus homens. Eles todos estavam reunidos no quintal do Grande Médico Baratista. Todos estavam preocupados. Precisavam decidir o quanto antes. Lutavam contra Chico Bezerra ou libertavam o Homem das Letras. Este era um dos principais antibaratista de Castanhal e usava a escrita para combater o Tenente. O Delegado Baratista chegou atrasado à reunião. Ofegante e suado disse: “Meus homens fugiram!! Correram!! Pegaram canoas e desceram o Rio Castanhal!!”. O Grande Médico Baratista decidiu: “Então, não nos resta outra coisa... Delegado, solte o Homem das Letras”. O Baratista Mais Exaltado protestou: “Não liberte o Homem das Letras! Solto, ele continuará escrevendo contra o Tenente Barata. Aquelas palavras faz a gente sangrar na Vila. Vamos enfrentar Chico Bezerra!”.

O Grande Médico Baratista respondeu calmamente: “Lutar com o quê? Estamos sem homens suficientes”, em seguida olhou novamente para o delegado: “Vai logo, homem!! Solte logo o Homem das Letras. Já se ouviu muito tiros nessa cidade”. O Delegado Baratista não perdeu tempo. Saiu do quintal da casa do médico e correu para delegacia. Os moradores viram o delegado nervoso e muito suado passando próximo da estação de trem e se dirigindo para o distrito policial. O delegado viu muitas pessoas na Praça Matriz São José. Eles avistavam Chico Bezerra e seus homens galopando sobre nuvens e se aproximando cada vez mais da Vila de Castanhal.

O delegado entrou no distrito sem pestanejar. “Vamos Homem das Letras!! Levante!! Você está livre! O Homem das Letras levantou lentamente da velha cama da carcerária: “Sabe delegado, acho que vou ficar mais um pouco”. O delegado se tremeu todo: “Homem de Deus, sai logo da delegacia. Sai logo. Se sair logo, nunca mais vou ficar no teu pé”.  Lá fora se ouvia os trovões cada vez mais próximo. O Homem das Letras falou: “Cabra!! Me solta logo!!”. O Delegado Baratista rapidamente largou Homem das Letras na rua. “Eita, que tu tá se mijando!!”. O Delegado não ouviu e logo correu para margens do Rio Castanhal. Não pretendia ficar na Vila. Pegou a canoa e desceu o Rio Castanhal.

O Homem das Letras foi até margem da estrada de ferro que ficava próxima da delegacia. Ele viu o bando do Chico Bezerra voando lá nas nuvens. Lá de cima Chico Bezerra viu Maria Fumaça se aproximando de Castanhal. Ela vinha da capital e já tinha passado pela Vila do Apeú.  “Vamo bando de Satanás!!! Vamos galopar voando sobre as fumaças do trem!!”.  Eles fizeram um mergulho rasante até alcançar o trem. Alcançaram e passaram a galopar sobre as fumaças e as faíscas lançadas pela Maria Fumaça. Agora galopavam na mesma velocidade do trem. Quando estavam prestes à entrarem na Vila de Castanhal, Chico Bezerra deu sinal para darem um salto à diante da Maria Fumaça. Deram o salto e galopavam voando para ganharem mais altura. Lá em cima, deram voltas sobre o céu da vila e deixavam rastro de fogo. Mesmo lá do alto, Bezerra viu o Homem das Letras, ali, perto da delegacia. Bezerra fez outro gesto para que todos fizessem outro mergulho e de forma formidável eles pousaram em torno do Homens das Letras. “Cadê, homem??!! Cadê as pestes ruim dessa vila do cão??!!!”, gritou Bezerra erguendo a espingarda e seguido também por gritos dos  seus homens. Homem das Letras começou a rir sem parar. Depois disse: “Chico, seu danado!! Que arrumação!! Quase tocou fogo na cidade. Na próxima vez, basta enviar o Bode que Chispa Fogo das Patas!!”. Então, as risadas do Homem das Letras, do Chico Bezerra e dos seus homens tomaram conta da Vila de Castanhal

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